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FILOSOFIA

Diagnóstico da barbárie
Por Ricardo Musse

“Minima Moralia”, com 153 aforismos escritos entre 1944 e 1947 por Theodor Adorno, ganha nova edição

Theodor Adorno escreveu os 153 aforismos de “Minima Moralia” entre 1944 e 1947, no intervalo entre a redação com Max Horkheimer do conjunto de textos de “Dialética do Esclarecimento” e sua publicação definitiva. Nesse período eles ainda não estavam certos de que este livro já adquirira sua forma acabada e manifestaram a possibilidade de considerá-lo apenas como fragmentos de uma “work in progress”.

“Minima Moralia” partilha o mesmo propósito apontado no “Prefácio” de “Dialética do Esclarecimento”: trata-se de investigar “porque a humanidade, em vez de entrar em um estado verdadeiramente humano, está se afundando em uma nova espécie de barbárie”. Esse diagnóstico, no entanto, configura-se a partir de uma perspectiva própria e bastante peculiar.

A primeira versão da teoria crítica –delineada por Horkheimer em seu discurso de posse na direção do Instituto de Pesquisas Sociais, em 1931, e desenvolvida posteriormente em “Teoria Tradicional e Teoria Crítica” (1937)– apresentava-se como uma junção de filosofia e saber científico especializado, de teoria e pesquisa empírica.

“Dialética do Esclarecimento” rompe com essa fórmula, colocando sob suspeição a atividade e o próprio sentido das ciências estabelecidas, ao considerá-las como um dos sintomas da autodestruição do esclarecimento. “Minima Moralia” propõe-se a denunciar essa situação, mas também a buscar outras formas de investigação, uma via que, na contramão das tarefas impostas pela divisão do trabalho intelectual, redirecione o afã científico para aquilo que ele desconsidera de antemão e despreza por princípio: a experiência individual.

Mas como é possível, a partir do “prisma da experiência subjetiva”, alçar esse saber à condição de conhecimento? Quais mediações, que modalidade de “imaginação teórica” permite transitar do particular, da subjetividade, da esfera privada, da intimidade e seus domínios conexos, para a objetividade e universalidade inerentes ao conceito?

O ponto de partida do livro é a própria situação do autor, a vida de um intelectual no exílio. Emigrado nos EUA –ou melhor, desterrado, como ele preferia dizer– após a ascensão dos nazistas ao poder Adorno nunca se sentiu em casa no “american way of life”. Em parte por conta de uma recusa meditada à integração, assentada em um ideal que associa à condição de intelectual o comportamento crítico e o não-conformismo. Ele procurou conservar sua independência, recusando-se a obedecer, inclusive, às regras do mundo acadêmico americano que, segundo ele, não se encontrava protegido da pressão econômica do mercado, isto é, da exigência de aplicação das leis da máxima concentração econômica a produtos científicos e literários. Desse isolamento intelectual voluntário, da sensação de trabalhar sem efetividade e de escrever sem audiência, surgiu uma imagem que se tornou célebre: a do escritor que, como um náufrago, envia a não se sabe quem sua mensagem em garrafas jogadas em alto-mar.

A mutilação forçada, a impotência do exilado, entretanto, em lugar de objeto de lamentação, tornam-se em “Minima Moralia” guia e fio de uma reflexão acerca das vicissitudes do indivíduo no mundo contemporâneo. No propósito de superar o viés autobiográfico, Adorno concentra-se nas determinações que o empurram para a aceitação do estabelecido e de suas relações de poder. O campo de forças que age sobre o intelectual emigrado, a tensão entre a negatividade e as exigências da integração mimetizam uma situação partilhada por todos. Assim, mais do que uma reflexão acerca do destino daqueles que, por motivos políticos ou econômicos, foram impossibilitados de viver junto ao que lhe é familiar, no local onde passaram a infância e moldaram sua consciência, Adorno investiga a condição de exilado como metáfora privilegiada da situação do indivíduo na sociedade capitalista.

Nela o intelectual é coagido por condições objetivas –tal qual o agente econômico– ao isolamento, embora alimente a ilusão de que sua solidão decorra de uma livre escolha. Como o exilado, escapou das ameaças à sobrevivência –“quando, em face da mera reprodução da existência, ainda se concedem o luxo de pensar, comportam-se como privilegiados”–, mas também foi reduzido à impotência –“na medida em que se restringem ao pensamento, proclamam a nulidade do seu privilégio”.

A partir daí, Adorno desenvolve uma série de considerações acerca da vida do intelectual na emigração, adicionando às observações sociológicas e antropológicas reflexões que tangenciam o campo da psicanálise, da filosofia, da estética, em suma, dos saberes que se propõem a pensar a subjetividade. Nesse movimento, a fonte autobiográfica transcende a mera singularidade. Em vez de se deter na descrição de idiossincrasias, de especificidades irredutíveis, o que Adorno salienta na condição de banido é apenas a condensação que o torna uma figura exemplar da “vida mutilada”.

A possível tendência do leitor a identificar “Minima Moralia” a um relato da vida pessoal do autor, adverte Adorno, decorre da inversão de significados ocorrida na linguagem cotidiana que promove uma alteração completa nas noções de “subjetivo” e de “objetivo”. O que usualmente se denomina como “objetivo” consiste no “lado não controverso do fenômeno, sua marca aceita sem questão, sua fachada feita de dados classificados –o subjetivo, portanto”.

De outro lado, o pensamento por aforismos –em geral acusado, pelo simples fato de considerar como objeto de reflexão a experiência individual, de “meramente subjetivos”–, muitas vezes consiste no “que rompe essa fachada, penetra na experiência específica da coisa, escapa às convenções estabelecidas sobre ela e coloca a relação com o objeto no lugar do acordo majoritário daqueles que nem mesmo o enxergam, e menos ainda o pensam –no objetivo, portanto”.

A premissa de Adorno, no entanto, a tese de que a objetividade dissociou-se das instituições sociais e só encontra guarida nos indivíduos, não estaria ultrapassada ao filtrar uma experiência pessoal cujo substrato histórico –o nazifascismo– desapareceu?

É possível encontrar, espalhados ao longo do livro, ecos da controvérsia sobre o caráter da sociedade nazista que polarizou os membros do Instituto nos primeiros anos da década de 1940. Mas convém também lembrar que os artigos de Friedrich Pollock, em especial “State Capitalism: Its Possibilities and Limitations” (1941), peças centrais desse debate (ao lado do livro de Franz Neumann, “Behemoth”), não analisam apenas a Alemanha sob Hitler, mas também a URSS e os EUA, na tentativa de estabelecer as formas gerais de intervenção e regulação estatal da economia postas em prática naquele momento.

Embora Adorno tenha discordado veementemente do modo como Pollock formulou o conceito de “capitalismo de Estado” e das consequências que extraiu daí, não deixa de compartilhar uma de suas premissas: a de que este sistema econômico desdobra-se em uma nova fase, distinta e posterior ao “capitalismo monopolista”.

Segundo Adorno, na economia capitalista planejada (termo que mais tarde substituirá pela expressão “mundo administrado”), convivem contraditoriamente “o princípio especificamente burguês da concorrência” e a “dominação direta” sob a forma de “hierarquias fechadas de tipo monopolar”. Esse aparente paradoxo, a bifurcação entre mercado e Estado, economia e política, resultam da ampliação desmesurada da preponderância do fenômeno que Marx destacou como matriz da sociabilidade burguesa, o fetichismo da mercadoria. A sociedade teria adentrado, nas palavras de Adorno, “na fase em que o sujeito capitula diante da supremacia alienada das coisas”.

O prisma da “experiência pessoal” e o próprio “material histórico” –referências calcadas em situações típicas da sociedade norte-americana– distanciam “Minima Moralia” das tentativas de explicação do nazismo, mas não do impacto do que aconteceu na Alemanha –mote retomado constantemente por Adorno sob a forma de considerações sobre a vida depois de Auschwitz. Parte da atualidade do livro advém, portanto, da hegemonia no pós-guerra que tornou o capitalismo norte-americano um modelo para o resto do mundo.

Adorno critica, na sociedade de massas instaurada nos EUA, sobretudo a progressiva perda da autonomia e substância do mundo privado, sua transformação em “apêndice do processo de produção material”, consequência da subordinação da “vida” aos ditames do consumo por meio de mecanismos de padronização e pseudo-individualização. Destaca, assim, a presença na democracia americana de características inerentes às sociedades fascistas, como a redução da esfera da circulação por conta da preponderância do aparato de distribuição de uma “indústria altamente concentrada” e a tendência concomitante a constituir uma ordem social hierarquizada que impulsiona o processo de liquidação do indivíduo.


Inversão da filosofia hegeliana

A passagem do âmbito da subjetividade a determinações objetivas da vida social e vice-versa, o próprio Adorno reconhece, inspira-se na dialética do particular e do universal proposta por Hegel. Sua retomada em “Minima Moralia”, no entanto, inverte as valências da filosofia hegeliana, a começar pela primazia concedida à experiência individual, assentada na premissa de que a universalidade deva ser buscada no exame do singular, da subjetividade, do mutável, da mônada, enfim. Adorno adiciona assim às críticas usualmente feitas pelos marxistas ocidentais ao legado de Hegel –à contestação do predomínio de categorias macro-históricas, ao espírito de sistema, à identidade sujeito-objeto, à filosofia da história que desemboca numa reconciliação forçada– alguns tópicos que até então passaram desapercebidos.

Na interpretação de Adorno, Hegel justifica o estado de coisas presente, aderindo à “tendência objetiva” e ao “triunfo da fatalidade”, sem levar em consideração sua própria definição da dialética como uma potência a serviço da negatividade. Tampouco se preocupa com as ameaças de “aniquilação do individual”, ao contrário, “com sobranceira frieza opta pela liquidação do particular”. Deixa assim de cumprir “em relação ao sujeito a exigência que no mais defende ardorosamente: a de que cabe ficar na coisa, buscando ‘penetrar em seu conteúdo imanente’ e evitar ‘ir sempre além dela’”. Mas censura Hegel sobretudo pela aceitação inquestionável da primazia da totalidade, seja ao lembrar que o pensamento dialético “não esquece nem tampouco aceita a reivindicação de totalidade do sistema abrangente”, seja ao proclamar que “o todo é o não-verdadeiro”.

Partidário de uma dialética materialista, Adorno estende ao idealismo sua contestação da filosofia hegeliana: “Mas é mesmo nesse seguir em frente sem poder demorar-se, nesse tácito reconhecimento da primazia do geral sobre o particular em que consiste não só o engodo do idealismo que hipostasia os conceitos como também sua desumanidade, à qual tão logo tenha captado o particular já o reduz a ponto de passagem e finalmente se ajusta rápido demais por conta da reconciliação que só se apresenta na reflexão –em última instância à frieza burguesa, sempre pronta a subscrever o inevitável”.

O conhecimento da situação do indivíduo na sociedade contemporânea exige que sejam destrinçados os nexos e as mútuas determinações que entretecem entre si sujeito, teoria e objeto. “Minima Moralia” adota como fio da investigação a configuração presente da subjetividade, mas persegue em cada relato ou descrição das transformações recentes –seja na vida privada, na família, na psicologia individual, no meio intelectual, no ambiente profissional, na cultura, nas esferas da produção e do consumo– um diagnóstico da civilização.

Na direção oposta, é possível perceber em cada aforismo ecos do aprofundamento da reificação, da presença “das potências objetivas que determinam até no mais recôndito a existência individual”, o que corrobora a teoria de que no mundo administrado “não só o geral se realiza por meio da interação dos particulares como a sociedade é substancialmente a substância do indivíduo”.

O sujeito concebido no ponto de partida, empírico e abstrato, é reposto ao longo do livro simultaneamente como premissa e resultado da sociedade capitalista. Sua singularidade, no entanto, de modo algum se dissolve em noções coletivas como “espírito”, “classe”, “massa” ou “partido”, cuja efetividade Adorno reconhece apenas na coação que exercem sobre os indivíduos. “Minima Moralia” tampouco se orienta pela concepção predominante no pensamento científico, recusando o modelo lógico e apriorístico de um sujeito fixo e estático, por conta de sua incapacidade em traduzir “a experiência espiritual” do mundo contemporâneo.

 
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