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a.r.t.e.
MPB

Na trilha da história
Por Henry Burnett

Com mais de dez discos, grupo Palavra Cantada retoma a linha evolutiva da música brasileira para crianças

Sem que tenhamos percebido, ou dado a devida importância, um ciclo se fechou e outro se abriu na história das trilhas infantis no Brasil. Durante duas décadas ou mais a referência musical principal das crianças brasileiras foi Xuxa. Essa hegemonia via Rede Globo nunca dizimou fatalmente a criação de nomes como Bia Bedran, que entre 1987 e 1996 atuou na TV Educativa do Rio e na TV Cultura de São Paulo, ou Daniel Azulay, que trabalhou na mesma Educativa e também na TV Bandeirantes, entre tantos outros artistas.

Imagino que esses nomes nem sequer arranharam o império construído por Xuxa, mas sua permanência na TV, ainda que em menor audiência, significou muito e pode ter sido determinante para o surgimento de uma nova fase, inaugurada pelo grupo Palavra Cantada, a partir de 1994 e que hoje é conhecido por crianças Brasil afora.

O que também vale para os temas exibidos no programa “Cocoricó”, da TV Cultura de São Paulo, com composições de Hélio Ziskind. Talvez os pequenos tenham sentido a mudança, mas com certeza muitos deles foram educados musicalmente ouvindo a rainha e hoje devem ter Britney Spears como referência.

A história dessas produções dedicadas às crianças permite traçar um quadro paralelo em relação à sua irmã maior, a canção; elas chegam a se misturar em muitas ocasiões, como é o caso das trilhas mais antigas e das recentes composições do grupo de São Paulo e das trilhas compostas por Ziskind. São muitos os exemplos, vamos lembrar alguns dos mais marcantes.

A década de 80 foi sempre considerada uma fase de declínio da chamada MPB, quando tomou corpo o rock de traço nacional. Mas foi no início dessa década que uma das trilhas mais marcantes foi produzida, aquela composta por Chico Buarque adaptando temas de Enriquez e Bardotti para o filme “Os Saltimbancos Trapalhões”, lançado em 1981.

O filme foi relançado há pouco tempo (Europa Filmes), juntamente com diversos outros títulos dos Trapalhões. Infelizmente, sem nenhuma informação técnica encartada. Chico também assina o argumento do filme, que conta a história de uma trupe mambembe –o quarteto, claro–, que se divide entre a vida lúdica do circo e as necessidades imediatas da lida cotidiana.

Vamos relembrar algumas canções que ainda hoje fazem sucesso independente do filme, via YouTube, por exemplo, e em relançamentos em CD, como as parcerias de Chico e Vinicius. Uma das pequenas e inesquecíveis peças é “Piruetas” (ver os temas e os vídeos no “link-se”, ao final deste artigo):

Uma pirueta
Duas piruetas
Bravo, bravo
Superpiruetas
Ultrapiruetas
Bravo, bravo
Salta sobre
A arquibancada
E tomba de nariz
Que a moçada
Vai pedir bis
Que a moçada
Vai pedir bis
(...)
No intervalo
Tem cheirim de macarrão
E a barriga ronca
Mais do que um trovão
Quero um prato
Cê tá louco
Quero um pouco
Cê tá chato
Só um pedaço
Cê tá gordo
Eu te mordo
Seu palhaço
Olha o público
Cansado de esperar
O espetáculo não
Pode parar

Nela, os Trapalhões riem tanto da sua bufonaria simplória, que distraía o público com meras piruetas, quando da penúria dos intervalos, onde a fome apertava e só havia macarrão para comer (em tempos de Cirque du Soleil isso é quase de chorar). Mas o grande mérito da trilha é essa duplicidade, a exposição do real usando o ambiente circense e, portanto, mimético. Uma cena merece destaque, onde os quatro caminham sobre a lona do circo, criando uma bela imagem em contraste.

Em outros temas essa duplicidade entre o sublime e o mísero ressurge, como em “Meu Caro Barão”:

Onde quer que esteja
Meu caro Barão
São Brás o proteja
O santo dos ladrão
Tava na faxina
Do seu caminhão
Vi essa máquina
De escrever no chão
Escovei a nega
Lavei com sabão
Deu uma cócega
Nos calo da mão

Pronto
Ponto
Tracinho, tração
Linha
Margem
Meu caro Barão
(...)
Tem gargalhada
Tem sim senhor
Tem muita estrada
Tem muita dor
Venha, Excelência
Nos visitar
Estamos sempre
Noutro lugar

Ecoando o filme “Bye Bye Brasil”, lançado apenas dois anos antes, em 1979, a letra acima chega quase a pesar a mão ao expor a ilusão da magia como um paliativo entremeado de tristeza, num mundo (o Brasil?) onde a gargalhada rima com a dor. E o eterno movimento dos artistas de cidade em cidade como a metáfora da busca daquilo que nunca se encontrará. Um contraste gigantesco daquele otimismo banal que durante 20 anos embalaria os sonhos dos pequenos.

Esse jogo entre a busca da felicidade e a sempre presente ameaça de fracasso, trama que envolve o espectador através da música de modo muito conectado ao filme, tem na letra de “Hollywood” talvez o ponto final:

Ói nós aqui
Ói nós aqui
Hollywood fica
Ali bem perto
Só não vê quem
Tem um olho aberto

Ói nós aqui
Ói nós aqui
Hollywood
É um sonho de cenário
Vi um pau-de-arara
Milionário

E eu que nem sonhava
Conhecer o tal Recife
Pobre saltimbanco
Trapalhão
Hoje sou mocinho
Sou vizinho do xerife
Dou rabo-de-arraia
Em tubarão
(...)
Ói nós aqui
Ói nós aqui
Camelôs, malucos
E engraxates
Aproveitem enquanto
O sonho é grátis

Quem há de negar
Que é bom dançar
Que a vida é bela
Neste fabuloso Xanadu
Eu só tenho medo
De amanhã cair da tela
E acordar
Em Nova Iguaçu (...)

O sonho de Hollywood, que depois seria vendido aos baixinhos em cor-de-rosa por Xuxa, era transposto por Chico para a dureza brasileira. Sem máscaras, apenas as da arte, e sem fazer nenhuma questão de ocultar o real para as crianças, ao contrário, cair da tela e acordar em Nova Iguaçu parecia quase destino, não uma ameaça. Mas até isso é dito de modo a não deixar se perder a idéia de “que é bom dançar, que a vida é bela”.

A letra de “Hollywood” tem algo daquilo que Caetano anos depois poria na letra de “Boas Vindas”, dedicada ao filho: “Venha conhecer a vida/ Eu digo que ela é gostosa/ Tem o sol e tem a lua/ Tem o medo e tem a rosa/ Eu digo que ela é gostosa/ Tem a noite e tem o dia/ A poesia e tem a prosa/ Eu digo que ela é gostosa/ Tem a morte e tem o amor/ E tem o mote e tem a glosa/ Eu digo que ela é gostosa” (“Circulado”, 1991).

Inimaginável pensar em Xuxa indicando aos seus baixinhos que o fracasso, e não só o sucesso, é rico de experiência e que a morte é uma parte do viver. Essa ligação entre a MPB e as trilhas infantis é própria dessa primeira fase, com alguns filmes dos Trapalhões e de modo bem acentuado em outra trilha muito marcante, que gostaria de lembrar rapidamente aqui, a do “Sítio do Pica-pau Amarelo”.

Como esquecer a letra do tema de Aldir Blanc para o Visconde de Sabugosa:

Sábio sabugo
Filho de ninguém
Espiga de milho
Bobo sabido
Doido varrido
Nobre de vintém

Meu caro Visconde
É de trem ou de bonde
Que eu chego ao pica-pau
Aonde se esconde todo pessoal
Visconde me conta
Ou então faz de conta
Que é no coração
Das crianças daqui
A alegria é maior
Com Benta Anastácia os meninos
A Emília Quindim Rabicó

Somada com a música de João Bosco, um samba do mesmo naipe que “Incompatibilidade de Gênios”, faziam do “Sítio” um aprendizado literário e melódico que foi muito importante para toda uma geração, goste-se ou não do ensinamento via canção.

As mais recentes produções não contam de forma tão acentuada com nomes vindos da música popular comercial, digamos, mais famosa, perderam esse laço porque, sem dúvida, o baque foi forte nessas que chamamos de “décadas perdidas”. Mas os novos temas não perderam a qualidade que era própria daquelas trilhas, antes abriram uma nova e profícua fase, para além do estilo fixado por Chico e Vinicius, como veremos adiante.

Citar todas as músicas do “Sítio” inflaria demais este texto, mas ainda cabe lembrar temas como “Peixe”, com os Doces Bárbaros, “Tia Anastácia”, com Dorival Caymmi e “Tio Barnabé”, com Jards Macalé e Marlui Miranda, todos marcando fortemente esse vínculo determinante para a qualidade daquelas canções.

Desde aquele momento em poucas ocasiões as crianças foram mimadas com canções, como dizer, feitas para crianças; o óbvio nem sempre é óbvio... A trilha do especial “Arca de Noé” também deixou marcas, “A Casa”, “O Pato” hoje são clássicos infantis. Logo em seguida, a mesma Rede Globo produziu “Plunct, Plact Zuum” com Bethânia, Eduardo Dusek e até o inesquecível Raul Seixas. Uma prova inequívoca que a qualidade não precisa estar fora de uma grande TV aberta obrigatoriamente. No “Balão Mágico” eram comuns os clipes com convidados como Djavan, Roberto Carlos, em dueto com Simony, Fábio Jr.

Seguiu-se a estes programas e especiais um longo hiato onde desde a erotização infantil propagada pelos figurinos do programa de Xuxa foi alvo de debate e condenação. Um momento longo, triste, talvez longo demais.


Palavra Cantada

Saltando muitos anos, vamos encontrar no grupo/duo Palavra Cantada a retomada daquela –para usar um termo consagrado– linha evolutiva de que falamos acima. São mais de dez discos, vários DVDs e uma criatividade que parece não ter fim. Seria igualmente impossível resenhar aqui disco a disco. Podemos ressaltar alguns pontos importantes.

O nome do grupo não deixa nenhuma dúvida quanto a uma ligação que é própria da canção, entre a palavra e a rítmica popular. Podemos colocar lado a lado com o Palavra as trilhas de Hélio Ziskind para o programa “Cocoricó” –Paulo Tatit, que divide com Sandra Peres o Palavra Cantada, e Hélio Ziskind integravam o lendário grupo Rumo.

Enquanto no Palavra Cantada prevalece o domínio lúdico com as canções de ninar, as canções de roda, as canções do Brasil, as de Carnaval, as de brincar e tantas mais, nas trilhas de Ziskind o traço pedagógico é bem mais nítido. O que poderia parecer didático demais em ambos resulta num verdadeiro ensinamento pela via da cultura musical tradicional. Fazer isso sem nenhum traço de didatismo barato não é fácil e não é pouco.

O Palavra Cantada convida para uma compreensão da vida infantil, faz as crianças pensarem sobre a chegada dos novos irmãos, sobre a correta alimentação, sobre a história do Brasil e até sobre genealogia familiar –com a clara intenção de apontar para os antepassados diferentes, mas iguais, de outras regiões do país–, sobre a importância da infância, entre tantas outras abordagens. Um ensinamento claro de tolerância.

Um trecho da letra de “Eu”:

Perguntei pra minha mãe: "Mãe, onde é que ocê nasceu?"
Ela então me respondeu que nasceu em Curitiba
Mas que sua mãe que é minha avó
Era filha de um gaúcho que gostava de churrasco
E andava de bombacha e trabalhava no rancho
E um dia bem cedinho foi caçar atrás do morro
Quando ouviu alguém gritando: "Socorro, socorro!"
Era uma voz de mulher
Então o meu bisavô, um gaúcho destemido
Foi correndo, galopando, imaginando o inimigo
E chegando no ranchinho, já entrou de supetão
Derrubando tudo em volta, com o seu facão na mão
Para o alívio da donzela, que apontava estupefata,
Para o saco de batata, onde havia uma barata
E ele então se apaixonou
E marcaram casamento com churrasco e chimarrão
E tiveram seus três filhos, minha avó e seus irmãos
E eu fico imaginando, fico mesmo intrigado
Se não fosse uma barata, ninguém teria gritado
Meu bisavô nada ouviria e seguiria na caçada
Eu não teria bisavô, bisavó, avô, avó, pai, mãe, não teria nada
Nem sequer existiria.

No Cocoricó, a vida no campo, a origem das palavras tupis incorporadas na língua brasileira, as festas de são João, o valor dos dicionários, referências a “Clara Crocodilo”, de Arrigo Barnabé, a Benjor e até uma fina e imperdível ironia com uma vovó que manipula uma faca como ninguém para ensinar o lugar das sementes nas frutas.

Uma das letras mais provocativas é a que tenta forçar o olhar das crianças sobre a importância dos índios na formação do português brasileiro, chama-se “Tu tu tu tupi”:

Tu Tu Tu Tu
Tu Tupi

Todo mundo tem
um pouco de índio
dentro de si
dentro de si

Todo mundo fala
língua de índio
Tupi Guarani
Tupi Guarani

E o velho cacique já dizia
tem coisas que a gente sabe
e não sabe que sabia

e ô e ô

O índio andou pelo Brasil
deu nome pra tudo que ele viu
Se o índio deu nome, tá dado!
Se o índio falou, tá falado!
Se o índio chacoalhou
tá chacoalhado!
e ô e ô

Chacoalha o chocalho
Chacoalha o chocalho
vamos chacoalhar
vamos chacoalhar
Chacoalha o chocalho
Chacoalha o chocalho
que índio vai falar:

 
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