1
entrevista
DVD

Filmes de guerrilha
Por Fernando Masini


Os atores Badu e Betty Faria em cena de "Os Monstros de Babaloo", de Elyseu Visconti
Divulgação

Coleção reúne as principais obras do Cinema Marginal, como os de Elyseu Visconti, que fala sobre o movimento e sua carreira

Um encontro com o cineasta Rogério Sganzerla em 1999 fez com que o produtor Eugênio Puppo levasse adiante um sonho antigo: reunir a turma do Cinema Marginal e correr atrás dos filmes que sobreviveram ao tempo. A iniciativa esbarrou na relutância dos diretores ainda vivos em retomar um assunto enterrado e no descaso com a conservação desses filmes, que marcaram época na passagem dos anos 70 no Brasil, quando o Cinema Novo perdia suas forças.

Entrou em cena no país um cinema anárquico, que passou a ser chamado "de invenção", cheio de referência ao modernismo oswaldiano e à chanchada nacional. Que usava pouco dinheiro para criar personagens irreverentes, debochados e prontos para esculhambar o que viesse pela frente. Chegou a cativar o público, com sucessos como “O Bandido da Luz Vermelha” (1968), rodado por Sganzerla como um manifesto, hoje considerado um dos precursores do gênero.

Puppo vasculhou as prateleiras da Cinemateca Brasileira, foi atrás de colecionadores de filmes antigos e marcou encontros com os protagonistas daquela época: Sganzerla, Ozualdo Candeias, Andrea Tonacci, Carlos Reichenbach, entre outros. “Comecei a me dar conta de que havia pouca coisa disponível. Conseguimos com os próprios diretores algumas cópias baleadas em VHS”, diz Puppo. Muitas cópias encontradas na Cinemateca eram de preservação e havia um limite para exibi-las.

Mesmo assim, foram organizadas mostras em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, com mais de 40 filmes em cartaz, que deram um belo recorte da época. Obras muito raras foram apresentadas, como “Caveira, My Friend” (1970), de Álvaro Guimarães. “Foi uma das nossas maiores descobertas. Era um filme que ninguém tinha visto. Achamos uma cópia na casa de um amigo dele, perto de uma farmácia”, conta Puppo.

Para completar o projeto, acaba de ser lançada em DVD uma ampla coleção do Cinema Marginal que contará com 38 filmes, entre curtas e longas-metragens. A parceria é da Heco Produções e da Lume Filmes. A primeira fornada, já disponível, traz quatro discos, divididos por autor, com os clássicos “Bang Bang”, de Andrea Tonacci, “Sem essa, Aranha”, de Rogério Sganzerla, “Meteorango Kid”, de André Luiz Oliveira e “Monstros de Babaloo”, de Elyseu Visconti.

Trópico fez uma longa entrevista com Elyseu Visconti, 70 anos, a fim de entender a explosão criativa que tomou conta dessa geração de jovens cineastas e ouvir histórias de um período conturbado que obrigou essa turma a escapar dos limites da realidade para fazer cinema. Muitas vezes, colocando dinheiro do próprio bolso na produção.

“Eu nunca dependi da Embrafilme. Nós fazíamos filmes com recursos próprios. Julio Bressane vendeu uma quantidade inimaginável de terrenos para começar a fazer o trabalho dele”, conta. O longa “Monstros de Babaloo”, estreia de Elyseu Visconti nos cinemas, ficou dez anos preso na censura, a mando do regime militar. Só foi liberado em 1980.

A dificuldade de filmar levou Visconti a desviar o rumo de suas produções e fazer incursões pelo interior do país. Virou um documentarista preocupado com as manifestações culturais do povo brasileiro. Teve como mestres e parceiros de pesquisa o antropólogo Gilberto Freyre e o folclorista Câmara Cascudo. Rodou uma série de registros etnográficos, como “Boi Calemba” (1979), sobre a festa do boi-bumbá no norte do país.

Ao falar sobre a rivalidade entre Cinema Novo e Cinema Marginal, Visconti tem um detrator na ponta da língua. “Glauber Rocha nos chamava de fascista só porque a gente tinha amizades em São Paulo, com o pessoal da Vera Cruz. Temos que desmistificar o Glauber, ele não passa de um deputado baiano”, dispara. Mas ele também lança seus dardos contra os filmes brasileiros atuais: "Hoje o cinema é uma cópia das novelas, mal influenciado pelo cinema americano. O cinema brasileiro se transformou numa agressividade banal".

*

Conte um pouco como nasceu o Cinema Marginal?

Elyseu Visconti: O início foi uma experimentação. A gente fazia cinema comunitário, um ajudava o outro e havia uma sintonia grande. Começamos desse jeito: o Rogério Sganzerla, o Julio Bressane, o Neville d'Almeida, o Andrea Tonacci. Eu fazia parte do grupo que produzia no Rio de Janeiro. Foi uma leva muito interessante, que trazia a rivalidade com o Cinema Novo, com o cinema acadêmico, partidário. O nosso era o cinema do olho, o "cinema vérité" (cinema verdade, idealizado pelo documentarista francês Jean Rouch nos anos 60).

Já o Cinema Novo é uma cópia mal feita do Neorrealismo italiano. Toda ideologia e mensagem do Cinema Novo trazem muito do espírito do movimento italiano. Pegue, por exemplo, "Deus e Diabo na Terra do Sol" (1964), de Glauber Rocha. Tudo ali está no cinema de Francesco Rosi, braço direito do Luchino Visconti. Um de seus filmes é o "O Bandido Giuliano" (1962). Há uma grande influência do bandido nos cangaceiros; no personagem Antônio das Mortes, criado pelo Glauber.


O Cinema Marginal deixa de lado esse engajamento político do Cinema Novo?

Visconti: Não. O cinema que fizemos tem engajamento político dentro do valor estético. Havia a intenção de romper com todo o processo de linguagem do cinema brasileiro. Nós fazíamos os filmes com recursos do nosso próprio bolso. Eu nunca dependi da Embrafilme (instituição criada em 1969 para promover e divulgar o cinema nacional). Julio Bressane também não. Só Rogério Sganzerla conseguiu uma grana ali. A Embrafilme só nos prejudicou, porque havia censura da própria instituição, nos roteiros, nos argumentos.


O seu primeiro filme, “Os Monstros de Babaloo” (1970), sofreu com a censura?

Visconti: Foi boicotado por dez anos pelo regime militar. Quem liberou depois o filme foi o Ricardo Cravo Albin, do Concine (Conselho Nacional de Cinema). Meu segundo filme, “Lobisomem, Terror da Meia-Noite” (1971) ficou preso na censura burocrática da Embrafilme. “Barão Olavo, o Horrível” (1970), do Julio Bressane e “Copacabana Mon Amour”, do Rogério Sganzerla, também foram barrados.

O pessoal da Embrafilme não dava o certificado de produto nacional ao filme para que ele fosse exibido. Era obrigatório, por lei, o filme ter esse certificado. Eles acusavam que a gente estava rodando com filme vencido, que tecnicamente as fotografias eram péssimas. Imagina só: um dos melhores fotógrafos do Brasil, o Renato Laclete, estava na ativa naquela época. O Renato era um físico nuclear que largou tudo para fazer cinema. É um excelente fotógrafo.


“Lobisomem” foi seu segundo e último longa-metragem de ficção.

Visconti: Tenho outro que não está terminado. Chama-se "A Mulher do Calcanhar de Mármore". A protagonista sai do mar para enfrentar o Carnaval no Rio de Janeiro. Foi filmado durante minha viagem para a Índia, Paquistão e Ceilão. Quem interpreta é a atriz Gracinha Motta. Não foi finalizado porque eu não tinha mais dinheiro e houve um problema político muito grande comigo na época. Mas eu ainda guardo esse material e vou retomar o projeto.

Quando os filmes foram censurados, na década de 70, nós éramos muito amigos de Golbery do Couto e Silva (general e um dos principais mentores da ditadura militar). Telefonamos para ele, o Golbery esculhambou a Embrafilme e mandou soltar os filmes retidos. Depois de mais ou menos dois anos, eu consegui lançar o “Lobisomem” com muita dificuldade. Trouxe o filme para São Paulo e negociei um lançamento em Santos. Foi uma complicação danada. O Serviço Nacional de Informações (órgão de espionagem da ditadura) correndo atrás da gente.

Armei um esquema de segurança para o lançamento. Tinha um distribuidor na rua do Triunfo, na Boca do Lixo, em São Paulo, que me ajudou muito. Outro filme lançado na época foi o “Matou a Família e foi ao Cinema” (1969), do Julio Bressane. Foi exibido no cinema Candelária, em Belo Horizonte. Eu estava junto com ele. A reação do público foi formidável: quebraram o cinema, foi uma bagunça só.

Houve protestos da TFP (Tradição, Família e Propriedade). Lembro que tinha uma multidão na sala, umas mil pessoas, e o choque da polícia teve que invadir. O proprietário do cinema desapareceu, e eu fiquei escondido na sala de projeção, debaixo das latas de filme. Chegou um general baixinho, que parecia uma fera, e mandou prender o filme. Na verdade, a gente já esperava por isso.


O que o regime militar alegava ao prender os filmes?

Visconti: Eles não entendiam a nossa mensagem. Achavam que aquilo era anárquico. E era mesmo. Aos poucos, os filmes eram liberados. “Os Monstros de Babaloo”, por exemplo, foi aliviado porque fazia uma referência ao Médici.


Que tipo de filme a Embrafilme endossava?

Visconti: O que saía da panelinha formada pelo produtor Luiz Carlos Barreto e o exibidor Lívio Bruni. Eles distribuíam os filmes que eram produzidos com dinheiro do Banco Nacional, de Minas Gerais, do José Luís Magalhães Lins, muito ligado a esse pessoal.

Quando chegou a vez do Rogério lançar “O Bandido da Luz Vermelha” (1968), no Rio de Janeiro, eles boicotaram o filme. Encontrei o Rogério num boteco e falei: “Rogério, nós vamos lançar esse filme nem que chova canivete”. Um dos sócios do Lívio Bruni, dono de mais de 300 farmácias no Rio, era meu amigo e topou tocar o projeto adiante. O Rogério mostrou toda a documentação, e ele comprou o filme, passou o cheque na hora.

Isso pressionou o Bruni a lançar o filme. Na calada da noite, conseguimos exibir “O Bandido da Luz Vermelha”, em Copacabana, no Bruni, na mesma sala onde também foi lançado em 1962 “Porto das Caixas”, de Paulo César Saraceni. Foi um momento histórico do cinema brasileiro, porque ninguém esperava pelo lançamento. Não houve nenhum problema com a polícia.


Você considera “O Bandido” o precursor do Cinema Marginal?

Visconti: É o início de tudo. O filme voltou com a linguagem do cinema tradicionalista. O pessoal da velha guarda -Anselmo Duarte, Walter Hugo Khouri- gosta muito do trabalho do Rogério.

Por outro lado, o pessoal do Cinema Novo esculhambava o Cinema Marginal. Glauber Rocha chegou a panfletar em Londres contra o nosso cinema, quando os filmes do Bressane foram exibidos lá. Rogério não deixava por menos. Ele tomou conta da coluna do Rubem Biáfora, no "Estado de S. Paulo", e escreveu metendo o pau no Cinema Novo. Fazia crítica analítica, estudando o processo de linguagem e comparando as estéticas, a fotografia...


Havia uma rivalidade muito grande entre Cinema Marginal e Cinema Novo?

Visconti: Glauber nos chamava de fascista só porque a gente tinha amizades em São Paulo com o pessoal da Vera Cruz, com o produtor Primo Carbonari. Imagina você que loucura. Eu que fiz guerrilha na antiga Tchecoslováquia, fui preso politicamente, raptei o embaixador norte-americano Charles Elbrick e fiquei incomunicável durante sete meses.

E o Glauber acusando a gente de fascista. É um desprezo total. Temos que desmistificar o Glauber, ele não passa de um deputado baiano. É uma diarréia cinematográfica. Talvez em “Terra em Transe” (1967) ele tenha trazido alguma contribuição, mas tudo cunhado para o Partido Comunista internacional. Só houve críticas de jornalistas que eram ligados ao partidão.


Quer dizer que você não concorda com o mito criado em cima do Glauber Rocha?

Visconti: De maneira nenhuma. Discordo também de o filme “Câncer” (1972) fazer parte dessa coleção do Cinema Marginal. “Câncer” teve dinheiro dos jornais da Bahia, de deputados. Glauber era muito amigo do Juracy Magalhães, um coronel fascista, governador da Bahia.

Isso tudo vinha em conflito com o nosso cinema. O dinheiro de produção era tirado do nosso bolso. Julio Bressane vendeu uma quantidade inimaginável de terrenos para começar a fazer o trabalho dele. Filmava em seguida, na Belair (produtora fundada em 1970 em parceria com Rogério Sganzerla). Quem não estava na patota do Cinema Novo, era fascista.

O Luiz Paulino dos Santos, baiano formidável, foi perseguido pelo Glauber na Bahia e abandonou o cinema. Agora, ele está vivendo no sul de Minas Gerais, tomando Santo Daime. Ele fez um filme fantástico, “Crueldade Mortal”, com música do Baden Powell. É um filme que precisa ser recuperado.


Muitos filmes dessa época sumiram?

Visconti: Muitos negativos desapareceram. Foram procurar, por exemplo, uma cópia do “Deus e Diabo na Terra do Sol” na Cinemateca Francesa. O “Carnaval na Lama” (1970), do Rogério Sganzerla, que eu editei, também sumiu. Você fazia o filme e ficava na prateleira. Muitos filmes não foram nem exibidos. É importante que agora o Eugênio Puppo esteja levantando tudo isso.


Como foi seu início no cinema?

 
1