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LITERATURA ARGENTINA

Artesanato da memória
Por Wilson Bueno

É traduzida no Brasil a obra-prima da poeta e escritora argentina Norah Lange, “Cadernos da Infância”

Na Buenos Aires danadamente machista das primeiras décadas do século passado, uma moça ruiva, de estonteantes olhos azuis, filha de um empresário norueguês, ousou furar o bloqueio dos seletos grupos literários integrados maciçamente por homens, que começavam a disturbar a até então morna cena cultural portenha. Jovem, bela e sedutora, a também talentosa “pelirroja” se chamava Norah –Norah Lange (1905-1972).

A princípio a intervenção se deu com seus poemas (prática então mais que natural para uma representante do chamado “sexo frágil”...) e, a seguir, para escândalo da ''conservadora sociedade local, com sua prosa, um gênero, pamem!, ao menos ali reservado em exclusivo aos homens.

Cercada de pretendentes de vária estirpe, usou e abusou de seus dotes físicos –em sutis jogos-de-sedução, claro– com o propósito de abrir caminho entre a “macholândia” de plantão. E desse modo se converteu na primeira mulher a aparecer nas exigentes páginas das revistas que agregavam os grupos literários, a exemplo da sempre célebre “Martín Fierro” e das não menos famosas “Prisma” e “Proa”.

Não satisfeita, estreou, aos 20 anos, com um livro de poesia –“La Calle de La Tarde” (A Rua da Tarde)_, sendo privilegiada com um prefácio de Jorge Luis Borges, que embora tão jovem quanto ela já gozava de grande prestígio entre seus pares. E, apesar de óbvio, necessário acrescentar, era um altivo representante do sexo masculino... O prólogo de Borges ao livro juvenil de Lange é um caso à parte –diz tudo e não diz nada, mas supomos tenha garantido ao menos as atenções da cobiçada ruiva.

Coisas de uma inquieta juventude, onde orbitavam nomes que se consagrariam mais tarde como os mais importantes representantes da literatura argentina do século XX –do já citado Borges a Bioy Casares, de Macedonio Fernández a Eduardo Lanuza, de Leopoldo Marechal a Don Oliverio Girondo. Com este, autor, entre outros, de “En La Masmédula”, obra referencial da poesia latino-americana de todos os tempos, Norah Lange acabou se casando em 1943.

As irmãs Ocampo (Silvina e Victoria) reunidas, mais tarde, em torno da também célebre revista “Sur” –talvez a mais importante publicação literária dos novecentos na Argentina–, embora contemporâneas de Norah Lange, ainda não gozavam do estupendo prestígio que conquistariam bem depois, quando a ousada ruiva quebra um sagrado tabu: se torna a primeira mulher a escrever e publicar um romance, “Voz de La Vida”, em 1927. Com menos de 22 anos!

Mas será dez anos depois, em 1937, que Norah Lange vai dizer, com todas as letras, a que veio, ao dar a público, com seletivo e numeroso acolhimento crítico, este “Cadernos de Infância” que acaba de chegar ao Brasil (ed. Record), com elogiável tradução de Joana Angélica D’Avila Melo. Uma obra-prima –em toda extensão da palavra.

Não foi diferente quando de seu aparecimento em Buenos Aires. Alguns críticos, escondendo o preconceito atrás de nem tão sóbria ironia, chegaram ao cúmulo – a exemplo do que ocorreu com Clarice Lispector, entre nós– de situá-la não como “escritora” mas como “ un incontestable escritor”... Ironia? Ou sarcasmo?

Ao contrário de muitos que fazem de suas memórias de infância –homens ou mulheres– um nostálgico parque de diversões, Norah Lange busca o que da primeira idade são os espantos, as perplexidades, o tíbio e o humilhante. A sombra “inaugural” da morte em tudo incide –as primeiras estocadas de seu gume a nos fazer conscientes da crua realidade de estarmos vivos, e para sempre finitos, provisórios. Às vezes, convém aduzir, monstruosamente vivos.

Construído de fragmentos, curtos capítulos dissociáveis entre si, Norah Lange alcança um feito complexo em literatura –dar organicidade à narrativa, por mais fragmentária que ela se apresente. Ao final e ao cabo, temos a história inteira de uma infância que ainda ecoa nos 14 anos da buenairense filha de escandinavos, linda e alguma vez sórdida, coisa que ela não faz questão de omitir. Uma prosa, embora tocada pela ternura, inclemente como as asperezas da vida que não dá trégua –seja no começo, no meio ou no fim. Como sua matéria de memória é a infância, Lange não tem pudor de revelar essa sempre edulcorada fase da vida, um terreno minado. Tudo já está por um fio, mesmo –ou principalmente– porque eis aqui, antes de mais nada, o começo do começo do mundo...

E aí é que reside a genialidade dessa prosa, espetacularmente escrita por alguém com menos de 32 anos. Tocada de poesia, ainda que não se inclua na discutível categoria de “prosa poética” com que teóricos apressados tentam classificar todo e qualquer “lirismo” que não se apresente em versos estrito senso.

Egressa de inúmeros exercícios poéticos, percebe-se a cada linha, na obra, o extremo cuidado com a fatura da frase, a construção dos parágrafos, a seleta garimpagem de verbos, adjetivos, locuções. Contudo, o que dignifica, digamos assim, semelhante artesania é a entabulação filosófica e filosofante que há por detrás de cada fato exposto ou, melhor, de cada fato jogado ao leitor feito quem joga, às vezes com arrogância, um pedaço de carne sangrenta ao canil da vida. Norah Lange, voluntariosa com o que na existência humana é falácia e engodo, não perdoa. Marca cerrado.

Impossível que o cineasta espanhol Carlos Saura não tenha lido este “Cuadernos de Infancia” ao dirigir o inesquecível “Cria Cuervos”, pois as memórias de Norah Lange, surgidas, como sabemos, em 1937, ganharam algumas edições, sobretudo na Espanha, antes do filme, lançado em 1976. No filme, como no livro que o antecede, a mesma ambiência, o mesmo clima onde a vida escoa, desde o princípio, desde ali onde tudo inicia, oscilante teatro de sombras. Sempre movediço, arrepiante às vezes, mas nunca pesadelar, o que me parece ser a olímpica lição da escritora argentina.

Sim, porque, se a morte é tema recorrente ao longo da obra-prima de Lange, também o é como uma forma de dizer que, dispensados o “tabu” do luto e do fim, como também a dramaticidade inerente à maioria das culturas em torno da “indesejada das gentes”, nossa incontornável finitude não passa, a rigor, de natural e transcendente detalhe da condição humana. E isso, neste livro admirável, além de tudo, ajuda a que nos salvemos de nós mesmos.

É como se Norah estivesse a comunicar, todo o tempo, através da por vezes dolorosa delicadeza de sua tessitura memorialística, que tudo é espantoso –de um cinzeiro a um vaso de flor, de um peixe morto a uma torta de nozes, de um sorvete à morte do pai ou a (doce) lembrança com que a mãe se recorta, em perfil, fotograma amoroso.

São cinco irmãs –o que de novo remete a “Cria Cuervos”, o filme– Marta, Georgina, Irene, Susana e a própria Norah que, como narradora, não se auto-nomeia ao longo de todo o livro, além dos infantes Eduarcito e Esthercita, e os eventos miúdos, mas nem por isso menos fundamentais, de suas vidas –da mansão de Mendoza à quinta de Buenos Aires, em plena Calle Tronador, num Belgrano de flores e martírios.

A febre tifóide que põe a nocaute as cinco meninas maiores; o sagrado horror com que Norah descobre que jamais se casará, posto que jamais dará conta do macabro espetáculo que é o de estrangular uma galinha; a figura doce e alguma vez terrível da preceptora, Miss Whiteside, em idas e vindas, lágrimas e risos, partidas e regressos; as manias, as superstições que acompanham a menina dos 4 aos 14 anos, o que a classificatória psicologia moderna chamaria hoje de TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo) e que, em razoável quantidade, povoam o relato de ponta a ponta, manias aflitivas, imperiosas, angustiantes; as molecagens; a vida dos obscuros e frescos quintais; o sexo aflorando nas nuanças de uma libido presente do começo ao fim do livro; a menina que, entregue ao Destino, teme e treme porque, se assim, então condenada está –para sempre- aos insondáveis riscos de existir; o piano senhorial; a honradez; o orgulho; as mesquinharias; o amor em tom menor.

“Cadernos de Infância”, mais que um amontoado de anotações sobre o ido e o vivido, é uma comovente reflexão sobre a fugacidade de tudo e de todas as coisas, o andar do tempo e das horas dentro do tempo, posto que nele, no velho Cronos, a morte é que dá vida a tudo o que existe, resiste e se narra. E daí que, ao fecharmos a última página dessas memórias, o que fica é a graça com que –melancólico ou não– viver esplende.


Publicado em 6/7/2009

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Wilson Bueno
É escritor, autor, entre outros livros, da novela "Meu Tio Roseno, a Cavalo" (Editora 34) e de "A Copista de Kafka" (Planeta).

 
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