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HERÓI LITERÁRIO

Meus encontros com Cortázar
Por Carlos Alberto Dória

Primeiro, no colegial; depois, no teatro Tuca; mais tarde, em Havana; agora, no recém-lançado "Papeles Inesperados"

“Pero no hay como aqui: las cosas son lo que son porque son otras”
(Julio Cortázar)


Já quase no saguão do teatro Tuca, em São Paulo, Julio Cortázar, que, calado, vinha arrastando os pés em enorme mocasin em direção à saída, me sapeca a pergunta, de dentro do seu blazer xadrez e camisa de gola role:

- Você já assistiu a algum show em que Caetano Veloso e Maria Bethânia tenham se apresentado juntos?

- Não..., respondo, após pensar um pouco.

- Pois é! É mesmo impossível, pois se trata de uma mesma pessoa.

Perto dos meus 30 anos, esta frase de um dos meus heróis literários soou como um presente inesperado. Ele estava ali, diante de mim, enorme, improvisando um conto verbal só para mim! Por um instante, materializou-se o cronópio que só conhecia como figura imaginária.

Tietagem à parte, eu estava ali por generosidade dos seus anfitriões, Boris Schnaiderman e sua mulher, Regina. Ciceroneando Cortázar por São Paulo, lembraram de me convidar para acompanhá-los ao show. Depois, fomos ao Cristal, na rua Cardoso de Almeida.

Pouco me lembro das conversas sobre literatura, política e música que rolaram entre chopes. Estava fascinado, observando sua enorme mão manipulando um cigarro, que, nela, parecia diminuto. Hoje já nem sei dizer se o que ele pensava sobre a voz de Gal Costa foi expresso ali ou, no longo tempo, garimpei em seus escritos em que a cantora aparece mais de uma vez. Este foi meu segundo encontro com Cortázar.

O primeiro foi no colegial, quando um professor de literatura dos mais sábios, Flavio di Giorgi, soube incutir nos alunos o gosto pela leitura ficcional. Ele nos apresentava sempre autores pouco óbvios, como Campos de Carvalho e tantos outros.

É um exagero, mas à época desse primeiro encontro os contos de Cortázar disputavam com os de Kafka a primazia do prazer da leitura. Uns poucos, havíamos decorado as “História de Cronópios y Famas”. Líamos e discutíamos “Todos los Fuegos el Fuego”, “El Perseguidor”, “Las Armas Secretas”, “Bestiario”, “Casa Tomada”, “Ultimo Round”, “La Autopista del Sur”, “La Vuelta al Día en Ochenta Mundos”, “Prosa del Observatorio”. Todos lidos em castelhano, por alunos que, mais do que cultos, eram pedantes.

Mas essa literatura cimentava a marginalidade em que vivíamos, num colégio de elite, diante do colegas que estavam ali mais como futuros herdeiros de grandes negócios dos seus pais do que como pessoas que, como nós, sabíamos que haveríamos de dar duro na vida e a cultura era um valor nesse terreno de luta.

Cortázar era o encantamento do mundo que se desdobrava nos filmes de Godard e Antonioni, baseados em contos seus. O jogo de tênis em “Blow Up” era o máximo, como se Cortázar, sem nos conhecer pessoalmente, houvesse adivinhado o vazio de nossas almas. Era também o guia para aquilo que viríamos a conhecer mais tarde, como Adorno ou Lezama Lima, que figuram em “A Volta ao Dia em Oitenta Mundos”. O gato na gaiola, em foto magnífica, chamava-se Adorno. Lezama Lima, enormíssimo cronópio.

E encontrar Cortazar, em carne e osso, foi presentificar o primeiro encontro, reunindo tudo isso em um só monumento.

O ciclo de leituras, para mim, terminou com “Queremos Tanto a Glenda”. Um conto magistral, no qual um círculo de fãs de Glenda Jackson se dedica a imortalizar a obra da atriz e a aperfeiçoá-la, sequestrando das cópias de filmes os fotogramas que apresentassem pequena imperfeição. Até que leram que a atriz voltaria a filmar e entraram em desespero, arquitetando um plano rocambolesco para salvá-la de si própria.

Os textos mais explicitamente “políticos” de Cortázar me desagradavam. Como “Libro de Manuel”. De “Rayuela” também não gostava, e ainda não gosto. Pareciam os seus fotogramas imperfeitos. Acho que numa época tão politizada queria blindar, para mim, a fantasia.

Meu terceiro encontro com Cortázar se deu em Havana. Era um encontro de intelectuais, promovido pela Casa das Américas, ao qual Cortázar deveria comparecer, mas não foi. A ausência talvez fosse reflexo de sua postura diante do “caso Padilla”, mas não faltou a sua voz em solidariedade ao que fazíamos ali em Cuba. Enviou uma carta, que foi lida numa sessão plenária, para duplo alívio meu, pois foi como se houvesse feito o favor de suprimir fotogramas indesejados do filme que eu havia roteirizado para ele.

O quarto encontro, que se dá agora, através da leitura de “Papeles Inesperados” (Alfaguara, Buenos Aires, 2009), não deixa de ser também surpreendente, pois emerge com força um Cortázar político que eu desconhecia em sua inteireza, ou só conhecia nos fragmentos que rejeitava. Mas essa parte do livro, a par com algumas cartas, me pareceu mais interessante do que alguns contos e fragmentos de contos, como as “histórias de cronópios”, que o livro reúne num conjunto de escritos inéditos.

Aparece, por exemplo, sua relação com a Revolução Cubana. É a relação com um sonho: o homem novo. Hoje parece uma voz generosa, poética, que sussurra, do fundo dos tempos, a utopia que nos falta. A Revolução Sandinista e tantos outros eventos que povoaram a política sobre a qual os intelectuais depositaram esperanças aparece como a possibilidade de expansão do próprio sonho, além de ser o fundamento de uma militância incansável, através da palavra, contra todas as ditaduras e o imperialismo norte-americano que, segundo a visão da época, era seu exclusivo fomentador.

Esse Cortázar de agora me surge como quem sempre soube que sonho, política e erotismo formavam uma coisa só naqueles tempos. Como neste poema:

Lo que me gusta de tu cuerpo es el sexo.
Lo que me gusta de tu sexo es la boca.
Lo que me gusta de tu boca es la lengua.
Lo que me gusta de tu lengua es la palabra.


Publicado em 28/6/2009

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Carlos Alberto Dória
É doutor em sociologia, pesquisador-colaborador do IFCH-Unicamp e autor de "Com Unhas, Dentes e Cuca" (em co-autoria com Alex Atala), "Bordado da Fama" e "Os Federais da Cultura", entre outros livros.

 
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