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ensaio
DEIDADE

A agonia da natureza
Por Paula Sibilia

Velho e impotente, o mundo natural requer agora dos homens um imenso esforço para não se extinguir de vez

A natureza é sábia, boa e bela. Certo? Pode ser, mas se essa frase tão repetida fosse absolutamente verdadeira, como explicar a existência do câncer, dos furacões e dos terremotos? Qual é o sentido da celulite e dos mosquitos entre tanta beleza e bondade? Ou, sem ir mais longe, como justificar a insensatez da morte, se há tanta sabedoria? Argumentos de peso, sem dúvida. Tanto faz, porém, pois pelo menos de um tempo para cá, a natureza goza de um excelente prestígio.

Talvez isso tenha ocorrido porque ela se convertera numa vítima inquestionável dos atropelos do capital e, como se sabe, a condição de mártir costuma redimir quase tudo. Claro que não se trata da única imolada por tais atos desenfreados, embora talvez seja a mais difícil de ocultar, varrendo a situação para debaixo do tapete. Inclusive porque, de repente, intuímos que sem ela até os tapetes podem chegar a desaparecer -e as vassouras também.

Mas não se trata só disso. Não é de hoje que tudo o que vangloria de sua condição "natural" exala uma sorte de autoridade moral com peso indiscutível. A natureza é sábia, boa e bela em si, para além da lamentável constatação de que logo agora ela esteja morrendo. Não é a toa que recebeu o título de "mãe universal", herdando boa parte das prerrogativas do sagrado, antes monopolizadas pelos deuses e por outras entidades igualmente abençoadas.


Breve genealogia dos “naturalismos”

Mas de onde provém essa reivindicação que hoje se ergue absoluta, sem adversários de nenhuma índole? Sempre foi assim? Não, claro. Tampouco é fruto exclusivo das preces contraculturais dos anos 60, sob a influência de um hippismo que desde as comunas alternativas soube elevar o “natural” como sinônimo de belo e bom.

Curiosamente ou não, em que pese sua auréola simpática e juvenil, esse movimento que tanto marcou a segunda metade do século XX não era tão inovador como alardeava. Algumas raízes de suas doutrinas, pelo menos, afundavam-se nos lamaçais de um conservadorismo de caricatura. De um modo talvez insuspeito, seus cânticos campestres com cabelos longos e batas de tecidos orientais invocavam outras arengas aparentemente esquecidas: as daqueles precursores que cem anos antes já sonhavam com a possibilidade de um “retorno” a formas de vida mais puras e autênticas. Uma volta a uma inocência perdida que não seria apenas boa e bela, mas também mais verdadeira e sábia.

Em suas versões retrorrecicladas da atualidade, esse sonho supostamente contestatório não deixa de insuflar nossas lojas de “produtos naturais” e outros espaços com atmosfera chique, "cool" ou "fashion", além de nutrir com certo ar de moralidade superior os diversos tipos de vegetarianismos, crudivorismos e quase anorexismos que não cessam de proliferar.

Mas tampouco esconde que, em seus primórdios, soube resgatar alguns ecos do puritanismo recalcitrante do século XIX, cujo emblema mais persistente talvez seja o cenho franzido daquele Quaker que adorna até hoje as caixas de aveia. Ou então o famoso dr. Kellogg dos flocos de milho, que em seus delírios oitocentistas conseguiu colher ainda mais sucesso com seu sanatório de Battle Creek, onde ministrava uma excêntrica terapia religiosa, apregoando os benefícios de uma alimentação desintoxicante. Sem dúvida, um ancestral bastante circunspeto dos spas, que hoje prometem nos massagear com emulsões de alecrim e elixires de tangerina com gengibre.

Para aqueles grupos que fundaram a América profunda no cenário idílico das cabanas de madeira e seu rústico empreendedorismo -cujos herdeiros hoje defendem tais valores a ponta de escopeta-, a farinha branca e o açúcar refinado eram encarnações diabólicas, por exemplo. Símbolos infernais de uma civilização decadente, que se apoiava na indústria para corromper toda a pureza do autêntico e que usava essa parafernália demoníaca para derrotar o reino de Deus e as sacrossantas bondades da Natureza.

Por isso, apesar das confusões suscitadas pelo delicado quadro contemporâneo, não convém esquecer até que ponto pode ser reacionário qualquer apego ao telúrico, tanto hoje como nos mais remotos dias de ontem. Nem tampouco que as modelos e os anjos costumam ser vegetarianos, macrobióticos ou naturebas, mas que Adolf Hitler e outros espécimes nada exemplares também o foram.


O braço armado da ciência e da indústria

Vale a pena, então, contextualizar um pouco. Quando a voz inflamada de Francis Bacon enunciou o ambicioso programa da ciência moderna, o clima era de efervescência e confiança nas capacidades humanas e nas potências do artifício, contra qualquer tipo de obscurantismo retrógrado. Naquele longínquo século XVII, o filósofo britânico propunha atormentar e violentar a natureza com o objetivo de corrigir suas falhas, submetê-la ao suplício das ferramentas, para domesticá-la e poder utilizar todos seus recursos em proveito humano.

Com uma audácia que logo faria escola, Bacon afirmava que não existia nenhuma diferença essencial entre o açúcar e o mel. Por isso, desafiando eventuais resistências das leis naturais e seus celestiais custódios, a técnica devia agir “como alguém que fizesse crescer rosas em março e conseguisse que as uvas nascessem maduras”. A natureza daqueles tempos ainda ostentava certos traços divinos, mas sua gradual dessacralização já estava anunciada em letras de molde.

Três séculos mais tarde, em pleno apogeu desse projeto, as vanguardas futuristas enalteceriam a beleza das fábricas e o rugido dos trens, o magno poder das bombas ou das metralhadoras. Alguns anos antes e com maior refinamento, Charles Baudelaire debochou da crua fealdade do natural em seu ardente "Elogio da Maquiagem". Todo esse furor denunciava o magro equipamento de uma natureza que já se mostrava irremediavelmente limitada e não hesitava em denegri-los. Não tardariam a chegar aquelas geladeiras e os carrões gigantescos que nos anos 1950 souberam compassar os últimos suspiros do sonho progressista.

Entretanto, quando as latas de conserva e os inseticidas inauguraram um modo de vida mais prático, moderno e multicolorido, entre tanta festa pop, uns poucos pessimistas desconfiaram que não passaria muito tempo antes que chegasse a salgada fatura. E, então, talvez não haveria como pagar o pato enlatado. Logo em seguida, o panorama azedou.

Mas naquelas épocas douradas de pujança quadrimotora teria sido difícil desenterrar qualquer rançoso argumento contra o fulgurante mito do progresso. Os velhos sermões cheiravam a naftalina e evocavam os desvarios de predicadores tresloucados. Velharias obsoletas, portanto, face a todo esse vigor renovado pelos modernismos estéticos, em seu anseio de demolir o antigo para criar algo novo e supostamente melhor -ou, pelo menos, mais confortável.


A ressaca da festa consumista

Agora, vivemos a ressaca de todos esses excessos e sabemos que alguma coisa não se passou muito bem. Talvez alguns dos tiros tenham saído pela culatra e, entre tanta desorientação, não conseguimos reencontrar o rumo.

Acontece que os produtos “orgânicos” de hoje em dia, assim como todos seus congêneres que são vendidos em lojinhas verdes e boas, pretendem-se melhores do que os que lotam as prateleiras dos supermercados com seus conservantes e aromatizantes mais ou menos permitidos e com seu desperdiço plasmado em berrantes embalagens de plástico. Talvez porque as mercadorias que ostentam o orgulhoso rótulo de “naturais” são mais caras, mais escassas e sofisticadas que todas as outras, cuja carência de etiquetas desse tipo já as acusa de pecaminosas com diversos graus de periculosidade.

Talvez seja por tudo isso que estamos do jeito que estamos, sim, mas também porque sabemos que as vacas gordas estão se acabando. Se continuarmos assim (e como poderíamos fazer para evitá-lo?) não haverá mais água daqui a 20 ou 30 anos, nos é dito e redito com cotidiana teimosia. As selvas, os bosques e as florestas desaparecerão inexoravelmente. Portanto, logo tudo será um deserto, e o planeta se converterá numa inóspita frigideira onde todos nos fritaremos sem remédio. Isso, se é que não sucumbiremos antes ao descontrole dos tsunamis, das inundações, da catástrofe transgênica, das hemorragias de lixo não-biodegradável e outros estertores pós-apocalípticos.

“Enquanto o homem pode produzir e certamente tem produzido grandes resultados com suas formas de seleção inconscientes e metódicas, o que não poderia fazer a natureza?”, exclamava admirado Charles Darwin nas páginas do seu livro seminal, "A Origem das Espécies". E ele mesmo respondia, admitindo a pequenez humana diante do ímpeto irrefreável do natural: “O homem só é capaz de atuar sobre características externas e visíveis, enquanto a natureza não se importa pelas aparências; ela age em qualquer órgão interno, em qualquer indício de diferença constitucional mínima, em todo o maquinismo da vida”.

Essa constatação motivou no nobre cientista algumas interjeições ainda mais calorosas: “Como são passageiros os desejos e esforços do homem! Como é curto seu tempo! E, em consequência, como serão pobres as realizações humanas comparadas com as que a natureza acumulou ao longo de períodos geológicos inteiros”.

Evidentemente, de lá para cá, as coisas têm mudado bastante. Com a perturbadora aceleração de todos os processos que ocorreu ao longo do último século, as realizações humanas já não são tão pobres e inócuas como pareciam no longínquo ano de 1859. A voracidade do industrialismo e a lógica implacável do mercado foram longe demais em seu afã de engendrar maravilhas, e é bem provável que em sua avidez tenham arrebentado alguma engrenagem dessa sublime porém frágil maquinaria.

Por isso, os velhos mecanismos da natureza, outrora onipotentes, hoje parecem tão arcaicos e parcimoniosos quanto enferrujados e impotentes. Aquela deidade que era tão sábia, boa e bela, agora agoniza. Requer um imenso conjunto de esforços e cuidados para não terminar se extinguindo de vez -e muito, mas muito, em breve.

Por toda parte lemos, ouvimos e constatamos que a desfalecente natureza de hoje em dia precisa ser “revitalizada” com urgência, mediante programas especiais que envolvem leis complicadas, toneladas de dinheiro e um controle policial em escala internacional. Mesmo assim, nada indica que tamanha empresa de ressuscitamento terá sucesso. Aliás, começamos a desconfiar que é bem provável que já estejamos fritos e que não haja rúcula orgânica, endívia hidropônica nem arroz integral capaz de nos salvar desse apocalipse tão fartamente anunciado.


Publicado em 14/6/2009

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Paula Sibilia
É professora do Departamento de Estudos Culturais e Mídia e da Pós-Gradução em Comunicação, do Instituto de Artes e Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense (IACS-UFF). Doutora em Comunicação e Cultura pela ECO-UFRJ e em Saúde Coletiva pelo IMS-UERJ, é autora de "O Homem Pós-Orgânico: Corpo, Subjetividade e Tecnologias Digitais" e "O Show do Eu: A Intimidade como Espetáculo".

 







 
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