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WEBCENA

Minha casa, meu teatro
Por Alan de Faria


Os atores Zemmanuel Piñero e Lucas Pretti em cena da peça "Por Conta da Casa", de Sérgio Roveri
José Luiz Sampaio/Divulgação

A atriz e diretora Renata Jesion encena peças em sua sala de visitas e as transmite ao vivo pela internet

“Dez minutos!”, grita o diretor. Atores, então, iniciam suas mandingas antes de entrar no palco. “Cinco minutos!”, ecoa novamente. Verificam-se as luzes, os objetos, as marcações das cenas. E, quando falta apenas um minuto, já estão todos a postos.

É o início de uma peça no Teatro para Alguém, projeto criado em novembro do ano passado pela atriz e diretora Renata Jesion e por Nelson Kao. Em seu "palco", porém, não há cortina e não há público. Ao menos fisicamente. O motivo? As peças do TPA são produzidas exclusivamente para serem vistas pela internet.

“O projeto surgiu de uma necessidade minha de fazer teatro. Por essa razão, eu o faço na minha casa mesmo para alguém que nem eu sei quem é”, conta Jesion, que diz não ter se inspirado em nenhum outra idéia semelhante.

“Não sou ´internética´. Não fiquei procurando projetos parecidos na web”, argumenta a atriz e diretora, que, inclusive, ficou surpresa quando amigos seus comentavam que se tratava de um projeto pioneiro. É possível.

No YouTube, por exemplo, podem ser encontradas facilmente cenas de algumas montagens teatrais e centenas de trechos de "stand-up commedies". Em contrapartida, o TPA disponibiliza peças inteiras (veja link no final deste artigo).

O site é construído como uma "casa" e contém seis espaços. Na Grande Sala, é possível assistir à “miniemsérie” “Corpo Estranho”, assinada pelo escritor e desenhista Lourenço Mutarelli. “É um espaço exclusivamente do Mutarelli, não tem concorrência. Sempre quis trabalhar com ele, porque o admiro muito”, diz Jesion. No Sótão, ficam em cartaz as peças teatrais propriamente ditas. Na Sala de E-Star, são encenadas minipeças. O Quarto é um espaço reservado para fotos e histórias a respeito das montagens. O Banheiro Merda! é o blog do projeto. E, por fim, no Porão ficam arquivadas as produções do TPA.

A princípio, conta Jesion, o projeto só teria a Sala de E-Star. “A ideia inicial seria trabalhar com pequenos textos de autores e outros artistas que nunca haviam escrito para teatro”, diz. Foi com esse objetivo que ela convidou o escritor Antônio Prata para escrever uma pequena história para ser encenada no TPA –ele é o autor de “O Arthur”, dirigida pela própria Jesion e encenada pela divertida atriz Iara Jamra.

“Eu não conhecia pessoalmente o Prata, mas lia seus trabalhos. Ao longo de seis meses, pedi a ele para enviar algum texto que poderia ser encenado no TPA e que não ultrapassasse dez minutos”, explica. “Na primeira vez, ele enviou um texto de cinco páginas! Liguei para ele e comentei: ´O que você enviou é uma peça de 40 minutos, não pode ser...´ Ele respondeu: ´Mas não é como no jornalismo, um minuto por lauda?´”, diverte-se Jesion, que teve que explicar ao escritor que, no teatro, o tempo é do autor, um movimento simples pode durar um minuto.

Já o processo da segunda “miniemcena” foi mais tranquilo. Ao ler o livro de contos da carioca Paula Parisot, “A Dama da Solidão” (Companhia das Letras), Jesion escolheu encenar o conto “O Vício”. “Foi engraçado, pois, quando disse a ela que gostaria de encená-lo, ela confessou que se tratava, em sua opinião, de seu pior conto. Poderia até ser, mas era totalmente encenável”, afirma Jesion.


Há oito meses no ar, o site tem tido em média 20 mil acessos por mês, segundo Jesion. “Muitas vezes recebemos mensagens de pessoas que moram longe do eixo Rio-São Paulo, dizendo que nunca foram ao teatro, mas que, depois de assistir às peças no site, ficaram com vontade”, diz.

Para ela, o projeto ajuda a fomentar o teatro brasileiro de autor, uma vez que não oferece peças comerciais. O TPA, de alguma forma, é mais uma forma de tentar driblar os editais dos programadores culturais, a dependência de instituições e o aluguel de teatros privados. “A classe teatral não tem grana, é complicado alugar um espaço e com o dinheiro da bilheteria pagá-lo. Dificilmente isso dá certo."


Camarim no quarto

Trópico esteve presente na gravação da peça “Por Conta da Casa”, de Sergio Roveri, em cartaz na Sótão do TPA. Ao entrar na residência de Jesion, localizada no bairro Butantã, na capital paulista, é difícil imaginar que todas as montagens são encenadas em sua sala de estar, que já se transformou até mesmo em danceteria, por necessidade de uma produção.

Para a gravação das peças do TPA, Jesion investiu R$ 20 mil: comprou uma câmera em alta definição, 12 refletores e cortinas negras, que estão espalhados pela sala.

Na peça de Roveri, a sala tornou-se um bar. Assim, o que era apenas um assento plástico transformou-se no banco do boteco. “Não há limitação física, de espaço”, explica Jesion. O que era o quarto do casal hoje é uma espécie de camarim, com roupas de inúmeras montagens. “Chega a ser divertido. Em nenhum momento, sinto minha privacidade ameaçada. Mas, é claro, temos um quarto que ninguém entra, que é a nossa casa. O restante é teatro”, conta Jesion.

Vira e mexe, Jesion é questionada sobre se o seu projeto é realmente teatro _e não televisão ou cinema. Ela diz que não está preocupada em classificar o projeto, mas que seu principal objetivo é buscar uma linguagem teatral própria.

“Eu sei que é teatro, mas é óbvio que tem diferenças em relação ao tradicional. Não tem os três sinais para anunciar o início, mas tem alguém berrando aqui antes da câmera ser ligada e a peça começar”, diz. "A câmera, porém, é apenas um meio para registrar e ajudar na difusão do evento cênico. Não é como no cinema ou na TV. Além disso, a interpretação é sempre teatral, inclusive na minissérie do Mutarelli.” A primeira exibição de cada montagem do TPA é sempre mostrada ao vivo na internet. Depois, uma gravação fica disponível no site.

Para Zeca Bittencourt, convidado para dirigir “Por Conta da Casa”, um dos motivos que o levou a aceitar o convite de Jesion foi a proposta de gravar as peças em plano-sequência. “Enquanto no teatro convencional, o público pode observar o palco inteiro e o diretor tem a função de levar o olhar dele para determinado espaço, aqui no TPA é a câmera quem faz isso”, afirma.

E, de fato, é o que acontece. Definidas as posições da câmera comandada por Kao, os atores tomam seus lugares e iniciam a encenação do texto. “É curioso perceber que, mesmo não tendo público, o burburinho 'de bastidores' também acontece. Faltando dez minutos, passamos o texto, corrigimos a maquiagem, ficamos tensos quando está próximo do início e, quando tudo começa, vamos num só embalo”, diz Jesion, com a empolgação de quem faz do teatro a sua vida. E, agora, também a sua casa.



link-se

Teatro para Alguém - http://www.teatroparaalguem.com.br/


Publicado em 14/6/2009

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Alan de Faria
É jornalista.

 
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