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prosa.poesia
MITOS

Do amor índio e outros amores
Por Wilson Bueno

Como os jeniás se apaixonaram pelo bigode do sertanista Eraldo Lôbos e quiseram ofertá-lo a Tupã

Tecoitã & os Jeniás

Os jeniás, índios que vivem às margens do rio Juruá, no alto Amazonas, têm um nome para a delicadeza, chamada por eles, caprichosamente, de “tecoitã”. E digo “caprichosamente” porque isto acontece em todo o trâmite da palavra –desde a pronúncia de “tecoitã”, quase aos sussurros, até a meiguice que se há de impor à voz quando ela, a palavra “tecoitã”, é proferida.

O sertanista goiano Eraldo Lôbos (1905-1973), que viveu entre os jeniás, foi quem me contou esta história, lá no início dos anos 70, aquele tempo em que, escondidos da polícia política, fizemos das cercanias de Goiás Velho nosso refúgio e exílio.

O caderninho antigo, amarelado pelo tempo, não me deixa mentir nem esquecer –“tecoitã é a palavra mais doce do mundo”, está lá grafado, a lápis, numa escrita apressada e quase ansiosa.

Impossível esquecer –Lôbos tinha exuberantes bigodes, cultivados desde a juventude, e chegava a dizer que, mais um pouco, teria nascido com eles. Mesmo correndo o risco de ser reconhecido pelos esbirros da ditadura cabocla que espalhavam suas fotos pelos postes de Goiânia e Brasília, nunca pensou em se livrar deles.

Eraldo Lôbos, que amava os jeniás com uma obsessão quase psicótica, atribuindo a eles todas as qualidades que faltavam, e faltavam à larga, a nossos contemporâneos –índigenas ou não–, contava que, certa noite, os índios, apaixonados pelos seus bigodes, constantemente alisados, ao longo do dia, por velhos, moços e crianças, decidiram que ele deveria fazer a Tupã uma oferenda do piloso adereço.

Não deu outra –a exemplo dos índios com os quais vivia no alto Amazonas, Eraldo, exímio conhecedor da floresta, se embrenhou nela, fugindo ao veredicto da tribo.

Decisão frustra e vã –rindo muito de sua fuga, os jovens guerreiros jeniás logo o cercaram e, armados de afiadas tesouras que ele próprio os havia presenteado, tiniam o instrumento, brincantes e ameaçadores, abrindo-o e fechando-o sucessivas vezes.

Aí então que Eraldo Lôbos se lembrou da palavra mágica –“tecoitã”. Escandido-a com a exata entonação dos jeniás –“tecoitã”, “tecoitã”, “tecoitã”–, não pensem que demoveu os inquietos nativos de lhe cortarem os bigodes. Sem saída, deixou-se livrar da bigodeira que, numa pequena cumbuca, logo ao primeiro crepúsculo foi ofertada aos deuses.

Ainda assim –ria-se muito o saudoso Lôbos–, não terminou de raspar o bigode evidentemente que destruído pelas inábeis tesouras dos jeniás. Deixou-o que voltasse a crescer, irregular e tortuoso. Para gaúdio dos inocentes jeniás, que passaram a chamar os bigodes de Eraldo Lôbos de “tecoitã”.

Mais tarde, o próprio Lôbos acabou ganhando este apelido –invariavelmente pronunciado, claro, com a rara e inextricável ternura que a palavra merecia, desde sempre, entre os índios. Não era em vão que ele considerava os jeniás os seres humanos mais delicados da Terra...

A ter como fundo, inóspita, a noite fascista, atormentada e cachorra, bigodes, tecoitãs e jeniás eram um breve contra a náusea. No céu que lhe aconteceu, meu amigo Eraldo Lôbos, cofiando os mesmos e indissociáveis bigodes, deve estar se perguntando o que fizeram com os jeniás que, hoje, nômades e alcoólatras, vagam as perdidas cidadezinhas do alto Amazonas, pedindo esmolas, roubando galinhas, dormindo mijados nas esquinas; ou provocando grandes arruaças e apanhando muitas vezes até a morte dos (democráticos) soldados amarelos.


Amor & estrelas

Os índios kraôs, do norte goiano, consideram que o Amor entre um homem e uma mulher é determinado pela posição das estrelas no exato nascimento de um e outro. Mesmo que um índio muito velho venha a desposar uma adolescente kraô –prática comum entre este povo, para quem o erotismo constitui uma das principais ocupações–, a sua estrela, por exemplo, já determinava, desde sempre, posição condizente com a ocupada no nascimento da jovem esposa.

Quando um índio não consegue encontrar a mulher que com ele partilhará a vida, os kraôs costumam debitar o fenômeno à errância das estrelas no vasto céu. Isso –explicam– porque há estrelas que migram ou simplesmente se apagam feito as estrelas cadentes que deixam de existir transformadas em faíscas sopradas por Tupã, sempre quando faz escuro e é noite alta no grande firmamento.

Já os casais para quem o Amor, e não só ele, dura toda a vida, também devem às estrelas tamanha permanência –os astros regentes mantém-se em fixa e imutável posição. E, informam os kraôs, esses poetas da selva brasileira, que nem mesmo os mais poderosos ventos alcançam arrancar tais estrelas do céu...

A elas, às estrelas dos kraôs, devemos, entre outros, esses casais de velhinhos que, na aldeia, inseparáveis e sem se desgrudar nunca um do outro, também costumam morrer juntos, não sobrevivendo muitas vezes nem três dias ao parceiro que faleceu.


Meu bem, meu mal

O jovem e afoito monge budista pergunta ao velho e lento mestre:

- Mestre, o que é o Amor?

- É a folha que ainda não caiu do galho da cerejeira...

- Como assim, mestre? Se ainda não caiu, essa folha não existe –ao menos como folha caída...

- Também o Amor está sempre por fazer-se e nunca se completa.

- Mas a folha acaba caindo...

- Por isso o Amor é a folha que ainda não caiu do galho da cerejeira...


Do invisível altíssimo

Narra a lenda imemorial que um velho e sábio druida era tão fervoroso e agradecido às coisas do céu que chegava a benzer, à sua passagem, gatos e pedras. Meditava na praia, à sombra de um penedo, quando uma moça, escandalosamente feliz, o interpelou: "Venerável mestre, desejo ser sua discípula!". "Por quê?", interpelou o mestre.

A jovem só encontrara a felicidade depois de haver provado das árduas águas do espírito. Ainda assim, sobrara nela um grave defeito: tudo tinha que ser tão alto quanto o céu... Diante daquele incisivo “por quê?” do mestre, não fez por menos, e pronunciou uma frase altissonante, retórica: "É que eu quero encontrar o Excelso Senhor das Alturas Paradisíacas!".

O mestre druida, sem vacilar, e sem sair de onde estava, agarrou a discípula pela gola do manto, arrastou-a pelas pedras e pelas urzes até a beira do vasto Oceano e afundou-lhe a cabeça na água. Ali foi forçada a permanecer por quase meio minuto, com o mestre impedindo-a que respirasse.

Por fim o velho mestre a libertou das águas e a arrastou até um pequeno templo dedicado ao Sol. Ela cuspia sangue, engasgava com a água salgada, se debatendo, ainda, para reaver a respiração.

Quando a discípula se recuperou totalmente, o velho druida quis saber: "O que você sentiu, minha jovem, enquanto se afogava?”. "Absoluta falta de ar, mestre”, respondeu a moça. “Isso é muito precioso", confirmou o velho druida. E aconselhou: "Vá agora para casa e, quando souber esperar pelo Excelso Senhor das Alturas Paradisíacas tanto quanto ansiaste por ar enquanto eu te afogava, retorne a esta praia".

E instruiu, conclusivo: “Sabe o que acontecerá, então? Riremos juntos de quem pensa que o ar, por ser invisível, não existe. Tão invisível quanto o Excelso Senhor das Alturas Paradisíacas, este nome idiota que você inventou para Deus”.


Publicado em 22/5/2009

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Wilson Bueno
É escritor, autor de "A Copista de Kafka" (ed. Planeta), da reunião de tankas  "Pequeno Tratado de Brinquedos" (ed. Iluminuras) e do recém-lançado "Pincel de Kyoto" (Lumme Editor).

 
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