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CIVILIZAÇÃO

A evolução estética
Por Carlos Alberto Dória

Nova obra sobre Darwin revela como ele descobriu que a beleza física foi a fonte de diferenciação das raças

É muito difícil admitir que, quando vemos um desfile de moda e admiramos os modelos, folheamos uma revista ou assistimos a um desfile de escola de samba, essas atividades possam ter algo em comum com a formação das raças humanas.

Feministas, semióticos e um exército de especialistas logo identificarão nisso algo como a “coisificação” do corpo humano e a forma da alienação moderna. Relacionar, então, essa humanidade “coisificada” com um conceito tão politicamente incorreto como o de “raça” é coisa muito além do admissível.

Acontece que é exatamente assim que Charles Darwin veria qualquer culto à beleza humana, conforme fica claro no alentado livro, recém surgido, da dupla já conhecida de biógrafos do cientista. A beleza foi, historicamente, o motor da diferenciação das raças humanas a partir da constituição plena da espécie.

Hoje sabemos que a espécie humana esteve “pronta”, do ponto de vista físico e comportamental, entre 30 e 80 mil anos antes do presente. Depois, desenvolveu-se a civilização, que Darwin verá como fruto da evolução do próprio instinto social da espécie, através de um mecanismo muito peculiar de seleção de hábitos antisselecionistas, isto é, do controle coletivo sobre a seleção natural na medida em que vão sendo adotadas práticas que protegem os mais fracos e despreparados (crianças, velhos, doentes etc.), impedindo que sejam eliminados pela “seleção natural”.

Essa ideia básica, que alguns analistas chamam de “segunda revolução darwinista”, Darwin expôs em “A Descendência do Homem” (1871), um livro fundamental para entender a sua antropologia e que não foi lido e compreendido à época em que veio à luz. Mas as pessoas que não o leram propalaram a versão de que se tratava apenas da aplicação da lei da seleção natural –exposta no “A Origem das Espécies” (1859)– ao homem. É este equívoco que o livro de Desmond e Moore vem desfazer, com base em novas fontes sobre Darwin, especialmente a publicação recente de toda a sua correspondência, cadernos de notas e marginalia. Desses fragmentos de sua vida e pensamento nasce um novo Darwin.

Ficamos sabendo, por exemplo, que, ao contrário do que se propalou, Darwin não escreveu “A Descendência do Homem” como um adendo ou uma explicação que faltava a “A Origem das Espécies”. Ele pensou muito cedo no tema desse livro, em 1837, especialmente a partir do impacto e horror que o conhecimento da escravidão no Brasil provocou em sua alma.

Como um cristão vitoriano, Darwin muito cedo criou sua aversão moral ao escravismo e percebeu que a sua fundamentação estava na concepção de que negros e brancos constituíam espécies separadas, sendo os negros as criaturas “intermediárias” entre os brancos e os animais.

Toda a teoria de Darwin se desenvolveu para mostrar que os seres vivos possuíam uma única origem, sendo a formação das espécies um processo material de diferenciação, isto é, de criação da diversidade empírica que vemos no mundo. Os homens não escapariam a esse processo, apesar de o mito bíblico nos dizer que ele foi criado à imagem e semelhança de Deus e que, depois do dilúvio, os filhos de Noé constituíram tribos diferentes que deram origem às várias raças humanas.

Os que defendiam essa ideia de surgimento separado das várias raças humanas eram conhecidos como poligenistas. Darwin, ao contrário, se propôs, naquele longínquo ano de 1837, a demonstrar a tese monogenista, isto é, que todas as raças humanas eram fruto de uma mesma origem, irmanadas no que hoje chamamos “genética”.

Não seria um percurso simples, como o livro da dupla de biógrafos mostra, especialmente porque a tese contrariava o fundamento do escravismo colonial e muitos cientistas, como seu amigo Charles Lyell, ou Agassiz, acreditavam na origem divina do homem e na poligenia. Assim, o caminho trilhado por Darwin foi o do mais absoluto radicalismo político e intelectual, apesar de não se ver como ativista político, assinando petições abolicionistas, tão comuns na Inglaterra do seu tempo.

Darwin mostrou, ao longo de toda sua obra, que as relações filéticas entre as espécies apontavam para vínculos originais comuns a partir dos quais as espécies foram se diferenciando na luta pela vida, adquirindo, fixando e transmitindo caracteres úteis para a manutenção da forma específica. Quando esses caracteres não podiam mais ser reproduzidos, por inadequados para manter a vida e propiciar a reprodução, as espécies se extinguiam.

A idéia de adequação reprodutiva, ou “utilidade” para o ser, está na base de sua teoria evolutiva. Acontece que os caracteres que não apresentam essa “utilidade” passam a ser indiferentes à evolução por seleção natural. Então, por que persistem e como se desenvolvem?

A sua teoria nos diz que os caracteres secundários podem ser objeto de outros tipos de seleção. A seleção artificial, por exemplo, como criadores e horticultores fazem em relação às espécies domésticas. Mas esta seleção não interfere no que é essencial para a vida natural. Não podemos criar, por exemplo, um porco com uma quinta perna, muito embora possamos, através de gerações sucessivas, criar porcos pretos, brancos, gordos ou magros. A seleção sexual age, na natureza, da mesma maneira: ela seleciona aspectos ou caracteres secundários.

Convencido da origem única de todas as raças humanas, Darwin precisava explicar a sua diversidade. O mecanismo que explica esse processo é justamente a seleção sexual. Como bom sistemata, foi fácil para Darwin identificar o problema que havia por trás da imensa confusão que se fazia à época entre espécies e raças (ou variedades), tomando-se ambas palavras como sinônimos, embora não tivessem o mesmo estatuto natural. Entre os antropólogos da época, contavam-se até 63 raças humanas! Darwin facilmente demonstrou a confusão conceitual entre “tipos físicos” (o que hoje chamamos fenótipos) e raças ou espécies. De qualquer forma, precisava explicar como a espécie humana havia se diferenciado nas principais raças. Em outras palavras, mostrar como age a seleção sexual humana.

Ora, ela age como toda seleção sexual. O pavão, o peru, o galo da serra, o faisão e uma infinidade de espécies apresentam, como características, o dismorfismo sexual, isto é, a grande diferença de forma entre os machos e fêmeas. O desenvolvimento da plumagem dos machos em algumas aves, assim como do canto, visa atrair a fêmea para acasalamento.

Esse aspecto é tão importante que, ao desenvolver esses caracteres secundários, os machos perdem até mesmo eventuais vantagens competitivas. Ao desenvolver a plumagem, os pavões machos ficam mais suscetíveis ao ataque dos predadores, justamente porque a sua “beleza” dificulta a fuga. Desse modo, conclui Darwin, há na própria natureza um comportamento “altruísta”, isto é, o sacrifício do indivíduo em prol da constituição da prole.

Mas Darwin não era um machista. Ele também esteve atento aos temas feministas de sua época, o que lhe permitiu refletir sobre a escolha que as fêmeas exercem sobre os machos que se enfrentam para serem, de fato... “escolhidos”. O potencial “feminista” dessa tese não era desconhecido de Darwin.

Estudos recentes de etologia confirmam largamente isso ao indicar, por exemplo, que uma fêmea de chipanzé no cio chega a recusar um macho “não escolhido” mais de 50 vezes numa só hora. Em outras palavras, a condição de macho dominante apenas aumenta as chances de que, pela “escolha da fêmea”, passe seus genes aos descendentes.

Uma hipótese explicativa para isso é que os espermatozóides são em muito maior número do que os óvulos, de tal sorte que as fêmeas precisam exercer uma escolha mais severa do que os machos para terem maiores “chances” na seleção natural.

Mas, se existe uma “estética” nas formas naturais, não existiria também entre os homens? E como ela opera? Os dois biógrafos de Darwin nos mostram como, aos poucos, ele vai se acercando dessa ideia e construindo, com ela, o princípio explicativo da diferenciação das raças humanas a partir da seleção sexual.

Darwin era um leitor assíduo da coluna social do “The Times” e, muito cedo, percebe que uma ideia ou padrão de beleza se expressa ali como algo bem diferente da idéia ou padrão de beleza das classes populares, ou dos “coolies”. A partir de inúmeros relatos do mundo colonial, e das suas próprias vivências quando da viagem do Beagle, conclui que cada povo desenvolve uma idéia ou padrão de beleza (“beau idéal”), que funde a raça e a beleza num só conceito. Esse padrão orienta a escolha dos cônjuges, através de complexos mecanismos sociais, e é responsável em ultima instância pela fixação dos caracteres secundários como a cor da pele, o tipo de cabelo, a conformação do nariz etc. Os recursos culturais, como adornos, deformações cranianas, tatuagens etc., seguirão a mesma lógica.

Assim, conclui o naturalista inglês, “nenhuma das diferenças entre as raças é de alguma utilidade direta ou particular para o homem (...). A grande variedade de todas as diferenças exteriores entre as raças humanas revela que elas não podem ser de grande importância, porque, se o fossem, há muito tempo teriam consolidado ou, então, desaparecido. Sob este aspecto, o homem se assemelha àquelas formas que os naturalistas chamam de protéicas ou polimorfas, que permaneceram extremamente variáveis, pelo que parece, diante do fato de que tais variações são de natureza indiferente e que desta maneira escaparam à ação da seleção natural (...). Mas resta ainda um importante fator, a Seleção Sexual, que parece ter agido poderosamente sobre o homem, como sobre muitos outros animais”.

Desse modo Darwin concluía de forma cabal os seus argumentos, demonstrando a unicidade do gênero humano e a ausência de valor das variações raciais como fator de adaptação humana para a sobrevivência da espécie, ferindo de morte toda e qualquer justificativa ideológica, de base naturalizante, para a escravidão.

Restam ainda como questões de interesse o desprezo pelo livro, mesmo nos círculos intelectuais materialistas que, à época, igualmente combatiam a escravidão. E, para a atualidade, a possibilidade de uma antropologia humana que tem como força motora não só a adoção de critérios antisselecionistas na construção civilizacional, como também a eleição da beleza como principio que diferencia as raças, apresentando-nos a beleza física como um caleidoscópio que raras espécies desenvolveram de forma tão acentuada.


Publicado em 25/5/2009

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Carlos Alberto Dória
É doutor em sociologia, pesquisador-colaborador do IFCH-Unicamp e autor de "Com Unhas, Dentes e Cuca" (em co-autoria com Alex Atala), "Bordado da Fama" e "Os Federais da Cultura", entre outros livros.

1 - Adrian Desmond e James Moore, “Darwin´s Sacred Cause - Race, Slavery and the Quest for Human Origins”, Londres, Penguin Books, 2009.


2 - Charles Darwin, “The Descent of Man, and Selection in Relation to Sex”, Londres, Penguin Books, 2004, pág.229.

 
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