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em obras
REVOLUÇÃO

Arte sem embargo
Por Marcio Harum


Canhão da fortaleza Morro-Cabaña, sede da Bienal de Havana, com bolas pintadas pela organização do evento
Manuel Munive/Divulgação

Trabalhos dos cubanos Tânia Bruguera e Duniesky Martín são destaque na 10ª. Bienal de Havana, em Cuba

A 10ª Bienal de Havana foi inaugurada, no último dia 27 de março, ainda sob os efeitos devastadores de três furacões que, de setembro a novembro do ano passado, varreram a zona de plantações a oeste da maior ilha do Caribe. As intempéries do bloqueio econômico e os ventos de chumbo no sentido anti-horário do poder indicam o mau tempo que assola a ensolarada Cuba: a falta de abastecimento de alimentos em todo o território.

Não obstante, a bienal, que se encerrou em 30 de abril e teve como tema curatorial “Integración y Resistencia en la Era global”, rendeu homenagem em catálogo aos 25 anos de sua realização “a los primeros 50 años de la revolución, a Fidel”. Evento oficial do politburo cubano, a Bienal de Havana é realizada com o auspício do Ministério de Cultura de Cuba, do Conselho Nacional de Artes Plásticas de Cuba e da Unesco, por meio de apoio firmado pelo Centro de Arte Contemporânea Wifredo Lam.

Situada num braço de mar elevado em frente à cidade velha, o endereço da bienal tem forte apelo turístico. Com acesso por túnel, alcança-se o complexo Morro-Cabaña: a maior construção fortificada em torno de um farol (em funcionamento) de toda a América espanhola. A fortaleza viu-se transformada em presídio desde o auge do combate à pirataria no Caribe até o período pré-revolução.

Essa gigantesca muralha medieval (erigida a partir de 1630) conta em seu interior com inúmeros pavilhões de abóbadas duplas, por onde se esparramam dezenas de salas climatizadas, pintadas e iluminadas para a exibição de arte contemporânea. É sem dúvida a mostra de arte por excelência dos países ibero-americanos, sobretudo os das regiões Central e Caribe.

É de causar enorme estranhamento o fato de que muitos profissionais do meio recorram à feira anual Miami-Basel, realizada há poucas milhas dali para ver, para negociar e comprar o “label” de qualidade e glamour do que deve ser a “arte latina”, aquela que já pode vir até embalada com transporte e seguro rumo à internacionalização.

História recente: o escritório central administrativo do evento ocupa nada menos do que uma construção térrea reconhecida há cinco décadas, desde a conquista de Havana, como a “Intendencia de Che”. Era de lá que Guevara despachou desde o inicial instante suas ordens revolucionárias.

Desde os seus primeiros anos de vida, em 1980, a Bienal de Havana tratou de polir a pedra fundamental para tornar a si mesma um fórum de discussões aberto ao campo da arte latino-americano em contato com produções e artistas da Ásia, Oriente Médio, Oceania, África e Europa do Leste. Esse posicionamento deixou de fora por inúmeras edições qualquer participação oriunda do eixo hegemônico norte-americano e europeu ocidental.

Após a inauguração, mais uma vez foram realizados os seminários teóricos, com duração de dias inteiros, no auditório do Museu Nacional de Bellas Artes (edifício dedicado à arte cubana). Operando como território crítico e sob o preceito de fundar plataformas de pensamento paralelas à bienal, o programa teórico contou com a excitante apresentação das palestras “Altermodernidad”, de Nicolas Bourriaud, e “Conflictos Civilizatorios”, de Francisco Jarauta (professor de filosofia da Universidade de Murcia, na Espanha).

No calendário dilatado por tantas aberturas diárias de exposições colaterais à bienal, duas obras saídas diretamente de seu tempo irromperam no espaço, ao tentar lançar um pouco de luz sobre as multicamadas do laboratório social e político chamado Cuba. Dois artistas que hoje tão bem arranham esta língua particular de difícil tradução são os cubanos Tania Bruguera e Duniesky Martín.


Guerra fria

Em paralelo ao programa de formação experimental Cátedra Arte de Conducta (Galeria Habana), com jovens artistas, Tania Bruguera (1968) apresentou na última noite de inaugurações da bienal, no Centro de Arte Contemporânea Wifredo Lam, uma performance que dividiu opiniões e suscitou estranhos desejos de sentido sobre o que um púlpito vazio pode despertar num controlado cidadão cubano.

Com o microfone ligado, a tribuna construída por Bruguera atraía as pessoas pela força da visão insólita de se ter voz ativa e livre durante apenas 1 minuto. A única condição exigida para se participar era não ultrapassar o tempo estipulado, caso contrário seria rechaçado publicamente por truculentos “soldadinhos” que davam apoio à ordem no palanque aberto.

Vários ‘‘candidatos’’ precipitaram-se para protestar contra a censura ditatorial que enfrentam no cotidiano de seu país. Inclusive Yoani Sánchez (1975), a filóloga blogger que, em seu site na internet (http://desdecuba.com/generaciony), publicou uma obra-chave para se compreender Cuba e sua juventude no século 21: “Generación Y”. Sánchez ganhou em 2008 o prêmio espanhol Ortega y Gasset de jornalismo digital, que ela foi proibida de receber por seu posicionamento anticastrista. Foi também incluída na lista das 100 pessoas mais influentes do mundo pela revista “Time”.

Uma pomba treinada para bater asas ao redor de quem dava voz ao microfone na performance de Bruguera remetia às imagens de TV com aves similares sobrevoando Fidel Castro, em 9 de janeiro de 1959, no momento em que ele pronunciava um importante discurso promulgando a conquista de Havana e o triunfo da revolução.

A tensão entre o público crescia já que, com tanta gana de chegar a ter uma voz, as bocas colavam desesperadamente ao aparato, gerando uma incomôda microfonia, ao ponto de ninguém ouvir os protestos. A impressão que se teve ao término da performance é que houve uma possível abreviação da ação coletiva, mesmo tratando-se de um trabalho oficial, devidamente aprovado pelo comitê organizador.

É provável que esse trabalho artístico entre para a história da arte, com ou sem permissão de Estado. Mas fica aqui uma indagação ocular: tratada como contrarevolucionária por muitos de seus compatriotas, Bruguera que tem uma obra notadamente crítica e resistente ao poder pós-revolucionário de seu país, mas como artista o que vai fazer no dia em que Fidel Castro morrer? Sem dúvida um difícil recomeço (para todos os cubanos).


Perestroika intertextual

O artista Duniesky Martín (1983) inaugurou numa noite clara de primavera o programa de filmes “Full Screen: Drive-in Returns to Havana”. Ele exibiu a primeira parte do programa num terreno que serve como estacionamento, localizado ao lado do tradicional Cine Riviera, zona central de Vedado (bairro de arquitetura racionalista norte-americana dos anos pré-revolução).

Automóveis americanos rabos-de-peixe dos anos 1950 surgiam dispostos em semicírculo, numa forma tão convidativa, que o público abria as portas dos carros, sentava-se e assistia a alguns dos filmes de Martín.

O público, compelido a se entreter com o “american way of life” de outrora, desfrutava do espetáculo frívolo e da diversão rápida, fácil e barata (e como se anseia aqui por este divertimento!). A presença da figura cínica de um super-herói no “full screen” ao ar livre entrelaça dois tempos trans-históricos: o consumismo ingênuo e perdido dos anos 1950 e o status quo do poder pós-revolução, ao longo de uma colagem pastiche da primeira cinematografia revolucionária.

Os exercícios de montagem e edição fílmica sobre quadros em movimento de musicais, por exemplo, obrigam Martín a resgatar imagens inocentes de celulóide em arquivos esquecidos de produções primevas sobre a Revolução Cubana (1959). Esses mesmos filmes abandonados nos porões da radical transformação política conduzem o público a se sentir, por espelhamento cultural, não como dissidente, mas como o último dos românticos cubanos.


Amor e ódio supratemporal

O Museu Nacional de Bellas Artes abriu paralelamente a exposição “Chelsea Visits Havana”: um aglomerado de obras de arte de artistas residentes em Nova York, representados por suas respectivas 28 galerias baseadas na região do Chelsea em Manhattan (Sean Kelly Gallery, Barbara Gladstone etc.).

Empilhavam-se desordenadamente lado a lado peças de Marina Abramovic, Christoph Draeger, Matthew Barney, Guy Ben-Ner e tantos outros artistas de diferentes gerações, formando um dos conjuntos certamente mais “frankensteinianos” da temporada de exposições na cidade.

Ambos os lados do sistema de arte presentes na cidade comemoraram a superação, enfim, de mais de 20 anos em que Havana ficou sem estabelecer qualquer vínculo artístico ou institucional com o mundo da arte norte-americano.

A última exposição com artistas dos Estados Unidos a visitar a ilha havia sido “Por Encima del Bloqueo/ Surpassing the Embargo”, organizada em 1986 pelo Centro de Arte Wifredo Lam. Os artistas participantes de então doaram suas obras à coleção do Museu Nacional, como o fizeram Lawrence Weiner, Nancy Spero, Tim Rollins, K.O.S. e outros.

A partir daí, o estouro surdo do tiro de canhão deflagrado pontualmente às 21h, todos os dias, em memória da resistência de Cuba ao embargo, passa a ter talvez um outro sentido que o de proteger a muralha: faz recordar o conflitivo fato de que os “dealers” de Nova York foram até Havana para não vender e os colecionadores e investidores encontram logo ali, do outro lado do mar, a arte Latina “Made in Miami” para exportação que tanto procuram. Resta-nos somente esperar, agora, que a Bienal de Havana resista ou se insira também no circuito internacional de arte & turismo de negócios.


Publicado em 25/5/2009

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Marcio Harum
É pesquisador do Grupo de Pesquisa Hélio Oiticica e o Programa Ambiental (Faculdade Santa Marcelina, Fasm) e integra a comissão curatorial do Rumos Artes Visuais 2008/2009, do Itaú Cultural.

 
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