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estante

Sergio Medeiros

1. Ubirajara, de José de Alencar (várias edições)

Conciso e eletrizante, esse romance de aventuras, que seu autor chamou de “lenda”, foi publicado em 1874. Ao lado das metamorfoses que aproximam e confundem o humano e o inumano, por meio da língua do “como”, geradora de símiles que rompem a linearidade das fronteiras ao criar contatos entre opostos (o orgânico e o inorgânico), a lei da hospitalidade (um tema de Lévinas e Derrida) é um dos aspectos mais instigantes de "Ubirajara" para o leitor de hoje.

Alencar aponta um dos paradoxos da lei da hospitalidade (o hóspede estrangeiro deveria continuar um estrangeiro, sendo, portanto, tanto hóspede quanto inimigo), e faz dessa lei o motor do enredo. Ao ser cumprida à risca, a lei da hospitalidade gera a hostilidade e desencadeia a guerra entre a nação Araguaia e a nação Tocantins, guerra que, desde as páginas iniciais do romance, já estava anunciada.

Derrida, se tivesse lido esse romance, valorizaria com certeza a sua potência ideológica e a sua atualidade artística. A adoção do “como” (que Clarice Lispector depois também adotaria, como lembrou Haroldo de Campos) obriga a língua portuguesa a cumprir a lei da hospitalidade, recebendo “em casa” uma população de termos tupis.


2. Reading the Maya Glyphs, de Michael D. Coe e Mark Van Stone (Thames & Hudson, Londres)

Nas universidades americanas, amadores e especialistas podem se inscrever em cursos da escrita maia antiga, uma das mais bonitas que conheço, de grande impacto visual. Os maias da Mesoamérica foram, como afirmam os especialistas, grandes cultores dessa arte -a escrita hieroglífica- que, até hoje, está preservada em seus monumentos e que, como a egípcia, une texto e imagem.

Se no Brasil os interessados ainda não podem se inscrever em oficinas, como a que a Universidade do Texas, em Austin, oferece (Maya Hieroglyphic Workshop), podemos, no entanto, sanar em parte essa falta, aprendendo a decifrar os hieróglifos maias com este livro originalmente publicado em 2001, fartamente ilustrado e didático, que se inspirou em "How to Read Egyptian Hieroglyphs" (1998), de Mark Collier e Bill Manley. Basta folhear a obra para constatar até onde foram os maias nessa arte da escrita, que nenhum outro povo ameríndio conseguiu igualar.


3. Haiku, de R. H. Blyth (The Hokuseido Press, Tóquio)

Um clássico sobre essa forma poética breve que, no Brasil, se popularizou sob o nome de “haikai”. Desdobra-se em quatro volumes, assim intitulados: "Haiku: Eastern Culture"; "Haiku: Spring"; "Haiku: Summer-Autumn"; e "Haiku: Autumn-Winter".

No primeiro volume, o estudioso inglês Reginald Horace Blyth (1898-1964), que viveu no Oriente e foi professor do príncipe (na época) Akihito, apresenta as origens do haiku, discorrendo sobre o budismo indiano e o budismo chinês, fontes remotas dessa poesia classificada como “zen-budista”; fala depois do confucionismo e do taoísmo, correntes de pensamento que influenciaram igualmente os poetas japoneses em seu irresistível “retorno à natureza e às coisas”. Assim, verificamos a importância que adquiriu, para esses poetas (que também podiam ser monges), a noção de que a forma é o vazio (a não-forma).

Blyth também chama a atenção para certa busca de uma “arte inartística”, que alimenta todos os textos poéticos que compõem os demais volumes. O autor estuda o haiku e o seu contexto cultural no primeiro volume, fazendo-o dialogar com o haiga, o haiku pintado. O haiga, que poderá ser anterior ao próprio haiku, faz, com o uso da tinta e do traço, o que o haiku tenta fazer com a palavra e a música. Blyth afirma que, pintado ou escrito, o kaiku não é apenas uma arte, mas também, ou sobretudo, um modo de vida.


4. Mallarmé, de Augusto de Campos, Décio Pignatari e Haroldo de Campos (Perspectiva, São Paulo)

Essa antologia contém os poemas mais célebres de Mallarmé, entre eles o importante “L’Azur”, cujo tema, segundo a crítica, é a situação do poeta entre o Real ignóbil (o abjeto) e o Ideal inacessível (o sublime).

O azul, o alto, é o ideal, mas ele é considerado, no poema, da perspectiva do fracasso e da tortura. O azul, no plano simbólico, remete à noção de um Deus indiferente ao homem, de um Deus situado numa distância inacessível para a alma, que clama por ele sempre em vão. Beleza, azul, céu, ideal são nomes e atributos da divindade, mas de uma divindade especialmente indiferente ao destino humano.

Por isso, numa reviravolta ao mesmo tempo irônica e cruel, da qual todo o pessimismo moderno é herdeiro, esse Outro indiferente se tornará o Inimigo. Deus é doravante o inimigo do poeta (de um poeta muito abalado ou enlouquecido). O último verso do poema diz: “Je suis hanté. L’Azur! l’Azur! l’Azur! l’Azur!”.

Ao traduzir para o português esse poema sobre o sublime inumano, Augusto de Campos optou por uma solução surpreendente, sobretudo no último verso, que ficou assim: “O Azul! O Azul! O Azul! O Azul! O Azul! O Azul!” O vocábulo inimigo e danoso é repetido seis vezes, com uma facilidade notável: eis o infinito banal da pós-modernidade, repetido por um poeta demente. A força secreta das palavras se exauriu, ficou a série infinita. Ou seja, o “seis” contemporâneo substituiu o “quatro” moderno, que, por sua vez, já havia suplantado o “três” bíblico, o número sagrado. O mar em que finalmente naufraga o poeta (o mestre) sem deus é um “veludo enrugado por uma gargalhada sombria”, conforme lemos em “Um Lance de Dados”, na tradução de Haroldo de Campos, que fecha essa antologia.


5. The Annotated Snark, de Lewis Carroll (Penguin Books, Londres)

Esse "nonsense poem" de 1876 inaugura um procedimento “novo”, que Carroll adotará depois no seu texto mais ambicioso, "Sylvie and Bruno", considerado pela crítica, ou parte dela, o fracasso mais interessante da literatura inglesa. O poema em questão, sobre uma caçada impossível em alto mar, nasceu (sem plano prévio) a partir de um verso misterioso -“For the Snark was a Boojum, you see”-, que “veio” ao autor subitamente, durante um passeio solitário. Na redação final do poema que resultou dessa experiência, o referido verso ocupou a última linha da última estrofe: o meio e a introdução foram concebidos em função dele.

No segundo canto (ou “desmaio”) do poema, ficamos sabendo que o mapa, à disposição dos marinheiros e viajantes, é uma folha em branco. Começa-se a viagem/caçada pelo naufrágio, pelo mistério. Depois, traça-se o itinerário. Esse poema dialoga com o final de “Um Lance de Dados”, onde Mallarmé escreve: “RIEN N’AURA EU LIEU QUE LE LIEU”, “NADA TERÁ TIDO LUGAR SENÃO O LUGAR” (tradução de Haroldo de Campos). O lugar (do) branco. Cada canto ("fit") do poema de Carroll é um desmaio, uma crise, uma convulsão, em suma, um “deu um branco” mallarmeano e contemporâneo.


6. Tudo e Nada, de Macedonio Fernández (Imago, Rio de Janeiro)

Livro muito engraçado, que reúne textos importantes do grande autor argentino ("Pequena Antologia dos Papéis de um Recém-chegado" é o subtítulo), que afirmou certa vez no meio de uma página: querido leitor, agora não estou escrevendo, estou calado para meditar... Há muito de Carroll e Mallarmé em Macedonio. E de Poe, também. E Pirandello etc.

O autor portenho abominava a verdade da vida e, consequentemente, a cópia da vida. A sua arte não era realista e incentivava uma leitura anárquica: “Ao leitor que pula páginas me dirijo”, escreve Macedonio. “Comigo, o leitor que salta é quem mais se arrisca a ler seguido.”

O leitor que lê seguido seria, talvez, um tipo de estátua. E sabemos o que Macedonio pensava das estátuas (sua postura antecipa, parece-me, a de Henri Michaux, que tentou ensinar as estátuas a andar): “Não me perguntem agora por que os comissários mais abusivos sempre se abstiveram de prender quaisquer estátuas, que vivem nas praças como vagabundos, ostentando o mau exemplo da vadiagem. Abomino as estátuas”.


7. Bestiary, de Richard Barber (The Boydell Press, Woodbridge, Inglaterra)

Belíssima versão do manuscrito "Bodley 764", um dos mais famosos bestiários do século XIII. Contém todas as ilustrações originais. Um bestiário medieval como esse reúne a descrição de animais possíveis e impossíveis, reais e fabulosos. Para alguns autores, um bestiário é um trabalho sério de história natural, no qual a nossa biologia foi fundada. O leão, desde sempre o rei dos animais, convive, por exemplo, com o unicórnio, que simboliza Jesus Cristo.

Um bestiário medieval visava divertir e instruir, e por isso era repleto de citações bíblicas. O unicórnio, por exemplo, vem cercado de frases dos apóstolos. Ele não podia ser caçado, pois era extremamente veloz, porém, quando encontrava na mata uma virgem, se aproximava dela e adormecia no seu colo. Então os caçadores o capturavam.

Essa cena reproduz a história de Cristo na Terra, desde a concepção miraculosa até a crucificação. Talvez o animal mais curioso dos bestiários seja a formiga-leão, a única criatura fantástica que não podia ser representada: era metade leão e metade formiga (ela aparece no bestiário de Jorge Luis Borges, "O Livro dos Seres Imaginários").


8. Métodos, de Francis Ponge (Imago, Rio de Janeiro)

Ao discorrer sobre o mutismo das coisas, o poeta francês propõe um novo humanismo, ou um pós-humanismo. Ele constata que, seja qual for o objeto, “basta querer descrevê-lo, ele se abre por sua vez, torna-se um abismo”. Não há nada mais revolucionário do que um objeto, conclui Ponge. A contemplação é um ato estético-político, pois as coisas nos “desarranjam”. “Não, não”, exclama Ponge, “vejam, o que eu procuro é sair dessa ciranda insípida em torno da qual o homem gira a pretexto de ser fiel ao homem, ao humano, e onde o espírito (pelo menos o meu espírito) se entedia mortalmente. E isso qualquer objeto me permite”.

Quando o místico Bataille perguntou a Ponge se ele não temia ficar louco contemplando um inseto, ouviu do poeta que este “tinha vários insetos em preparação, virados para a parede, como os pintores têm quadros que eles começam, depois encostam, depois desencostam etc., e que bastava passar, no derradeiro instante, da vespa para a aranha, por exemplo, para ter a certeza de não me perder”. Os textos reunidos neste livro são ensaios e também poemas, escritos por um Ponge que se declara “farto do homem”, mas que, ao mesmo tempo, anseia pelo “homem com mil qualidades novas, inauditas”.


9. Composition in Retrospect, de John Cage (Exact Change, Cambridge, EUA)

Publicado em 1993, é um livro póstumo, pois o músico e poeta John Cage morreu em 1992, aos 79 anos, em Nova York. Na seção “Themes & Variations”, o autor arrola 110 idéias cruciais que nortearam seu trabalho e sua vida: necessidade de poesia, afirmação da vida, a arte como imitação da natureza em seu modo de ação, mente vazia, indeterminação, processo em vez de objeto, vamos em direções diferentes, a mente pode mudar etc.

Em outros seções do livro, o leitor encontrará os famosos mesósticos, que são poemas na aparência elementares (tomam como referência o acróstico, ou melhor, o mesóstico), mas que, nas mãos de Cage, adquirem alto rendimento poético. Fazer mais com menos -é sempre possível engrossar o caldo (“to thicken the plot”). Pois o objetivo é não ter objetivo: constelação de ideias...


10. Sans Offenser le Genre Humain (Réflexions Sur la Cause Animale), de Élisabeth de Fontenay (Albin Michel, Paris)

Autora do clássico contemporâneo "Le Silence des Bêtes (La Philosophie à l’Epreuve de l’Animalité"), de 1998, Elisabeth de Fontanay, neste novo ensaio, lançado em 2008, dialoga com Derrida, então já falecido, e discute os limites do humano, mostrando que entre o homem e o animal proliferam as fronteiras. E essas fronteiras fogem ao domínio da ontologia, que gostaria de traçar uma linha rigorosa e contínua entre o humano e o inumano. A filósofa francesa conclui que não se pode nem se deve definir o ser humano, seja do ponto de vista ético, político ou científico. É hora de mudá-lo.


Publicado em 10/5/2009

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Sergio Medeiros

É poeta e ensaísta, autor de "Alongamento" (Ateliê), "Mais ou Menos do que Dois" (Iluminuras) e tradutor do poema maia "Popol Vuh" (Iluminuras,  finalista do Prêmio Jabuti em 2008), entre outros livros. É professor de literatura na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).



 
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