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a.r.t.e.
PALCO

Entre o sertão e o abismo
Por Fernando Masini


O ator João Miguel em cena da peça "Só"
Janice D'Avila/Divulgação

Um dos atores mais talentosos do país, João Miguel recorda sua trajetória no teatro e no cinema e fala da peça "Só", em cartaz em São Paulo

Depois de cinco anos e 14 filmes, João Miguel volta ao teatro para mais um voo solo. No espetáculo “Só”, em cartaz até 17 de maio em São Paulo, o ator retoma o tema da solidão e diz ter um novo desafio pela frente. “Eu me identifiquei com a necessidade de reinvenção que o homem precisa ter. Eu tento emprestar algumas memórias minhas para este homem, que é muito comum e solitário”, diz.

A peça foi escrita pela jovem dramaturga italiana Letizia Russo e dirigida pelo também ator Alvise Camozzi. Fala sobre um homem de meia idade que recupera lembranças ao retornar para a cidade onde teve uma iniciação sexual com outro homem, num ambiente moralista do interior. É um monólogo que mistura fantasia e realidade.

“É como se aquele homem estivesse num momento de passagem crucial. Ele precisa daquele reencontro, que não necessariamente é real”, afirma. João Miguel acredita estar construindo uma trilogia da solidão nos palcos, cujo ponto de partida foi o espetáculo “Bispo”, de 2004. Na época, ele chamou atenção ao interpretar o artista Arthur Bispo do Rosário, que sofria de esquizofrenia e construiu toda a sua obra em um hospital psiquiátrico.

A atuação impressionou Marcelo Gomes, diretor do filme “Cinema, Aspirinas e Urubus”, que chamou João Miguel para participar do projeto. O ator ganhou mais de uma dezena de prêmios, incluindo o da Mostra de Cinema de São Paulo e o do Festival do Rio, de 2005. Assim João deu as caras ao grande público. Destacou-se como um pai turrão em “Mutum” (2007), de Sandra Kogut, e protagonizou no mesmo ano “Estômago”, no papel de “um cara antropofágico que engole os patrões a partir de seu talento para a comida e de sua fragilidade”, como define o ator.

Com “Estômago”, João pôde exercitar uma paixão antiga: ser palhaço. Desde que participou de uma oficina com o ator paraibano Luiz Carlos Vasconcelos, quando ainda era adolescente, aprendeu a entender o espírito do palhaço e incorporou essa veia cômica em oficinas para meninos de rua, no interior da Paraíba. “Eu levo o palhaço para todo lugar. Ele é o estado do patético, é o estado em que o homem pode se desnudar com todo o seu ridículo.”

Aos 39 anos, João Miguel não perdeu a paixão de questionar o que faz. Ele revela na entrevista a seguir as agruras de ser ator no Brasil, fala de suas idas e vindas ao sertão e de seu interesse pelos "lugares-limite": "Me interessa a fronteira entre o que pode dar certo e o que pode dar errado. Eu gosto de desafios. Minha vida toda é destinada a esse espaço do abismo".

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Você me disse estar ainda descobrindo o texto da peça "Só", após o espetáculo que eu assisti. É comum o ator decifrar o texto depois da estreia?

João Miguel: A cada espetáculo você redescobre algo novo. Meu último solo, "Bispo", foi feito a partir de uma biografia, "O Senhor do Labirinto", construído como um roteiro de cinema pelo Edgard Navarro (o diretor da peça). Foi um trabalho minucioso de dramaturgia de cena, que eu gosto muito. Você cria várias frentes de trabalho até chegar na dramaturgia final. É uma colagem de cinema dentro do teatro.

No caso de “Só”, foi tudo muito rápido, só tivemos um mês e meio de ensaio. Eu falo o texto quase literalmente como ele é. É um exercício novo e interessante para mim, porque a estrutura do texto é um pensamento falado. Às vezes ela é quase literária, revelando algo muito íntimo.


Não tem lugar para improvisação?

Miguel: Neste caso, não. Há lugar para estados de emoção. Como eu falei, estou descobrindo o espetáculo fazendo ele, vou buscando soluções a partir desses estados de emoção. O personagem volta para a sua cidade 30 anos depois e você não sabe direito o que está acontecendo. Aos poucos, ele vai se revelando. Revela uma coisa muito íntima: seu primeiro encontro sexual com outro homem.

Aí você fica sabendo que ele saiu expulso da cidade. Essa descoberta sensorial dele é podada moralmente. Acho isso muito bonito no texto. Diz respeito a aspectos do mundo em que a gente vive hoje. O moralismo corre junto a uma necessidade de reinvenção. É como se aquele homem estivesse num momento de passagem crucial. Ele precisa daquele reencontro, que não necessariamente é real. Você não sabe direito se ele está recordando ou se ele realmente revisita aquele lugar.


A solidão de que trata a peça tem a ver com a sua vida?

Miguel: Tem a ver com os aspectos que me interessam revelar. O fato de ser um monólogo já é um espaço solitário de revelação. Às vezes eu penso que estou começando a construir uma trilogia sobre a solidão, que começa com o “Bispo”. Esse espaço de intimidade do homem, de reclusão, faz com que ele se rebele de alguma maneira.

É também um espaço de risco, de desafio. Me interessam os lugares-limite, a fronteira entre o que pode dar certo e o que pode dar errado. Isso desde sempre me acompanhou. É uma sensação do tipo: "O que eu estou fazendo aqui?". Eu sempre fui muito tímido e até hoje sou, ao mesmo tempo é contraditório, porque eu gosto de desafios. Minha vida toda é destinada a esse espaço do abismo.


Como surgiu a ideia da peça? Foi iniciativa do diretor Alvise Camozzi ou você entrou em contato com a dramaturga italiana Letizia Russo?

Miguel: Foi ideia do Alvise. Eu fiz com ele uma minissérie para a TV Cultura, chamada "O Louco dos Viadutos". É um projeto experimental, dirigido pela Eliane Caffé. Aliás, é um projeto superimportante para a televisão. Hoje a televisão é um espaço de indústria muito forte, e acredito que seja também um espaço de experimentação.

Ali eu conheci o Alvise, que é diretor e ator. Ele me apresentou o texto da Letizia. Eu li e fiquei bastante interessado pela maneira como ela escreveu a peça. O que eu busco no espetáculo é trabalhar as camadas do texto. Tento vencer as armadilhas dele.


E você disse que não teve muito tempo para assimilar o texto.

Miguel: Tive um mês e meio para montar meu personagem. Foi uma maneira de voltar ao teatro, numa estrutura de precipício. Eu precisava voltar ao teatro. Fiquei quatro anos longe dos palcos. É bom esse retorno, porque o teatro é um espaço sagrado para mim. Eu nunca estou satisfeito, busco o tempo todo.

Em “Só”, especialmente, a transposição das palavras para estados de emoção é uma busca constante. O exercício de cada noite tem sido esse: estrear encontrando, buscando, ensaiando. É um desafio novo. O resultado de um trabalho vai sempre te levar a um novo resultado, a novas perguntas. Isso me interessa, mais do que o campo das respostas.


O personagem de “Só” retoma o passado e explora as lembranças como se fizesse um acerto de contas. Você costuma voltar ao seu passado?

Miguel: Se a gente se identifica com um texto é porque ele nos reflete de alguma forma. Mas a maneira que eu represento é bem diferente do meu comportamento na vida. Eu me identifiquei com a necessidade de reinvenção que o homem precisa ter. Eu tento emprestar algumas memórias minhas para este homem, que é muito comum e solitário. Eu preciso dialogar com a minha humanidade. Eu não acredito na construção de um personagem que esteja totalmente fora de você.


Você pode dar como exemplo alguma lembrança sua que ajudou a construir um personagem?

Miguel: O encontro do Bispo do Rosário com a Rosângela Maria, a psicóloga, na peça “Bispo”. Ele a encontra e diz: "Um dia, você vai me ver como eu sou, um dia você vai ver a minha aura". A partitura física da cena é na verdade uma memória minha da infância. Aquele corpo, aquela postura, eu descobri nas minhas lembranças, quando vi o Papai Noel pela primeira vez na casa de minha avó, debaixo da mesa, com medo. Eu precisei partir daquela memória e depois coloquei o personagem. Assim se forma um conflito entre as duas coisas. E, na verdade, o espectador verá uma terceira coisa.


A volta ao teatro foi uma opção deliberada, depois de quatro anos longe dos palcos?

Miguel: Eu tive uma curiosidade enorme de experimentar a linguagem do cinema. O cinema é uma experiência vertiginosa da câmera que capta sua alma. Eu vivi intensamente, durante cinco anos, essa experiência de fazer cinema. Fiz 14 filmes. Mas sempre fui muito criterioso na hora de escolher cada um. Preciso me apaixonar de alguma maneira pelo projeto. Não me interessa se vai ser sucesso ou não. Me interessa a possibilidade do exercício, da construção dos personagens. Aí, eu saí do teatro e entrei direto no cinema.


Com o filme "Cinema, Aspirinas e Urubus", não?

Miguel: Marcelo Gomes (diretor do filme “Cinema, Aspirinas e Urubus”, de 2005) viu o “Bispo” e me chamou para fazer o filme. Ele sacou que tinha alguma coisa no meu olhar, na minha humanidade. Eu achei muito bacana isso. O filme é extremamente humano. Foi fundamental para mim porque é uma obra apaixonada.

Foi meu primeiro filme, o primeiro filme do Marcelo e o primeiro do Mauro Pinheiro (diretor de fotografia). O resultado ficou maior do que a gente. Essa chegada no cinema foi importante também para eu descobrir que o cinema brasileiro que eu acredito tem a ver com essa origem. A gente não pertence a uma superindústria. O que faz com que um filme se torne peculiar é esse conjunto. Foi uma porta de entrada muito legal.


O sertão tem um significado especial para você? É o ambiente de "Cinema, Aspirina e Urubus" e existe esse clima também em "Mutum", como se fosse um sertão mineiro.

Miguel: Muitíssimo. Acho que o Brasil tem vários corações. Minas Gerais é um deles. Eu gosto muito de me deslocar. A minha carreira é feita por meio de deslocamentos. Eu acredito nisso, no deslocamento físico, para que você possa se conhecer melhor.

A metáfora do sertão tem um significado grande no nosso país: o isolamento, as peculiaridades, as temperaturas, os ambientes externos e o ambiente interno. Como a natureza reverbera dentro de você. Houve pessoas que entraram no olho do furacão do Brasil. Guimarães Rosa é um desses caras. Eu sempre construí meus personagens me deslocando, olhando.


Você chegou a morar no sertão?

Miguel: Eu sou baiano e passei minha infância em Salvador. Tive uma passagem pela ilha de Itaparica bem forte, em Barra Grande, numa vila de pescador. Na época não tinha nem luz elétrica. Era uma coisa muito africana, a cultura negra presente. Dos 5 aos 15 anos, frequentei a ilha e cheguei a morar lá, com meus padrinhos e minha mãe. Foi um período importante. Com 18 anos, fui para o Rio de Janeiro. Depois fui morar na Paraíba, com o grupo de teatro Piolin.


Era um grupo de circo também, no qual você fazia um palhaço, não?

Miguel: Sim. O palhaço é um personagem que me acompanha há muito tempo. Nasceu com o (ator e diretor paraibano) Luiz Carlos Vasconcelos, no Rio de Janeiro, numa oficina que ele deu. Depois disso, fiz parte de uma pesquisa profunda e fui trabalhar com o grupo Piolin na Paraíba.

Um dos espetáculos que me marcou nesse período foi “Vau da Sarapalha”, uma adaptação de Guimarães Rosa. Morei dois anos na Paraíba e tive a oportunidade de conhecer de perto o sertão. A gente se deslocava, dava aulas para meninos de rua, em João Pessoa, e encenava a peça “Sarapalha”. Às vezes, viajávamos com o grupo para o sertão. É louco pensar que o “Cinema, Aspirinas e Urubus” foi filmado na Paraíba também. Foi meu reencontro com aquele lugar.


Você participou também de um programa mirim de entrevistas na época em que morava em Salvador.

Miguel: Isso foi com 10 anos. Quando fiz a primeira peça, eu tinha nove. Era “O Cavalinho Azul”, subi no palco do teatro Castro Alves, um espaço muito importante da cidade. Foi engraçado, porque eu fazia um vendedor de cavalinhos e entrava pela platéia. Nessa época, eu morava no prédio de uma atriz que morreu recentemente, a Nilda Spencer.

Passava o dia inventando personagens, vestindo as roupas do meu pai, da minha mãe. Tinha um mundo bem particular. Aí desenhava os personagens e depois ia vivê-los. Criava histórias e sagas incríveis, medievais. A Nilda viu isso tudo e falou com o diretor de teatro Nonato Freire, um amigo tropicalista dela. Ele me chamou para participar de um programa com entrevistas mirins, muito inovador para a época. Tão inovador que durou pouco.

Foi uma experiência maravilhosa, porque ele nos dava um roteiro, e a gente improvisava em cima. A turma influenciava na pauta também. Até que um dia eu fui entrevistar o Glauber Rocha. Eu cheguei para ele e falei: “Glauber, eu vou te perguntar uma pergunta”. E ele disse: “Eu vou te responder uma resposta”. Eu falei: “Eu fiz alguma coisa errada”. E o Glauber: “Não, está tudo certo”.

 
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