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LITERATURA BRASILEIRA

O leite derramado de Matilde
Por Leyla Perrone-Moisés

Leitura sociológica ignora aquilo que faz a universalidade do novo romance de Chico Buarque: sua análise da paixão e do sofrimento feminino

As primeiras críticas publicadas sobre “Leite Derramado”, todas escritas por homens, não fizeram justiça à principal personagem da trama. Ora, o romance, para além de suas referências históricas e sociológicas, é a história de uma mulher que, embora exposta de modo indireto, pelas linhas tortas da memória do narrador, tem uma consistência e uma pungência excepcionais. O livro não é apenas divertido. A história de Matilde é de uma profunda tristeza.

Chico Buarque letrista, entre outras coisas, sempre foi admirado por sua capacidade de se colocar no lugar das mulheres, e de conhecer a fundo aquilo que se convencionou chamar de “alma feminina”. Matilde vem juntar-se, no registro romanesco, à longa galeria feminina das canções de Chico, como uma personagem maior. Não é porque Matilde é limitada intelectualmente e espontânea em seus comportamentos que ela “não tem psicologia”, como disse um crítico. É porque ela é mostrada através dos olhos do marido, que nunca a compreendeu e sempre a reprimiu. Mas as alegrias e a tristeza final de Matilde estão expostas, para o leitor, de modo admirável.

Uma das grandes qualidades deste romance é a habilidade com que o escritor consegue criar essa personagem pelo olhar obtuso de Eulálio, semeando índices para ele invisíveis, mas plenamente legíveis para o leitor. Esses índices que vão compondo a personagem, não por acaso cifram-se nos achados estilísticos mais notáveis do livro, que não provêm da capacidade expressiva do narrador, mas da maestria escritural do romancista.

A vitalidade e a espontaneidade de Matilde aparecem desde a primeira página do livro, quando ela é lembrada voltando “afogueada” da praia. No decorrer da narrativa, são inúmeras as expressões felizes e originais encontradas pelo escritor para fixar seus comportamentos e sua personalidade. Matilde “saía da igreja como quem saísse do cinema Pathé”; cantava o Réquiem ruborizada, com “olhar em pingue-pongue” e “um riso contido”; aproxima-se de Eulálio “não em linha reta, mas em parafuso, a se entreter com meio mundo à sua volta, como se estivesse numa fila se sorveteria”; “corava pouco a pouco até ficar bem vermelha, como se em dez minutos passasse por seu rosto uma tarde de sol”; entrava no mar “daquele jeito dela, como se pulasse corda”; saltitava na calçada “como se jogasse amarelinha”. Etc.

Mas não são apenas brilhantes e engraçadas as indicações sucintas do comportamento de Matilde. À medida que a trama se esclarece, elas alcançam um teor poético igualmente notável: “A respiração de Matilde chamava as ondas, que lhe respondiam com seu espraiar. Passar uma noite sem Matilde me parecia tão improvável como cessarem todas as ondas sem mais nem menos”.

Que o narrador Eulálio nunca compreendeu a mulher fica claro desde o início de seu relato, quando ele procura “adivinhar seus pensamentos tão distantes” ou lembra que, “num deslize, Matilde sempre me escapava”. A verdade, que o leitor vai deduzindo, é que Matilde era uma pessoa bem mais saudável e estimável do que o marido, fato do qual ele, apesar de tudo, desconfia: “Não sei se existe um destino, se alguém o fia, enrola e corta. Nos dedos de alguma fiandeira, provavelmente a linha de vida de Matilde seria de fibra melhor que a minha, e mais extensa”. Ele reconhece, também, que com outro homem, de “alma delicada”, “com um homem que se contentasse a ser o que eu não era”, Matilde poderia ser mais feliz.

“Matilde era leve de espírito”, repete ele no relato. Apesar das sucessivas frustrações impostas pelo marido, ela sempre está alegre, perdoando e esquecendo. O comportamento do marido, ao excluí-la dos eventos sociais, depois de ela ter ido ao cabeleireiro, feito as unhas, vestido roupa nova, pode parecer uma pequena maldade, mas a mesquinhez do fato não dá a medida da mágoa. Eulálio pensa que lhe comprar uma vitrola nova, depois de ter chutado a velha, e trazer-lhe flores, conserta tudo. Na verdade, isso funciona temporariamente porque Matilde é boa esposa e boa mãe, vital e generosa. Mas essas qualidades são vistas negativamente para o marido que, por preconceito de classe e por ciúme, considera-a pouco circunspeta e vulgar.

A cor dos vestidos e chapéus de Matilde é sabiamente salpicada ao logo do texto e adquire significado. A cor laranja, sua preferida e detestada por Eulálio, é a cor vista em delírio, no quarto de hotel, e a cor do próprio ciúme: “Era alaranjada a raiva cega que tive da alegria dela”. Também é “cor de abóbora” o selo da carta narrando o fim de Matilde. Eulálio atenua essa cor comprando para a mulher um vestido bege. Como nenhum elemento desta narrativa é casual ou supérfluo, o laranja é a cor complementar do azul, que é a do vestido comprado pelo pai para o amante, cor aceita pela sociedade, mas ligada a um real adultério. Azul também é o sol que cega Eulálio à procura de Matilde: “Era um círculo azul celeste, à distância parecia o vestido rodado da mulher casada com quem seu pai teve o último romance”. Os dois vestidos, o laranja e o azul, são complementares, e na mente de Eulálio ambos remetem ao adultério.

A cor da pele também é obsessivamente lembrada, e pertence ao aspecto de crítica social do romance. Para Eulálio, Matilde era “castanha”, descendente de mouros ibéricos ou de índios, jamais mulata. Entretanto, é a ambiguidade malsã do racismo que provoca tanto o desejo como a recusa. Jovem, Eulálio pensava em “enrabar o Balbino”, o criado negro, e só esquece essa “bobagem” ao conhecer Matilde, que virá ocupar o lugar das antigas escravas que seu avô ia procurar na senzala. Ironicamente, o escritor faz o narrador dizer: “A convivência com Balbino fez de mim um adulto sem preconceitos de cor”. Como em muitos outros pontos do romance, a falsidade é captada pelo leitor e não pelo narrador.

A cena central da trama, à qual remete o título do livro, tem uma força extraordinária, do ponto de vista humano e literário. O contraste das elucubrações de Eulálio com a realidade que finalmente se expõe é uma peripécia e uma revelação, como as das melhores narrativas desde as tragédias gregas. De seu ponto de vista masculino e egoísta, os gemidos de Matilde só poderiam provir de um ato sexual adúltero. A interpretação de Eulálio é, como sempre, mesquinha: “E quando eu ajeitava os antúrios na sala, tive a surpresa de ouvir Matilde chorar baixinho, desafogar de vez em quando só lhe poderia fazer bem (...) Mas subitamente, do nada, me subiu à cabeça uma quentura violenta, senti minha pele se repuxar. Num instante fui tomado pela idéia de que havia um homem com Matilde, eu já ouvia os ofegos do homem mesclados aos gemidos dela”.

Mas a realidade é outra: “Cheguei sem fôlego à porta entreaberta do banheiro, e o que vi foi Matilde debruçada na pia, como se vomitasse (...) Corri para a abraçar, envergonhado de meu mau juízo, mas ela aprumou o vestido bruscamente e se esquivou de mim, deixando a torneira aberta. E vi respingos de leite nas bordas da pia, o ar cheirava a leite, vazava leite do vestido de sua mãe”. Nada mais triste do que este leite e esta vida desperdiçados. E aquele “chorar baixinho”, que já conhecíamos de uma famosa canção de Chico.

O tema do leite já havia sido introduzido na narrativa: Matilde tinha seios fartos, seu leite era “exuberante”, amamentava a filha com prazer e sem pudor. O leite é a metáfora da vida, que abundava em Matilde. Ao leite se contrapõem, no romance, outros líquidos vitais, masculinos: o sêmen e o sangue. Embora também vitais, esses líquidos são associados à morte. O sêmen é evocado em conexão com o assassinato do pai: “Mas vai restar visível uma mancha úmida no colchão, que tratarei de virar como faço toda manhã, deixando para cima o lado das manchas secas. Terei a sensação de que o colchão pesa mais um pouco a cada dia (...) E pensarei que, se eu tivesse virado o corpo do meu pai na garçonnière, ele pesaria igual ao colchão e exalaria o mesmo cheiro (...) E queria entender por onde entraram tantas balas, porque parecia que todo o sangue dele tinha saído pela boca, aquela grande úlcera”. Desperdício de vida, como o leite derramado; mas o do sangue provinha da culpa do pai, enquanto o do leite de Matilde é pura perda, sofrimento que se esvai pelo ralo da pia e que permance, para Eulálio, um “mistério”.

O narrador apresenta várias versões da “desaparição” de Matilde. A palavra “desaparição”, mais rara e mais abrupta do que “desaparecimento”, soa em contraponto à “aparição” da jovem na igreja, cena descrita obsessivamente por Eulálio. E a última visão de Matilde, sob o chuveiro, é uma verdadeira aparição, uma chamada do outro mundo ou uma derradeira visita da saúde.

As cinco versões do sumiço de Matilde são as seguintes: morte de parto; morte em desastre de automóvel na antiga Rio-Petrópolis; morte por afogamento; fuga para a França com o engenheiro francês; morte por tuberculose num sanatório. As três primeiras versões são contadas à filha, segundo o próprio narrador, como “mentiras piedosas”. A fuga para a França narrada toda no condicional, é claramente reconhecida como imaginação de um ciumento. A última parece ser a verdadeira, porque quando ela é contada à filha o narrador usa o verbo “revelar”: “revelei-lhe que...”. Mas, depois de tantas versões falsas, esta também fica sujeita a dúvida para o leitor. Ainda mais que Eulálio nunca abriu a carta do médico que narrava a doença.

Qualquer que tenha sido o fim de Matilde, ela foi uma vítima. Quando ela se fechou no quarto, tanto poderia ser por capricho, como por renunciar a ser ela mesma, depois de tanta censura do marido. Usar os vestidos longos e sem graça que lhe dera a sogra era abdicar à própria personalidade. E seu fim pode ter sido generoso: sabendo estar tuberculosa e não querendo contaminar o marido e a filha, desapareceu “como desaparecem os gatos, com pudor de morrer à vista do seu dono”.

A criação de uma personagem feminina tão nítida e cativante, apesar de construída num discurso indireto e por meros índices, confirma “Leite Derramado” como um grande romance, que não pode ser avaliado exclusivamente pela crítica sociológica, mas que, por sua dimensão psicológica de análise da paixão, do ciúme masculino e do sofrimento feminino, tem um alcance universal.


O livro:

"Leite Derramado", de Chico Buarque. Ed. Companhia das Letras. 200 págs., R$ 36.

Publicado em 26/4/2009

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Leyla Perrone-Moisés

É professora emérita da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP e autora de, entre outros, "Vinte Luas", "Altas Literaturas" e "Vira e Mexe Nacionalismo" (Companhia das Letras).



 
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