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a.r.t.e.
REI

Roberto Carlos, o redentor
Por Henry Burnett


O cantor e compositor Roberto Carlos durante coletiva de imprensa em São Paulo
Marcelo Mitidieri

Elo mais forte do cantor com seu público não se fez por meio de canções libertárias ou românticas, mas religiosas

“Hem? Hem? O que mais penso, testo e explico: todo-o-mundo é louco. O senhor, eu, nós, as pessoas todas. Por isso é que se carece principalmente de religião: para se desendoidecer, desdoidar. Reza é que sara da loucura. No geral. Isso é que é a salvação da alma... Muita religião, seu moço!”
Riobaldo, em “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa


Este artigo parte de uma rememoração, por isso, desde já, peço desculpas pelo ponto de partida pessoal. Não creio que esse dado o enfraqueça, porque se trata de um texto comemorativo dos 50 anos de vida musical de Roberto Carlos, o artista mais confessional da história do Brasil.

Era o dia em que eu completava 15 anos. Saía da aula de inglês, e minha mãe me esperava para voltarmos juntos para casa. Ela trazia na mão uma caixa pequena com meu presente de aniversário. Eu ganharia naquele dia meu primeiro “som”, um rádio-gravador preto –que devia ser bem moderno para a época– e duas fitas cassete, uma de Erasmo Carlos (“Mulher”, 1981) e outra de Roberto Carlos, cujo título não consigo lembrar, apesar do esforço e de algumas tentativas de pesquisa, em seu site oficial, dos álbuns da década de 70 e 80.

Esse lapso da memória é proporcional aos momentos que lembro e dos que esqueço que Roberto Carlos existe. Creio que para todos os seus admiradores mais exigentes (os ditos “cultos”) isso se passa igual; podemos esquecê-lo, mas pelo menos uma vez ao ano sua aparição onipresente nos devolve ao seu mundo. Muitas vezes é um prazer ouvi-lo, outras um incômodo saber dele.

Sua vida parece não caber em livro. Sua melhor (e única?) biografia foi banida há pouco tempo das livrarias do Brasil por intervenção sua; foi quando rejeitamos nosso rei pela última vez. Já sua obra musical confunde-se com a vida do povo brasileiro, imersa em uma tensão que nasce de acertos e erros, sem mediações, sem paliativos. Vida nua. É esse vínculo que queremos aprofundar aqui, pois é através dele que amamos Roberto, e não podemos nem queremos esquecê-lo.

Ouvir Roberto sempre foi saber dele e de sua vida, em cada momento, em cada disco ou especial de televisão –o que acabou por criar um laço entre o artista e os fãs que nenhum outro mito da TV e do rádio permitiu ou conseguiu. E Roberto não fazia isso dentro de um programa exibicionista, próprio dos dias de hoje, era assim mesmo que sua música nascia: do embate entre a vida privada, o compromisso com seus súditos e a forma final da canção. Todos éramos (somos?) seus cúmplices.

Roberto nasceu simples, numa cidade do Espírito Santo, chamada Cachoeiro de Itapemirim. Como podemos ler e ouvir através de um depoimento dele próprio em seu site, a infância foi feliz e as brincadeiras de rua diversas e constantes. Interessou-se desde cedo pelo rádio e pelo cinema. Aos nove anos cantou pela primeira vez na rádio de Cachoeiro; declarou que, depois daquele dia, nada mais lhe interessou a não ser a música. O resto da história qualquer brasileiro conhece com poucas variações.

Musicalmente, ele nasceu como quase todos seus contemporâneos, do impacto absoluto do canto de João Gilberto –uma ligação só revelada por ele de modo atabalhoado nos shows recentes em homenagem a Tom Jobim. Não durou muito essa herança do canto falado: foi de 1959 a 1962. Cantava boleros, versões de temas norte-americanos e, claro, muita bossa nova. O compositor Carlos Imperial é figura constante nessa fase, que pode ser ouvida –não sem alguma estranheza– em seu site, que disponibiliza 30 segundos de cada faixa, desde o primeiro 78 rpm até hoje (veja no link-se, ao final deste artigo).

Logo depois, o rock o arrebatou, e ele entrou na fase mais profícua de sua obra. O disco de 1963, “Splish Splash”, abre com “Parei na Contramão”, início da parceria com Erasmo. Visceral, nada define melhor sua ligação com o estilo; até hoje, jovens músicos tem pelo roqueiro Roberto a mesma admiração que tem por Ben Jor; isso basta para entendermos sua importância musical.

No entanto, já naquele momento, outra característica, que acabou predominando ao longo dos anos, se apresentou: seu romantismo. Todos os compactos vinham com uma faixa de rock e outra com canções românticas. Andavam emparelhados os dois estilos.

Mas Roberto lidava com o desejo de modo bem diverso naquela época. A desmesura andava lado a lado com o romantismo e às vezes descambava para o coloquial, simples e deliciosamente cafajeste, como em “Eu Sou Fã do Monoquíni”, parceria com Erasmo, do álbum “Roberto Carlos Canta para a Juventude”, de 1965. “Não posso contar o que vi/ Mas sei que nunca mais esqueci/ Broto tem que usar monoquíni/ Não suporto mais o biquíni”. Em 1968, uma canção romântica, “Eu Não Vou Mais Deixar Você Tão Só”, de Antônio Marcos, substituiria pela primeira vez um tema roqueiro na abertura de um disco seu. Uma mudança sutil, mas não menos importante.

Basta lembrar que sua desmesura foi imediatamente apropriada pelos “Doces Bárbaros”. A gravação de Gal para “Sua Estupidez”, no antológico disco “Fatal”, de 1971, ainda é um momento alto dessa devoção ao grande autor que era Roberto.

Caetano, Gil e Bethânia sempre manifestaram reverência e forte vínculo; basta lembrarmos o disco que Bethânia dedicou a Roberto, “As Canções Que Você Fez pra Mim”, de 1993. Ela é sua grande intérprete.

Caetano escreveu canções marcantes para Roberto, como “Força Estranha” e “Como Dois e Dois”, e recebeu, no exílio, um presente do rei em forma de canção, “Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos” -um quase manifesto pelo retorno do baiano ao Brasil. Só Gil deixou um entrave, pois Roberto não quis gravar “Se Eu Quiser Falar com Deus”, feita para ele; uma canção cética sobre a idéia de Deus, mas cujo conteúdo oculto e por vezes ascético teria sido bem revelado por Roberto, não fosse ele um dogmático. Esse dado permite passar à segunda parte deste comentário.

Aqueles dois estilos, o rock e o romântico, monopolizariam as paradas de sucesso por certo tempo. Mas, em 1978, algo distinto parece ocorrer; Roberto abre o disco com a canção “Fé”, também com Erasmo. Um terceiro campo de expressão estava se abrindo, talvez o mais forte de todos: o religioso.

Em 1981, em “Ele Está pra Chegar”, Roberto cantava o anúncio da volta do Redentor: “Não adianta tentar se esconder/ Nem tão pouco querer se enganar/ Se procure, se encontre depressa/ Ele está pra chegar”. Em 1986, o disco abriria com os versos: “Perto do fim do mundo/ Como negar o fato/ Como pedir socorro/ Como saber exato/ O pouco tempo/ Que resta”; a canção se chamava “Apocalipse”.

“Jesus Cristo”, de 1970, ainda é um dos temas mais lembrados: “Olho pro céu e vejo/ Uma nuvem branca que vai passando/ Olho na terra e vejo/ Uma multidão que vai caminhando/ Como essa nuvem branca/ Essa gente não sabe aonde vai/ Quem poderá dizer o caminho certo/ É Você meu Pai/ Jesus Cristo, Jesus Cristo/ Jesus Cristo, eu estou aqui”.

De modo algum, esta homenagem tímida pretende psicologizar o grande artista. Seria fácil, e banal, contrapor as três bases sobre as quais se sustentam os três estilos mencionados: o instinto, o desejo e a fé. Fácil porque eles estão próximos demais um do outro, e banal porque todos nós vivemos sob esses mesmos desígnios, ainda que só Roberto tenha conseguido transformar isso em empatia musical popular. Mas antes de tratarmos dessa importante mudança estilística, ainda restam outras “identidades” a mencionar no conjunto da obra.

Os temas ecológicos (como “As Baleias”, de 1981, “Amazônia”, de 1989), é bem verdade, não formam um conjunto coeso como a tríade acima; pareciam sempre fruto de intervenções poderosas, mas imediatistas, emotivas. O mesmo pode-se dizer das canções –como dizer, politicamente corretas?– dedicadas às mulheres pequenas, gordinhas, de óculos; a bem da verdade faltou o “desleixo” (poético) e a coragem de um Vinicius nesse quesito. Roberto também se aventurou em aberturas de mercado, gravou em espanhol, italiano e arrebatou fãs calorosos mundo afora.

Mas nada disso é mais profundamente significativo para demonstrar o estreito vínculo entre Roberto e seu povo-público que o traço religioso desenvolvido por último em sua trajetória. É sobre esse vínculo que gostaria de conjecturar, tomando a canção “Nossa Senhora”, de 1993. Antes, peço licença para publicar a letra na íntegra:

“Cubra-me com seu manto de amor
Guarda-me na paz desse olhar
Cura-me as feridas e a dor
Me faz suportar

Que as pedras do meu caminho
Meus pés suportem pisar
Mesmo ferido de espinhos
Me ajude a passar
Se ficaram mágoas de mim
Mãe, tira do meu coração
E aqueles que eu fiz sofrer
Peço perdão

Se eu curvar meu corpo na dor
Me alivia o peso da cruz
Interceda por mim, minha Mãe
Junto a Jesus

Nossa Senhora me dê a mão, cuida do meu coração
Da minha vida, do meu destino
Nossa Senhora me dê a mão, cuida do meu coração
Da minha vida, do meu destino, do meu caminho
Cuida de mim

Sempre que o meu pranto rolar
Ponha sobre mim suas mãos
Aumenta minha fé e acalma
O meu coração

Grande é a procissão a pedir
A misericórdia, o perdão
A cura do corpo e pra alma
A salvação

Pobres pecadores, oh Mãe
Tão necessitados de vós
Santa Mãe de Deus
Tem piedade de nós

De joelhos aos vossos pés
Estendei a nós vossas mãos
Rogai por todos nós, vossos filhos
Meus irmãos

Nossa Senhora me dê a mão, cuida do meu coração
Da minha vida, do meu destino
Nossa Senhora me dê a mão, cuida do meu coração
Da minha vida, do meu destino, do meu caminho
Cuida de mim”.

As canções de Dorival Caymmi confundem-se com a atmosfera baiana; sabemos o quanto ele pode construir de simples e perfeito numa representação de seu povo e sua vida bucólica e negra. Mas mesmo Caymmi declarou o desejo de ver uma canção sua diluída na memória coletiva. Ele teria dito: “Meu sonho é ser o autor de uma ciranda-cirandinha, uma coisa que se perca no meio do povo”.

Caymmi toma como exemplo o canto que cantamos na infância, sem necessidade de origem e autoria, o chamado “domínio popular”. Esse tipo de ensinamento oral é raro mesmo no âmbito da cultura popular hoje em dia.

Pois bem, ninguém além de Roberto Carlos viu esse desejo de Caymmi se realizar com a extensão da canção citada. Outros temas seus foram incorporados ao espaço coletivo das festas religiosas, mas essa canção é cantada com louvor em missas, procissões e em novenas em todo Brasil.

As revelações da letra podem ter diversas origens –suas dores pessoais, seus medos, sua fé, sua devoção–, mas, sem dúvida, é o tema que mais declaradamente o expôs como homem comum. Ainda assim, não é uma canção ingênua, é uma canção popular, comercial, mas se diferencia por não ser ligeira, antes é capaz de se perpetuar na entoação coletiva.

O que ela encerra de emblemático é o fato de que Roberto parece querer ser lembrado –e imortalizado- ao final por seu estilo eclesiástico e não por temas libertários ou românticos. E o povo, que canta essa canção Brasil afora com muita devoção, ama Roberto até o fim porque ele os redime de uma fé enfraquecida pelos ditames de uma igreja velha, que parece desligada dos seus seguidores.

A obra de Roberto encontra em sua fase final o que há de mais básico, comezinho e ao mesmo tempo amplo e identificador do ser do Brasil, a fé do povo. Se em certo momento da década de 30 do século passado Mário de Andrade identificou a verdade do Brasil em sua arte popular, e se essa arte permanece ainda hoje atrelada ao domínio religioso, isso diz muito de nossa identidade como país e do destino de uma obra como a de Roberto Carlos.

Ao implorar zelo de Nossa Senhora e extravasar suas mais íntimas dores e feridas abertas, Roberto se iguala aos seus fãs, deixando sua obra fazer eco em todos os fiéis que igualmente desistiram de ver suas dores superadas. Esse liame espiritual entre Roberto e seu povo-público toca fundo no valor de sua obra, que se encerra explicitando o sentido profundo de sua mais perene designação: REI.


link-se
http://robertocarlos.globo.com/robertocarlos/index.html


Bibliografia básica:

“Roberto Carlos Em Detalhes”, de Paulo Cesar Araujo (Ed. Planeta do Brasil)

“Como Dois e Dois São Cinco”, de Pedro Alexandre Sanches (Boitempo Editorial)

“Folha Explica Roberto Carlos”, de Oscar Pilagallo (Publifolha)


Publicado em 26/4/2009

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Henry Burnett
É doutor em filosofia pela Unicamp e professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de São Paulo.

 
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