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ensaio
DEUS É BRASILEIRO

Fortuna e imprevidência
Por Jean Marcel Carvalho França

Crença cega na sorte permanece um dos traços marcantes do caráter brasileiro

Portugueses e brasileiros têm uma lastimável inclinação a crer cegamente no fado, na fortuna, e a depositar pouquíssimas esperanças na planificação. O fatalista de lá, no entanto, carrega consigo a incômoda percepção de que a fortuna vai quase sempre colocá-lo em situações difíceis, diante das quais nada há a fazer a não ser se conformar. O daqui, ao contrário, tem a firme convicção de que a boa fortuna se enamorou dele, de que “Deus é brasileiro”, e de que, com a sorte que temos e que sempre tivemos, tudo se arranjará para melhor, sem necessidade de muito previdência ou de muito esforço.

Desde cedo, aprendemos a cultivar esse doce e consolador princípio, que rapidamente se tornou um dos traços mais marcantes do caráter nacional, marcante e saliente, com um amplo leque de sentenças para expressá-lo: “Essa é uma terra abençoada por Deus, sem catástrofes naturais e extremamente pródiga, o brasileiro é um povo especial” etc. Nem mesmo a história do país escapou à sua envolvência, ao contrário, para boa parte dos brasileiros, a trajetória do Brasil e do seu povo, malgrado uns “pequenos percalços” aqui e ali –culpa de estrangeiros mal intencionados ou de nacionais ricos, mesquinhos e estrangeirados–, parece insistentemente corroborá-lo.

O que, senão a boa fortuna, teria permitido aos portugueses do Quinhentos e do Seiscentos, povo pobre e imprevidente, consolidar e ampliar o território do “gigante Brasil”?

Para o senso comum local parece óbvio que somente a enorme ajuda de um Deus misericordioso, de um Deus já brasileiro, permitiu aos descuidados lusitanos desvencilharem-se gradativamente das ambições da poderosa Espanha, dos piratas ingleses, das ousadas investidas francesas no Rio de Janeiro e no Maranhão e da prolongada permanência holandesa na costa nordestina e a consolidar a sua heróica posse sobre tão rico e cobiçado território.

E o que dizer então do Descobrimento, do grande lance de sorte do povo português? Não faz parte da crença geral que foi graças a uma providencial tempestade e a um feliz lapso de navegação que Cabral e suas caravelas vieram parar nas costas da Terra de Santa Cruz?

Empresa muito distante daquela levada a cabo pelo empenhado e desventurado Colombo, que planeou com esmero as suas várias idas a um hipotético Oriente e acabou pobre e solitário num canto da Espanha, recusando-se a entender que havia dado de cara, não com a Índia, mas com um mundo novo e imprevisto.

Os exemplos não param por aí. A Independência, em 1822, não foi, também ela, um grande lance de sorte? Passa a milhas do senso comum local que a vinda de d. João VI para o Rio de Janeiro, em 1808, possa ter causado qualquer prejuízo ao desenvolvimento da autonomia do Brasil ou retardado o seu necessário afastamento do então falido e decadente Portugal.

Para a maioria dos brasileiros, a vinda do rei bonachão, ao contrário, foi um lance de sorte, uma benção que nos livrou dos traumas de uma guerra de independência e das inconveniências de uma mudança social brusca, mudança que poderia exigir esforços demasiados e gerar sabe lá Deus o que —quiçá repúblicas instáveis e fragmentadas como as da América espanhola. A fortuna, contudo, mais uma vez poupou-nos de preocupações e danos. Para azar de Portugal, Napoleão empurrou o rei para os trópicos, seu filho afeiçoou-se à antiga colônia e a independência veio quase como uma dádiva, como um presente para o afortunado Brasil.

Nem mesmo a escravidão, que por mais de três séculos maculou a nossa história, escapa desse raciocínio sedutor. O cativeiro de negros não é nada que cause orgulho ao povo brasileiro, mas passeia pela imaginação local a reconfortante sensação de que, se não fosse a nossa sorte providencial, poderia ter sido pior. Afinal, nestas terras quentes, o branco interessou-se pelas negras, o intercâmbio carnal avolumou-se e ganhou ares de naturalidade e o conflito racial supostamente esmaeceu.

Ora, o Brasil não se orgulha de ser uma “democracia racial”, um país de mestiços? Desde Gilberto Freyre, não ostentamos de peito inflado que, por aqui, ao contrário dos EUA, superamos, sem traumas e sem planos, os conflitos derivados da escravidão?

E não podemos nem mesmo dizer que esse vício é coisa do passado, uma herança colonial maldita renegada pelo Brasil moderno. Gostemos ou não o misto de imprevidência e crença cega na boa fortuna está longe de nos abandonar. Olhemos para o presidente da República, sem dúvida o tipo ideal deste brasileiro esperançoso do século XXI, autoridade cujo comportamento é apreciado por nada menos do que 4/5 da população do país, segundo dizem as pesquisas –poucos “tipos ideais” têm tamanha “aplicabilidade”.

O mandatário máximo do Brasil, todos sabem, orgulha-se de ter uma sorte imensa –alguns denominam “instinto”, instinto do “povo brasileiro”– , e crê piamente que, diante de uma crise qualquer, o importante é ser otimista, arrumar eventuais culpados e aguardar que a sorte do país e de seu mandatário –que realmente acredita que tem sorte– salve a todos da catástrofe.

Planejamento, precaução, responsabilidade, tudo isso é dispensável, coisa de somenos defendida, certamente, por gente sem sorte. “Ordem e Progresso” soa-nos como um escárnio, melhor seria “a sorte vencerá o medo”! Eis o princípio que parece guiar esta gloriosa nação!


Publicado em 26/4/2009

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Jean Marcel Carvalho França
É professor do Departamento de História da UNESP-Franca e autor, entre outros, de "Literatura e Sociedade no Rio de Janeiro Oitocentista" (Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1999) e "Outras Visões do Rio de Janeiro Colonial" (José Olympio, 2000).

 
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