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a.r.t.e.
VELHICE

As rugas malditas
Por Paula Sibilia


Cena do filme "A Nuvem Nove", dirigido pelo alemão Andreas Dresen
Divulgação

Meio século após os movimentos de liberação sexual, novos tabus e pudores fazem da velhice um estado corporal vergonhoso

“Poucas coisas ficam melhores com o tempo”, afirmava com toda a pompa uma publicidade veiculada no ano passado em vários jornais e revistas brasileiros. Inclusive, ou sobretudo, o anúncio sugeria que essa incapacidade para melhorar com o tempo é inerente aos seres humanos. Mais exatamente, aliás, às mulheres. Pois, de fato, longe de melhorarem com o inexorável transcorrer dos anos, os corpos femininos costumam inchar, se deformar e até mesmo despencar estrepitosamente.

Para ilustrar tamanha verdade, o mencionado aviso optava por estampar quatro imagens bem eloqüentes nas páginas coloridas das publicações. Essas fotografias mostravam um torso feminino sem rosto, quase anônimo: do meio do peito até logo acima dos joelhos. As roupas e outros detalhes sugeriam que se tratava da mesma mulher, de nome Carla, porém fotografada em diferentes épocas: em quatro temporadas sucessivas. Nesse trânsito do primeiro até o quarto degrau temporal, a moça em questão ficava cada vez menos jovem e esguia. Salta a vista que, no decorrer desses anos, ela se “esculhambou”.

O que aconteceu com essa mulher não faz mais do que confirmar a asseveração incontestável exprimida no slogan da publicidade: poucas coisas melhoram com o tempo. Uma rara exceção a essa magna lei da natureza seria o caso de “Desperate HouseWives” e “Grey´s Anatomy”, precisamente, os produtos que o anúncio se ocupava de promover. “Duas das séries de maior sucesso da televisão”, que, pelo jeito, teriam a mágica capacidade de desafiar a dura sina que afeta às Carlas e Marias de carne e osso. Pois, ao contrário do que ocorre com as fêmeas da espécie humana, as séries de TV, elas sim, vale a ressalva, “a cada ano estão melhores”.

Apesar de sua primorosa auto-evidência, essa afirmação que se apresenta tão óbvia merece certa análise. Porque essa incapacidade para melhorar com o tempo, que parece intrínseca a quase tudo (exceto, talvez, a certos vinhos e seriados de TV), de algum modo também contradiz a lógica mais elementar. Ou, pelo menos, desafia certa argumentação que vale a pena explicitar. O que restou da nossa clássica valoração da experiência, por exemplo?


Experiência, lifting e pobreza

O acúmulo de conhecimentos e a consequente sabedoria, que só poderia decorrer da avaliação das vivências pessoais de cada um, até pouco tempo atrás costumava ser apreciada como algo benéfico na nossa cultura. Um valioso “capital”, que cada um resguardava com todo o cuidado, ou até mesmo como um tesouro sem preço.

Agora, porém, o tempo só parece responsável por acumular sobre nossos corpos uma porção de coisas indesejáveis, tais como gorduras, manchas, estrias e rugas. Não tem jeito: a carne humana se degrada com os avanços da idade, portanto os corpos só podem ficar “piores” com o passar do tempo. O problema parece ser que, cada vez mais, corpo (e tão somente corpo) é tudo o que somos. Portanto, isso equivale a afirmar que nós pioramos irremediavelmente ao envelhecermos.

“A velhice é a pior de todas as corrupções”, reza uma frase de bronze atribuída a Thomas Mann. E quem seria capaz de refutar tão prístina obviedade? O autor alude, que dúvida pode caber, a essa tendência à decrepitude corporal que costuma compassar o ciclo regular das temporadas. E é justamente por causa disso, porque essa evidência está se tornando cada vez mais verdadeira, mais pesada e até mesmo absolutamente indiscutível, que hoje proliferam as técnicas dedicadas a evitar essa catástrofe. Toda uma parafernália que promete retardar o máximo possível esse declínio fatal. Uma miríade de produtos e serviços, em veloz desenvolvimento, para ajudar as vítimas a dissimularem os inevitáveis estragos que essa fera impiedosa, a velhice, teima em imprimir no aspecto físico de cada um.

Nutre-se, assim, o riquíssimo mercado da purificação: toda sorte de antioxidantes, hidratantes, drenagens, lipoaspirações, esticamentos e preenchimentos com vocação rejuvenescedora. A meta perseguida por esses truques quase alquímicos —a maioria deles caros, muito caros— consiste em mascarar os estragos do tempo nos pobres corpos humanos, tão demasiadamente humanos. Mas por que tanto empenho numa luta que, a todas luzes, parece condenada ao fracasso?

Porque nesta “sociedade do espetáculo” que insta a conquistar desesperadamente a visibilidade e a celebridade midiática para poder “ser alguém”, a velhice é um direito negado. Ou, pelo menos, proíbe-se exibir o aspecto que ela costuma denotar. Em meio a uma crescente tirania das aparências juvenis, a velhice é censurada como algo obsceno e vergonhoso, que deveria permanecer oculto e sem ambicionar a tão cotada visibilidade. Um estado corporal que deve ser combatido —ou, quanto menos, sagazmente dissimulado— por ser moralmente suspeito e, portanto, digno de humilhação.


A carne maldita e a pureza das imagens

Em plena vigência desses valores, os cenários privilegiados dos meios de comunicação audiovisual se recusam a mostrar imagens de corpos velhos. As revistas de páginas brilhosas só aceitam publicá-las quando é estritamente necessário, e contando sempre com uma boa ajuda do photoshop. No cinema e na televisão, os corpos idosos também são polidos com um novíssimo arsenal de técnicas depuradoras e alisadoras.

A mídia só oferece suas cobiçadas vitrines para expor uns poucos homens e mulheres “maduros”. Aqueles que, de alguma maneira, não pareçam tão velhos assim. Um seleto grupo de damas e cavalheiros que, por um milagre ou por outro, conseguem se sair mais ou menos airosos dessa ingrata tarefa da dissimulação, e por isso se transformam em preciosos exemplares dos “bem-conservados”. Espécies de fósseis viventes que se tornam dignos de admiração devido à sua mistura de sorte genética e trabalho árduo.

Assim, somos regularmente expostos a esses rostos e corpos cuidadosamente escolhidos e muito bem arrumados que já superaram os 50 anos de vida na Terra, mas apesar disso parecem manter a dignidade das aparências mais ou menos juvenis. Não por acaso, as imagens projetadas por essas celebridades que parecem mantidas em formol são vampirizadas pela indústria dos cosméticos, que as capitaliza para vender esperanças a todos aqueles que, ao contrário delas, fracassaram estrondosamente no difícil mercado dos milagres antienvelhecimento.

Trata-se de uma mera questão de imagem: as rugas tornaram-se marcas de fraqueza. Constituem sinais de uma derrota e, por isso, são moralmente condenáveis. Ter a coragem de ostentá-las despudoradamente equivale a praticar uma nova forma de obscenidade. Assim como acontece com todas as outras “imperfeições” e “impurezas” que o envelhecimento costuma cinzelar nos corpos humanos, elas constituem uma afronta à tirania da pele lisa sob a qual vivemos.

Cabe formular, então, uma pergunta. Em pleno auge do “culto ao corpo”, que corpo é esse que nós cultuamos? Apesar de todos os avanços, das lutas e das libertações que soubemos conseguir, nossos corpos continuam sendo acusados de impuros e malditos. Claro que em outros sentidos, bem diferentes daqueles que estigmatizaram a carne humana na Idade Média, por exemplo. Mas o corpo continua sob suspeita e sob intensa vigilância, pois ele insiste em tender fatalmente às tentações e às corrupções.

Antigamente, os horrores suscitados pela carne tinham uma tonalidade claramente religiosa, envolvendo pecados terrenos e expiações divinas. A nova versão desses pavores, porém, recicla as antigas culpas para reorganizá-las em torno de um eixo que é da ordem das aparências.

Por isso, as tentações agora assumem outras formas: alimentos calóricos, drogas, cigarros, hábitos sedentários e outros costumes insalubres ou pecaminosos. Já a corrupção, por sua vez, apresenta-se sob a sombra da velhice e todo seu séquito de efeitos colaterais desagradáveis: gordura, flacidez, rugas, manchas na pele, celulite, varizes e outros sinais da organicidade perecível.

Somente assim é possível compreender a aversão provocada por certos filmes que mostram cenas eróticas protagonizadas por septuagenários. Como foi o caso, por exemplo, do longa-metragem “A Nuvem Nove” (“Wolke Neun”), do diretor alemão Andreas Dresen, alvo de polêmicas e muita discussão no último Festival de Berlim. Por quê? Por ter ousado escancarar, na tela grande do cinema, os corpos nus de dois anciões e uma anciã exercendo suas paixões carnais em um clássico triângulo amoroso.

É o tipo de visão que não teria espantado ninguém, se os personagens fossem interpretados por atores jovens e enxutos, pois não foi nem a nudez nem a intensidade sexual dos atos o que tornou essas imagens perturbadoras. Sem dúvida nenhuma, o incômodo tinha outra origem: o filme desafiara a rígida moral vigente, que impõe as tiranias do aspecto juvenil obrigatório e condena à invisibilidade tudo aquilo que ousa se distanciar dessa norma tão tenaz.

Um tipo de pudor semelhante a esse que leva a censurar a exibição das peles enrugadas é o que silencia, também, as imagens de corpos gordos que cometem o atrevimento de assumirem alegremente seu peso e seu tamanho em escancarada nudez, ou praticando atos abertamente corporais, como comer ou fornicar. Trata-se de outro tabu raramente desafiado nas produções audiovisuais contemporâneas, como ocorre nos filmes “Batalha no Céu” (2005), do mexicano Carlos Reygadas, e “Estômago” (2007), do brasileiro Marcos Jorge.


Polindo as coroas

No ano passado, um caso dessa censura tão contemporânea chamou a atenção por ser emblemático em vários sentidos. Tratava-se de uma fotografia de Simone Beauvoir publicada na capa da revista "Le Nouvel Observateur", em meio às comemorações dos cem anos do nascimento da autora francesa.

A imagem fora flagrada sem o seu consentimento, e nela a escritora aparecia nua, de costas, saindo do banho. Mas o verdadeiro escândalo não foi nada disso, mas, sim, que certos traços do corpo tivessem sido retocados digitalmente. Na época do clique, a filósofa tinha pouco mais de 40 anos de idade, exatamente a etapa da vida em que as mulheres transitam perigosamente naquela zona cinza que constitui o abismo entre a juventude e a velhice.

Em outras palavras, a esposa de Sartre estava virando uma “coroa”. Por isso, os editores da publicação justificaram o uso do photoshop no retoque de suas pernas e outros volumes corporais, alegando que os códigos estéticos da atualidade impedem publicar uma foto desse tipo na capa de uma revista sem antes passar pelo escalpelo da edição digital. Ou, como afirmou um dos participantes do debate: “Desrespeito teria sido não retocá-la”.

Como quer que seja, o episódio é sintomático por vários motivos. Primeiro, porque a dona dessa pele hoje recauchutada com artimanhas informáticas foi uma das principais vozes do pensamento e das lutas feministas. Segundo, porque as mãos de Simone de Beauvoir escreveram centenas de lúcidas páginas sobre os complexos sentidos da velhice no mundo moderno e sobre a urgente libertação das mulheres. E, por último, pela perplexidade que suscita o fato de que o século XXI não saiba imaginar melhor forma de homenagear tudo isso do que vendendo uma bunda convenientemente retocada.

Outro caso bastante curioso por sua eloquência é protagonizado por outra europeia que também brilhou em meados do século XX: a atriz italiana Sophia Loren. Poderoso símbolo sexual das décadas de 1950 e 60, hoje tem quase 80 anos de idade e costuma ser alardeada como um exemplo da mulher bem conservada. Além de ter sido uma das pioneiras das cirurgias plásticas, nunca ocultou seu bom uso, com muito orgulho e excelentes resultados, de outros inúmeros artifícios disponíveis na batalha mercadológica pelo rejuvenescimento.

No filme “Ontem, Hoje e Amanhã”, realizado em 1963 por Vittorio de Sica, a atriz rodou uma cena inesquecível. Em plena juventude, uma monumental Sophia Loren faz um strip-tease diante do olhar voraz do personagem encarnado por Marcello Mastroianni. Trinta anos mais tarde, foi realizada uma refilmagem dessa famosa seqüência, protagonizada pelos mesmos atores e inserida no filme "Pret-à-Porter", de Robert Altman.

Por que essa alusão aqui? Porque as reações do público contemporâneo, quando exposto às duas visões, são dignas de nota. Ambas foram reprisadas em inúmeras ocasiões, inclusive no documentário “Marcello, Uma Vida Doce”, lançado em 2006, que homenageia o ator italiano.

Na exibição desse filme nos cinemas comerciais do Rio de Janeiro, no ano da sua estréia, tudo se desenvolvia normalmente, até que algo ocorreu na tela e, então, ouviu-se um murmúrio na sala. Uma reação de surpresa levemente escandalizada, seguida de algo que só pode ser descrito com um repúdio ou uma reprovação moral.

 
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