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TRÊS MULHERES

O Buda piramidal volta à cena
Por Heidi Strecker

Narrativas de "Três Vidas" revelam o dom da observação e o experimentalismo de Gertrude Stein

No plácido Bryant Park, em Nova York, fica a escultura da escritora Gertrude Stein. Trata-se de uma figura feminina em posição de Buda, maciça, sentada com as mãos sobre o colo, os olhos semicerrados. Quase se pode ouvir um "ohmmmmmmmm".

É uma figura em bronze esculpida por Jo Davidson, para quem Gertrude posou em 1920, em Paris. A escultura só foi instalada em 1992, mas, mesmo assim —dizem— foi a primeira estátua feminina na cidade, sem contar a de Mamãe Gansa, no Central Park.

Essa mesma figura maciça aparece no retrato que Picasso pintou em 1906 e que hoje está no Metropolitan Museum. Uma massa volumosa se confunde com um fundo castanho, de onde sobressaem apenas as mãos e o rosto. Gertrude adorava posar sentada, imóvel, numa grande poltrona quebrada, no movimentado ateliê do pintor. Depois de umas 80 ou 90 sessões, Picasso pintou o rosto de uma vez só: “Não consigo mais ver você quando olho”. Gertrude conta que ninguém se aborreceu mais com isso.

O conjunto de cotelê marrom, casaco e saia, com que foi retratada, era um item especial no guarda-roupa de Gertrude Stein. Como ela mesmo informou depois, era um traje ideal para viajar pela Espanha, pois todos pensavam que ela pertencia a alguma ordem religiosa e sempre a tratavam com o mais absoluto respeito.

“Buda piramidal” _foi o crítico Edmund Wilson quem alfinetou nossa grande e maciça Gertrude em 1931, no ensaio "O Castelo de Axel". Ela já era famosa e tinha publicado "Três Vidas" (em 1909), tinha escrito a saga "The Making of Americans" (1911), tinha criado "Tender Buttons" (1914) —uma prosa poética ousada e radical—, tinha dado palestras sobre literatura em Oxford e Cambridge e tinha peças de teatro publicadas em "Geography and Plays" (1922). Gertrude Stein era amiga de todo mundo, de Pablo Picasso, Henri Matisse, George Braque, Guillaume Appolinaire, Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway. Mas tinha dificuldade em publicar seus livros, e muitos satirizavam seu estilo.

Edmund Wilson escreveu em "O Castelo de Axel" (traduzido por José Paulo Paes e publicado pela Cultrix): “Refugamos, quase todos, suas mixórdias soporíferas, seus encantamentos ecolálicos, suas listas de números que soam idióticas; quase todos a lemos cada vez menos”. Todavia, esclarece Wilson, “estamos cônscios da sua presença no fundo de cena da literatura contemporânea —e a concebemos como o grande Buda piramidal, segundo a estátua que Jo Davidson fez dela, a ruminar plácida e eternamente o desenvolvimento gradual do processo de ser, a registrar as vibrações de uma região psicológica, qual augusto sismógrafo humano, cujos gráficos não aprendemos a ler”.


"A rose is a rose is a rose"

É fácil pintar a figura de Gertrude Stein, porque ela mesma se encarregou disso, quando escreveu "Autobiografia de Alice B. Toklas" (1933) —que foi e é um sucesso de público e de crítica—, "Autobiografia de Todo Mundo" (1937) e "Wars I Have Seen" (1945).

Alice B. Toklas, além de ler, revisar e editar as obras de G. Stein, foi sua companheira de vida inteira, e só passou a escrever depois da morte de Gertrude.

"O Livro de Cozinha de Alice B. Toklas" (publicado pela Companhia das Letras) traz a receita de um famosíssimo biscoitinho de haxixe, que a dupla costumava servir nos bons tempos. Simplificando, seria mais ou menos isso: “Misture uma xícara de açúcar, uma boa porção de manteiga, tâmaras e figos secos picados, amêndoa e amendoim torrado. Adicione um maço de Cannabis sativa em pó, pimenta do reino, canela e coentro. Abra a massa e corte em pedaços”. Toklas ainda acrescenta que “euforia e brilhantes cascatas de risos, devaneios extáticos e extensões de personalidade em vários planos simultâneos devem ser esperados com complacência”. "I Love You Alice B. Toklas" ("O Abilolado Endoidou) virou título de um filme de Peter Sellers, em1969.

De uma família abastada de origem judaico-alemã, Gertrude Stein nasceu numa pequena cidade da Pensilvânia (EUA), estudou psicologia no Radcliffe College, com William James, e medicina na Universidade Johns Hopkins, em Baltimore. Em 1903 mudou-se para Paris com o irmão, Leo Stein, para o legendário endereço da rue de Fleurus, n° 27, onde passou a viver depois com Alice B. Toklas.

Por lá passaram centenas de personagens, célebres ou anônimos, convidados especialmente para jantar ou simplesmente atraídos pela curiosidade. Todos eram bem vindos e quase todos se divertiam, embora o salão também fosse palco de brigas antológicas, escândalos e cenas memoráveis, reportadas com desfaçatez e verve na primeira "Autobiografia". Gertrude Stein foi também responsável por apoiar pintores que estavam começando e formar uma notável coleção de arte modernista.

A "mondanité" de G. Stein não é um dado secundário de sua biografia de escritora, mas um dado constitutivo de sua figura e de sua obra.

Foi Gertrude Stein quem disse que “uma rosa é uma rosa é uma rosa”. O emblema foi encontrado por Alice B. Toklas num dos manuscritos de Gertrude e usado como timbre de papel de carta, reproduzido em toalhas de linho, pratos de cerâmica e depois em tudo quanto é lugar. A palavra de G. Stein encontrou novos suportes e está no ar até hoje. Ela escreveu óperas, biografias, peças de teatro, poemas, contos, romances, novelas, ensaios e crítica. Seus métodos e tentativas de ruptura das convenções literárias ainda hoje desafiam os críticos e teóricos e, mais que isso, encontram novos leitores e inspiram novos autores.

Mas vamos ao frescor de "Três Vidas", que se lê com extremo prazer.


Flaubert de saias

"Três Vidas" foi a primeira obra publicada de Gertrude Stein. O leitor tem uma oportunidade excelente de conhecê-la neste lançamento da Cosac Naify, com tradução de Vanessa Bárbara. O elegante volume em capa dura vem acompanhado de dois textos da ensaísta Flora Süssekind: "Sugestões de Leitura", que apresenta a fortuna crítica de "Três Vidas" e aspectos da recepção da obra de Gertrude Stein, e um "Posfácio", que elucida o jogo de autorreferências presente na obra e a preocupação steineana com a composição e com a experimentação. O livro traz ainda em apêndice uma tradução de Caetano Veloso para um fragmento de "Melanchta" (uma das três narrativas que compõem a obra) e algumas fotos de Gertrude Stein, uma delas em que aparece em posição de Buda.

Não é a primeira vez que o texto de "Três Vidas" é editado em português. Em 1965, a editora Cultrix publicou uma tradução feita por José Paulo Paes e Brenno Silveira.

Gertrude Stein pagou a primeira edição de "Três Vidas" do próprio bolso e mandou imprimi-la nos Estados Unidos. Um dia bateram à sua porta a pedido da editora, como ela conta na "Autobiografia de Alice B. Toklas". Era alguém perguntando se não queriam um revisor, pois provavelmente a pessoa que fez a encomenda “não conhecia bem o inglês”. “Edite, que eu assumo a responsabilidade”, limitou-se a responder Gertrude.

Esse mesmo estranhamento acompanha seus leitores até hoje. A prosa de "Três Vidas" tem um ritmo peculiar. À vezes se deixa contaminar pela linguagem das ruas, ou avança em elipses, ecos, rimas e assonâncias, numa cadência de poema em prosa e grande oralidade. Outras vezes empaca em repetições e arabescos autoindulgentes. A maior parte do tempo, no entanto, a narrativa flui com a naturalidade de uma crônica desataviada.

Como a edição da Cosc Naify não é bilíngue, é sempre interessante cotejar o original. Pode-se também comparar o trecho de "Melanchta" de Vanessa Barbara e de Caetano Veloso. E ouvir o mesmo trecho na voz de Regina Casé, no filme "O Cinema Falado". As experiências podem se multiplicar e serão sempre diferentes.

Segundo Dianne Durante, em "Outdoor Monuments of Manhattan", o escultor Jo Davidson teria comentado esse fato: “Gertrude fez meu retrato em prosa. Quando ela lia em voz alta, eu achava maravilhoso, mas quando eu tentava ler para alguns amigos, ou para mim mesmo, aquilo não fazia muito sentido”.

As três histórias de "Três Vidas" são simples, divertidas e pungentes. Todas se passam em Bridgepoint (que seria a Baltimore onde Gertrude Stein viveu) e cada uma conta a história de uma mulher: Ana, Melanchta e Lena. Duas dessas mulheres são imigrantes alemãs, pobres e que trabalham como criadas: Ana e Lena. Melanchta é americana e, além de pobre, é preta, mas não é criada. Pelo contrário, é senhora de si e livre até demais, e esse é o seu problema.

A obra "Três Vidas" foi concebida sob o influxo de "Três Contos", de Gustave Flaubert, que Gertrude traduzia na época. Ana, a protagonista de "A Boa Ana", emula Felicité, a protagonista do conto "Um Coração Simples". Nessa mesma história, reaparece até o famoso papagaio de Flaubert.

São três narrativas: duas breves nos extremos (sobre as moças boas) e uma longa no meio (sobre a moça má, digamos assim). As três histórias revelam o extraordinário dom de observação de G. Stein e a admirável isenção com que trata suas personagens. Simplesmente deixa que vivam suas vidas —do princípio ao fim. Certamente a psicologia proporcionou boas lições à escritora, que plasmou um narrador capaz de seguir as personagens à meia distância, sem se aproximar demais ou de menos.

Assim acompanhamos a protagonista de "A Boa Ana", com seus julgamentos inflexíveis, seu amor silencioso pela senhora Lehntman, pechinchando nas lojas, ralhando com os cachorros, fritando costeletas para seu patrão, doutor Shonjen. Sorrimos quando Ana perde o emprego e vai à vidente —um escândalo para sua consciência de boa cristã. Admiramos sua capacidade de escolher roupas boas e baratas e dividi-las em duas categorias totalmente distintas: de classe para as patroas e vulgares para as empregadas. A compreensão da interioridade da Ana se dá pela exterioridade. Ela é vista de frente, de meio perfil, de lado. Mas não conseguimos ver Ana por inteiro.

"A Gentil Lena" é o conto mais curto e melancólico dos relatos de "Três Vidas". Nele acompanhamos a trajetória da jovem Lena, trazida da Alemanha pela senhora Haydon para trabalhar como empregada. Suas colegas caçoam dela, mas ela não reage. Ficamos aflitos com suas tolices, com seus problemas de saúde. Sofremos com seu casamento arranjado, com o filho do incrível casal Kreder.

Conformados, assistimos ao nascimento de seus filhos, um a um. Mas são emoções que nos são apresentadas sem o filtro de um narrador. São sofrimentos cênicos, digamos assim, colocados na frente do leitor. Às vezes nos lembram um filme montado aos pulos, com um narrador em "off". Mesmo que suas palavras soem irônicas, insistentes ou artificiais, são sempre distanciadas. Elas não guiam nossas emoções. Podemos lembrar que o cinema, na primeira década do século passado, mal conseguia tira a câmera do lugar para filmar a mesma cena e mudar o ponto de vista.


Melanchta

Protagonista da história mais longa de "Três Vidas", Melanchta Herbert é uma mulata clara, elegante, e atraente, que “não achava fácil conciliar seus desejos com a realidade” e “vivia perdendo o que tinha, ao desejar tudo o que via”.

A narrativa começa apresentando um par curioso: Melanchta Herbert (“delicada, esperta e quase branca”), contraposta a Rose Johnson (“rude, burra e preta”). As duas são grandes amigas e temos aí um pequeno eco da apresentação de Bouvard e Pécuchet, no romance de mesmo nome de Flaubert. Mas logo o narrador abandona a breve digressão e passa a contar a vida de Melanchta, desde o nascimento na comunidade negra de Bridgepoint.

Conhecemos seus pais, sua adolescência “nas ruas, aprendendo a ser mulher, com homens de todo tipo”, no pátio de trens, no cais do porto, nos prédios em construção. Ouvimos os gracejos masculinos, os bordões das calçadas, as respostas duras de Malenchta, as provocações, as cantadas vulgares.

Aos 17 anos, Melanchta conhece a culta, alcoólatra e impulsiva Jane Harden, “sentindo sua força e atração feminina”, e Jane lhe ensina “todas as formas de chegar ao conhecimento”. Então, aos poucos, “tudo muda; Melanchta Herbert se torna a mais forte, e elas acabam se afastando”. Finalmente somos conduzidos aos encontros e desencontros amorosos entre Melanchta e o jovem médico mulato Jeff Campbell, “um homem bom que nunca entendia o que ela queria dizer”.

Chegamos a um compacto bloco constituído de diálogos longos entre os dois amantes, de conversas aparentemente sem sentido, mas brilhantemente articuladas. O narrador mantém tensos os contornos das duas personagens, que se mostram inteiramente em suas longas falas. Jeff, sobretudo, é dado a discutir a relação. O narrador dá primazia a ele, mantendo no contracampo a figura de Melanchta. Jeff Campbell mede as palavras: “Eu estava pensando... Estava imaginando...”.

 
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