1
audiovisual
DO IRÃ Á AMAZÔNIA

Cinema urgente
Por Fernando Masini


Cena do documentário "Z32", do diretor israelense Avi Mograbi
Divulgação

Cinco filmes que se destacaram entre os 137 documentários mostrados no festival É Tudo Verdade

De 27 de março ao último dia 6, a 14ª edição do festival É Tudo Verdade apresentou em São Paulo 137 documentários, entre longas e curtas-metragens. A maior parte dos filmes exibidos não serão mais vistos no país. A seguir, Trópico destaca cinco documentários mostrados no festival que mereceriam chegar às telas do cinema, por sua atualidade, complexidade e acabamento. Uma versão enxuta do É Tudo Verdade será apresentada em Brasília, a partir de amanhã até o dia 26 de abril.


Ahmadinejad, o mito desconstruído

O diretor tcheco Petr Lom conseguiu desconstruir um mito e criar outro com o filme “Cartas ao Presidente”. Ao acompanhar a comitiva do presidente do Irã, num registro raríssimo do país, Lom ajudou a desfazer a imagem de monstro criada pelos EUA e aliados e transformou a figura de Mahmoud Ahmadinejad na de um “pop star” das massas. O temor associado a discursos intempestivos em defesa do poderio nuclear dá lugar ao tratamento doce com que o presidente iraniano trata seu povo, no mais explícito populismo.

“Tenho mais medo de o filme ser exibido nos EUA do que no Irã. Acho que os americanos teriam uma decepção muito grande do que eles imaginam ser o líder iraniano”, disse o documentarista em São Paulo. De fato, Ahmadinejad aparece carismático, atendendo seus apaixonados seguidores. Lom negociou durante anos com assessores do presidente até conseguir permissão para filmar. Teve sempre no encalço um fiscal que acompanhou seu trabalho, mas, segundo o diretor, não foi censurado em nenhum momento.

“Tratei os entrevistados com respeito, deixando eles à vontade na hora de falar. Evitei assuntos como direitos humanos, homossexualismo ou polêmicas feministas; caso contrário, eu seria expulso do país”, afirmou Lom. Mesmo assim, o que se vê na tela é um retrato impressionante da diferença cultural entre a população que vive no interior do país e os moradores da capital e de como o presidente é visto sob esses diferentes ângulos.

O título do filme refere-se às cartas que são enviadas pela população a Ahmadinejad. É um meio quase sagrado de interação entre o povo e o líder da nação. Calcula-se que 10 milhões de cartas cheguem a suas mãos, sendo que 75% delas são respondidas, asseguram seus assessores. As requisições variam: uns pedem dinheiro para abrir negócio; outros solicitam ajuda para curar doença e até fazem cobranças sobre obras inacabadas.

Ahmadinejad se mete em longas viagens pela província iraniana. Costuma se dirigir aos moradores com a frase: “Eu sou seu servo”. Lança o corpo para fora do carro e é reverenciado como um astro de rock, aos gritos de “morte à América” e “morte a Israel”. “A opinião do mundo não é importante. O que vale é a opinião do povo”, diz, enquanto vota num colégio eleitoral.

O documentário começa em Qom, cidade a 150 km da capital Teerã. Os pronunciamentos do presidente viram festa e são saudados com fervor. Algumas mulheres se espremem em busca da melhor posição para vê-lo. “Nosso povo procura alguém para ouvir suas dores”, fala uma delas. Um jovem diz que eles “não têm medo de sanção, estão dispostos a combater a América e viver a pão e água”.

Durante a excursão, a comitiva passa por Aradan, cidade natal do presidente, de 20 mil habitantes. Ali, alguns ensaiam uma crítica tímida, como a inflação descontrolada, o alto preço da saca de arroz. Enquanto Ahmadinejad acena para o povo, os seguranças recolhem as cartas. O líder diz que vai resolver o problema de abastecimento de água. Depois acolhe uma criança com câncer e cochicha no ouvido dela.

A história muda quando Lom passa a entrevistar estudantes de Teerã. Eles reclamam da falta de liberdade, do preço alto para comprar uma casa e da perseguição às mulheres que “não podem se maquiar, nem fazer as sobrancelhas”. Três jovens mostram a cerveja sem álcool que estão bebendo e brincam, ao dizer que é a “bebida sagrada”. “A censura nunca foi tão dura”, afirma um deles.

Petr Lom deixa claro essa distinção: o culto de Ahmadinejad pelas pessoas que vivem no interior e a desconfiança dos que moram na capital. “É fácil encontrar gente que não gosta do presidente em Teerã, não era necessário fazer perguntas para arrancar críticas”, diz. A versão final do documentário, como ele foi exibido em São Paulo, não foi apresentada às autoridades iranianas. Só parte do material foi vista por Ahmadinejad. Segundo Lom, ele não gostou do resultado, porque o filme mostra o Irã como um país pobre.


O massacre em Corumbiara

“Corumbiara” é um esforço emocionante do documentarista Vincent Carelli para provar o extermínio de índios no sul de Rondônia e tentar contato com os remanescentes de tribos isoladas. Após 20 anos dedicados a essa luta, que teve início em 1986, Carelli contenta-se em apenas contar a história dos índios, já que esbarra na dificuldade de transpor obstáculos recorrentes para fazer justiça.

“As evidências são claras, mas a lei do silêncio impera na região”, disse o diretor, que tem como guia no filme o indigenista da Funai Marcelo dos Santos. O primeiro contato com índios isolados acontece em 1985. A equipe comandada por Marcelo consegue avistar dois membros da tribo Kanoê e faz uma aproximação cuidadosa. Demora até que eles percebam a boa vontade dos brancos.

“A impossibilidade de comunicar nos colocava de novo dentro de um mistério. Quem são eles?”, pergunta-se Carelli, como narrador do próprio filme. Aos poucos, a equipe entende que houve um massacre na região, cometido por capangas de fazendeiros, e ela está diante dos últimos sobreviventes. O contato estende-se a outra tribo, os Akunsu, cujas roças ficam nas margens do rio Omerê.

Tudo é conduzido com muita cautela por Carelli, que é recebido com desconfiança tanto pelos índios como pelos fazendeiros. Numa das cenas mais tensas do documentário, a equipe do filme tenta chegar perto do único sobrevivente de outro grupo dizimado por pistoleiros -chamado de “índios do buraco” devido ao hábito de cavar fossas profundas em seus barracos.

A sondagem dura seis horas. Já se sabia que o restante da tribo fora atacado e seus acampamentos destruídos. Carelli tinha conseguido a informação numa entrevista com câmera oculta. À medida que a equipe avança, o índio ameaça, apontando uma flecha que atravessa a maloca.

A intenção de registrar a imagem do índio sobrevivente, que serve como prova de sua existência, gera efeito contrário. Ele se sente acuado e revida. Como não há a possibilidade de comunicação, a negociação arrasta-se sem êxito.

Por fim, seu rosto é captado pela câmera numa imagem granulada. “A ironia é que a câmera que o ameaçava será a mesma que vai fazê-lo existir perante a justiça”, ressalta Carelli. O material foi usado para forçar uma interdição da área e garantir a proteção do índio. Após alguns dias, o documentarista teve a notícia de que o índio havia abandonado o barraco e desaparecido de novo.

Mais do que levantar evidências e usá-las no tribunal, Carelli oferece um retrato comovente dos hábitos e costumes desses índios que vivem afastados da civilização como a conhecemos. No ritual que mistura dança e gritos, Txinamanty se solta diante da câmera numa celebração que é acompanhada por Kunibu, o cacique da tribo. Em outros momentos, vemos os índios purificando o corpo dos brancos, numa coreografia de sopros, e a troca de afeto proibido entre amantes de tribos rivais.

“É um balanço da minha carreira. É uma história que eu segui durante 20 anos”, resume o antropólogo Carelli, que começou a experiência do “vídeo nas aldeias” com jovens índios do norte de Mato Grosso, em 1986.


Na prisão com René

René Plasil é um delinquente que vive roubando carros e arrombando apartamentos na República Tcheca. Entra e sai da prisão desde os 15 anos, quando iniciou sua carreira criminosa.

René é também escritor. Para passar o tempo no cárcere, resolveu rabiscar no verso do próprio processo judicial frases sobre a vida e a liberdade. Lançou dois livros, mas não conseguiu se redimir. Voltou a roubar e vadiar pelas ruas de Praga. Confessou ser um fora da lei irremediável.

Grande parte da vida dele, exatos 20 anos, está registrada no documentário “René”, premiado no European Film Academy, o Oscar europeu. Helena Trestikova, a diretora, é conhecida pela observação exaustiva de seus personagens. O filme é bem sucedido por ser honesto com o espectador e cadenciar dois pontos fundamentais: a intimidade e a repulsa que temos por René. Ele é carismático e arranca risadas, quando diz que vai presidir uma associação de antitabagismo e aparece fumando em seguida. E se mostra torpe, quando confessa, por exemplo, ter invadido o apartamento da própria diretora.

Numa carta a ela, diz que roubou dinheiro de suas filhas para gastar com bebidas e mulheres. Isso foi em 1993, num intervalo entre as prisões de René. “Eu entendi isso como uma estranha mensagem dele para mim”, afirmou Helena. Ela sentiu muito ódio na época, mas resolveu tocar o projeto adiante. Retomou as entrevistas que haviam começado em 1989.

De passagem pelo Brasil, como convidada do festival É Tudo Verdade, a diretora contou a Trópico que resolveu filmar a vida de René depois de se envolver em um estudo de jovens infratores que cumpriam pena em cadeias. “Escolhi estender a observação porque René é um personagem muito original. Ele foi pago como um ator comum e eu também pedi para que ele escrevesse as cartas que foram usadas no filme”, disse.

Ao todo foram 20 horas de material captado, editado em pouco mais de 80 minutos. O resultado é um documentário atípico, em que a relação diretor-personagem é promíscua, a ponto de René perguntar se ela estaria interessada nele apenas como objeto de estudo ou se haveria algo mais íntimo entre os dois. Há um silêncio, e Helena hesita em responder. “A relação entre quem filma e o personagem é complicada. Essa é uma pergunta impossível de se responder. Preferi manter a incerteza da resposta”, explica a documentarista.

A dúvida sobre que distância deve ser mantida do entrevistado –no caso, intensificada, porque ele é um criminoso- ou até que ponto é possível entrar na vida dele é o ingrediente mais tentador do filme. E Helena opta por mostrar tudo isso. Extrapola a questão, quando, para finalizar as filmagens, oferece a câmera a René. “Eu já sabia que ou ele faria boas imagens ou roubaria a câmera”, contou. Ele a usou para rodar filmes pornôs e nunca mais a devolveu a Helena.

A personalidade de René combina o ódio com o seu trágico destino e a percepção acurada de um mundo opressor e enfadonho. Ele derrapa na inconstância de suas vontades e na leviandade de seus atos. Tatuada no seu pescoço, está a frase “fodam-se as pessoas”. “Eu não gosto de tatuagens, mas você começa a decorar o corpo quando não tem nada para fazer”, diz ele no filme. “Meu maior problema é ter de pensar na sobrevivência. Como posso ser útil à sociedade se só sei roubar?”, completa.

A vida de René é intercalada no filme a cerimônias de posse dos presidentes, desde a eleição de Václav Havel, em 1989, até os dias atuais. O paralelo reforça a repetição de juramentos que acabam em mandatos com poucas mudanças efetivas, assim como o naufrágio das promessas de recuperação de René. “São duas linhas claras no filme, em que mostro a vida na prisão e os acontecimentos turbulentos do país, as promessas que não são cumpridas”, esclarece Helena.


Memória e corrupção no Peru

“O Esquecimento”, da peruana Heddy Honigmann, que mora na Holanda desde 1978, é um retrato da cidade de Lima carregado de lirismo, com o qual a diretora disfarça a denúncia social de um país abandonado. É a segunda vez que Honnigman roda um documentário sobre a capital peruana. Em “Metal and Melancholy”, de 1993, ela entrevistou pessoas que faziam bicos como taxista para contornar a crise deixada pelo primeiro governo do presidente Alan Garcia (1985-1990).

Durante o festival É Tudo Verdade, perguntei a ela, se achava que de lá para cá a situação teria melhorado no país. “As coisas pioraram, como você pode ver no meu último filme. O governo atual de Garcia ainda não deu respostas sobre as mortes que ocorreram durante a guerra entre os militares e o movimento terrorista Sendero Luminoso. Ele tem as mãos sujas. A corrupção continua e a população sofre com a falta de emprego. O país está num estado contínuo de greve nacional”, respondeu a diretora.

Ela contou que durante as filmagens de “O Esquecimento” havia sempre pessoas aglomeradas no centro da cidade para protestar. Apesar do discurso duro da cineasta, o filme não embarca no denuncismo. Pelo contrário, exalta a bravura dos moradores de Lima que fazem de tudo para sobreviver às turbulências. É um registro otimista. E, segundo ela, Lima poderia ser qualquer outra cidade da América Latina.

 
1