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audiovisual
BIBLIOGRAFIA

Sete vidas
Por Humberto Pereira da Silva

Ensaios do livro "Cinema Mundial Contemporâneo" atestam a vitalidade e o interesse das novas produções cinematográficas

A bibliografia sobre os principais cinemas contemporâneos é escassa no Brasil, apesar da possibilidade de assistir aos filmes recentes em diversas mostras e retrospectivas.

Por conta disso, vale destacar a iniciativa dos pesquisadores Fernando Mascarello e Mauro Baptista: organizar um livro que acompanhe os principais cinemas das duas últimas décadas, cuja apreciação fica praticamente restrita à crítica publicada no calor da hora pelos cadernos culturais da grande imprensa

“Cinema Mundial Contemporâneo” (Papirus Editora, 352 págs.) procura responder o que é e como está a produção mundial, hoje. Seu foco é não apenas os filmes e os diretores, mas também o impacto sociocultural das obras, a sua identidade cultural e os modos locais de produção, distribuição, exibição e recepção.

As questões que pontificam os artigos de “Cinema Mundial Contemporâneo” se justificam por se entender que a discussão sobre o “fim do cinema” já não encontra eco. O cinema é uma forma narrativa que se mantém estável, adaptada às novas mídias digitais: engole-as em sua forma, e não o contrário, o que faz com que seja, por excelência, uma arte contemporânea.

Mascarello assina o ensaio introdutório, “Reinventando o conceito de cinema nacional”, no qual defende a continuidade do valor explicativo do conceito de “cinema nacional”. Para tanto, porém, é preciso que se “reinvente” o conceito diante dos processos de convergência audiovisual, de transnacionalização e do chamado "retorno ao local" _fazendo frente aos vícios antigos contidos na idéia de “cinema nacional”, como a canonização de vertentes regionais e a alienação das culturas do vídeo e da televisão.

O pesquisador tem por alvo teses defendidas pelos ensaístas Jean-Claude Bernardet e Denílson Lopes. Ambos escreveram da perspectiva do conceito de “cinema nacional” (Bernardet assina uma “Historiografia Clássica do Cinema Nacional”; Lopes disserta sobre “Paisagens Transnacionais”). Mas ambos, para Mascarello, não levaram em conta o debate teórico promovido pelos "film studies" (tendo à frente teóricos de cinema como Stephen Crofts, Andrew Higson e John Hill); com isso, não exploraram as possibilidades críticas do transnacional, para, justamente, revalidar e reinventar o conceito de “cinema nacional”.

Conquanto seja bem apresentada a contraposição que Mascarello faz a Bernardet (trata-se de um ensaio que se orienta para traçar limites, efetuar a crítica de conceitos que balizam interpretações), faço a seguinte ponderação: certos conceitos podem bem resistir a críticas, quando se leva em conta os pressupostos nos quais se ancoram.

O calcanhar de Aquiles do ensaio de Mascarello está em supor que a “reinvenção” do conceito de “cinema nacional” traria problemas incontornáveis aos escritos de Bernardet, que deveriam conter as interrogações formuladas pelos teóricos dos "film studies".

Entendo que a “reinvenção” de um conceito seja importante para a compreensão de variáveis antes desconsideradas, mas deve-se considerar, em igual medida, os pressupostos que sustentam a argumentação de Bernardet e que a “reinvenção” de um conceito não o imuniza de insuficiências: um conceito pode bem se ajustar a condições e exigências de estudo em certo momento, para, posteriormente, se revelar pouco ajustável. Nisso, a força da dialética. Não se vá pensar que um novo conceito de “cinema nacional”, forjado pelos "film studies", seja mais “verdadeiro” e traga menos insuficiências que aquele com que opera Bernardet ou Denílson Lopes.

O ensaio introdutório desperta discussão, os textos que compõem o livro, no entanto, têm um matiz didático e panorâmico. “Cinema Mundial Contemporâneo” foi organizado de modo a destacar os seguintes temas: os últimos 20 anos da produção francesa, o cinema e a televisão pública entre os britânicos, os italianos e espanhóis contemporâneos, os preceitos do Dogma 95 (manifesto lançado por diretores dinamarqueses, encabeçados por Lars von Trier), ficção/documentário entre os brasileiros da "retomada" brasileira, o novo cinema argentino, diretores transnacionais latino-americanos, o cinema africano (no singular e no plural), o cinema independente americano, Hollywood, política/bilheteria para os chineses, as produções recentes em Hong Kong, Taiwan, Coréia do Sul e Irã.

Se pensarmos em insuficiências e limites, poder-se-ia perguntar sobre o cinema indiano atual. Em que ponto se encontra a Bollywood, no que se refere às condições de produção e recepção?

Os temas de “Cinema Mundial Contemporâneo” foram cobertos por pesquisadores com produção específica sobre cinema, por professores e críticos de cinema na grande imprensa, por editores de revistas, produtores e cineastas.

Apesar de todos os artigos manterem coerência em relação à resposta sobre o que é e como está o cinema mundial hoje, cabe realçar certa distorção de foco entre eles – inevitável, dado que além do amplo espectro a ser atingido, o livro agrega profissionais com diferentes abordagens do metiê.

Michel Marie, Andréa Molfeta, Consuelo Lins, Claudia Mesquita e Mauro Baptista, que tratam respectivamente dos cinemas francês, argentino, documental brasileiro e inglês, arranjam seus textos do modo mais propriamente acadêmico. Já Luiz Zanin Oricchio, Cleber Eduardo, Alfredo Manevy, Ruy Garnier adotam um viés marcadamente jornalístico, para tratarem do cinema da "retomada", de diretores transnacionais, de Hollywood e do cinema de Taiwan.

Deve-se notar também, em artigos como os de Marcus Mello, sobre cinema espanhol, e Mauricio Hirata, sobre o Dogma 95, uma nítida preocupação de acerto de contas com gerações anteriores. Mello realça a importância de Pedro Almodóvar em relação a Luis Buñuel, Hirata pondera que a estrutura de filmes como “Festa de Família”, de Thomas Vinterberg, aproxima a narrativa de uma visão clássica do cinema.

Já os artigos de Isabelle Glachant, Alessandra Meleiro, Frederic Monvoisin, Mahomed Bamba, sobre os cinemas iraniano, chinês e africano, estão voltados para questões como recepção e condições de produção diante de situações sociais e culturais específicas.

Os artigos sobre os cinemas africano e chinês, aliás, merecem observações. A etiqueta que responde pelo nome “cinema africano” é extremamente vazia, num livro que tem justamente por texto de abertura um ensaio sobre a “reinvenção” do conceito de cinema nacional.

O conceito de nação na África é fortemente marcado pelo peso do colonialismo. Por outro lado, falar em África diz apenas de generalidades, ensinando pouco sobre diferenças entre Hausa-Fulanis e Yorobas, para ficarmos no que mostraria a "Nollywood" nigeriana.

O artigo sobre cinema chinês também merece observação. Com a abertura econômica da China, o contraste entre a quinta e a sexta gerações podia ser mais matizado. Da geração de Zhang Yimou à de Jia Zhang-ke, a recepção e premiação dos filmes chineses nos principais festivais europeus teve dimensão que passou ao largo do artigo.

“Cinema Mundial Contemporâneo” ressente-se da distorção de foco entre os diversos artigos que o compõem e, em igual medida, da pretensão de cobrir gama tão ampla de assuntos. Mas é livro que preenche lacuna bibliográfica sobre a vasta produção contemporânea e, na contracorrente dos que crêem no “fim do cinema”, demonstra a vitalidade e o interesse da produção atual.


Publicado em 30/3/2009

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Humberto Pereira da Silva
É professor de filosofia e sociologia no ensino superior e crítico de cinema, autor de "Ir ao cinema: um olhar sobre filmes" (Musa Editora).



 
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