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a.r.t.e.
PÁTRIA DE CHUTEIRAS

O estranho jogo jogado com os pés
Por Fábio Fujita

Museu do Futebol relaciona esporte e cultura brasileira, resgatando histórias perdidas, como a do primeiro craque do país

Que a história do futebol no Brasil começa com um professoral Charles Miller, apresentando um objeto esférico a um assombrado grupo de curiosos reunidos à sua volta, todo mundo sabe.

O que talvez não se saiba é que, ainda antes de Miller aportar em paragens brasileiras, já havia por aqui indícios de um, por assim dizer, “pré-futebol” –como um “bate-bolão contra a parede”, inventado pelos padres de um colégio em Itu, no interior de São Paulo. São curiosidades históricas como essa que levam o Museu do Futebol, inaugurado no final de 2008, na capital paulista, a ser definido por seu curador, Leonel Kaz, como “uma casa do saber do esporte”.

O museu tem sido mais saudado pela originalidade de sua apresentação –recursos lúdicos, como jogos virtuais e filmes em 3D_, do que pelos conteúdos históricos, de grande valor. Ele reconta, a partir de registros fotográficos e audiovisuais, como o futebol, ao longo de sua evolução, foi se introduzindo na vida brasileira e se tornou uma paixão popular e, mais tarde, num poderoso entretenimento de massa.

Segundo Kaz, essa perspectiva histórica baseou-se num livro de sua autoria e do jornalista João Máximo (um dos consultores do museu), intitulado “Um Século de Futebol – Arte e Magia” (ed. Aprazível). “Como o futebol se relaciona com a cultura brasileira, e como a cultura brasileira se relaciona com o futebol?”, questiona Kaz, dizendo que residiria na resposta a essa encruzilhada o desafio dos dois projetos –o do livro e o do museu.

Instalado, não por acaso, nas dependências do estádio do Pacaembu, o Museu do Futebol é estruturado em três eixos de interesse: além de "História", os outros são "Emoção" e "Diversão".

De acordo com o jornalista e pesquisador Celso Unzelte, um dos consultores do museu, buscou-se contextualizar as etapas pelas quais o futebol foi passando até se tornar o fenômeno que é. A própria visualização de Charles Miller como o introdutor do esporte no país –invariavelmente uma “verdade absoluta”– é colocada em perspectiva. “Miller é o pai do futebol organizado, e organizado por uma elite”, frisa o jornalista. Tanto que, além do protofutebol esboçado pelos eclesiásticos de Itu, o museu apresenta outros indícios de manifestações boleiras que antecederam a chegada de Miller. “Há registros de marinheiros jogando bola no Rio de Janeiro, numa ‘pelada’ embaixo da janela da princesa Isabel”, diz Unzelte, autor de “O Livro de Ouro do Futebol”.

Charles Miller, na verdade, era brasileiro de nascimento, filho de pai escocês que viera ao país para trabalhar na São Paulo Railway Company (antecedente da Estrada de Ferro Santos-Jundiaí). Aos dez anos, foi despachado para a Inglaterra –terra da sua mãe–, a fim de se dedicar aos estudos. Foi ali, no verdadeiro berço do futebol, que Miller aprendeu o ofício do jogo, chegando a atuar como centroavante de um time de Southampton.

Voltou ao Brasil em 1894, aos 20 anos, munido de duas bolas, dois jogos de uniforme, um par de chuteiras, um livro de regras e uma bomba de ar. Seria um dos responsáveis pela montagem do departamento de futebol do São Paulo Athletic Club (Spac, sem relação com o São Paulo Futebol Clube), tido como o mais antigo clube da cidade e então essencialmente voltado ao críquete.

A primeira experiência futebolística oficial ocorreria no ano seguinte, entre o Spac e a The Gás Co. (empresa fornecedora de gás da capital), num campo de terra, com vitória do primeiro por 4 a 2 –sendo dois gols de Miller. O Spac venceria as três primeiras edições do campeonato local, então organizado pela finada Liga Paulista de Futebol, entre 1902 e 1904.

Unzelte lembra que, ao contrário de uma adesão rápida de adeptos, a novidade esportiva da passagem do século penou com fortes resistências de certos formadores de opinião, que profetizavam o virtual fracasso daquele “estranho jogo que se jogava com os pés”. Uma dessas vozes era a de Lima Barreto, escritor conhecido por uma veia ufanista. “Havia uma aversão a tudo o que vinha de fora, pelo próprio desconhecimento. Era um preconceito pelo preconceito”, afirma o pesquisador. “Ninguém sequer podia imaginar que aquele jogo passaria a fenômeno social, a marca registrada do país.”

No museu, é na Sala das Origens que o torcedor-visitante pode se deliciar com imagens de época que revelam os primórdios toscos –e, por isso mesmo, fascinantes– do esporte que começava a engatinhar. Voltado essencialmente para as elites, o “futebol organizado” exigia que as equipes atuassem com uniformes de seda, sob rigorosos parâmetros de disputa.

Mais do que isso, o futebol, então, espelhava as próprias mazelas de uma sociedade mergulhada em valores retrógrados. Não bastasse as equipes não aceitarem a presença de negros e mestiços no jogo, ainda proibiam, em determinações impostas nos estatutos, até mesmo a presença de “trabalhadores braçais” em seus elencos.

Se ao longo das décadas que viriam o futebol se revelaria o cenário pródigo para histórias de superação da pobreza, o desbravador dessa tendência, lá nos primórdios, atendia pela complicada alcunha de Friedenrich. Tido como o primeiro grande craque brasileiro, foi personagem marcante, ao lado de Charles Miller, na fase pré-profissional do futebol no país. “Meu avô dizia que, se ele não foi maior que Pelé, menor também não foi”, conta Unzelte.

Apesar da incipiência de registros, alguns dos feitos de Friedenrich não passaram às cegas para a história. Se em 1997 Edmundo chegou a enfiar seis gols numa única partida (contra o União São João, pelo Campeonato Brasileiro), Friedenrich, 69 anos antes, marcara nada menos que sete tentos contra uma única vítima, o União da Lapa. E, tal como Edmundo, com o requinte de ainda ter desperdiçado uma penalidade máxima nos mesmos 90 minutos. Numa excursão pela Europa em 1925, Friedenrich chegou a ser apontado como um dos melhores jogadores do mundo, após liderar seu time, o Paulistano, numa vitoriosa campanha de nove vitórias em dez jogos.

Antes da glória, no entanto, Friedenrich sofreu o diabo por suas origens mestiças: era filho de mãe negra, lavadeira, e pai alemão, comerciante. Foi a boa condição do pai –homem de negócios bem-relacionado– que fez com que ele tivesse suas primeiras oportunidades no Germânia, o clube da comunidade alemã. “Com o tempo, na medida em que pôde mostrar seu talento, (Friedenrich) abafou qualquer tipo de questionamento”, explica Unzelte, com a ressalva: “Nem por isso ele deixava de alisar o cabelo ou de recorrer a outros recursos, para parecer um jogador como os outros”.

Em pouco tempo, seriam os outros que queriam imitar Friedenrich, que atuaria até 1935, encerrando a carreira aos 43 anos. Toda essa saga é contextualizada nas 431 fotografias que imprimem uma sofisticação retrô à Sala das Origens, certamente o ambiente mais rico em termos de pesquisa oferecido pelo museu.

Seria com a difusão dos jogos pelas rádios que o futebol alcançaria, rapidamente, larga popularidade, a partir de meados da década de 20, conforme o torcedor-visitante pode acompanhar na Sala dos Heróis. Se, até então, os programas radiofônicos se dedicavam à música e à política, eles tiveram de se render à alta demanda pelo novo tipo de entretenimento exigido pelos ouvintes.

A consequência disso foi que, pela primeira vez, os jogadores de futebol mais queridos pelo público, como Leônidas da Silva e Domingos da Guia, ambos negros, começaram a ser glorificados como heróis de primeira grandeza, com a mesma dimensão nacional de outros ídolos brasileiros.

Unzelte lembra que o Campeonato Sul-Americano de 1919 (antecedente da Copa América), disputado nas Laranjeiras (campo do Fluminense, no Rio de Janeiro), foi um primeiro marco de popularização do esporte. Para a época, o evento teve peso de uma copa do mundo, embora só quatro seleções participassem (Brasil, Argentina, Uruguai e Chile). “Foi a primeira vez que o futebol parou o pais”, diz o pesquisador. Mas seria o Mundial de 1938, disputado na França, que mudaria drasticamente a relação do torcedor brasileiro com o futebol. “Não por acaso, é a primeira Copa do Mundo transmitida via rádio para o Brasil. É nesse momento que o futebol dá ‘o pulo do gato’.” Na ocasião, a seleção brasileira terminaria na terceira colocação.

Na Copa seguinte, em 1950 –o torneio não foi realizado na década de 40, em virtude da Segunda Guerra Mundial–, o Brasil surgiu como franco favorito para o título, até por se tratar do país-sede. Na primeira fase da competição, o país não levou sustos, com duas vitórias e um empate em três jogos. Na fase derradeira, a seleção chegaria à final contra o Uruguai depois de duas acachapantes goleadas: 7 a 1 para cima da Suécia, e 6 a 1 contra a Espanha.

O estádio do Maracanã, erguido exatamente para o torneio, extrapolou em muito sua capacidade total de 200 mil espectadores para a grande decisão. Tudo parecia conspirar a nosso favor: mesmo podendo empatar para levantar a taça, o Brasil saiu à frente no placar, graças ao gol de Friaça. Mas o desfecho é conhecido: com gols de Schiaffino e Ghiggia, o Uruguai virou a partida e estragou a festa brasileira.

O clima fúnebre do revés é “recriado” por um corredor do museu intitulado “Rito de Passagem”, em que um filme curto com imagens do jogo é narrado na voz inconfundível de Arnaldo Antunes. O silêncio da multidão ao apito do árbitro é contrastado por um efeito que reverbera o tilintar de um coração, potencializando na percepção do visitante a carga emocional desta que é a mais traumática derrota da história do futebol nacional.

É compreensível que a tragédia tenha merecido um ambiente especial do museu, porque, ainda que de forma indireta, ela forjaria o espírito da “pátria de chuteiras”, que, oito anos depois, na Suécia, se redimiria com o título mundial, o primeiro de cinco –até hoje, número não superado por nenhuma outra nação.

Outros dois ambientes –as auto-explicativas Sala das Copas do Mundo e Sala Pelé-Garrincha– completam o eixo histórico do museu. Menos impactantes pelo teor didático de seus conteúdos, valem a visita mais por alguns registros visuais inéditos (ou, ao menos, pouco conhecidos) de personagens que tão bem representaram nosso futebol. Do Mundial de 2002 disputado na Alemanha e vencido pelo Brasil, é possível ver, por exemplo, a imagem do caipira goleiro brasileiro Marcos consolando o arrogante colega de posição germânico Oliver Kahn, que, a despeito de ter sido eleito o melhor jogador daquele torneio, falhou quando não podia falhar: exatamente na final ante a seleção brasileira.

Pelé e Garrincha foram os únicos a merecerem uma sala só para eles, pois foram, cada um ao seu modo, os dois maiores talentos com a bola nos pés nascidos nestas paragens.

Se Pelé dispensa maiores comentários sobre seus feitos, há quem conteste a “posição” de Garrincha entre os melhores da história. Na verdade, mais importante do que sua técnica em si, Garrincha foi o nosso Macunaíma dentro das quatro linhas: a encarnação de uma brasilidade folclórica, capaz de impor uma comicidade involuntária ao jogo, graças à ginga criativa tão cara aos brasileiros.

Descendente de índios, Garrincha não via muita diferença entre encarar um “Joe” inglês numa Copa do Mundo ou os velhos amigos de Pau Grande num campinho qualquer –mesmo depois de consagrado profissionalmente. Não por acaso, teria de ser Garrincha o inventor do “Olé” nos estádios de futebol (grito da torcida inspirado em tourada, entoado para irritar o adversário).

Aconteceu num amistoso disputado no México, quando o Botafogo de Garrincha encarou os argentinos do River Plate, em fevereiro de 1958. Como se estivesse diante de uma aparição alienígena, a torcida mexicana passou a cantar “Olé” como uma reação instintiva diante da série de fintas desconcertantes aplicadas por Garrincha sobre seu pobre marcador, o lateral esquerdo Vairo.

“Visitar o museu é visitar a história do Brasil no século XX”, diz Kaz. Ligeiro equívoco: o registro da globalização do “Olé” por Garrincha é um indicativo de que o conteúdo do museu não se fecha aos interesses estritamente brasileiros. O futebol é, por definição, a manifestação popular que melhor representa uma “linguagem universal” dos povos. “Queríamos um museu que fosse um ponto de referência obrigatório para o turista estrangeiro”, explica o curador. A depender da avaliação de um ilustre suíço, o presidente da Fifa, Joseph Blatter (feita na ocasião de sua passagem por São Paulo, no final de janeiro), o objetivo foi plenamente alcançado. “É o melhor museu do mundo”, definiu.


Publicado em 30/3/2009

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Fábio Fujita
É jornalista.

 
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