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ensaio
ERA SOMÁTICA

A nova interioridade
Por Maria Cristina Franco Ferraz

Exposições no Rio evidenciam como a preocupação com a bioquímica do corpo está suplantando a explicação psicológica do homem

“Você tem um encontro marcado com o seu interior”: eis o significativo slogan da exposição “Corpo Humano – Real e Fascinante”. Tendo percorrido com sucesso 30 diferentes cidades do mundo, essa exposição está até início de fevereiro no Museu Histórico Nacional do Rio de Janeiro. Neste slogan, ressoa para certa geração letrada o título de uma conhecida obra do escritor mineiro Fernando Sabino, que marcou época. Mas esta memória é colocada a serviço de uma nova visão sobre o que seria um encontro consigo mesmo e, principalmente, do que seria nosso interior. Na campanha publicitária da exposição, lemos em cartazes espalhados pelas ruas da cidade: “Descubra como você é por dentro”. Ou ainda: “Venha ver do que você é feito”.

Nessa exposição, corpos reais (“reais e fascinantes”: outro significativo mote da exposição) de cadáveres chineses plastinificados revelam seu verdadeiro interior, ou seja, o que se é verdadeiramente por dentro: órgãos, vísceras, veias, ossos, músculos, mas também próteses. Como a diferença entre o natural e o artificial já se esvaziou, não se estranha que todo tipo de prótese se inscreva no corpo real. Na exposição, o corpo morto é fragmentado, purificado de seus odores, de sua temporalidade orgânica, de sua irrefreável tendência natural à putrefação. Também é desprovido de qualquer história ou ancoragem político-social. Mas nada disso parece soar estranho.

Em certa seção, o corpo é exposto horizontalmente fatiado, em camadas, imitando imagens digitais produzidas por ressonâncias magnéticas ou tomografias computadorizadas, com as quais cada vez mais nos acostumamos. Ressecado, desencarnado e digitalizado, esse corpo humano serve como suporte didático para a vulgarização científica. Mas também incita a um “cuidado de si” centrado em hábitos saudáveis de vida.

Por exemplo, após ver pulmões realmente destruídos pelo tabaco, o visitante é convidado a depositar em uma urna de acrílico transparente (a cada dia repleta) seu inimigo: o cigarro. Tem assim a chance de se redimir de seu atentado contra as boas normas da saúde e da prevenção de riscos. Eis uma das faces da intensa moralização que tem recoberto, de modo bastante evidente, nossas práticas somáticas.

Como inúmeros produtos culturais e midiáticos que permeiam nosso cotidiano, essa exposição exprime uma grande mudança naquilo que pensamos ser interiormente. Expressa a tendência atual de mutação do antigo regime da interioridade, marcado pela relevância expressiva dos saberes psicológicos que o final do século XIX e o século XX nos legaram. Declina o homem psicológico moderno. Nossa nova interioridade é de outro teor. Na cultura contemporânea dissemina-se uma ênfase crescente no somático, na bioquímica do corpo. Esta tendência modula o modo de se relacionar consigo mesmo e com o outro.

Tal ênfase é acompanhada por um processo de externalização do eu na superfície lisa de imagens, especialmente em neuroimagens. No início de 2009, outra exposição internacional, dessa vez na Casa de Ciência da UFRJ, reflete esse processo. Trata-se de uma mostra que recebe outro significativo título: “Paisagens Neuronais”.

Na exposição são mostradas “imagens inéditas” (digitais, leves e multicores) do sistema nervoso –elemento privilegiado na cultura somática, em plena sintonia com os corpos superexcitados e hiperexcitáveis contemporâneos. Conforme chamada na revista “Zona Sul”, do jornal “O Globo”, em 1º de janeiro de 2009, o diretor do instituto ressalta que “a variedade das formas e dos efeitos luminosos surpreende o espectador”. De fato, a se julgar pela imagem ilustrativa da chamada, as cores ressaltam na imagem sobre um fundo negro, lembrando o efeito bem conhecido (e divertido) da luz negra.

Em “Paisagens Neuronais”, o personagem principal é evidentemente o cérebro, com suas redes neurais, reveladas em imagens digitais que expõem figuras abstratas e multicores. A exposição presta homenagem ao cientista espanhol Santiago Ramón y Cajal, assinalado como precursor das atuais neurociências e da reprodução visual dos diagramas em rede com que se visualiza a composição neural. Com efeito, na virada do século XIX para o XX, Ramón y Cajal desenhou com esmero redes neurais diversas.

A exposição privilegia neuroimagens atuais, acompanhadas de frases e de pequenos textos criados por intelectuais, pintores, filósofos, escultores e escritores. Acopladas a “fotos” de neurônios (em geral, não humanos) abundam referências a pintores modernos, como Mirò, e também a obras literárias. Submete-se assim a memória cultural ocidental ao fascínio e à persuasão exercidos pelas novas imagens neurais. A ironia por vezes presente se dirige à tradição literária e pictórica moderna, não às atuais crenças que subjazem às neuroimagens.

Uma das imagens, por exemplo, é interpretada sinteticamente como: “Godot chegou?”. Emoções, sentimentos (como a ira) e micronarrativas também comparecem nessa leitura interpretativa e “artística” das imagens. Ou seja: o vocabulário dos afetos, bem como a tradição literária e pictórica, se rendem às neuroimagens, apontando para a relevância de explicações cerebralistas e fisicalistas de todos os fenômenos humanos, do próprio mistério da “personalidade”, conforme o vídeo sobre o funcionamento do cérebro mostrado na entrada da exposição.

O “interior” do corpo, exteriorizado no fascínio luminescente e multicor das neuroimagens, torna-se assim paisagem neuronal. De modo mais sutil, outra longa tradição pictórica ocidental é relida e atualizada, uma vez que um gesto inédito de “paisagismo” passa a se impor. A exterioridade das paisagens habita nosso interior mais próprio e verdadeiro. À ênfase na rede de neurônios em que o corpo se resume é cada vez mais associada uma nova visão da interioridade, rebatida sobre um tipo de imagem na qual têm se apoiado as neurociências em expansão, espraiando-se e consolidando sua credibilidade na cultura contemporânea.

Nesse contexto, o que na modernidade era mais “interior” –a velha vida subjetiva, com seus conflitos, dilemas e aventuras– desloca-se para a materialidade somática, atravessada por saberes científicos em franco desenvolvimento e por um regime de visibilidade digitalizante. Aquilo que somos mais autenticamente passa a referir-se a um corpo fragmentado, cientificamente esquartejado, alcançando-se sua composição molecular.

Essa concepção tem privilegiado, em especial, os seguintes elementos: o cérebro, os hormônios (moduladores da atividade cerebral) e os genes. Indicativo da expansão cultural desses saberes, o vocabulário bioquímico, hormonal, invade significativamente a linguagem cotidiana. A excitação que certo tipo de cinema produz passa a ser diretamente associada à liberação de adrenalina. A esse tipo de cinema pode-se popularmente chamar de “cinema-adrenalina”.

Lembremos também outros exemplos dessa progressiva expansão do vocabulário hormonal em nossa linguagem cotidiana. O prazer e a sensação de bem-estar ligados às práticas de “fitness” são cada vez mais diretamente remetidos à produção de endorfina. Tudo se passa como se, finalmente, se tivesse descoberto a verdade sobre todas as sensações e afetos. Claro que a produção da verdade na cultura ocidental ficou aninhada, após alguns séculos de crescente ruína das crenças metafísicas, no campo científico. A própria tristeza, ressignificada como “depressão”, passa a remeter diretamente a níveis e taxas de serotonina. A atenção, cada vez mais requerida e, ao mesmo tempo, levada a dispersar-se entre excitações concorrentes, passa a ser relacionada à produção bioquímica da ritalina.

Vai-se assim consolidando o que alguns autores chamam, apropriadamente, de cultura somática. Na contemporaneidade, esvazia-se paulatinamente o modo de ser moderno, ancorado na experiência de si como sujeito dotado de interioridade. Vai-se insinuando uma maneira de ser somatizante, que alguns autores tematizam.

Desde o início dos anos 90, o antropólogo norte-americano Paul Rabinow ressaltou, pioneiramente, de que modo o Projeto Genoma já sinalizava essa ênfase no biológico, em suas implicações identitárias e sociais. Rabinow propôs o conceito de “biossociabilidade” para enfatizar a formação de novas identidades, de novas práticas individuais e grupais no âmbito da capitalismo atual.

Rabinow salientou que haveria, por exemplo, portadores de doenças, como a neurofibromatose, que procurariam cada vez mais trocar experiências, fazer lobby em torno de questões ligadas a seus males, discutir relações familiares etc _a “biossociabilidade”. E acrescenta: “Haverá, sim, grupos formados em torno do cromossomo 17, locus 16.256, sítio 654.376, alelo com substituição de uma guanina. Esses grupos terão especialistas médicos, laboratórios, histórias, tradições e uma forte intervenção dos agentes protetores para ajudá-los a experimentar, partilhar, intervir e ‘entender’ seu destino. E será mesmo destino. Ele não será portador de nenhuma profundidade”.

No século XXI, esses grupos já se encontram amplamente organizados em sites e blogs na web. O pioneirismo coube aos portadores de Aids, mas a biossociabilidade estende-se atualmente a outras síndromes, tais como as de Huntington ou de Asperger. Desenvolvendo o tema da “biossociabilidade”, o autor inglês Nikolas Rose afirma que estamos nos tornando “individualidades somáticas”, ou mesmo “selves neuroquímicos”.

No contexto da cultura somática, assiste-se assim a um esvaziamento do regime da interioridade psicológica, vinculado ao modo moderno de se subjetivar. A interioridade passa paulatinamente a se reconfigurar nas práticas e valores que impregnam os roteiros de subjetivação contemporâneos.

Não se trata, evidentemente, da substituição de um modo por outro, como por vezes a ênfase e a retórica teorizantes podem sugerir. O que ocorre é, antes, uma mutação mais ou menos perceptível das inflexões e rearranjos do regime (e do vocabulário) das práticas subjetivantes. Ou, mais precisamente, uma subordinação de antigos mecanismos por outros emergentes, que vão se consolidando. Nesse sentido, o slogan da exposição “Corpo Humano”, inicialmente comentado (“Você tem um encontro marcado com o seu interior”), torna-se de fato bastante revelador.


Publicado em 2/2/2009

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Maria Cristina Franco Ferraz
É doutora em filosofia (Paris I-Sorbonne), professora titular de Teoria da Comunicação da Universidade Federal Fluminense (UFF) e autora de "Nietzsche, o Bufão dos Deuses", "Platão: As Artimanhas do Fingimento" e "Nove Variações Sobre Temas Nietzschianos" (todos pela Relume Dumará), entre outros. É também organizadora da coleção "Conexões", da editora Relume Dumará.


1 - Trata-se do livro “O Encontro Marcado”, publicado em 1956, no qual são narrados os conflitos e as experiências do personagem Eduardo Marciano, que está à procura de si mesmo e da verdadeira razão de sua vida.


2 - Sobre esse tema, ver Benilton Bezerra, “O Ocaso da Interioridade e Suas Repercussões sobre a Clínica”. In Plastino (org.). “Transgressões”. Rio: Contra Capa/Rios Ambiciosos, 2002.


3 - Ver Paul Rabinow, “Antropologia da Razão”. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1999.


4 - Idem, ibidem, p. 147.


5 - Ver Nikolas Rose, “The Politics of Life Itself: Biomedicine, Power, and Subjectivity in the Twenty-first Century”. Princeton e Oxford: Princeton University Press, 2007

 
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