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ensaio
CIÊNCIA

Darwin contra o biologismo
Por Carlos Alberto Dória

Comemoração dos 200 anos do nascimento do naturalista inglês é oportunidade para reconciliar as ciências humanas com a biologia

Em 2009, a comunidade científica internacional comemorará os 200 anos de Charles Darwin, nascido em fevereiro de 1809, e os 150 anos de lançamento de sua obra mais importante, “A Origem das Espécies”. As múltiplas iniciativas visando a popularização das idéias do naturalista inglês foram reunidas sob uma bandeira única, que pode ser vista, em português, no site internacional denominado “Ano de Darwin - 2009” (www.ano-darwin-2009.org).

Mas o que isso tem a ver com a vida cotidiana do comum dos mortais? Um simples exemplo pode nos socorrer. Qualquer pessoa que entre na internet poderá encontrar inúmeros testes para identificar se seu filho é disléxico. Depois de responder a perguntas sobre desempenho escolar, poderá concluir que a criança sofre de distúrbio neurológico, hereditário, e não apresenta apenas um “defeito” no ensino/aprendizagem. Apura-se também que 20% do universo infantil têm essa deficiência. A mesma coisa era chamada, até recentemente, de “déficit de atenção” e algumas escolas recomendavam medicar a criança.

Ora, como algo que normalmente julgamos cultural (o aprendizado e seus problemas) se torna físico? As mudanças de explicação parecem indicar um progresso das ciências, mas também podem ser vistas como a hegemonia das ciências naturais sobre as ciências humanas no domínio do senso comum, do qual participa, por exemplo, a pedagogia. O que era resultado da socialização –atenção, disciplina– escorregou para o terreno do puramente biológico. O biologismo é o substituto moderno do antigo “psicologismo” ou do “sociologismo”, reducionismos utilizados nas explicações de fenômenos complexos.

O controle sobre o comportamento humano é apenas uma possibilidade da forma moderna de conhecê-lo, e a origem dessa abordagem deriva dos progressos da genética no último século, da sua apropriação pelo conjunto das ciências e pelo senso comum. O fundamental é que o conhecimento do comportamento humano mudou completamente, entre começos do século 20 e a atualidade.

O pensamento de Freud talvez tenha sido a maior vítima das explicações comportamentais baseadas no conhecimento do funcionamento do cérebro e das bases físicas da percepção humana. Pouco a pouco, a medicina substituiu a psicanálise pela farmacopéia, imaginando atingir o mesmo resultado prático do divã. O “mergulho na alma”, no inconsciente, foi, por várias razões (inclusive econômicas), substituído com aparente vantagem pelo conhecimento sobre os impulsos elétricos que movem a máquina de simbolizar.

O mesmo aconteceu com a sociologia e a antropologia, uma vez que o comportamento humano passou a ser escrutinado pela psicologia em estreita associação com a biologia, ficando num segundo plano a “explicação cultural” das variações observadas a partir de um substrato comum. No lugar das tradicionais disciplinas acadêmicas, a psicologia evolutiva, ciência “sucessora” da sociobiologia e que pretende compreender a mente humana (sob o aspecto cultural, social e histórico) como produto de processos biológicos e evolutivos, ocupou o lugar antes destinado à sociologia e à antropologia no imaginário das ciências modernas.

Alguns críticos chamam a atenção para uma espécie de “invasão” das ciências humanas pelo pensamento biológico. Outros mostram as ciências humanas em grande defensiva: os mais importantes periódicos sociológicos norte-americanos vêm, há décadas, publicando artigos buscando demolir a teoria evolutiva para compreender o comportamento humano.

De fato, a relação entre a mente ("mind") e o cérebro ("brain") é um dos temas mais complexos para todas as ciências. Trata-se de desvendar o enraizamento biológico do conhecimento, desafio para o qual a sociologia, a antropologia e a história nunca estiveram convenientemente preparadas, uma vez que a sua cientificidade apóia-se em noções que partem da vida social plenamente estabelecida.

Quando Durkheim se refere à divisão social do trabalho, o “social” já existe. Quando Lévi-Strauss fala na passagem da natureza para a cultura através da proibição do incesto, é uma espécie de “contrato sexual” (uma modalidade de “contrato social”) que inaugura a trajetória histórica das sociedades.

Ainda que Freud haja inaugurado a investigação sobre os estratos inconscientes do homem, eles também pressupõem a linguagem plenamente constituída. É nesse beco sem saída que a psicologia evolutiva parece dar o seu xeque-mate às humanidades –e é em relação a ele que os humanistas insistem no reconhecimento da “autonomia” da vida simbólica, como a dizer que o jogo a ser jogado é inteiramente outro.


A genética e o comportamento humano

Ora, Darwin se dedicou especialmente a mostrar como a evolução humana tem componentes que não podem ser reduzidos à simples explicação da seleção natural. É verdade que o livro específico que escreveu sobre o assunto (“A Descendência do Homem e a Seleção Sexual”, 1871), exatamente para que não se aplicasse de modo mecânico a seleção natural ao processo de formação do homem, foi muito pouco lido e compreendido, mesmo cem anos depois de publicado. Contudo, a partir dele é possível perceber que há fenômenos que se explicam através da seleção natural e outros que não se explicam dessa maneira, como é o caso da “seleção sexual” –tão determinante na formação do homem.

Mas o novo jogo em torno da compreensão do homem armou-se graças à “síntese moderna” que meia dúzia de biólogos e geneticistas realizaram, entre 1937 e 1950, em torno de universidades norte-americanas, reunindo numa nova disciplina o evolucionismo de Darwin e a genética pós-mendeliana. Esta escola, chamada “neodarwinista”, colocou a genética no seu patamar moderno, como responsável pela determinação de caracteres dos seres vivos.

O livro de Richard Dawkins, “O Gene Egoísta”, escrito com o propósito da divulgação científica, coloca em termos extremados o argumento geneticista. Segundo ele, os genes são os sujeitos da história natural, inclusive sujeitos únicos da história humana até onde a cultura possa intervir na construção desse animal especial. Não é à toa que Dawkins é o alvo privilegiado dos criacionistas modernos, que repetem, sob novas roupagens, os velhos argumentos de Willian Paley em sua “Teologia Natural” (1802).

De fato, os deístas –que acreditavam que Deus estava emaranhado nas coisas da natureza- ficaram órfãos diante de um mundo representado como um mecanismo que move a si próprio sem finalidade. Mas a expulsão de Deus da natureza e da história é apenas um aspecto do problema, pois o geneticismo parece expulsar a própria história da explicação do ser vivente –ao menos da história que não seja a história natural dos processos genéticos.

O que esse pensamento pôs em questão, além da necessidade de um deus para explicar a história, foi a crença na existência de uma “essência humana”, que simplesmente não faz sentido para a abordagem biológica. Do ponto de vista das ciências humanas, apenas o materialismo de inspiração marxista incorporou essa dimensão derivada do darwinismo; mesmo assim, não são poucas as suas correntes que buscam construir uma “ontologia” baseada numa noção metafísica de trabalho, isto é, representar uma essência humana independente da sua biologia.

A ideia de essência humana não subsiste inclusive porque a capacidade de simbolização é algo muito recente na linhagem humana e não caracteriza a totalidade do percurso evolutivo da espécie. Atribui-se à chamada “revolução criativa do Paleolítico superior”, ocorrida 45 mil anos atrás, o surgimento das bases neurobiológicas que permitem falar no “homem anatomicamente moderno” ou no “homem comportamentalmente moderno”.

Compreende-se que é difícil entender como seres muito próximos a nós, com grande capacidade de resolução de problemas complexos, como os neanderthais, poderiam agir sem se valerem de valores simbólicos e expressando estados mentais de prazer, dor, decepção, excitação etc.

A psicologia evolutiva, surgida ao longo dos anos 1970, pretende justamente tratar desses fenômenos considerando que o cérebro primata abrange muitos mecanismos funcionais chamados “adaptações psicológicas” ou “mecanismos psicológicos evolutivos”, que se transformaram ao longo da história, favorecendo a sobrevivência e a reprodução dos organismos. Tanto o desenvolvimento dos sentidos, como o da memória, de estratégias sexuais, de comportamento e de temperamento são hoje considerados à luz desses processos biológicos.

Como hipótese, a psicologia evolutiva supõe que somos portadores de módulos mentais plásticos e impressionáveis pelo ambiente, especializados em gerar e processar a cultura de modo a tirar vantagem do ambiente a partir da experiência do indivíduo. Dessa forma, a cultura é a parte da natureza humana que permite, por exemplo, que escolhamos o alimento certo, selecionemos parceiros etc.

O desenvolvimento dessa nova ciência, na medida em que se serve da genética, da etologia (estudo do comportamento animal), da antropologia, da arqueologia, da biologia, da antropologia e da inteligência artificial, acabou por colocá-la em condições de influir na agenda de pesquisa das demais disciplinas auxiliares. À sua sombra, desenvolveram-se conceitos novos, fortemente apoiados na genética, como a “seleção por parentesco”, que explicaria atos altruístas entre indivíduos aparentados, que, dessa maneira, poderiam ter ganhos maiores em relação ao ambiente.


A cegueira pós-darwinista e a evolução humana

Ora, 150 anos após a teoria da seleção natural, é difícil estabelecer até onde esses desenvolvimentos modernos do conhecimento podem ser devidos às descobertas de Darwin. Mais difícil ainda é encontrar a linha que una a ciência à caricatura dos seus resultados e aplicações, como no caso da pedagogia que vê na “indisciplina” e “falta de atenção” sintomas de uma conformação genética que atinge 20% da população infantil em idade escolar. Acontece que a sensação de divórcio entre biologia e ciências humanas deve-se, sobretudo, ao descaso pela “antropologia de Darwin”.

Na última década, o filósofo e historiador das ciências Patrick Tort, fundador do Instituto Charles Darwin Internacional (Paris), tem acusado as ciências sociais de incapacidade atávica para ler e compreender a obra de Darwin. Para ele, a compreensão da “segunda revolução darwinista” só é possível para quem deixe de contemplar a obra do sábio inglês como sendo exclusivamente a teoria da seleção natural e leia, com atenção, "A Descendência do Homem e a Seleção Sexual" (1871), na qual fica mais do que claro que a evolução humana deve-se especialmente à emergência dos instintos sociais não-selecionistas, isto é, à base natural da simpatia e solidariedade entre os animais.

Há quem entenda que Tort vai longe demais ao querer ver uma base natural para a moral. Outros vão além, como o primatologista Frans de Waal, que, com base em experimentos relatados, no seu recente livro “Primatas e Filósofos: Como a Moralidade Evoluiu” (2006), defende que é hora de tirar a questão da mão dos filósofos para depositá-la em mãos dos biólogos.

Seja como for, para Patrick Tort, a “cegueira” pós-Darwin deveu-se ao fato de que os darwinistas leram mais Herbert Spencer e Ernst Haeckel do que propriamente Darwin e, tendo esse “biombo” diante dos olhos, enfatizaram a “luta pela vida”, a dita “sobrevivência do mais apto”, aplicaram-na escandalosamente à sociedade e ignoraram por mais de cem anos a obra específica sobre a origem e evolução do homem.

A tese de Tort é que, num certo ponto da evolução dos instintos sociais, eles mesmos passam a ser “selecionados pela própria seleção natural”, isto é, a cultura emerge quando a seleção natural passa a “selecionar” a solidariedade e as práticas antisselecionistas, dando tratos à consciência e à moralidade. Assim, em vez da evolução ser uma espécie de eugenia de longo prazo, a civilização protege os mais frágeis (crianças, mulheres, velhos) e é exatamente este o caminho da civilização, que Patrick Tort chama de “efeito reversivo da evolução”.

Uma prova da leitura enviesada que se fez de Darwin advém da análise histórica comparativa. Enquanto a Inglaterra, França e Estados Unidos utilizavam a “luta pela vida” como um recurso metafórico para projetar na natureza a luta de todos contra todos que o liberalismo prescrevia no plano político e econômico, produzindo uma naturalização da economia capitalista, na velha e carcomida sociedade russa, prestes a sucumbir por obra de uma revolução operária, inexistia tradição liberal ou de economia política que justificasse essa leitura de Darwin.

1 - Ver a respeito a entrevista do neuropediatra José Salomão Schwartzman: http://drauziovarella.ig.com.br/entrevistas/dislexiaII2.asp


2 - Ricardo Waizbort, “Notas para uma Aproximação entre o Neodarwinismo e as Ciências Sociais”. "História, Ciências, Saúde – Manguinhos", v. 12, n. 2, págs. 293-318, maio-agosto 2005.

 
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