1
prosa.poesia

Poesia em trânsito
Por Heitor Ferraz


O poeta Renato Mazzini
Divulgação

Interior de São Paulo produz novos e expressivos autores, como Renato Mazzini, que prepara seu primeiro livro

Nos últimos anos, o interior de São Paulo passou por enormes transformações. Já é difícil encontrar um ambiente completamente rural. As cidades cresceram, algumas mais do que as outras, enriquecendo, trazendo o caos urbano para o mundo antes idilicamente pacato.

Aquele nosso idílio, nosso sonho meio caipira de encontrar no ambiente rural alguma verdade que nos escapava da vida da cidade. Digo “nosso”, pensando na classe média paulistana, que vira e mexe procura refúgio no meio do mato para se esquecer do tormento que é viver numa cidade barulhenta como São Paulo.

Estas transformações passaram a ser temas de alguns autores mais recentes. Não diretamente. Não que tenham se entregado a uma consciência crítica, ou mesmo nostálgica, sobre este fenômeno. Também não se trata -é bom dizer de saída- de algum tipo de ingenuidade, ou desejo de urbanidade, ou cosmopolitismo, que os faz transporem a soleira do rural para as portarias com segurança do urbano. Seria diminuir a força expressiva dessa literatura.

Posso citar pelo menos quatro poetas fortes saídos desse interior, um interior - vale ressaltar- específico. Alguns, por exemplo, com suas universidades públicas que tiveram, sem dúvida, e continuam tendo, um papel importante na formação de muita gente.

Cito rapidamente alguns nomes: Marcos Siscar, um dos mais importantes poetas de hoje, nascido em Borborema e morando em São José do Rio Preto, onde é professor na Unesp, mas com passagens longas por Paris, onde fez seus estudos de pós-graduação; Fabrício Corsaletti, também do interior, mas há muito tempo em São Paulo, em cuja poesia, como em sua recente prosa, encontramos um retorno ao mundo familiar interiorano, um interior moderno, de classe média, já marcado pelas transformações citadas acima; Antônio Geraldo, com uma poesia talvez um pouco mais focada no mundo rural e seus contrastes, autor de “Peixe Míngua”, livro que passou meio de lado pela recepção crítica de São Paulo, mais preocupada em jogar suas luzes foscas na produção intestina e com pretensões cosmopolitas.

Mas não é nenhum desses três poetas de alta fatura que pretendo apresentar aqui. Vou falar, em linhas breves, de Renato Mazzini, jovem poeta, nascido em 1981 em Santa Fé do Sul, “cidadezinha do interior paulista, distante cerca 680 km da capital, onde cresci e vivo”, como ele mesmo descreve.

Formado em direito pela Funec (Faculdades Integradas de Santa Fé do Sul), Mazzini não atua na área jurídica. Durante o dia, trabalha no setor administrativo de uma indústria local de grande porte, que produz e comercializa itens de aço. Após este turno de nove horas diárias, complementa seu salário como professor de idiomas.

A primeira vez que li seus poemas foi por indicação de Carlito Azevedo. Era uma poesia que me parecia hermética, com alta carga metafórica, como se o uso da metáfora estivesse mesmo no centro de suas preocupações poéticas. As imagens eram fortes, intensas e ficavam flutuando na memória sem um sentido, digamos assim, muito óbvio, ou muito claro.

Estas metáforas funcionavam como um despiste dos assuntos; o excesso de imagens não chegava a sufocar o poema, mas o tornava menos transparente. “As Cortinas” é um belo exemplo disso, pois o poeta lança mão de imagens naturais e urbanas (como postes de luz, asfalto recapeado), criando uma tensão entre estes elementos, para tratar da relação entre homem e natureza, que seria um “encontro elementar”, mas que parece interrompido, transformado pelo mundo da representação escrita (um livro ou um caderno). Haveria muito mais a dizer sobre este poema delicado e enigmático.

Outro aspecto que logo me chamou a atenção foi a manutenção, em vários poemas, da pauta contemporânea do afastamento do tradicional “eu lírico”, mesmo quando esse surge ocasionalmente num verbo na primeira pessoa do singular. O poema trata das coisas com uma certa e aparente distância, como se as observasse de fora, sem envolver o movimento interno do próprio corpo.

Hoje muitos fazem barricadas contra este afastamento, dizendo ser assunto carcomido pelas discussões mais recentes em poesia. Ou retomando a discussão em sua origem entre nós, ou seja, na poesia de João Cabral e no radicalismo posterior da poesia concreta. Digo “entre nós”, pois sabemos que esta objetividade (por falta de outra palavra) é fato mais antigo na poesia do século 20.

Foi um deslocamento necessário para retomar a produção lírica de outro posto diante da anulação externa do “eu empírico”. Não podemos chamar de modismo, nem de invenção de algum gênio, mas sim resultado do próprio contato com a experiência histórica, que funciona como a mão do oleiro na confecção formal do objeto de cerâmica, como dizia Walter Benjamin.

Esta continua sendo uma questão pertinente, pois é uma espécie de lamaçal em que a poesia contemporânea escorrega, sem perspectivas de saída. Mas é esta mesma questão, com suas dúvidas, que faz a beleza do que se tem produzido em poesia nos últimos anos –realço esta beleza diante daqueles que teimam em ler a poesia recente apenas com uma chave desgastada, soterrando a leitura com teorias que partem de fora do poema, aplicando-as como as receitas do livro “Dona Benta”.

Mazzini ainda é um poeta inédito, mas já tem um livro pronto que pretende publicar em breve, de forma independente. Chama-se “Paisagem com Dentes”, cuja epígrafe é um haicai de Bashô: “Dentes sensíveis à areia/ nas saladas verdes –/ Estou ficando velho”. O tom irônico na escolha da epígrafe e no próprio título do livro tem desdobramento no universo interno dos poemas de Mazzini.

Suas imagens, sempre carregadas, criam uma beleza plástica, ao mesmo tempo em que se lançam para o impasse em conseguir fixar um determinado sentimento que se transforma o tempo inteiro e não se deixa fixar. Nada é fixo neste pequeno livro, as imagens estão sempre trânsito.

O poema que abre esta reunião –ou, pelo menos, abria, pois o poeta pode mudar tudo antes de o livro ser publicado– parece já apontar para essa procura de algo fixo, algo que se coagula numa imagem, mas que escapa pelas mãos:

Para dentro

o poema disse tente mover os segundos
da fotografia batida e rearranje as feições
do mundo jorrando cabras na paisagem um
assoalho polido trajes para borrifar veneno
grama cinzeiros trazidos em bandeja o
fim enjeitando nas coifas um começo fresco

o poema dirá tudo encontra sua certa clarabóia
o canal por onde a vida transita sem disfarces
corriqueiros de vidro e feltro de procissões os pés
nus arrabaldes de terra ou chumbo esquinas ou
praças ou parques de onde a cidade parece estar
coagulando


O poema é dividido em duas partes claras. Na primeira, no pretérito perfeito; a segunda, jogada para o futuro do presente. Há uma ironia clara com o "poema", que é aqui a personagem central, uma personagem que teria a força de dizer ao homem o que ele deve fazer, como rearranjar “as feições do mundo”, rearranjar a simultaneidade das coisas que surgem nesta “paisagem com dentes”, devoradora, que avança com um pitada surrealista, juntando matéria díspar (algo um tanto ao modo de Murilo Mendes).

Sente-se um pouco a idéia da velhice do poema tradicional, o poema que sufoca o nascimento das coisas frescas. Uma espécie de tradição sufocante “enjeitando nas coisas um começo fresco”. E o poema futuro, aquele com o qual Mazzini pretende se debater, e que nasce agora, no nosso presente, é o poema que procura uma fresta, uma clarabóia para captar uma verdade transcendente, mas que, na poesia moderna, não surge, nem tem como.

A vida “das esquinas ou praças ou parques” se coagula, se reúne, ou seja, se solidifica e perde sua fluidez. É como se o olhar que se pretendia fresco, arejado se percebesse coagulado, sem a vitalidade procurada.

O sentimento em campo é bastante moderno, um pouco do beco sem saída no qual nos encontramos, e que a poesia, com sua linguagem metafórica, tenta fixar como imagem a partir de sua própria dispersão de imagens. Uma espécie de desejo de abrir uma brecha lírica num mundo fechado ao lirismo.

Este trânsito de imagens com seus choques parece estar no núcleo da poesia atual de Mazzini. Há um outro poema que vale à pena reproduzi-lo na íntegra para se perceber como ele reaparece na variação temática de seu trabalho:

Dois trânsitos

sexto dia, a dúvida é
um cavalo de cascos
soberbos. patrulha a
linguagem antes de
abandonar o dentro da
cabeça. o rush agora
interminável, faróis
afiados, mulher jovem
com bolsa escolar às
nove horas, no flanco
esquerdo do hidrante.
mas outra vez um
rodopio de hesitação,
limpadores de pára-
brisa serrando qualquer
gota, uma moção
contrária ao bico do carro
parecendo rasgar
tecidos invisíveis de ar.
a casa está encolhida
com a cabeça entre os
joelhos, sob o chuveiro.
pia da cozinha, uma música
minimalista. a mão então
fundida ao volante do carro
ruminando estradas, ninando
a sujeira, os insetos,
o estômago.


A imagem inicial é muito bonita, uma metáfora da poesia clássica, com seu “cavalo de cascos soberbos”, uma imagem poderosa que chega para patrulhar a linguagem subjetiva -a dúvida surge como que limitada, patrulhada. O poeta depois disso faz uma virada radical, lançando o poema para o centro do cotidiano da cidade, o rush, os faróis. A moderna “cidade tentacular”.

Diante da hesitação entre dizer o “dentro da cabeça”, o poeta se lança para as coisas de fora, como o “limpador de pára-brisa”. A imagem final condensa esta tensão entre o dentro e o fora, tomando o carro como um espaço metafórico da reificação do homem: “a mão então/ fundida ao volante do carro” (a metonímia é evidente, a mão pelo corpo e a sua fusão com a máquina).

Mazzini surge, sem dúvida, com uma poesia que tem muita força, e que se elabora no coração da vida contemporânea. Muitas vezes, diante dos seus poemas, não pensamos num poeta do interior, do mundo rural, tal qual conhecíamos há 20, 30 anos, mas em um poeta urbano, de classe média e intelectualizado. É este o mundo de experiência de Mazzini, como ele mesmo diz na entrevista que se segue.

Quando enviei as perguntas ao poeta não pensava em publicá-las em forma de pergunta e resposta, já que foram feitas por e-mail, sem aquele tom de conversa que dá tanta graça ao texto jornalístico desse gênero. Porém, suas respostas eram muito condensadas para serem descartas em prol de um texto corrido. Optei, então, por reproduzi-las aqui.

Vale ainda dizer que, atualmente, ele é o mediador do blog “escolhasafectivas”, criado pelo argentino Aníbal Cristobo e que reúne boa parte da produção poética brasileira contemporânea. Aníbal passou o bastão para o seu colega de ofício, depois de uma conversa pelo messenger. E ele vem atualizando o blog e colocando novos nomes em circulação.


Entrevista


Quando surgiu o seu interesse pela poesia e quais poetas você lia nessa época (claro, se o começo estiver ligado à poesia em papel; muitos começam ouvindo música)?

Renato Mazzini: Eu não saberia te dizer exatamente quando. Sei que foi em algum ponto do fim da adolescência. Música estava vinculada a isso de algum modo, mas não diretamente. Essa consciência, acho, sempre tive: poesia e letras de música sempre caminharam em duas vias que, acredito que ainda bem -para mim especificamente, para o meu caso de interesse e preferência-, não se cruzavam.

Não que eu desacreditasse que as letras tinham uma forte carga poética, mas eram dinâmicas bastante diferentes, e fico feliz que nunca tenham se misturado no processo que me fez ter interesse em ler e escrever poesia. Meu ingresso inicial em poesia se deu através de Mário Quintana, Drummond e Murilo Mendes. Objetivamente, a (muitas vezes ilusória) acessibilidade da escrita de Quintana e o fato de que Drummond era muito disseminado por professores de literatura contribuíram para o meu primeiro gancho com o estilo, que acabou não se desprendendo mais.

Sobre Drummond, desde o início, meu favorito era "Corpo", contrariando muitos professores colegiais de literatura daquela época e alguns professores universitários que conheci depois. E Murilo Mendes era um universo pra mim. Eu tinha menos acesso a seus livros que aos dos dois outros poetas que junto dele me foram formadores, então buscava com mais avidez. Tudo isso, naturalmente, acabou abrindo uma grande rede de túneis que me levou a lugares como Guillaume Apollinaire, Borges, Joan Brossa, Joseph Brodsky e tantos outros.


E, atualmente, quais são as suas escolhas afetivas?

 
1