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audiovisual
TELEVISÃO

A fábula de "Capitu"
Por Esther Hamburger

Minissérie de Luiz Fernando Carvalho baseada em Machado de Assis constrói um universo visual atraente e intrigante

Ler Machado de Assis é um prazer que se renova. Vale aproveitar o final dessa temporada de efeméride machadiana para ler ou reler "Dom Casmurro". O romance inspira a microssérie "Capitu", que vai ao ar de terça, dia 9 de dezembro, a sábado, dia 13, na Rede Globo, por volta das 23h. Com o romance fresco na cabeça é mais fácil acompanhar a homenagem televisiva.

Segunda realização do projeto Quadrante, de adaptações literárias dirigidas por Luiz Fernando Carvalho, "Capitu" retoma um tom de fábula único na TV brasileira. Esse mesmo tom caracteriza os dois trabalhos anteriores do diretor: "Hoje é Dia de Maria" e "A Pedra do Reino". Curiosamente, o respeito literal ao texto de cada um desses romances contrasta com a exuberância do tratamento visual, marca indelével da série de trabalhos que evitam o naturalismo fácil que campeia na TV.

Mais uma vez, Luiz Fernando e sua equipe constroem um universo ficcional visualmente atraente e intrigante. Na "aproximação" do diretor, para usar as suas próprias palavras, as imagens dominam a cena em detrimento do universo dramático do romance. O texto aparentemente se resolve em uma síntese que destaca trechos literais dos capítulos curtos do livro, citados nos títulos que subdividem cada episódio da microssérie.

Como no caso das minisséries anteriores, o resultado é uma bela ilustração do romance. Em cores vivas favorecidas pela tecnologia digital em alta definição, o trabalho da equipe preza a arte. Cenários, figurinos, objetos de cena especialmente confeccionados, compõem atmosferas encantadas, palcos de narrativas que se desenvolvem principalmente em ambientes fechados.

O relativo confinamento espacial é compensado por amplos movimentos de câmera em torno de atores que mobilizam intensa expressão corporal em busca de interpretação teatral. Há no realismo cinematográfico, fonte de inspiração da teleficção brasileira, a busca inegável pelo espaço externo, da locação fora do estúdio e, em muitos casos, da vida urbana como lócus privilegiado da experiência contemporânea.

Há uma unidade na realização de adaptações de obras tão diversas. Embora Luiz Fernando Carvalho tenha aventado a hipótese de gravar "Capitu" nas ruas do Rio de Janeiro, o resultado final mantém a ênfase em locações fechadas que marca os seus dois outros trabalhos.

Cabe lembrar a cidade cenográfica em forma de arena construída em locação, no sertão da Paraíba, na adaptação do romance de Ariano Suassuna, "A Pedra do Reino". O domo de lona, meio tenda, armado em frente ao Projac no trabalho baseado no texto de Sofredini, "Hoje é Dia de Maria".

O salão do Automóvel Clube do Rio de Janeiro, com seus ares de palacete clássico, serve de palco à montagem operística do romance de Machado de Assis. A unidade dos trabalhos não pára por aí. Os objetos artesanais de Raimundo Rodrigues, artista carioca do coletivo Imaginário Periférico, que participou também da equipe que fez os trabalhos anteriores, mais uma vez merece destaque.

Há em "Capitu" elementos que remetem a outros seriados do diretor. Os cavalos sobre rodas confeccionados de acordo com a personalidade de cada um dos cavaleiros em "A Pedra do Reino" ganham versão miniatura e triciclo em "Capitu".

Os atributos associados à direção de arte constituem o maior ganho do projeto Quadrante até o momento. É nessa dimensão, mais que na interpretação do texto propriamente dita, que a marca do diretor, arquiteto primoroso das articulações do trabalho de uma equipe cuidadosamente montada, se manifesta.

Há na fase de realização dessas produções uma intensa energia coletiva e criativa gerada pela sinergia entre diversos talentos convidados a se esmerar na realização de seu potencial individual. Essa energia produz a exuberância visual e a movimentação coreográfica que marca o resultado final.

O romance de Machado descreve diversas situações urbanas que seus personagens experimentam na cidade do Rio de Janeiro de meados do século XIX: Bentinho na casa de sua mãe na rua Matacavalos, suas desventuras no seminário, sua vida de casado na casa da Glória. Situações dramáticas que se passam fora dos limites da então capital do Império prescindem dessa narrativa detalhada. Os anos na Faculdade de Direito, em São Paulo, e o período em que Capitu e o filho Ezequiel vivem no exílio suíço marcam grandes elipses temporais.

A opção operística da minissérie elimina as referências visuais à cidade. O Rio de Janeiro só aparece em referências verbais. Machado surpreende a todo instante pela modernidade de sua narrativa. O mestre que antecipou elementos da literatura modernista a partir da "periferia do capitalismo", como definiu Roberto Schwartz no título de seu ensaio clássico, dialoga explicitamente com o leitor.

Machado visionário interrompe a narrativa construída na primeira pessoa para tecer considerações reflexivas sobre sua própria obra. Se alonga aqui e ali. Envereda por digressões, adverte o leitor ou a leitora, ou ainda uma leitora específica, sua comadre Sancha, viúva do grande amigo suspeito de traição, Escobar.

A opção ilustrativa de Luiz Fernando Carvalho é fiel às peripécias do autor. "Capitu" se apresenta como uma coreografia sobre fundo musical eclético: do clássico ao rock, como que para salientar a atualidade da prosa de Machado.

A montagem obedece mais aos movimentos musicais e coreográficos que aos apelos dramáticos da narrativa. O resultado final é uma rica "apresentação" da obra. Que não só não dispensa, como ganha, se vista em conjunção com a leitura.


Publicado em 8/12/2008

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Esther Hamburger
É antropóloga, professora do departamento de cinema, televisão e rádio da Universidade de São Paulo (USP) e editora de Trópico.

 
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