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audiovisual
CINEMA

Marionetes de Deus
Por Fernando Masini

O filme "Fronteira", de Rafael Conde, enfrenta a obra maldita do escritor Cornélio Penna

O filme “Fronteira”, do diretor Rafael Conde, é uma anomalia na produção atual do cinema brasileiro. Diz mais com as imagens do que com as palavras. Não explica quase nada e nem se prende a uma didática linear. Constrói cada quadro com o rigor de quem pinta uma tela. É misterioso e sombrio como a obra homônima do escritor Cornélio Penna, de onde Rafael retirou a história.

Encaixa-se como uma mistura rara de terror psicológico e soberba estética. O protagonista é um viajante, interpretado pelo ator de teatro Alexandre Cioletti, que chega a um casarão no interior de Minas Gerais e encontra uma garota (Débora Gomez) que vive presa no quarto. Os moradores julgam que ela é santa. Na casa, mora também a tia Emiliana (Berta Zemel), uma benzedeira que administra a santidade da menina.

Assim como o livro de Cornélio, escrito em 1935 e repercutido como maldito na época, o filme de Rafael é intrincado do começo ao fim e muitas vezes confunde o público. “Cornélio fala muito da decadência das estruturas da época: da escravidão, dos senhores de engenho, da degeneração dessas famílias, e da religião perversa. Todos esses aspectos estão no livro misturados a lendas como o tipo louco que ficou trancado no porão ou o escravo fantasma que volta para assombrar a família”, diz Rafael.

O culto à menina santa foi um episódio que marcou a infância do escritor, quando ele morava com os pais em Itabira do Mato Dentro, em Minas. “Fronteira” é o primeiro romance de Cornélio, cuja obra-prima é “A Menina Morta” (1954). Rafael encantou-se com a atmosfera lúgubre e cinematográfica dos relatos. “Eu não conheço na literatura brasileira uma abordagem parecida, em que a relação dos personagens não é resolvida. A narrativa é extremamente pictórica, descritiva, contada por imagens”, diz o diretor.

É o segundo longa-metragem deste diretor mineiro, que tem uma carreira repleta de curtas premiados, como “Rua da Amargura”, vencedor do prêmio do júri no Festival de Brasília, em 2003. “Samba-canção”, a estréia de Rafael, é uma comédia sobre as desventuras de um diretor às turras com seu primeiro filme. Mestre em cinema pela USP e professor da UFMG, Rafael mora em Belo Horizonte e esteve em São Paulo para o lançamento do filme.

Ele faz parte de uma turma, reunida pela distribuidora Usina Digital, que tem levado o cinema mineiro a resultados interessantes. Ele cita outros títulos como “Andarilho”, de Cao Guimarães, “Serras da Desordem”, de Andrea Tonacci, e “5 Frações de uma Quase História”, projeto dirigido em conjunto por jovens cineastas mineiros. “Acho que em Minas, há uma tradição do cinema experimental”, afirma, na entrevista a seguir.

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Como foi seu contato com a obra do Cornélio Penna e a decisão de adaptá-la?

Rafael Conde: Aconteceu recentemente. Encontrei o livro “A Menina Morta”, a obra-prima do Cornélio, numa livraria em Belo Horizonte e resolvi ler. Fiquei muito impressionado com a contemporaneidade narrativa para um cara que escreveu há 50 anos. A descrição e o relato são muito cinematográficos: a criação de climas, a atmosfera sombria. Eu não conhecia na literatura brasileira uma abordagem parecida, em que a relação dos personagens não é resolvida, fica no ar o mistério de cada personagem. A narrativa é extremamente pictórica, bem descritiva, contada por imagens. Achei isso muito cinematográfico.


Cornélio também desenhava, além de escrever...

Conde: É verdade. Fazia uns desenhos meio góticos, barrocos. Esse material ajudou bastante a gente na direção de arte. Depois de ler “A Menina Morta”, eu cheguei no “Fronteira”. Nesse livro, há uma referência do tempo em que ele morou em Minas Gerais. Foi em Itabira do Mato Dentro, onde Cornélio passou a infância, que ele presenciou esse culto à menina santa e ficou impressionado.

Em “Fronteira”, ele trata muito da decadência das estruturas da época: da escravidão, dos senhores donos de casarões, da degeneração dessas famílias, e da religião perversa. Todos esses aspectos estão no livro misturados a lendas que a gente ouve em Minas Gerais, nas fazendas do interior. Tem o tipo louco que ficou trancado no porão ou o escravo fantasma que volta para assombrar a família. Eu gostei muito desse clima e resolvi adaptar.


Eu imagino que a adaptação tenha sido complicada porque o relato em “Fronteira” é um delírio, desordenado entre a loucura do narrador e os fatos reais. Como você criou uma seqüência coesa de cenas?

Conde: A seqüência na verdade respeita o livro, só que eu eliminei toda a primeira pessoa. O livro é um diário, são as impressões de um viajante. Eu optei por cortar o narrador e construir uma narrativa mais solta.

Inclusive havia no roteiro uma proposta de adotar a aleatoriedade das cenas, assim elas poderiam se encaixar sem uma ordem definida. Mas na montagem a gente buscou uma linearidade para garantir a tensão, e criar uma expectativa no público. Essa adaptação foi a mais livre com a qual eu trabalhei. O próprio caráter do livro permite isso.


Houve uma preocupação também em trabalhar as imagens como se fossem pintura?

Conde: É uma referência aos desenhos dele. Cornélio descreve muito os espaços de luz pelas frestas, a neblina que cobre o ambiente. A fotografia e a direção de arte foram atrás disso. Existe também uma coisa atemporal. Embora a história se passe no começo do século 20, a direção de arte tomou algumas liberdades e não ficou tão presa às características da época.


Por que vocês escolheram Conselheiro Lafaiete para rodar o filme?

Conde: No livro, o cenário é um sobrado urbano. A gente pensou em filmar em Ouro Preto, mas por causa do barulho, das buzinas, escolhemos um casarão em Conselheiro Lafaiete. É o lugar onde mais tem neblina em Minas. Isso ajudou muito. Cheguei a visitar Itabira, onde o Cornélio morou. Vi a casa da ponte, onde se passam os dois últimos romances dele. Hoje é um casarão todo restaurado e bem urbano, não tinha como rodar o filme lá. Mas aproveitamos a paisagem como referência: os minérios, as montanhas de ferro, etc.


O filme, assim como o livro, explora a dicotomia entre loucura e realidade, luxúria e castidade, libertação e culpa. O próprio nome fronteira parece fazer menção a isso.

Conde: É isso mesmo. A principal característica da obra é a religiosidade como instrumento de dominação. A única vontade do povo é acreditar e ver Deus, caso contrário, nada na vida faz sentido. Um estudioso da obra do Cornélio faz uma análise de que os personagens seriam operados como marionetes por Deus, num mundo em que Deus não existe, mas as pessoas esperam ser guiadas.

A gente usou essa perspectiva para trabalhar com os atores, de uma forma menos naturalista, com encenação mais marcada. Procuramos manter essa estranheza. Uma coisa importante na obra do Cornélio, que o filme não explora tanto, é a questão da escravidão. As únicas pessoas que têm a consciência real da trama são os escravos, que observam os protagonistas dentro da casa.

Cornélio trabalha muito bem essa questão. A família dele era muito rica, da época áurea do café. A perda de poder que ele sofreu é uma referência forte na sua obra. De novo, a decadência das famílias.


Outro aspecto interessante é que o viajante é afetado pela religiosidade do local, apesar de se mostrar incrédulo quanto ao misticismo da menina santa. Ele carrega sintomas cristãos como sacrifício, pecado, a culpa e uma possível redenção.

Conde: É engraçado porque o livro é narrado em primeira pessoa e na teoria era para o leitor entender melhor o protagonista, o que não acontece. Ele não dá pista; uma hora é profano e fala de pecado, em outra se comporta como seminarista. É algo muito confuso. O próprio Cornélio era uma figura muito esquisita. Ele morreu de câncer, e não deixava ninguém examinar seu corpo. Era muito reservado.

Diziam que pregava o casamento sem sexo. Tem gente que enxerga um pouquinho de homossexualismo em “Fronteira”. Mas tudo é muito travado. Foi importante por fundar a escola do romance psicológico, estilo também adotado pelo escritor mineiro e amigo Lucio Cardoso (autor de “Mãos Vazias”). Lucio falava muito dele, era dos poucos que freqüentavam sua casa.


Você acha que por esse aspecto maldito Cornélio foi mal compreendido no país?

Conde: Ele é até hoje. É muito cultuado também. O pessoal do Cinema Novo mantinha contato com ele. Glauber Rocha pensou em filmar a obra do Cornélio. Não imagino como seria o Glauber filmando “A Menina Morta”. A literatura dele foi sempre na contramão. Um pouco do esquecimento do seu legado foi causado pelo desentendimento na família. Ele ficou sem herdeiros, sem alguém que pudesse divulgar a obra e tentasse uma reedição de seus livros.


A fotografia escura e a trilha também ajudam a criar o clima sombrio que tem o filme.

Conde: Quando eu estava lendo o livro, tive contato com um projeto de restauração de partituras barrocas. Peguei uma missa fúnebre chamada Matinas e Encomendação de Defuntos e resolvemos executá-la de trás para frente. A missa no filme é toda invertida.

É um trabalho do Paulo Santos, do Grupo Uakti, que compôs a trilha, e do Ernani Maletta, que fez o trabalho com o coral de vozes. Ele pegou frases dessa missa e criou uma reza. O engraçado é que a música ocupa muito o filme, mas o filme é extremamente silencioso. Isso realça o clima barroco.


Como foi a captação de recursos?

Conde: Quem deu o primeiro recurso foi o Filme em Minas (programa de estímulo ao audiovisual da Secretaria de Estado da Cultura de Minas Gerais) que ofereceu 700 mil reais, e depois eu participei do programa de baixo orçamento do Minc e conseguimos mais um milhão.

A produção foi concentrada no casarão, em Conselheiro Lafaiete. Oitenta por cento do filme acontece lá. Fora isso, a gente filmou numa igreja, em Catas Altas, e o entorno, as montanhas e a mineração foram em locações em Ouro Preto. Nós passamos cinco semanas filmando no casarão, hospedados num hotel fazenda.

O lugar é muito sombrio. À noite, não tem luz. E o dono ficava o tempo todo contando histórias de fantasmas: que à noite os escravos andavam pela fazenda e casos de escravos que viravam lobisomem.


Existe uma concentração do cinema nacional no eixo Rio-São Paulo? Isso atrapalha a produção em outras regiões?

Conde: Um pouco sim, a gente não pode falar que não. Há uma concentração de produtoras e distribuidoras. Mas a gente tem feito um tipo de cinema lá em Minas fora da dependência desse circuito comercial. Eu optei inclusive por não escalar atores tão conhecidos para manter a estranheza da história. É claro que a gente já sabe de antemão que será uma distribuição mais difícil, restrita ao circuito de arte. Por isso mesmo, tem uma permanência maior, uma durabilidade mais longa do que um evento comercial.


A produtora Camisa Listrada, que também assina seu filme, colocou em cartaz neste ano o filme “5 Frações de uma Quase História”, projeto de um grupo jovem de cineastas mineiros. Dá para falar na emergência de um cinema mineiro?

Conde: Eu gosto muito do projeto da Usina Digital, que distribuiu o “Serras da Desordem”, de Andrea Tonacci, e o “Andarilho”, de Cao Guimarães. Isso é muito legal. É um canal que garante, por exemplo, que meu filme chegue a Salvador, Brasília e Belo Horizonte.

Já a produção é muito variada. Tem o pessoal que vem da videoarte, outros que usam suportes diferenciados. Acho que em Minas há uma tradição de experimentação. O projeto estadual Filme em Minas tem ajudado bastante. Ele promete três longas de dois em dois anos. É um concurso que tem impulsionado o cinema mineiro.


Como professor de cinema, você enxerga soluções para estabelecer uma ponte entre a produção universitária e o mercado cinematográfico. Como um aluno de cinema, ou recém-formado, pode obter meios para colocar seu projeto no circuito?

Conde: Eu acho que essa concepção de mercado mais tradicional está acabando, essa coisa de sala de cinema. Hoje em dia os alunos dominam e experimentam outros meios como exibir filmes em internet ou fazer trabalhos com webdesigner. “Fronteira”, o filme do Tonacci, ou do Cao Guimarães chegam a passar no circuito comercial, mas é uma distribuição muito difícil.

Se eu tenho a pretensão de entrar no circuito, eu terei de adaptar algumas coisas ou ter um chamariz mais efetivo. Não poderia adaptar o Cornélio. Eu acredito na mudança do mercado, a substituição da película, o surgimento de pequenas salas que usam suporte digital para exibir filmes, o renascimento do movimento cineclubista.

 
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