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LANÇAMENTO

Romance de formação
Por Wilson Bueno

Dirigido a principío ao público juvenil, "O Fazedor de Velhos", de Rodrigo Lacerda, resulta numa obra para todas as idades

Rodrigo Lacerda, que já nos deu alguns significativos momentos da nova cena literária brasileira, não só através da marcante estréia de 1995 com “O Mistério do Leão Rampante”, como, sobretudo, com o extraordinário “Vista do Rio” (2005), está de volta às livrarias. Agora com “O Fazedor de Velhos”, que acaba de ser publicado pela Cosac Naify (136 págs., R$ 37), num tão despojado quanto primoroso projeto gráfico, pontuado por notáveis ilustrações de Adrianne Galinnari.

Em se tratando da nova arte tupiniquim, não, gentil leitor, não espere, com o mais recente título do autor carioca, "favela movies", naturalismos escrachados da dita narrativa “urbana”, que infelizmente ainda não encontrou seu caminho entre nós, incapaz de dar um passo além do exaustivo paradigma de Rubem Fonseca, e, muito menos, o “rap-macumba” dos periféricos da hora, montados em glamorosos modelitos marginais. Uns e outros, entretanto, sem nenhuma literatura a sustentá-los –o que , afinal de contas, é o que interessa...

Pelo contrário, em “O Fazedor de Velhos”, ao que parece em princípio um livro destinado ao público juvenil, Rodrigo Lacerda acabou definitivamente se desviando da rota traçada e a sua escritura ganhou uma surpreendente – e eu diria quase inusitada– simpleza, resultando num romance destinado a todas as idades.

Singelo, sobretudo no propósito de resgatar alguns valores éticos que vão se perdendo baixo o afã com que, na busca obsessiva de retratar o país invariavelmente de ponta-cabeça, também de viés se atrapalham, em frustos ziguezagues, mesmo as melhores intenções da área em pauta.

Não é o que acontece com o novo livro de Lacerda. Ao nos informar a história do jovem Pedro, típico bicho urbano, às voltas com colégios, leituras, paqueras, praia e cinema, filho dileto e direto da classe média, o que poderia resultar num pastiche enfarado da cena social carioca de nossos dias, acabou desembocando num tocante romance de formação.

Sem precisar apelar para escabrosas fantasias juvenis movidas pelos tradicionais ingredientes –masturbação, lúbricas empregadas, surfe, baladas, maconha e “pegas” automobilísticos, em que se embaralha a maioria das produções do gênero, o autor de “O Fazedor de Velhos” preferiu narrar a história de uma paixão: esta que, apesar dos pesares, pode fazer da vida uma epifania –a persistente busca de caminhos, móvel e motor de todo e qualquer aprendiz do inóspito ofício de viver. E aí o pulo-de-gato de Rodrigo Lacerda, ao “transtornar” o seu romance numa deliciosa invenção destinada a leitores de qualquer idade. Nem só os jovens, sabemos, estão imersos na insana procura que nos leva a investigar “saídas” e “razões” para nossa existência provisória.

Tanto assim é que a morte e a sua sombra aziaga como que perpassam todo o romance –do primeiro ao último capítulo–, feito a condenação perfeita e o leitmotiv que faltava para nos salvarmos de nós mesmos. E uma outra sombra há de aparecer para conferir um “sentido” à vida do protagonista, esta uma sombra buliçosa e criadora, gerada pelos nem sempre fáceis jogos de luz com que se avém quem procura: a do amor à arte, no caso a literatura, e por extensão o amor aos que conosco partilham este vale de lágrimas; sem o que, sabemos também, nenhuma arte se funda. Mesmo movida pelos melhores propósitos.

Ao traçar, com rara habilidade, o perfil do impagável professor Nabuco, influência determinante nos rumos de Pedro, um buscador por excelência –e quem se dedica a buscar está sempre encontrando...– , num precioso guruato que fará do jovem protagonista, mais que tudo, um artífice da vida, o narrador prova a velhos e jovens que todo sonho é possível.

E são tão íntimos, digamos assim, os vínculos entre autor e personagem, característica privilegiada dos chamados “Bildung Roman”, que muitas vezes não sabemos onde começa Pedro e termina Lacerda. E óbvio que não se chega a essa conclusão só porque o romance é narrado em primeira pessoa... Nem sempre o “eu” de uma ficção se propõe a atar personagem e autor, estabelecendo muitas vezes, de modo proposital, vácuos críticos bem visíveis entre um e outro. O que pensadamente não acontece com este “O Fazedor de Velhos”.

Diga-se logo que “velho”, aqui –e isso Pedro/Rodrigo parecem fazer questão de deixar bem claro–, é justamente o oposto do conceito corrente do vocábulo. Quanto mais “velho” fica o personagem, mais crítico se torna, mais rebelado, mais incendiário face à vida e ao saber e sabor que o próprio “envelhecimento” conferem.

Escolhas, arbítrios, paideumas, seleções as mais diversas vão se construindo ao longo do caminho e esta é a máquina de envelhecer que “O Fazedor de Velhos” insiste em pôr para funcionar ao influxo de todas suas engrenagens.

Nem tudo, ou nada, entretanto, são flores nesse percurso, onde aprender é o verbo e o exercício diário de um jovem brasileiro que se angustia, não pelo que em sua privilegiada condição de filho da classe média é estreitamento ou ausência de escolhas, mas, ao contrário, precisamente pelo leque de opções que a vida, sempre pródiga nesses casos, coloca à sua frente. Dilema que tortura e obseda, pesadelar muitas vezes, porque, junto com ele, há a insubstituível e inadiável busca de um destino.

Assim, de Gonçalves Dias a Eça de Queirós, de Shakespeare a Castro Alves, de “Os Maias” a “Macbeth”, de “Y-Juca Pirama” ao “Rei Lear”, Rodrigo Lacerda vai compondo também, ao longo de “O Fazedor de Velhos”, uma colcha de retalhos textuais, sob o claro índice de que a velha ars litteraria pode, e muito, nos ensinar a “envelhecer”,ou melhor a não “morrer” frente ao que na vida é a insidiosa contraface de quem ignora aquilo que, de modo adolescil, nem quer saber...

Livro infanto-juvenil? Só na ficha catalográfica do volume, posto que da primeira à última linha de “O Fazedor de Velhos”, o que temos, nesse novo título de Rodrigo Lacerda, é a confirmação de estarmos às voltas, ainda outra vez, com um dos mais interessantes ficcionistas da nova safra de autores brasileiros.


Publicado em 24/11/2008

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Wilson Bueno
É escritor, autor de, entre outros, "A Copista de Kafka" (ed. Planeta).

 
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