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LANÇAMENTO

Pensamento com brio
Por Heidi Strecker

A crítica Walnice Nogueira Galvão une erudição e precisa observação do presente nos ensaios de "O Tapete Afegão"

O ensaio que abre “O Tapete Afegão”, da crítica Walnice Nogueira Galvão, remete aos chamados “tapetes de guerra”: são peças tecidas depois da invasão soviética ao Afeganistão, que ostentam -em lugar dos tradicionais motivos geométricos, de guirlandas, fontes, jardins ou animais- imagens de fuzis, helicópteros, granadas e até tanques. Emblemas do nosso tempo, esses tapetes são “obras nas quais as rígidas normas da tapeçaria são subvertidas, siderando de horror quem as contempla”.

Unindo erudição e fino senso de observação, a ensaísta reflete sobre a perda do sentido e da função da arte, em meio à barbárie imposta pelos invasores.

Não apenas a história contemporânea é matéria de Walnice Nogueira Galvão. Livros, exposições e efemérides –e sobretudo a experiência vivida– são pontos de partida para seus comentários e reflexões: o papel da arte e da literatura na preservação da identidade cultural, a massificação e as imposições da mídia, as formas e os gêneros literários, as mudanças trazidas pela tecnologia.

“O Tapete Afegão” é um conjunto de pequenos ensaios, perfis e relatos publicados originalmente na imprensa. A natureza e o alcance dos textos são desiguais: alguns são apenas registros circunstancias, enquanto outros apresentam grande densidade analítica.

Além de ensaísta, Walnice Nogueira Galvão é professora titular de teoria literária na USP e autora de mais de duas dezenas de livros. É também responsável pelas edições críticas das obras de Euclides da Cunha e de Guimarães Rosa. Publicou, em 2008, “Mínima Mímica - Ensaios sobre Guimarães Rosa” (Companhia das Letras), uma obra sistêmica, centrada na leitura do autor de "Sagarana" e alentada por décadas de pesquisa acadêmica.

“O Tapete Afegão” está organizado em quatro unidades temáticas. A primeira parte do livro chama-se “Olhares” e reúne seis textos que tratam da arte e da imagem, motivados por visitas a museus. Além de falar da arte do Afeganistão (exibida em grandes museus europeus e norte-americanos no começo da década), a autora comenta duas exposições –de Vermeer e William Blake– vistas no Metropolitan de Nova York e uma pequena exposição de Van Gogh no MoMA. Fala da importância da figura do dragão no imaginário chinês a partir de uma exposição no Museu de Música de Paris sobre arte campanária e tesouros arqueológicos.

Trata ainda de uma extensa exposição da obra de Lasar Segall no Museu de Arte e História do Judaísmo, em Paris. Curiosamente, o último texto traz à baila assuntos mais amenos e menos eruditos: a indumentária de Jacqueline Kennedy e objetos relacionados à vida e obra da atriz Sarah Bernhardt.

A segunda parte do livro intitula-se “Mulheres” e é a mais extensa do livro, reunindo 11 textos. Trata de figuras femininas dos mais variados recortes, desde as da ficção (como Dulcinéia, de Cervantes) ao ícone maior da cultura pop, Marilyn Monroe. Os perfis femininos mais tangíveis, no entanto, são os de figuras fortes e emblemáticas, como Simone de Beauvoir, as romancistas africanas Nadine Gordimer e Paulina Chiziane, ou as professoras da USP Gilda de Melo e Souza e Maria Isaura Pereira de Queiroz.

O ensaio “Metamorfoses da Donzela-guerreira” aborda um tema caro à ensaísta: o arquétipo literário da donzela guerreira. Sua análise investiga as origens do mito e mostra também a presença de uma assimetria de gêneros nos enredos que cercam a donzela guerreira (como Diadorim de “Grande Sertão: Veredas”): as mulheres desempenham papéis masculinos, mas o contrário não ocorre. Walnice vê nisso a prova de que o trunfo em disputa é o poder, e que “as mulheres ou recalcaram, ou reprimiram, ou dissentiram, ou se ressentiram, mas não se resignaram. Tanto é que nunca deixaram de transgredir, tanto na ordem do histórico quanto do imaginário, os limites que lhes impuseram”.

Em “A Constante Florinda”, a autora aproxima-se da personagem de uma novela do século XVII de Gaspar Pires de Rebelo, editada recentemente no Brasil. Florinda é uma donzela errante que sai em busca de aventuras, e a obra é considerada uma das precursoras do romance enquanto gênero literário.

Em tom afetivo, Walnice relembra os tempos da Faculdade de Filosofia da USP, na rua Maria Antonia, ao evocar a professora e socióloga Maria Isaura Pereira de Queiroz. Comenta também o resgate efetuado pelo crítico Antonio Candido da figura de Teresina (no livro “Teresina Etc.”), militante do movimento operário nas primeiras décadas do século XX, em São Paulo.

Ao analisar a obra de escritoras africanas, como Karen Blixel e Nadine Gordimer, Walnice põe em foco questões como o racismo, a condição feminina, o apartheid e o êxodo para a Europa. Ao tratar da escritora moçambicana Paulina Chiziane, traz à tona temas da literatura lusófona na África.

Os sete textos que compõem a terceira seção do livro (“Registros”) vão de uma dicção cortante e politizada ao tom mais leve da crônica. Em “Fechado para Balanço”, a autora examina três obras literárias que podem ser identificadas como “romances de balanço”: “O Mar Nunca Transborda”, de Ana Maria Machado, “A Geração da Utopia”, de Pepetela, e “As Naus”, de Lobo Antunes. Com grande habilidade em traçar contrapontos e manejar dados da cultura, Walnice mostra como a história marca de forma diferente, no Brasil, em Angola e em Portugal, esses romances.

O ensaio “Para Não Esquecer o Rei Leopoldo”, publicado originalmente nesta revista Trópico, aproxima o clássico romance “O Coração das Trevas”, do escritor Joseph Conrad, do livro “O Fantasma do Rei Leopoldo”, do escritor e jornalista norte-americano Adam Hochschild. Os dois autores põem em cena as atrocidades que resultaram do processo sangrento de colonização da África.

“O Tapete Afegão” opera com um repertório vasto de temas e interesses. No entanto, a literatura e as obras literárias são sempre as balizas com que a autora se aproxima da história, dos problemas da cultura e dos temas contemporâneos.

Ao encarar temas mais amenos, como o uso do e-mail e a invasão de privacidade, ela recorre ao gênero epistolar e a autores como Madame de Sévigné e Marcel Proust. Em tom jocoso, o texto “Hipocorísticos e Suarabáctis” (publicado na revista "Piauí") fala das peculiaridades afetivas da nossa língua, nos diminutivos, apelidos e palavras inventadas. O ensaio “O Thriller Econômico” identifica um novo gênero literário: o “romance noir econômico” (o best-seller baseado em crimes e conspirações que ameaçam o mundo com o desemprego e o extermínio). Às vezes, os textos de “O Tapete Afegão” trazem a ironia e o sarcasmo, às vezes, a indignação mais escancarada ou uma sóbria contenção.

Na última parte do livro (“Roteiros”), composta de cinco textos, a autora registra o imaginário dos brasileiros que emigram em busca de vida melhor, a partir de conversas tidas e ouvidas em aviões (“voam todos, de cá para lá, encarando a história com galhardia, sem dar conta das armadilhas que os fados podem lhes preparar”).

As memórias de uma temporada acadêmica em Oxford, na Inglaterra, com seus ritos de tradição e festas de primavera, contrastam com as observações agudas e dolorosas de uma passagem por Soweto, em Joanesburgo, numa viagem de carro a Moçambique.

Tratando de temas amplos e vários, Walnice Nogueira Galvão não usa a sociologia ou a história para explicar seu olhar sobre o mundo. Antes, busca nos textos e nas obras de arte esclarecimentos sobre a condição do homem e nosso tempo.

Talvez a chave para a leitura desse “Tapete Afegão” esteja no ensaio que fecha o volume: “Pensando o Presente”. Walnice Galvão trata de dois críticos literários como paradigmas de intelectuais militantes: o escritor palestino naturalizado norte-americano Edward Said e a ensaísta Susan Sontag. A crítica literária é vista como uma plataforma privilegiada para a militância intelectual e para pensar as implicações políticas da cultura. O pensamento de Walnice tem o pressuposto de que a competência analítica não pode prescindir da perspectiva ética.

Os textos de “O Tapete Afegão” buscam encontrar –num pano de fundo marcado pela alienação e pelo consumismo, quando não dilacerado pela dominação e pela violência– pontos de referência. Muitos deles são essas figuras luminares, do presente ou do passado, que se destacam por “pensar com dignidade e brio”, para usar a expressão da ensaísta.


O livro:

“O Tapete Afegão”, de Walnice Nogueira Galvão. Companhia Editora Nacional, 231 págs., R$ 23.


Publicado em 17/11/2008

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Heidi Strecker

É crítica literária, autora de "Cinema: Emoções em Movimento" (ed. Melhoramentos) e "Análise de Texto" (ed. Atual).



 
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