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audiovisual
BALANÇO

Mulheres entrincheiradas
Por Fernando Masini

Filmes de cunho social e político, como os que mostram a participação feminina em guerras, dominaram a Mostra de Cinema

A resistência de mulheres sob opressão tem sido um tema recorrente na cinematografia mundial, seja em documentários que abordam o rigor do islamismo, ou em ficções produzidas por jovens engajadas como a iraniana Samira Makhmalbaf, uma das juradas da Mostra deste ano. Nos filmes apresentados nesta edição, destacam-se as produções do Oriente Médio: o palestino “A Gruta de Maria” e os israelenses “Ver se Estou Sorrindo” e “Noivas de Alá”.

Os dois últimos retratam o universo feminino num contexto de guerra, em que a opção por defender a pátria parece mais imposta pelos códigos de conduta do que decorrente de uma escolha pessoal. Apesar de ser dirigido pela israelense Natalie Assouline, “Noivas de Alá” conta a história de palestinas que foram presas por apoiar ou cometer atos terroristas. Elas cumprem penas que variam de 5 a 15 anos. São muito novas e dispostas a seguir a risca o que diz o Alcorão.

Uma delas explica que “quis ser homem-bomba desde criancinha para merecer a compaixão de Deus”. Outra completa que “o martírio traz uma vida eterna no paraíso”. A maioria é filiada ao Hamas, partido de viés religioso que prega a resistência dos palestinos, e justifica seus atos como uma resposta aos ataques perpetrados por judeus israelenses. “A única coisa que nós temos é o nosso corpo. Não temos armas e tanques para combater”, diz outra detenta.

A diretora investiga a motivação dessas mulheres que se enchem de bombas e explodem o próprio corpo como forma de resistência numa guerra sem fim. No começo, os depoimentos são contidos e geram constrangimento. As entrevistadas ficam embaraçadas ao tentar explicar o porquê dessa escolha fatal. Algumas recusam-se a falar sobre o assunto. À medida que o documentário avança, sentem-se mais à vontade para declamar suas convicções.

A resposta comum é de que a pessoa que se oferece como mártir terá recompensas na vida após a morte. Elas não enxergam a prisão como uma interrupção da vida, mas como um aprendizado. De fato, elas gastam o tempo com aulas que discutem o islamismo. Manal é uma das garotas que pertence à Brigada dos Mártires. Ela afirma que a jihad (a luta em nome do Islã) nunca terminará enquanto houver um muçulmano sendo injustiçado.

Do outro lado do front, estão as jovens de 18 anos que são obrigadas ao recrutamento na Força de Defesa Israelense para atuar nos territórios ocupados. O documentário “Ver se Estou Sorrindo”, da diretora Tamar Yarom, acompanha a rotina das combatentes em Hebron, região dividida na Cisjordânia. O rito de passagem, forçado a estudantes recém saídas do colégio, é uma provação dolorosa. Muitas deixam a zona de combate atormentadas pela crueldade que viram nas operações.

Uma oficial de saúde dá depoimentos perturbadores sobre o período de insônia e alcoolismo que se seguiu após o cumprimento do dever militar. Ela lembra com pesar as imagens de quando estava em ação e teve de limpar um cadáver ensangüentado e atender um menino mutilado, atingido por estilhaços de bombas. Ao fazer um balanço das conseqüências, pergunta-se: “Como eu pude pensar que eu poderia esquecer tudo isso”.

O filme também revela a indecisão das jovens em zonas de conflito. Uma delas confessa que “o tempo todo tem dúvidas do que fazer”. Outra oficial conta que viu pela primeira vez um estado de angústia: “os palestinos desesperados correndo na rua depois que suas casas foram bombardeadas”.

Um dos relatos mais impressionantes é o da militar que fazia patrulha noturna e foi insultada por um árabe. Ela não conteve o ódio e chamou um grupo de homens do seu batalhão para violentá-lo.


Códigos tribais contra a lei

Outra objeção enfrentada pelas mulheres são os códigos tribais em vigor em pequenas cidades do Paquistão e da Palestina. Os filmes “A Gruta de Maria”, de Buthina Canaan Khoury, e “Shame”, do canadense de origem paquistanesa Mohammed Ali Naqvi, abordam a questão em obras de denúncia.

O contexto são vilarejos onde imperam leis tradicionais que foram transmitidas de geração a geração. Nesses lugares, pouco importa o código legal. O que manda é a honra da família e a punição por métodos de humilhação.

O palestino “A Gruta de Maria” é a história de quatro mulheres que são hostilizadas pela sociedade por terem descumprido o costume vigente. Hyam tem 35 anos e fica grávida antes do casamento. É forçada pelos próprios irmãos a tomar veneno pela suposta heresia que cometeu.

Outra personagem, também acusada de ter um filho fora do casamento, é esfaqueada pelo irmão com o consentimento do pai. A lógica permite crimes em nome da honra, como se a punição severa pudesse limpar a reputação da família.

A cantora de hip hop Abber também é condenada por levantar a voz contra as atrocidades legitimadas pelos códigos tribais. Ela diz no documentário que “as mulheres são como marionetes nas mãos dos homens”. E completa afirmando que é muito difícil vivenciar o amor em Taybeh, a vila palestina onde mora, ao norte de Jerusalém. “Aqui ninguém fala sobre as mulheres que morreram. Uma palavra sobre amor pode ser fatal”, completa Abber, que foi impedida de subir ao palco com sua banda.

O mesmo acontece em Meerwallah, no Paquistão, onde o código local permitiu que Mukhtaran Mai, 30 anos, fosse estuprada pelo clã rival “em nome da honra”. É o que nos mostra o documentário “Shame”.

O caso de Mukhtaran ficou célebre no mundo todo pela resistência da mulher que encarou os ditames tradicionais e exigiu justiça. Por não aceitar calada a imposição, foi reconhecida como uma das 100 mulheres mais influentes do mundo pela revista "Time".

A brava jornada de Mai começou quando seu irmão foi acusado de ter aproveitado sexualmente de uma garota de outra aldeia. O conselho local optou por punir a honra da família de Mai, oferecendo-a ao clã rival. Seis rapazes estupraram Mai.

Devido à ausência de autoridades policiais na vila, o comando é entregue a uma espécie de grupo de anciãos que decide a sorte dos acusados. “Aqui só importa a honra da família, é a lei da selva”, ela diz no filme.

Mai apelou à Suprema Corte e causou alarde no país ao exibir sua indignação. Num processo lento, que demorou anos, os seis réus foram condenados à pena de morte. Sua coragem repercutiu fortemente no mundo.

Ativistas e associações de defesa da mulher abraçaram a causa. Com a vitória no tribunal, ela foi mais longe. Ajudou a construir uma escola para mulheres na vila onde morava e solicitou a instalação de um posto policial na entrada da cidade. Uma amiga de Mai resume o que representa a mulher no regime islâmico: “Ela é considerada a honra personificada”.


Imigrantes num mundo desajustado

O último filme dos irmãos belgas Jean e Luc Dardenne retoma a questão de quem vive à margem da sociedade. Agora são imigrantes em busca de identidade numa terra estranha. “O Silêncio de Lorna” é a história de uma albanesa que se mete num esquema de casamento arranjado a fim de faturar sua sobrevivência. Lorna divide o apartamento com o junkie Claudy. Ao aceitar uma oferta da máfia local, ela participa, ou ao menos vira cúmplice, da morte do próprio marido. O plano dá certo, mas a culpa persegue Lorna.

Mais uma vez, assim como em “A Criança”, filme dos Dardenne que levou a Palma de Ouro em 2007, tem-se um retrato de párias isento de julgamentos e apelações. A sensação é de que não sabemos de quem sentir pena ao longo da projeção.

O imoral aqui não condena os personagens, nem tem tom acusatório. Lorna vive a angústia de ter a vida de uma pessoa nas mãos e não saber o que fazer. Tenta se preservar de emoções ao ignorar a presença do marido na casa. Em estado deplorável, ele implora ajuda.

Num dos raros momentos em que ela decide atendê-lo, desenrola-se uma das cenas mais bonitas do filme. Claudy está atordoado, em crise de abstinência. Ela tranca a porta, joga a chave pela janela e fica nua. Com o corpo colado no de Claudy, abraça-o como se aninhasse um bebê. Durante todo o filme, Lorna vive às turras com suas escolhas. Longe de delinear um caminho claro entre o que é certo e errado, os diretores preferem uma abordagem sóbria de como funcionam as vicissitudes do ser humano.

O drama dos imigrantes é assunto também do documentário “Como um Homem sobre a Terra”, produção italiana da dupla Andrea Segre e Dagmawi Yimer. Por meio de relatos, o filme acompanha o caminho de etíopes rumo à Itália, numa viagem clandestina que cruza desertos e atravessa o mar Mediterrâneo. Quem conta a história são jovens entre 25 e 30 anos que foram detidos pelas polícias italiana e líbia e deportados aos seus países de origem.

Quem sofreu na pele a experiência conta que chegou a passar 12 horas trancafiado em contêineres de caminhão, sofrendo provocações dos contrabandistas, durante a travessia do deserto entre o Sudão e a Líbia. O principal alvo das acusações é o governo italiano.

Em 2003, foi firmado um acordo com a Líbia a fim de bloquear o fluxo de imigrantes africanos. O país europeu chegou a financiar a construção de uma prisão em território africano, chamada Kufrah, onde os deportados são vítimas de agressões e práticas de tortura. Entre 2006 e 2007, quase 100 mil imigrantes africanos foram presos.


Componentes desconhecidos da pobreza

Uma das teses defendidas pelo documentário “O Fim da Pobreza?”, do francês Phillipe Diaz, é de que a origem da pobreza nos países africanos e sul-americanos está no modo como eles foram explorados pelos colonizadores. Em grande escala, houve expoliação dos bens, concentração de terras e aquisição das riquezas em nome de uma expansão dos impérios.

O resultado inverteu a situação: as colônias passaram a fornecer os recursos naturais; estes foram aproveitados e manufaturados nos países ricos e depois vendidos como produto acabado a preços exorbitantes. A colônia virou comprador e novo mercado consumidor.

O economista norte-americano John Perkins diz no filme que esse modelo ainda está em vigor e é responsável por “perpetuar um sistema terrível de miséria”. A câmera passeia pelas minas de Potosí, na Bolívia, e pelo que restou das riquezas de Ouro Preto, no Brasil.

São dois casos exibidos como prova da exploração exaustiva de recursos por parte dos colonizadores. Mesmo os empréstimos concedidos por empresas para financiar iniciativas de desenvolvimento na África são vistos, sob a ótica do diretor, como agiotagem.

É outro fator responsável por fazer durar a dependência econômica. Os países pobres são obrigados a pagar dívidas insanáveis para as nações ricas. A experiência de uma empresa dos EUA que instalou uma sede no Quênia atesta essa condição.

Um dos quenianos desalojados diz indignado que “virou escravo na terra dos próprios ancestrais”. É verdade que em certos momentos o grau de pessimismo do documentário tende a criar uma teia de conspiração pouco confiável. É um filme de tese que amarra idéias conforme o que se quer pregar.

A proliferação de ONGs e entidades de ajuda humanitária para combater a fome, a pobreza e as epidemias em países africanos também são interpeladas no filme “O Que Fazemos Aqui?”, produção de uma família alemã que cruzou o continente. Eles começam com uma pergunta: “O que você acha que aconteceu com os 10 dólares que doou no ano passado para uma instituição de caridade?”. A questão sugere que parte do dinheiro oferecido cai nas mãos de pessoas pouco comprometidas ou corruptas.

A passagem dos diretores pela Somália ajuda a revelar o que acontece. Em depoimentos, percebemos que quase todo o dinheiro enviado contribuiu para agravar a guerra civil no país. Até os sacos cheios de alimentos que são jogados por aviões das Nações Unidas são depois vendidos no comércio local. Uma associação em Malawi distribui comida para a população ao mesmo tempo em que organiza uma missa e espalha suas convicções religiosas.

Ainda em Malawi, um fazendeiro e economista local, cuja experiência de plantio foi bem sucedida, afirma que “a pobreza é apenas um sintoma de um problema maior”. Ele sustenta que o principal impedimento na África é a falta de conhecimento para usufruir dos recursos disponíveis no continente. Diz que a ajuda estrangeira só dá certo quando atinge um mecanismo competente capaz de mudar os destinos do povo. Caso contrário, pode até piorar a situação.

A síndrome da dependência é algo constantemente alegado no filme. Como há suporte estrangeiro, os africanos isentam-se de responsabilidades. A opinião é compartilhada em outro documentário que aborda o tema: “Eu Sou Porque Nós Somos”, narrado pela cantora Madonna e dirigido por Nathan Rissman.

Uma líder de aldeia conta que a vitimização faz com que as pessoas não enfrentem as dificuldades e deixem de assumir o comando das coisas. Preferem culpar fatores externos ou maldições divinas a buscar uma solução para a pobreza.

 
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