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a.r.t.e.
TEATRO

Voz e vida de Lotte Lenya
Por Carlos Adriano


Mônica Guimarães na peça "Lenya", dirigida por Regina Galdino
Divulgação

Peça do crítico de cinema Amir Labaki celebra uma das principais atrizes e intérpretes de Brecht e Weill

No começo do século passado, o teatro foi um dos alvos mais criticados por aqueles que idealizavam o cinema como meio autônomo e específico de arte. No final daquele século, o teatro contaminou-se de cinema por polinizações polares e profícuas, com encenadores de peças como Bob Wilson e Robert Lepage e diretores de filmes como Hans Syberberg e Hal Hartley.

Ao trocar a tela pelo palco em “Lenya”, Amir Labaki, um dos melhores textos de nossa crítica cinematográfica, dispõe a palavra (ou, melhor, a voz) da cantora e atriz Lotte Lenya em cena, sob imantação de rubricas cinematográficas e tomadas cênicas. A opção narrativa do monólogo gera um teatro de câmera subjetivo, por vezes auto-irônico e quase operístico.

Em sua estréia como dramaturgo, o criador e diretor do Festival de Documentários É Tudo Verdade encena em seu texto uma operação crucial do cinema documental sem ignorar a carpintaria teatral. Entre as fontes da pesquisa estão “Lenya, a Lenda” (1998), de David Farneth, “Speak Low (When You Speak Love)” (1996), de Lys Simonette e Kim H. Kowalke (edição das cartas entre Weill e Lenya), e “Lenya: Uma Vida” (1989), de Donald Spoto.

Como um montador do gênero documentário de compilação de arquivo –praticado, por exemplo, por Esther Schub (“A Queda da Dinastia Romanov”, 1926) e Alberto Cavalcanti (“Um Homem e o Cinema”, 1976)–, que seleciona, recorta e justapõe trechos de filmes, é que Labaki trata a memória da voz de Lenya: organiza a história, dotando-a de sentido narrativo.

Tal manipulação sobre os fatos e as ficções da realidade (pois a vida de uma personalidade historicamente complexa não comporta distinções entre verídico e onírico, como já ensinou o poeta fingidor Orson Welles) permite ao autor exercer, em outra dicção, uma espécie de metacrítica ao seu ofício de rotina. A escritura da peça de teatro desloca eixos e parâmetros, mas preserva um projeto.

Projeto formado pelo engajamento em diversas frentes, sempre tendo como esfinge a realidade. Os gestos de interpretar filmes (em sua coluna no jornal "Valor") e de exibir documentários (no cinema, a partir de seu posto no festival; na televisão a partir de seu programa de documentários) é congenial à curiosidade de escutar a voz e o viés do mundo.

A militância de Labaki no jornalismo e no cinema é uma das chaves da consecução da peça, contribuindo para a qualidade de seu texto e de sua operação “tradutora” (no sentido de trazer e traduzir a vida-obra de Lenya ao Brasil): o ritmo ágil e coloquial das falas, a concisão do que é necessário, o poder de amalgamar experiências heterogêneas e híbridas.

Lotte Lenya (1898-1981) celebrizou-se como a musa e a perpetuadora da arte do compositor musical Kurt Weill (1900-1950). Em 1962, ela fundaria a Kurt Weill Foundation. Weill e Bertolt Brecht (1898-1956) formaram lendária parceria, produzindo “A Ópera dos Três Vinténs” (1928) e “Ascensão e Queda de Mahagonny” (1930) numa Berlim atribulada por variadas emoções e acossada pela sanha insana de Hitler.

Lenya foi a primeira intérprete das canções de Brecht-Weill e, talvez, a mais completa tradução do estilo de cantar e atuar as obras da dupla. Em 1927, interpreta pela primeira vez uma obra deles, cantando como Jessie em “Mahagonny”. Para estrelar sua estréia, Amir Labaki elegeu Mônica Guimarães, musa que consuma a interpretação do mito demasiado humano com a dose bem temperada de ações e canções, entre pathos e informalidade.

Lotte Lenya nasceu em Viena como Karoline Wilhelmine Charlotte Blamauer. Em 1921, sob os conselhos do diretor teatral Richard Révy, ela adotou o nome Lotte Lenja (“Lenya” após a mudança para os Estados Unidos). Se “Lotte” vem de Charlotte, “Lenja” tem origem obscura. Biógrafos apostam que foi criado por Révy, baseado na personagem Jelena, da peça “Tio Vanya” de Tchekov (Lotte aplidou Révy de “Vanya”).

O autor de “Lenya”, a peça ora em cartaz em São Paulo, nota que a exclusão do nome dela do programa de estréia de “A Ópera dos Três Vinténs” (lapso que irritou Weill e o indispôs a impedir sua entrada em cena) é uma premonição simbólica da sina ausente da atriz cantante. Relegada às coxias do relaxo teatral, era vista como a jovem coadjuvante nas peças do marido e a viúva intérprete de suas canções.

A peça de Labaki não deixa de ser o desejo de uma reparação. Dar voz a alguém com aquilo que lhe foi negado. Daí o formato apropriado e eloqüente do monólogo: a voz faz história pelo testemunho pessoal no tempo, em falas e canções, discurso e música. Voz como canal da vida. Não seria esse o último desejo do documentário, que a vida não lhe poderia negar?

A equação “voz e vida” mereceu, entre outras, leitura singular no livro “Uma Voz e Nada Mais” (2006), de Mladen Dolar. Seguindo Aristóteles e Agamben, o livro distingue duas formas de vida: "zoe" (existência animal) e "bios" (existência pessoal na pólis). Esta é dotada de uma voz, signo da abstração da interioridade que Dolar detecta em frases como “a voz da consciência”.

Em texto disponível no site da peça, Labaki escreve: “Esta peça celebra a vida e a obra de Lotte Lenya, reconstituindo o essencial de sua trajetória o mais possível por meio das próprias palavras da atriz. As citações se originam em entrevistas, cartas, textos por ela escritos e declarações recuperadas pelo depoimento de amigos. O essencial do monólogo surgiu assim de meu trabalho de seleção, condensação e tradução, complementado pelo exercício criativo de complementação dramática destas falas.”

Com lente em foco e canhões de luz afinados carinhosamente sobre Lenya, o autor conjuga tempos verbais aprendidos na lida da urgência do tempo exercida, por exemplo, na imprensa diária (redação da "Folha de S. Paulo") e na análise política (seus livros sobre o documentarista cubano Santiago Alvarez e sobre a crise brasileira da renúncia de 1961).

A peça “Lenya”, puro teatro na mais estrita acepção do termo, mas potencial filme na aspiração documentária, sugere um compósito de Eisenstein (o “cinema de atrações” derivado do circo e do music hall) e de Brecht (o distanciamento do teatro épico de/cantado pelo teatro de cabaré), sob o filtro biomecânico de Meyerhold e a claquete-aurora de Murnau.

Lenya representou Bernard Shaw (“The Shewing-up of Blanco Posnet 1926), Shakespeare (“Romeu e Julieta”, 1926-1927) e Sófocles (“Édipo em Colono”, 1929). Em 1945, atuou na fracassada opereta “The Firebrand of Florence”, de Weill, Ira Gershwin e Edwin Justus Mayer. Em 1952, reapareceu como Jenny na adaptação de Marc Blitzstein para “A Ópera dos Três Vinténs”, regida por Leonard Bernstein.

A voz cantante de Lenya celebrizou-se em várias gravações, como “Surabaya-Johnny” (1930), “Bilbao-song” (1930), "September Song" (1958) e "As Histórias de Kafka" (1962). Em setembro de 1955, participou da sessão de gravação de “Mack the Knife” (que seria gravada por Ella Fitzgerald e Frank Sinatra), com Louis Armstrong, que a creditou na letra.

Em Nova York, onde exilou-se a partir de setembro (!) de 1935, Lotte Lenya viria a estrelar a primeira versão teatral de “Cabaret” (1966), como a Fräulein Schneider, um indefectível sucesso da Broadway e clichê-mercadoria da diluição industrial do gênero teatro musical que ela, Weill e Brecht ajudaram a forjar.

Entre abril e maio de 1938, ela fez temporada no nightclub da moda Le Ruban Bleu, na West 56th Street em Manhattan, cantando Weill e a especialmente escrita para ela, por Marc Blitzstein, “"Few Little English”. O público sofisticado captou seu nome e talento, mas os espetáculos não catapultaram ofertas imediatas.

Lenya viria a atuar no terceiro filme da série James Bond, “Moscou Contra 007” (1963). Não é pouca ironia que a velha dama in/digna do cabaré-teatro weill-brechtiano e devoradora (e enterradora) contumaz de homens aceitou o convite para ganhar uns trocados e dar um golpe de mais-valia na fama ao interpretar a espiã Rosa Klebb em luta de bicos de pé contra o galã gostoso Sean Connery, no filme britânico dirigido por Terence Young.

Lenya atuaria em outros filmes: “A Ópera dos Três Vinténs” (1931, G. W. Pabst), “Em Roma, na Primavera” (1961, José Quintero) -cujo papel da condessa Magda Terribili-Gozales e amiga de Vivien Leigh lhe deu indicações para o Oscar e o Globo de Ouro de atriz coadjuvante-, “O Encontro” (1969, Sidney Lumet) e “A Disputa dos Sexos” (1977, Michael Ritchie), neste em cena tão breve quanto memorável com Burt Reynolds, como Clara Pelf, uma sintomática massagista dotada de técnica nada ortodoxa.

Em outro trecho de seu texto sobre a peça, Labaki escreve: “Todo mundo conhece Lotte Lenya –mas poucos lembram de pronto quem ela é. Lenya assumiu um posto em nossa memória coletiva como a traiçoeira vilã dissidente soviética Rosa Klebb em ‘Moscou Contra 007’. A senhora da faca na ponta do sapato se tornou imediatamente uma das imagens arquetípicas do mal no cinema. É um delicioso paradoxo que uma das mais importantes intérpretes teatrais do século 20 deva seu reconhecimento público internacional a um papel de coadjuvante numa aventura de James Bond. Apenas a partir de seu centenário de nascimento, celebrado há exatos dez anos, Lenya começou a ter devidamente reconhecido seu talento ímpar e sua importância como parceria de uma das mais geniais duplas de colaboradores do teatro moderno: o compositor Kurt Weill e o dramaturgo Bertolt Brecht”.

Ela, que em 1937 foi dirigida em Nova York por Max Reinhardt numa peça justamente intitulada “A Estrada Eterna”, manteve-se em movimento contínuo. É curioso mencionar que a atriz teve um de seus últimos flertes fatais justamente com um documentarista, Richard Siemanowski, a partir de um interesse dela em um projeto autobiográfico de filme. O documentário “Lenya, e Uma Garota Chamada Jenny” não saiu da cama.

Num momento da peça de Labaki, Lenya comenta seu pendor “nem tudo é verdade”. Piscando para a cumplicidade da platéia, sugere que a ficção tropeçou no real, certas vezes em sua vida. Oswald de Andrade (1890-1954), cujo teatro clama por aplauso para além de “O Rei da Vela” (que veio a eclipsar “O Homem e o Cavalo” e “A Morta”), escreveu em suas “Memórias e Confissões”: “Lenda ou fato? Não importa. Há entre ambos a diferença que vai da verdade à realidade. A verdade é sempre a realidade interpretada, acomodada a um fim construtivo e pedagógico, é a gestalt que suprime a dispersão do detalhe e a inutilidade do efêmero”. É a mesma imantação do teatro pelo cinema, e vice-versa, e destes pela vida, que dota a peça “Lenya”, de Amir Labaki, dos atributos de ode de amor à musa e à representação como estatuto de compreensão e indagação da realidade. Até porque a projeção da história reimaginada, em tela, palco ou página, mesmo que (e apesar de) obra do esforço fabulador, é sempre uma das (contra) provas dos noves (fora) da (s) verdade (s).


A peça:
“Lenya”, de Amir Labaki. Com Mônica Guimarães. Direção: Regina Galdino. Sesc Avenida Paulista, av. Paulista, 119, 13º andar, tel. (11) 3179-3700 / 0800-118220. Até 2/11/2008, às sextas, aos sábados e domingos, às 20h.


link-se

http://www.lenya.com.br

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Carlos Adriano
É cineasta e doutor em ciências da comunicação pela USP. Todos os seus filmes foram apresentados no 56º Festival de Locarno (seção "Cineastas do Presente") e no 16º Videobrasil (sala no eixo curatorial "Cinema Vídeo Arte"). Realizou "Remanescências" (coleção New York Public Library), "A Voz e O Vazio: A Vez de Vassourinha" (melhor curta documentário Chicago Film Festival) e "Militância" (exibido no MoMA, Nova York). Teve roteiros premiados por Petrobras, Ministério da Cultura e Bolsa Vitae. Com Bernardo Vorobow é autor do livro "Peter Kubelka: A Essência do Cinema" e organizador de "Julio Bressane: CinePoética".

 
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