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audiovisual
MOSTRA DE CINEMA

Trapero defende a inteligência do público
Por Fernando Masini


Martina Gusman em "Leonera", filme de Pablo Trapero
Divulgação

Para o diretor argentino, que está lançando "Leonera", impor uma moral nos filmes é subestimar o espectador

O diretor argentino Pablo Trapero aprendeu a olhar o mundo pelas margens. Não precipita e nem condena a personalidade enviesada de quem está na tela. Ao ver sua obra nos cinemas, fica difícil definir quem é imoral no meio de tanta crueldade. O contexto parece engolir o personagem, que é obrigado a tomar atitudes controversas. A tendência é o espectador perdoar o personagem pelos deslizes que cometeu. Para Trapero, as pessoas não são más por natureza.

"Eu penso no espectador como uma pessoa sensível e inteligente; não é preciso dizer 'este é bom', 'este é mau'. E eu, como espectador, agradeço quando o diretor me dá espaço para decidir esse universo moral. Impor um universo moral é uma maneira de subestimar o público“, diz o cineasta de 37 anos.

Em “Leonera”, seu último longa-metragem, exibido na 32ª Mostra de Cinema de São Paulo, a protagonista é Julia, vivida pela mulher e produtora de Trapero, Martina Gusman. Ela é uma estudante de classe média que tem sua vida interrompida após ser acusada de matar o próprio namorado. É obrigada a cumprir pena e cuidar do filho recém-nascido na prisão. Apesar de menos resignada com o destino, Julia é também levada pelas circunstâncias. Mais uma vez, Trapero conduz uma reviravolta na trama depois de um acidente.

No filme anterior, “Nascido e Criado” (2006), o protagonista é forçado a enfrentar uma nova vida na Patagônia após ter ocorrido uma tragédia com sua mulher e seu filho. “Penso que às vezes as pessoas tomam decisões de uma maneira inconsciente. Meus filmes têm a ver com aprendizagem, com a idéia de que aprendemos coisas a todo momento. Aprendemos a estudar, a trabalhar, a conviver junto. Depois a lidar com os amigos, a ser pai”, afirma o diretor.

Pablo Trapero nasceu na periferia de Ramos Mejía, região metropolitana de Buenos Aires. Formou-se em cinema na capital. Aos 25 anos, produziu “Pizza, Birra, Faso”, obra considerada como o estopim do novo cinema argentino. Junto a uma geração de jovens cineastas, como Lucrecia Martel e Lisandro Alonso, causou frenesi ao lançar seu longa de estréia: “Mundo Grua”, de 1998, premiado no Festival de Veneza.

Em entrevista a Trópico, durante sua passagem por São Paulo a convite da Mostra de Cinema, Trapero contou sobre o processo de criação de “Leonera”, discutiu o papel do cineasta e explicou por que tantos argentinos filmam na Patagônia: “É um lugar místico, que guarda um aspecto romântico e também um lado sombrio”.

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Como foi o contato com as detentas durante as filmagens de “Leonera”?

Pablo Trapero: Começamos a trabalhar o filme um ano antes de rodá-lo. Entrevistamos advogados, jornalistas, prisioneiras, assistentes sociais, psicólogos. Depois fomos visitar presídios de mulheres com filhos pequenos. Aproveitamos também para conhecer outros tipos de cadeias.

Fizemos algumas cenas com as detentas e, após um ano, rodamos o filme em três lugares. O primeiro foi uma prisão que estava construída, mas não habitada. As outras duas funcionavam normalmente. Uma delas serviu de locação para a cena em que Julia (interpretada por Martina Gusman) visita Ramiro (Rodrigo Santoro).


É verdade que vocês deixaram câmeras para que as prisioneiras tirassem fotos do ambiente?

Trapero: Sim. Nós emprestamos as câmeras fotográficas às mulheres presas como parte da investigação do filme. Serviu para elas tirarem fotos do cotidiano, mas com o ponto de vista delas. Não queríamos interferir com o nosso ponto de vista. O resultado foi muito bom. Estou pensando em fazer um livro com essas fotos. Ajudou muito a direção de arte, a ter uma idéia das roupas dos personagens e como seria a construção da imagem.


Algumas prisioneiras trabalharam no filme?

Trapero: Não muitas. Nas cenas finais, quando Julia está sem a criança, temos algumas. Outra é quando Julia vai caminhando por um corredor e as mulheres ficam gritando e insultando. Mas, no grupo de atrizes com o qual nós trabalhamos, havia mulheres que tinham sido presas no passado e agora estão em liberdade. Ou também atrizes que tiveram alguma relação com a cadeia, que conviveram de alguma forma com o ambiente. Tiveram algum parente preso ou coisa parecida.


É a primeira vez que você trata do universo feminino em seus filmes. É uma realidade muito diferente?

Trapero: Foi um desafio falar do mundo de uma mulher. No filme, há poucos personagens masculinos. E para mim foi um desafio importante porque era algo que eu queria fazer há algum tempo. Antes de ser um filme sobre o sistema carcerário, é também um filme sobre a maternidade, sobre a vida de uma mãe. É um universo em que os homens são quase ignorados, estão fora da história. E penso que deu certo. Acho que há esse aspecto feminino na história.


Martina Gusman te ajudou nesse aspecto?

Trapero: Na verdade, foi um filme que eu criei para ela. Nos conhecemos há muitos anos, temos um filho e somos parceiros numa produtora (Matanza Cine). Martina trabalhou como produtora dos meus filmes anteriores e também ajudamos a produzir obras de outros diretores. Criamos um vínculo muito grande. No meu filme anterior, “Nascido e Criado” (2006), Martina faz um personagem menor. Depois disso, propus a ela fazer um filme como protagonista.

Ela participou das primeiras etapas e das primeiras investigações de “Leonera”. Me acompanhava nas visitas aos presídios. Enquanto nós pensávamos o roteiro, ela aprofundava as características do personagem. Desde muito cedo, começamos a trabalhar juntos no processo de construção da Julia, o personagem da Martina.

Na verdade, Martina é atriz desde os sete anos. Acontece que por muitos anos ela deixou de atuar e deu preferência à carreira de produtora. Nos conhecemos depois que eu filmei “Mundo Grua” (1998), meu primeiro longa-metragem. E, desde que a conheço, eu repito que gostaria de fazer um filme com ela como atriz. Após muitos anos tentando convencê-la, chegamos a “Leonera”.


Assim como em “Nascido e Criado”, a protagonista de “Leonera” sofre um acidente que muda a sua vida. Você acha que somos levados pelo destino, não há escolhas a fazer?

Trapero: Não. Todos os meus personagens são responsáveis pelo que vivem. Não quer dizer, por exemplo, que em “Nascido e Criado” o protagonista vai caminhando e de repente cai um piano na sua cabeça. Há uma situação construída pela qual ele foi responsável. E Julia, em “Leonera”, também é responsável pelo que se passa no apartamento dela, na noite do crime.

Penso que às vezes as pessoas tomam decisões de uma maneira inconsciente. Meus filmes têm a ver com aprendizagem, com a idéia de que aprendemos coisas a todo momento. Quando eu era criança, pensava que eu saberia tudo quando fosse adulto. Quando se é pequeno, tende-se a achar que teremos respostas para as perguntas mais difíceis.

Se a gente não puder aprender coisas todos os dias, nossa vida se torna muito difícil. Aprendemos a estudar, a trabalhar, a conviver junto. Depois a lidar com os amigos, aprender a ser pai. Tudo aquilo que devemos fazer, temos de passar por um processo de aprendizagem. “Leonera” fala um pouco sobre esse processo.


Você tem preocupação em fazer crítica social nos seus filmes? Em “Do Outro Lado da Lei”, aborda a polícia corrupta, e em “Leonera” trata do sistema penitenciário argentino.

Trapero: Eu tenho essa preocupação, mas antes do cinema. É uma preocupação cotidiana. São coisas que como indivíduo me mobilizam, me fazem pensar. Sinto que os filmes são uma reflexão sobre isso. Eles abrem espaço para a discussão de sistemas que estão um pouco esquecidos nos jornais ou nas televisões. Oferecem um pouco de espaço público, onde se possa debater.

Acredito, no entanto, que “Leonera” seja um filme sobre a justiça de modo geral, e não apenas sobre o sistema penitenciário argentino. É sobre como funciona a estrutura da justiça. Mas sempre o contexto está a serviço de uma história, de um personagem. Não se trata de histórias que pretendem falar de um sistema. Elas vêm antes da minha necessidade de colocar na tela denúncias sociais.

Por outro lado, o cinema sempre tem um olhar social. Mesmo quando se fecha numa história pessoal, existe o registro de uma realidade, o testemunho de uma época. Acho que o cinema e sua linguagem vêm primeiro, depois as denúncias aparecem. O que os filmes podem fazer é abrir espaço de debate para que as pessoas se sintam motivadas a mudar alguma coisa. O papel do cinema é apresentar um mundo onde exista um ponto de partida para este debate.


A gente percebe nos seus filmes que há um cuidado muito grande em não julgar os personagens, em apontar se eles são bons ou maus. É uma preocupação sua?

Trapero: Sim, porque são filmes que falam sobre personagens dentro de um contexto. Há muitas pessoas que causam danos a outras sem estar conscientes disso. Penso ingenuamente que existem poucas pessoas realmente más na vida, com desejo de machucar o outro.

Meus filmes tentam entender como um contexto às vezes faz com que a pessoa converta sua personalidade. Torne-se, como ocorre em “Do Outro Lado da Lei” e “Leonera”, uma pessoa destemida. Me parece importante poder entender isso. Não quero dizer que estou de acordo com o personagem. Eu não concordo, por exemplo, com as atitudes de Zapa (policial que é corrompido pela instituição em “Do Outro Lado da Lei”).

Como diretor, meu trabalho não é julgar os personagens, mas apresentá-los. E cada um que assistir ao filme chegará à sua conclusão. Eu penso no espectador como uma pessoa sensível e inteligente; não é preciso dizer "este é bom", "este é mau". E eu, como espectador, agradeço quando o diretor me dá espaço para decidir esse universo moral. Impor um universo moral é uma maneira de subestimar o público.


Chama a atenção o número de diretores argentinos que filmam na Patagônia. Você também rodou “Nascido e Criado” lá. Por que essa fixação?

Trapero: É que a Patagônia é um lugar místico, tem muito significado nesse sentido. Guarda um aspecto romântico e também um lado mais sombrio. Na Patagônia, há paisagens muito bonitas, mas também existem cenários violentos e opressores.

No meu caso, esse universo que mistura os dois aspectos é o que me atrai a contar histórias. Não me apego tanto ao viés turístico do lugar. Em “Nascido e Criado”, há o lado religioso e selvagem ao mesmo tempo. E as pessoas que decidem viver lá, passam por esse paradoxo.


Publicado em 28/10/2008

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Fernando Masini
É jornalista.

 
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