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prosa.poesia
Diário de Bordo

A crueza e a guerra
Por Wilson Bueno

As vilanias do capitão-tenente Argemiro Lôbo-Nunes, ordenança do conde D'Eu, durante o conflito com o Paraguai

A Guerra do Paraguai (1864-1870), seguramente um dos mais ferozes episódios da história de nuestra América, suscitou um tão rico quanto perverso fabulário em torno de personas ou personagens que protagonizaram o bárbaro conflito.

Isto se confirma, de modo convincente, no que diz respeito a modestos soldados ou a militares de baixa graduação que a história só lembra e registra porque, de um modo ou de outro, deixaram, no transcorrer do conflito, as suas marcas –o mais das vezes, ou quase sempre, assinaladas pela crueza mais crua e a vilania mais vil.

Destaca a crônica a existência, por exemplo, entre outros, de um certo capitão-tenente Argemiro Lôbo-Nunes da Fonseca, lusitano de nascimento e renhido ordenança a serviço do conde D’Eu na batalha de Peribebuí.

Sabem o que o cândido Lôbo-Nunes costumava fazer com os inimigos principalmente quando estes se mostravam muito valentes e de difícil capitulação? Cortava-lhes a língua, a frio evidentemente, quando não os emasculava à frente da tropa, numa cerimônia que, pela crueldade, chegava a chocar mesmo o mais rude soldado. Tinha por hábito igualmente dependurar o inimigo, dias a fio, em árvores, pelos cabelos, sobretudo os que possuíam abundantes cabeleiras...

Enquanto isso, em sua tenda, lendo Stendhal no original francês, inseparável de suas luvas de pelica, o conde D’Eu sonhava com impérios daqui e d’além mar, dizem que alheio à selvageria em torno e imaginando, para o imperador do Brasil, seu sogro, um futuro de ouro e temperança.

Convidado a assistir às cerimônias de sangue de seu fiel ordenança, umas vezes aceitava, outras recusava, principalmente quando acontecia estar ligeiramente indisposto. O cheiro de pólvora, para quem não sabe, costumava nausear o medalhado consorte de sua alteza, a princesa Isabel de Orléans e Bragança.


Ásperos e delicados

Os índios Anayeus, do extremo sul argentino, acostumados a viver sob os rigores de temperaturas invariavelmente negativas, e em condições o mais das vezes inóspitas, não perderam, contudo, a delicadeza. Amam o frio como se este fora um Deus todo particular e brando. E até inventaram um nome para ele – Andivá, que quer dizer, no curioso idioma que falam, “aquele que afaga com estúpidas mãos”.

O antropólogo portenho, Andrés Daher, que viveu muitos anos entre os Anayeus, me conta, por e-mail, que intrigado com o fato de que se pudesse “afagar” alguém com mãos “estúpidas”, decidiu pesquisar melhor a etimologia da palavra "andivá". E, para surpresa sua, a explicação veio através de um achado desconcertante em todos os sentidos.

As crianças índias, assim como as mulheres Anayeus, só podem ser acariciadas por aqueles que possuam as mãos calejadas. O contrário disso é interpretado como dura agressão. pois a palma das mãos, quando lisas e finas, são consideradas, pelos Anayeus, como um sinal de falso afeto e de hipócrita intento carinhoso.

Alguma coisa assim como quem, melífluo, passa-lhe a mão no rosto e lhe apunhala as costas...

O comum, entre nós, aliás, que entendemos a carícia como um ato de magnífica leveza... Entre os Anayeus isto seria o equivalente a um soco na cara.

Só então Daher entendeu também porque dificilmente algum integrante da tribo dos Anayeus não as tinha, as mãos, cobertas de calos.


Juan e Nassíria

Esta história de amor cigano me foi contada pelo poeta Patrício Alvarez, que nasceu na Galícia, mas vive em Nova York, num pacato bairro latino, próximo de Seamans, com ruas ensombreadas de árvores feito fosse uma cidade de interior. Ali eu o conheci, no outono de 1994, levado a ele por outro poeta, o dominicano Leandro Morales.

O cigano se chamava Juan e era uma vez em Sevilha.

Um rico comerciante de tecidos tivera sete filhos e somente na oitava gravidez da mulher, nascera uma tão cobiçada menina, a quem deram o nome de Nassíria. Não precisa dizer o que de mimos e atenções recebeu, desde o berço, a linda sevilhana. O propósito do pai não era outro senão o de fazê-la casar-se com o herdeiro de uma poderosa casa têxtil.

O único talento do cigano Juan, além de exímio artesão, especializado na fabricação de instrumentos musicais, era o de domar cavalos. Pobre e nômade, não poderia jamais aspirar, sequer em sonho, ao coração de Nassíria.

Acontece que Nassíria, como parece acontecer apenas nas lendas, apaixonou-se ainda mais desesperadamente por Juan, o cigano, a ponto de fugir com ele para uma aldeia próxima de Sevilha. Mas isto não durou –frisava o velho Alvarez– nem dois dias. Logo sabendo do paradeiro da filha fujona e do que considerava o seu execrável seqüestrador, o rico comerciante enviou uma verdadeira tropa de choque para resgatá-la.

Assim que soube da notícia, Juan não teve dúvidas –escondeu Nassíria numa gruta à margem do rio Guadalquivir e partiu, célere, de volta a Sevilha. Mas os homens não só encontraram Nassíria como a levaram de volta ao pai.

Sem saber do resgate de Nassíria da gruta onde a deixara, mas ainda assim impelido por verdadeira fúria homicida, o cigano Juan driblou a segurança do palácio e não tardou a se defrontar com o pai da moça. A conversa foi curta e ríspida –frisava o poeta Patrício Alvarez. O suficiente para que o jovem atirando-se ao pescoço do velho o esganasse até a morte.

Ante a correria que se seguiu, num alvoroço aturdido de crianças, homens e mulheres, aos gritos e atropelos, Juan, vendo-se acuado, não hesitou em descarregar o revólver que levava invariavelmente escondido debaixo da camisa, em todos que tentavam se aproximar para prendê-lo, desarmá-lo ou mesmo dissuadi-lo da sanha homicida –jovens, velhos, mulheres e até crianças. Uma chacina sem precedentes até então em Sevilha.

O terrível desta história –de paixão e sangue– foi que, entre os mortos, lá estava Nassíria. Escondido o rosto atrás de um véu, se imiscuíra entre os que tentavam conter o cigano apaixonado.

Juan nunca soube disso –crivado de bala que foi muito antes de conseguir chegar, em fuga, aos portões do palácio– de volta à sua Nassíria...

Por isso é que há próximo de Sevilha, na aldeia de Jaén – concluía, filosófico e ponderado, o bom Patrício Alvarez–, duas fontes de água, bem no centro histórico do minúsculo povoado, chamadas Juan e Nassíria. E a superstição de muitos séculos sugere que quem beber de uma jamais deverá fazer o mesmo da outra.


Publicado em 21/10/2008

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Wilson Bueno
É escritor, autor de, entre outros, "A Copista de Kafka" (ed. Planeta).

 
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