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audiovisual
CINEMA

A indignação de Sergio Bianchi
Por Alan de Faria


Cena de "Os Inquilinos", o novo filme de Sergio Bianchi
Divulgação

"Um dos erros do povo brasileiro é essa eterna subserviência", diz o diretor, que está finalizando o seu novo filme, "Os Inquilinos"

“Eu odeio entrevistas, eu sou uma dúvida ambulante...” Essas foram algumas expressões ditas pelo cineasta Sergio Bianchi durante a entrevista que fiz com ele. Antes mesmo de terminar as questões que eu planejara fazer, foi preciso negociar com o diretor de “Cronicamente Inviável” (2000) e “Quanto Vale ou É por Quilo” (2005). “Ok, mais duas perguntas e eu termino a entrevista”, disse.

Definitivamente, Bianchi não é uma das pessoas mais fáceis de serem entrevistadas. Primeiramente, demorei cerca de nove meses para conseguir marcar o encontro. Os primeiros contatos com sua equipe de produção ocorreram em novembro do ano passado. À época, estavam sendo realizadas as filmagens de “Os Inquilinos”, novo projeto de Bianchi. O longa, rodado em Brasilândia, bairro da periferia de São Paulo, conta a história de uma família que vive distintamente e, de repente, ganha como vizinhos alguns jovens suspeitos de serem do tráfico de drogas.

Os atores Marat Descartes (prêmio Shell de melhor ator em 2006 pela peça “Primeiro Amor”; atualmente na série “Alice”, da HBO) e Ana Carbatti protagonizam “Os Inquilinos”, que também conta com a participação de Leona Cavalli, Cássia Kiss e Caio Blat.

A idéia do filme, diz Bianchi, surgiu depois de ele ter lido, por indicação da escritora Beatriz Bracher (co-autora do roteiro), uma narrativa de Vagner Giovani Ferrer, escrito como tarefa de classe do EJA (Educação de Jovens e Adultos) em 2002 –o texto foi publicado na revista “Vozes da Ilha”.

O segundo contato que fiz com a equipe de Bianchi foi em maio deste ano. Por e-mail, ele avisou que teria que viajar, retornando somente um mês depois, no começo de junho. Enviei uma mensagem para ele no final daquele mês, que foi prontamente respondida por sua assistente. “O Sérgio começou a montagem do filme ‘Os Inquilinos’, por isso está sem tempo disponível”, ela escreveu. Não desisti.

A minha insistência foi lembrada por Bianchi, quando eu finalmente consegui encontrá-lo em seu apartamento localizado no centro de São Paulo, próximo à praça da República, em um sábado à tarde, no final de julho. Embora ele ainda estivesse na fase de montagem de “Os Inquilinos”, ele abriu uma exceção e me concedeu a entrevista.

Bianchi é hoje um dos principais diretores do país, e também um dos mais polêmicos e provocadores. Seus filmes são caracterizados pela aguda crítica social, como em “Quando Vale ou É por Quilo”, em que aborda o trabalho das ONGs, pretendendo denunciar sua "solidariedade de fachada", como declarou o diretor durante o 15º Cine Ceará.

Nascido em Ponta Grossa, no Paraná, em 1945, Bianchi defende uma produção cinematográfica brasileira distante do modelo hollywoodiano. “Não quero essa coisa colonizada, me sentir inferiorizado e copiar o modelo americano”. diz na entrevista a seguir, em que também fala da produção cinematográfica brasileira e das filmagens na periferia: "As ruas são mal iluminadas, e você não vê ninguém ali contra. É muito mais cada um querendo se dar bem. É essa característica que eu acho que nosso presidente pega muito bem, essa esperteza e grande inteligência, sem nenhum critério de transformação... Um dos erros do povo brasileiro é essa eterna subserviência".

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“Inquilinos” é uma adaptação de um conto homônimo, escrito por Vagner Giovani Ferrer. Como você chegou a este texto e por que decidiu transformá-lo em um filme?

Sergio Bianchi: O negócio é o seguinte: o ato de fazer cinema é muito controlado pelo lançamento dos editais (de concursos públicos para financiamento de filmes). Antes mesmo de ser lançado um filme, é preciso estar preparado, ter um roteiro pronto, porque não há muito tempo para isso, tem-se um mês e meio mais ou menos. Se você perde um edital, fica parado, sem filmar, durante muito tempo.

Enquanto “Quanto Vale ou É Por Quilo” (longa de 2005) não era lançado e eu estava parado, comecei a fazer pesquisas para outro projeto e fui para a literatura brasileira. À época, pedi socorro a uma amiga minha, a escritora Beatriz Bracher. Ela me deu uma série de publicações e, entre elas, esse conto, que não é de um escritor propriamente dito.

O texto é fruto de um curso de criação de texto, que ela ministrava. Eu li e gostei muito de algumas características do conto, pois narra situações da periferia de uma forma muito plana, sem julgar, sem decodificar, sem ideologizar... E eu vi vários filmes nesta linha. O roteiro de “Os Inquilinos” foi feito por mim e pela Beatriz.

O filme é a história de uma família normal, constituída, que vê a chegada de alguns rapazes que alugaram a casa ao lado da família. Não é, na realidade, uma casa. É um espaço pequeno, um “puxado”. E o longa é mais ou menos o que essa família acha destes rapazes, que dormem ao longo do dia e fazem barulho à noite, sem uma vida regrada.

E o casal, sobretudo a figura paterna, acredita em valores dignos de família e em alguns, inclusive, da classe dominante: ele fica horas dentro de ônibus para chegar ao serviço, trabalha muito, mas não é registrado, mantém uma família feliz e a alegria de conviver com os filhos, que são bonitos. E tem a invasão deste outro tipo de comportamento ao lado de sua casa...


Boa parte de seus filmes aborda a violência, mas não de forma tão escancarada. Não são vistas, por exemplo, armas de fogo em “Cronicamente Inviável” e em “Quanto Vale ou É por um Quilo”. Comparada a de outros filmes, como “Cidade de Deus”, “Carandiru” e “Tropa de Elite”, sua abordagem da violência brasileira é muito diferente. Por quê?

Bianchi: Eu realmente não sei. Por que eu sou grande e você é pequeno? Não tem explicação...


E o que você acha da abordagem da violência nesses filmes que eu citei?

Bianchi: Eu não acho nada! São bem feitos. “Carandiru” é outra coisa, é do Hector Babenco, um cineasta já de peso. “Cidade de Deus” é muito bem montado, dentro das características do mercado mundial. Aliás, esse tipo de barbárie é o nosso produto de exportação, algo do que “Cronicamente...” já falava.

Não há nos filmes uma visão ou um questionamento quanto ao quê, ao por quê ou como as situações e as relações entre as pessoas ocorrem -uma característica da atual geração, que divide as coisas em “mocinhos” e “bandidos”. Isso me irrita um pouco, porque os filmes ficam restritos à violência, à adrenalina da montagem. Já “Tropa de Elite” toma uma postura maior, mas dentro daquela coisa do cinema bem dirigido. São bons filmes, mas se eu concordo ou não com os discursos deles é algo pessoal. Cumpriram o que comprometeram fazer.

Essa característica da atual geração é bastante perigosa: você sabe se as pessoas são boas e más, de acordo com o ambiente. E foi algo que senti na periferia (durante as filmagens). É um movimento da era Lula: eles mesmos, as pessoas que residem na periferia, se dividem entre a turma do bem, do mal, dos crentes... Eu acho que isso é característica da barbárie, da ausência de cultura, de educação...

Eu bebo da realidade dos fatos. Meus filmes são resultado dessa observação da realidade, transpassada, moída ou retrabalhada pela minha forma de ver as coisas.

Não acho que o comportamento dos cidadãos deveria ser assim, mas é uma reação que eles têm pela própria condição de vida, o que é uma coisa normal. Os valores transmitidos pelos meios de comunicação e pelas outras classes sociais levam a determinados tipos de comportamento.


Esses valores são um tipo de violência?

Bianchi: Eu não sei. Cada classe se defende como pode.


Qual é o tipo de violência que você aborda em “Os Inquilinos”? O preconceito?

Bianchi: "Pré-conceito" é um conceito anterior. Só os retardados não o têm... O que tem o preconceito?


O fato de as personagens de seu filme residirem na periferia e não ter acesso a uma série de serviços...

Bianchi: Mas também não lutam para ter. Alguém tem que dar?


Alguém que fica horas em um ônibus lotado para ir trabalhar está vivendo uma forma de violência?

Bianchi: Fica porque quer ficar! Se não quiser ficar, vai de avião, de helicóptero... Por que não tem grana? Por que não estudou? Por que não nasceu rico? Por que não fez? Estou cansado dessas coisas! Monte uma ONG! Jogue fora dinheiro público! Colabore com alguma! Fature!


Você acredita que os textos de pessoas que residem na periferia explicam melhor aquele ambiente do que os trabalhos de estudiosos nas universidades?

Bianchi: Não sei. Bobagem essa pergunta! Todo mundo pode entender ou não. Você tem poetas de periferia e poetas que não são de lá. Esses podem ser ou não mais aptos a explicarem aquele ambiente. Para o filme, também utilizei os poemas do Ferréz: uma coisa boa, forte... Concordo com ele porque ele defende, de fato, um lado da sociedade.

Não entendo esse relativismo de enxergar todos os lados. Enxergar todos os lados é a melhor política de não se fazer nada e manter as coisas como estão. Não defendo a violência física, mas acho que um dos erros do povo brasileiro é essa eterna subserviência. Percebi muito isso durante o tempo em que fiquei em Brasilândia: as ruas são mal iluminadas, e você não vê ninguém ali contra. É muito mais cada um querendo se dar bem. É essa característica que eu acho que nosso presidente pega muito bem, essa esperteza e grande inteligência, sem nenhum critério de transformação.



Como foi filmar em Brasilândia? Teve que negociar com os moradores? “Os Inquilinos” é mais um longa filmado naquela região...

Bianchi: Foi muito cansativo e eu nem sabia que Brasilândia já tinha sido o local de filmagens de outros longas. Eu fiz porque achei um lugar legal esteticamente. Mas foi muito cansativo.


Há muitos filmes que falam mal da polícia. Falta uma produção que aborde a polícia de outra maneira?

Bianchi: Eu não entendo isso. Acho que se trata de uma profissão (a de policial) dada às classes menos favorecidas. O que, para o sistema, é ótimo, pois bandidos e policiais se matam mutuamente. Agora fica um pouco irritante quando eles saem dos guetos, vêm para cá e querem roubar gente da classe média. Primeiro tem que haver um movimento de moralização da polícia, ela tem que ser correta, britânica, e continuar se matando. Tem que deixar as classes médias e altas mais em paz, pois está sendo difícil viver hoje.


Você está sendo irônico, não?

Bianchi: Não, estou sendo verdadeiro. Pois se falar isso, sem tom de ironia, pega pesado.


No cinema nacional atual, depois do sucesso de “Cidade de Deus”, alguns realizadores preferiram focar no mesmo tema da violência social repetindo fórmulas...

Bianchi: Eu não gosto disso. Me nego! É uma atitude colonizada e burra. Eu não gosto de falar mal de colega, as dificuldades para todos são grandes. O ideal é cada um fazer o filme que se propõe a fazer. Não sou crítico de artes, nem quero criar polêmica. Mas também não quero essa coisa colonizada, me sentir inferiorizado e copiar o modelo americano.

O modelo americano tem sucesso por outras razões. Não é só qualificação do produto. E isso é uma coisa muito ruim para o Brasil, porque fica sempre qualificando o país como inadequado, quando comparado com os Estados Unidos. Você vê a quantidade de matérias que são publicadas sobre o próximo "blockbuster" a ser lançado no cinema? Uma grande pesquisa a ser feita seria ir até os jornais e perguntar se esses espaços são pagos. Nunca pensou nisso?

Se o “Batman - O Cavaleiro das Trevas” teve páginas e mais páginas, e outro filme nacional teve um quarto de página, se pressupõe que a mídia investe para ir assistir ao “Batman”. Isso é a esperteza do mercado. Os caras são mais competentes e jogam com a mentalidade colonizada das pessoas. Tem muita gente colonizada no Brasil. Faça uma entrevista e veja quanto eles pagam para as revistas e jornais... Eu já até sei a resposta.


Pagam?

Bianchi: De uma forma ou de outra, sim. Convidando para ir à estréia mundial, por exemplo. E também tem a preguiça do jornalista: é muito mais fácil só traduzir a matéria já feita em um site internacional. Mas o cinema americano não é o problema. Na verdade, somos nós que mantemos uma postura de “escravinho”.


“Cronicamente Inviável” fez mais de cem mil espectadores nas bilheterias nacionais e foi também sucesso de crítica...

Bianchi: Isso é o grande truque que o cinema americano e os defensores do cinema americano fazem com a gente. A bilheteria que temos é a bilheteria de cinema, mas o Brasil não tem mais cinema de rua, tem cinema de shopping, que é dominado pelo cinema americano, o "blockbuster". E o exibidor vive em função de ter ou não ter esses filmes.

 
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