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política
CRASH

Nem todo mundo vive nas trevas
Por Carlos Alberto Dória

A crise atual dá nova vida a teoria do economista Karl Polanyi, para quem o liberalismo foi uma camisa-de-força imposta pelo século XIX

A crise do mercado trará, invariavelmente, a crise da teoria econômica neoliberal. Ninguém, em sã consciência, poderá, quando o desastre passar, retomar a teoria que falhou ao clamar pela intervenção do Estado para salvar os negócios que, na livre concorrência, não deram certo.

Não raro, a teoria econômica é uma falácia intelectual. É de Fernand Braudel a afirmação de que "o economista tomou o hábito de correr a serviço do atual, a serviço dos governos", perdendo a condição de se apropriar do social, que é "uma caça muito ardilosa".

De fato, se olharmos para trás, talvez Keynes seja o último grande formulador na disciplina, hoje comprometida em seu projeto científico. E, ao olharmos para o agora, veremos que o liberalismo está em recesso, justamente na tentativa de salvar o próprio liberalismo no longo prazo. Esta operação dará certo?

Estatizar bancos, ou “injetar dinheiro no mercado”, tem sido a fórmula sugerida por economistas para impedir a quebradeira capitalista, projetando a imagem inédita de um capitalismo sem riscos no coração de um sistema que sempre viu no risco a alma do negócio. Por esse caminho, a Bolsa de Nova York não quebrará, como na crise de 1929, mas o que restará do liberalismo econômico?

Os teóricos da crise, vistos como aves de mau agouro, estão novamente na ordem do dia, e o austríaco Karl Polanyi (1886-1964) foi o primeiro economista a reconhecer enfaticamente a morte da teoria tributaria de uma modalidade histórica de organização econômica que, segundo ele, se extinguiu nos anos 20 do século XX.

O seu livro “A Grande Transformação” (1944) é uma original demonstração de como a "civilização do século XIX" ruiu junto com as quatro instituições em que se apoiava: o sistema mundial de equilíbrio de poder, o padrão ouro, o mercado auto-regulável e o Estado liberal.

Por isso, ele convida os economistas a colocarem de lado "preconceitos do século XIX" como, por exemplo, a "hipótese de Adam Smith sobre a alegada predileção do homem primitivo por ocupações lucrativas" e superar a tendência de só se dedicarem "àquele período da história, comparativamente recente, no qual a troca e o mercado foram encontrados em alguma escala considerável".

Esta modalidade de "crítica da economia política", incorporando o conhecimento das sociedades pré-capitalistas, já seria suficiente para revestir de extremo interesse a obra de Polanyi e pode ser explorada por vários outros ângulos, como a idéia do "Estado mínimo" e sua crença relativa ao poder mágico da auto-regulação das trocas, como advogaram os liberais de todos os tempos.

Para Polanyi, "a idéia de um mercado auto-regulável implicava numa rematada utopia". Ao contrário, advertia, essa idéia aprofunda o caráter predador da civilização industrial, visto que o “problema do capitalismo é, na verdade, o problema muito maior da civilização industrial", isto é, o problema das "leis anti-humanas" que regem nossa sociedade e se voltam contra os homens e a natureza, destruindo a ambos quando os arrasta para o mercado sob a forma de mercadorias. O homem (trabalho) e a terra não são mercadorias como as demais, nos diz esse economista humanista.

As suas idéias eram dirigidas também contra Keynes, pois, ao contrário do que este propunha, Polanyi achava que "a falha do Estado e a falha do mercado tornam-se idênticas, porque a forma de reprodução social da modernidade perdeu completamente sua capacidade de funcionamento e integração", na medida em que o mercado não podia regular a produção de terras e de trabalhadores. Em outras palavras, com a falha do mercado, o Estado que lhe correspondia ia também de roldão.

Quando escreveu “A Grande Transformação”, Polanyi o fez para assinalar como a crise de 1929, a guerra, o fim do padrão ouro e o colapso do liberalismo econômico encerravam o século XIX impondo a necessidade de construção de uma nova sociedade liberta dessas instituições falaciosas. Ele era o que, hoje em dia, é chamado “socialista democrático”.

Quando Polanyi compreendeu a falácia liberal, tirou dela a decorrência lógica: era preciso uma revolução na ciência econômica, escravizada pelas categorias analíticas geradas pela economia clássica para explicar o mercado auto-regulado, projetando o seu auto-engano sobre toda a história da humanidade e, portanto, incapaz de contribuir para a elevação da consciência social e auxiliar na libertação do homem da camisa de força do mercado.

Em suas próprias palavras, "a sociedade econômica estava sujeira a leis que não eram leis humanas" e que, baseado neste tipo de saber, "o naturalismo passou a assombrar a ciência do homem", exigindo de nós um esforço consciente para a "reintegração da sociedade no mundo humano". Assim, a Grande Transformação visa libertar a ciência da ilusão sobre a natureza das relações humanas nascida no bojo do laissez-faire, através da crítica antropológica à economia de mercado auto-regulado.

A ditadura ilimitada do mercado “não poderia existir em qualquer tempo sem aniquilar a substância humana e natural da sociedade; ela teria destruído fisicamente o homem e transformado seu ambiente num deserto. Inevitavelmente, a sociedade teria que tomar medidas para se proteger, mas, quaisquer que tenham sido essas medidas, elas prejudicaram a auto-regulação do mercado, desorganizaram a vida industrial e, assim, ameaçaram a sociedade em mais de uma maneira”. A "grande transformação", portanto, decorre da irracionalidade do mercado auto-regulado, não se confundindo com o fim do capitalismo.

Seu propósito é mostrar que a ação do Estado na economia se faz desde o nascimento do livre mercado com o sentido de mitigar os males sociais nascidos de suas disfunções intrínsecas, contrapondo-se, simultaneamente, tanto aos seus contemporâneos da escola austríaca dos anos 20 -Friedrich Hayek, Lionel Robbins e Von Mises- quanto aos marxistas da Segunda Internacional, que entendiam a necessidade da intervenção estatal como típica da fase monopolista do capitalismo. Por se contrapor a todos, Polanyi ficou marginal na teoria econômica.

A atualidade do seu pensamento se mostra de modo impressionante agora, pois ele jamais se iludiu e destacou o nascimento e os limites da ideologia do laissez-faire em meio à contradição insolúvel que levaria todo o sistema à bancarrota na grande crise de 29.

Em outras palavras, quando as necessidades do mercado auto-regulável provaram ser incompatíveis com as exigências do laissez-faire, o liberal econômico voltou-se contra o laissez-faire, preferindo -como qualquer antiliberal- os métodos coletivistas de regulamentação e restrição.

Polanyi mostrou a natureza utópica do liberalismo, além de seu caráter eminentemente político-ideológico. Mas, na medida em que seu humanismo reporta à questão da liberdade possível sob a tutela dos mecanismos reguladores da sociedade, em especial aqueles de defesa do "interesse geral", ele necessitou ampliar seu campo de investigação para surpreender esta liberdade operando fora da "civilização do século XIX".

A crise é sempre um momento propício ao exercício da criatividade, livre das amarras anti-históricas que a servidão da vida real impõe.


Publicado em 12/10/2008

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Carlos Alberto Dória
É doutor em sociologia, pesquisador-colaborador do IFCH-Unicamp e autor de "Com Unhas, Dentes e Cuca" (em co-autoria com Alex Atala), "Bordado da Fama" e "Os Federais da Cultura", entre outros livros.

1 - Karl Polanyi, “A Grande Transformação: As Origens da Nossa Época”, ed. Campus, 2000.

 
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