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ensaio
LITERATURA

Machado de Assis e o YouTube
Por Maria Cristina Franco Ferraz

Da época do conto “O Espelho” até a era do ciberespaço, o jogo de identidade se alterou radicalmente

Em 29 de setembro faz cem anos que Machado de Assis morreu. No ano em que tanto se homenageia o escritor, alguns de seus textos insistem em retornar à memória. Um deles especialmente: o conto “O Espelho”. O subtítulo é, por si só, bastante instigante, indicando o que ele propõe e tematiza. Nada menos do que o “esboço de uma nova teoria da alma humana”.

A tese sustentada pelo personagem Jacobina, apoiada em uma breve fábula autobiográfica, pode ser resumida assim: teríamos de fato não uma, mas duas almas, “uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro”.

Retomemos brevemente essa teoria das duas almas para testar, a seguir, em que medida ela poderia ainda ser aplicada a fenômenos culturais contemporâneos, como, por exemplo, certos vídeos autobiográficos que circulam no website YouTube. Nesses espelhos virtuais pode-se ainda identificar a tensão entre as duas almas formulada no conto machadiano?

Vamos primeiro ao conto. Em meio a discussões “de alta transcendência”, em uma casa situada no bairro de Santa Teresa -suspensa entre o alvoroço da cidade e um céu machadianamente alheio e sereno-, Jacobina, homem de meia idade, toma por fim a palavra. Para apoiar sua tese acerca das duas almas -uma interior, outra exterior-, ele narra certa passagem de sua juventude.

Eis, em síntese, o episódio que sustenta a tese da duplicidade de almas. Aos 25 anos, Jacobina, rapaz pobre, é nomeado alferes da guarda nacional. A partir de então, passa a suscitar, à sua volta, tanto admiração quanto despeito e inveja. A farda lhe é ofertada por amigos.

Sua tia Marcolina, que morava em um sítio fora da cidade, deseja vê-lo e festejá-lo fardado e alferes. Jacobina parte então para o sítio, onde vai aos poucos deixando de ser chamado, como antes, de “Joãozinho” para ser tratado todo o tempo como “senhor alferes”.

As deferências que lhe são reservadas culminam na mudança de um belo espelho da sala para o quarto de Jacobina. Esse prestigioso espelho, segundo a lenda familiar (e a ironia machadiana), fora comprado a uma das fidalgas da comitiva de Dom João VI, em 1808.

Jacobina ressalta que o acúmulo de obséquios, carinhos e atenções terminaram por resultar em uma grande transformação, de maneira lapidar expressa pelo próprio personagem-narrador: “O alferes eliminou o homem”. Jacobina transforma-se por fim em sua imagem refletida no espelho do olhar dos outros.

Vai que um dia a tia precisa fazer uma viagem para acudir uma filha doente, deixando o alferes tomando conta de sua propriedade. Os dias se passam sem que retornem os parentes. Os escravos da propriedade substituem, entretanto, a função especular, mantendo ativada a “alma exterior” de “Nhô alferes”, arranhada pela ausência do espelho doméstico, socialmente qualificado. Entretanto, as mesuras dos escravos terminam-se revelando como astúcia: todos fogem à noite, e Jacobina encontra-se por fim só na propriedade.

Sua alma exterior, que eliminara o homem, se perde sem os reflexos dos olhares e deferências. Jacobina defronta-se então com a noite, o abismo e o nada, interrompidos apenas por sonhos em que retornam a farda, o reconhecimento da família e dos amigos –em que volta, em suma, o alferes. De dia, entretanto, o espelho vetusto nada mais refletia senão “uma nuvem de linhas soltas, informes”. Ou seja: a alma exterior, na qual Jacobina se desdobrara, não emergia nem retornava, deixando-o à deriva.

É nesse momento que Jacobina lança mão de um curioso estratagema: vestindo a farda de alferes, recupera no espelho sua “figura integral”, a alma exterior que lhe escapara na solidão total do sítio. A partir de então, decide vestir a farda todo dia a certa hora, gesticulando, sorrindo e perambulando frente ao grande espelho. Por meio desse expediente, resgata sua imagem e inteireza, deixa de ser um autômato e volta a ser um “ente animado”.

Essa deliciosa fábula machadiana explora uma tensão presente na constituição da identidade moderna: dentro e fora, alma interior e alma exterior, ser e parecer. O jogo entre a mera imagem social e uma suposta verdade íntima: eis o que esse conto de Machado põe evidentemente em xeque.

O homem moderno experimenta tanto a necessidade de se sustentar "identitariamente" em sua “interioridade” quanto as pressões dos papéis a serem cumpridos no teatro social. A questão é que as máscaras colocadas, como sabiam Nietzsche e Machado, dificilmente podem ser retiradas, fundindo-se e confundindo-se com o rosto que pareciam preservar. Esse jogo entre interioridade, privacidade autêntica e a falsidade da vida social marca, segundo vários autores, os dilemas da identidade moderna.

Ora, na cultura contemporânea essa tensão vai perdendo sua eficácia. Na cultura da imagem, a tensão interior/exterior tende a se esfacelar. Perfis identitários se associam ao consumo e se espetacularizam na superfície dos corpos. Esse novo modo de se subjetivar deixa de convocar o dilema moderno ser/parecer. Ser confunde-se cada vez mais com ser visto.

De modo bastante coerente, o próprio lema da Globo se enuncia como espelho em que “a gente se vê por aí”. Na contemporaneidade, ao que tudo indica, vai-se esvaziando a crença na velha “alma interior”. Com ela, esvazia-se também, necessariamente, a “alma exterior”, ligada às fardas do reconhecimento social. Quebra-se o espelho do outro. Restam talvez, tão-somente, superfícies deslizantes, sem alma –termo tornado tão obsoleto quanto obscuro.

É interessante tematizar essa problemática investigando certos vídeos do YouTube. Vejamos um deles, já bastante visitado: “How do u get that lonely”.

Sozinha em seu quarto, diante da tela do computador e da webcam –que ajeita de início, alcançando-nos de relance com o olhar-, uma adolescente desglamourizada cantarola melancolicamente uma conhecida canção que fala de solidão e vazio. Isolada em um quarto, a menina grava essa cena trivial, amarrando o tênis enquanto repete o refrão: “How do u get that lonely? How do you feel so empty?”.

Em primeiro lugar, cabe ressaltar a estética cuidadosamente descuidada, que empresta “autenticidade” e “familiaridade” a esse modo de tratar a imagem, emulando a provisoriedade e espontaneidade dos filmes digitais caseiros.

Eis alguns traços dessa estética da intimidade flagrada em seu cotidiano trivial: precariedade das imagens e personagens, enquadramentos oblíquos e não-totalizantes, ausência de edição, bem como um jogo de olhares enviesados, que em geral não se dirigem para a câmera.

Alguns desses cacoetes e protocolos estilísticos são por vezes retomados na própria produção cinematográfica, quando esta procura imitar vídeos privados. Paradoxalmente, a obviedade e a repetição desses recursos pode suscitar exatamente o oposto do efeito pretendido: a percepção do descuido como estratégia para produzir efeitos de familiaridade e autenticidade.

O vídeo “How do u get that lonely” não mostra nem uma “alma interior” prescrutada nem uma “alma exterior perdida” e que se pretende resgatar. Nesse novo modo de se subjetivar, o olhar especular do outro é convocado de modo mediado. O jogo de olhares tramado pelo vídeo pode ser uma pista interessante a ser seguida.

Em “How do u get that lonely”, enquanto a adolescente espinhuda enquadra em diagonal sua “intimidade”, cantarola baixinho e de maneira desafinada trechos de uma canção em que solidão e vazio se repetem, por duas vezes ela lança seu olhar de relance para a câmera e para os prováveis solitários do lado de lá (ou de cá).

A encenação do pathos da solidão e do vazio, no interior da (bem cuidada) estética da autenticidade descuidada e espontânea, espelha aquilo que Guy Debord chamou de sociedade do espetáculo: uma tecnologia de insulamento, de isolamento, nas relações consigo e com o outro, cada vez mais mediadas por imagens. Entre o “olhar de dentro para fora” e o “de fora para dentro” machadianos, interpõe-se atualmente o jogo infinito de imagens sem avesso ou espessura.


link-se

Veja o vídeo “How do u get that lonely” - http://www.youtube.com/watch?v=D72EYQk8ozs


Publicado em 22/9/2008

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Maria Cristina Franco Ferraz
É doutora em filosofia (Paris I-Sorbonne), professora titular de Teoria da Comunicação da Universidade Federal Fluminense (UFF) e autora de "Nietzsche, o Bufão dos Deuses", "Platão: As Artimanhas do Fingimento" e "Nove Variações Sobre Temas Nietzschianos" (todos pela Relume Dumará), entre outros. É também organizadora da coleção "Conexões", da editora Relume Dumará.


1 - Tomei conhecimento desse vídeo através de um trabalho apresentado, no último encontro da Compós (junho de 2008), por Bruno César Costa, que o analisa em outra direção.


2 - Guy Debord, "La Société du Spectacle". Paris: Gallimard, 1992.

 
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