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entrevista
CINEMA

O evangelho segundo Matheus
Por Fernando Masini


Cena do filme "A Festa da Menina Morta"
Alexandre Baxter/Divulgação

O ator e diretor Matheus Nachtergaele conta que quis amalgamar todas as religiões no filme "A Festa da Menina Morta"

Primeiro veio o batismo no grupo de teatro Vertigem, ao qual o ator ainda presta bênção. Depois ele encarou as provações de um cinema brasileiro capenga, embora no caminho da renovação. Conquistou em seguida uma legião nova de espectadores ao se lançar na dramaturgia mais popular das telenovelas e minisséries.

Agora, aos 39 anos, Matheus Nachtergaele experimenta a sensação de ver nas telas seu primeiro filme como diretor, “A Festa da Menina Morta”, cuja estréia mundial aconteceu no último Festival de Cannes. No Festival de Gramado, em agosto, o filme foi premiado seis vezes. Ganhou o Prêmio Especial do Júri, o prêmio da crítica, do júri popular, o de melhor ator (Daniel de Oliveira), melhor fotografia (Lula Carvalho) e de melhor música (Matheus Nachtergaele).

“Eu imaginava um nascimento mais singelo para a minha primeira experiência como diretor. Foi emocionante e apavorante ao mesmo tempo”, diz o ator em entrevista a Trópico. O roteiro, assinado em co-autoria com Hilton Lacerda, parceiro do diretor Cláudio Assis, conta a história de uma seita que celebra os trapos do vestido de uma menina que desapareceu numa pequena comunidade à beira do rio Negro.

“É como se houvesse uma necessidade terrível de se crer na eternidade de alguma coisa, uma incapacidade gigantesca do homem em lidar com a morte”, afirma Matheus.

Para rodar o filme, a equipe subiu até a cidade de Barcelos, a 400 km de Manaus, e ficou concentrada por lá ao longo de quase três meses.

O elenco conta com atores profissionais, como Daniel de Oliveira e Dira Paes, além da participação dos moradores locais. É no sincretismo religioso do país que o ator se apóia para construir e estabelecer o ambiente do filme.

“Não é um filme feito para que os espectadores se aliviem ou creiam em algo. É uma investigação sobre a crença dessas pessoas. Eu queria muito inventar uma religião que pudesse amalgamar todas as religiões brasileiras”, explica.

Na entrevista a seguir, Matheus explica por que uma novela “destrói o ator”, fala sobre a infância sem a mãe e conta como 16 anos de terapia o deixaram mais leve para enfrentar a vida.

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Como foi viajar para Cannes com o seu primeiro filme: "A Festa da Menina Morta"?

Matheus Nachtergaele: Foi extremamente emocionante. Eu nunca imaginei que o filme estrearia em Cannes. Eu imaginava um nascimento mais singelo para a minha primeira experiência como diretor. Foi apavorante ao mesmo tempo: mostrar o filme num festival que é um dos maiores do mundo. A gente competiu na mostra “Um Certo Olhar”, o que significa que há um relevo voltado às qualidades artísticas e autorais dos filmes.


Como foi na hora da exibição?

Nachtergaele: A sala estava lotada, eu fiquei bem surpreso com isso. E no final foi aplaudido de um jeito emocionado e tenso, acho que é o que o filme provoca, além de gerar um certo silêncio. Depois da projeção, as pessoas esperaram a gente lá fora, o que foi bem bonito também.


E qual foi o teor dos comentários após a sessão?

Nachtergaele: Foi bem variado. Acho que a maioria das pessoas gostou muito. Houve comentários bem bonitos, inclusive da imprensa e junto ao pessoal que foi com a gente para o coquetel depois do filme. Ali eu pude conversar com jornalistas e cineastas do mundo todo e com os brasileiros que estavam lá. Na mídia, eu achei bem divididas as opiniões: a maioria se impressionou com o filme e houve também alguns comentários negativos que me fizeram pensar.


Foram críticas construtivas?

Nachtergaele: Crítica é construtiva quando faz sentido, independentemente se ela for positiva ou negativa. As críticas que eu considerei inteligentes me tocaram. Eu fui muito comparado a outros cineastas, meu filme foi comparado a outras obras.


Com o diretor Cláudio Assis, por exemplo?

Nachtergaele: Para os brasileiros, sim, falaram do Cláudio Assis. O que eu acho um pouco perigoso, porque apesar de eu admirar demais o Cláudio - além de grande parte da equipe com quem eu trabalhei também fazer parte da equipe dele- eu não acho que é um cinema do mesmo timbre.

Penso que se assemelha ao Cláudio numa certa coragem de exposição, mas não mais do que isso. Acho que a violência é outra, o lugar poético é outro. Agora, obviamente é um filme com coragem de se expor. Fui comparado também com o Herzog, o que me deixou muito impressionado.


Em que sentido?

Nachtergaele: No sentido de ser um cinema que gosta de investigar as entranhas das pessoas e dos lugares. Essa coisa de entrar na floresta: por exemplo, em “Aguirre, a Cólera dos Deuses”. E também num certo desejo de expor os personagens. Acho que o Herzog tem esse interesse quase científico, os personagens têm de ser estudados minuciosamente para serem entendidos.


E o Herzog é realmente uma influência sua?

Nachtergaele: É um cineasta que eu admiro, eu conheço boa parte da obra dele. Não diria que é uma influência direta, eu nunca pensei no Herzog enquanto filmava. As influências são coisas que às vezes vão se depositando em você. Elas podem vir tanto de outros cineastas, assim como de uma canção ou de uma escultura.


Vocês passaram quanto tempo em Barcelos, na Amazônia, para filmar "A Festa da Menina Morta"?

Nachtergaele: As filmagens duraram cinco semanas, mas eu e a produção chegamos bem antes. Ocupamos os dois hotéis que existem na região. Na verdade, a gente nem pode dizer que são hotéis, era algo parecido com hotel. Ocupamos tudo o que dava para ocupar na cidade, foi uma invasão mesmo.

Eu fiquei ao todo três meses. Antes, eu já tinha ido e levado uma parte das equipes de produção e arte para que as pessoas entendessem o porquê das minhas escolhas. Os atores chegaram um mês antes das filmagens.


E houve um envolvimento da equipe com os moradores de lá?

Nachtergaele: Total, o lugar é muito pequeno. Eles ficaram morando lá, passaram dois meses e pouco. É um lugar caboclo, com muitos índios e filhos de índios. E a idéia era essa, levar a equipe para um lugar que possibilitasse a concentração e a miscigenação da equipe com a população.


A idéia foi criar um ambiente quase espiritual de troca?

Nachtergaele: Desde o roteiro já existia uma tentativa de se criar uma liturgia. Penso que o próprio filme é uma liturgia que obedece a certas regras a fim de atingir um momento de catarse. Eu queria muito inventar uma religião que pudesse amalgamar todas as religiões brasileiras, e achei Barcelos o lugar ideal: um lugar distante, a 400 quilômetros de Manaus, sendo que o único acesso é pelo rio Negro.

É uma região que começa agora a se desenvolver muito lentamente e que tem a presença da Igreja Católica, das igrejas neopentecostais, dos evangélicos; há uma Igreja Batista muito grande e os pajés continuam atuando por lá. Tem inclusive um pajé no elenco principal do filme. Sem falar na existência de pais de santo, do candomblé. Quase todas as religiões que fundam nossa mística estão lá reunidas na beira do rio Negro.


A história do filme foi baseada em alguma lenda da região?

Nachtergaele: Eu criei a história a partir de uma festa que eu vi no sertão da Paraíba, onde se adoravam os trapos do vestido de uma menina. Eu fiquei muito emocionado com isso. Alguma coisa me perturbou quando eu vi essa cerimônia. Aos poucos, quando fui escrevendo, ela foi se desplugando da realidade e virando uma fábula, tornando-se uma seita com suas próprias regras.

Fala sobre o desaparecimento de uma menina, que nunca foi encontrada. Só o vestido dela foi achado, e isso foi considerado um milagre. É como se houvesse uma necessidade terrível de se crer na eternidade de alguma coisa, uma incapacidade gigantesca do homem em lidar com a morte. Por que achar que um vestido rasgado será um milagre?


O filme tem a ver com a sua história?

Nachtergaele: Muito. Não é uma descrição da minha vida, mas o universo emocional é o meu, com certeza. Depois, o Hilton Lacerda entrou para escrever comigo, e isso se ampliou um pouco.

A partir da quarta versão do roteiro, o filme deixou de girar apenas em torno do meu umbigo. O Hilton trouxe alguns personagens novos, questionou algumas coisas que eu estava fazendo.

Num filme de estréia, acho que existe a necessidade de vomitar algumas coisas, há uma quantidade de aspectos muito íntimos que devem ser mostrados. Por isso, não é incomum se cometerem excessos num primeiro filme. É tanta coisa a ser dita. A presença do Hilton me protegeu desses excessos, de ficar vomitando demais.


O filme trata a morte como algo místico, cheio de celebração. Queria saber como você enxerga a morte.

Nachtergaele: Eu não sei como eu enxergo a morte. Eu a vejo com pavor, como todos nós. Às vezes, como alívio, como término de um ciclo. Eu sou um cara materialista, não sou um cara religioso.


Você não acredita em nada?

Nachtergaele: Eu acredito no milagre da vida, só não dou nome a isso, nem vou a uma igreja específica rezar para alguém. Mas acho milagrosa a vida existir dessa forma tão múltipla. Eu não fiz esse filme buscando uma transcendência, eu fiz buscando entender por que as pessoas crêem. Ele é muito mais uma análise naturalista, íntima e promíscua dos participantes da seita.

E obviamente o filme não deixa de ser uma poesia que em algum momento tem seu êxtase. Não é uma obra feita para que os espectadores se aliviem ou creiam em algo. É uma investigação sobre a crença dessas pessoas. Eu me pergunto quais os motivos de cada um para estar ali diante daquele absurdo.

Você pode não crer, mas o maior direito que uma pessoa tem é o de poder acreditar em algo. Uma vez que, se você não der sentido nenhum à vida, fica bem difícil a travessia. A maioria das pessoas, me parece, encontra esse sentido na fé, outros encontram na poesia, outros no materialismo mais pleno, no conhecimento científico.


A missão do ator é parecida com o trabalho de diretor?

Nachtergaele: Acho que sim. Eu penso que sou um artista que se utiliza de muitos recursos para investigar a dor. Sempre tive a sensação de estar investigando a dor, mesmo nas comédias mais rasgadas. Eu nunca me esqueci, por exemplo, que o João Grilo (personagem do filme “O Auto da Compadecida”, de Guel Arraes) era engraçado porque passava fome. As pessoas sentiam-se comovidas por ele porque ele passava fome.


O Quinzinho, do filme "Tapete Vermelho", também é um cara agoniado?

Nachtergaele: É o jeca sendo currado, sendo espremido. Mas, de fato, o Quinzinho é um personagem mais doce do que o Grilo. O Grilo tem uma coisa mais agressiva. Agora, em geral, em “O Livro de Jó” (peça encenada pelo Teatro da Vertigem), “Woyzeck” (espetáculo de 2003 dirigido por Cibele Forjaz), nos filmes do Cláudio Assis (“Amarelo Manga” e “Baixio das Bestas”), eu sinto que eu tenho a tendência de investigar as dores. Penso que a nossa função é um pouco essa mesmo, mostrar as feridas para fazer pensar, mesmo que isso inclua diversão.

A “Menina Morta”, por exemplo, tem momentos engraçados, mas nunca será chamado de uma comédia. É um riso que acaba amargando. Tem um personagem, que é a Conceição, interpretada por uma atriz pernambucana, que arranca alguns sorrisos da platéia. Eu senti isso em Cannes, em certos momentos. Mas depois ela passa a ser uma figura difícil de ser suportada, e ninguém mais dá risada.


Eu sempre achei que você embarcasse em projetos menos viscerais, como "O Auto da Compadecida" ou "Tapete Vermelho", para aliviar a angústia de papéis mais fortes, como em "Baixio das Bestas". As novelas, por exemplo, serviriam para arejar a tristeza?

Nachtergaele: Não é verdade. Ao contrário até, uma novela destrói o ator. Por mais divertido que o personagem se pareça, você chega no final dela absolutamente destruído. Alguns trabalhos são realmente mais leves de serem feitos, mais lúdicos. “Tapete Vermelho”, por exemplo, foram dias gostosos.

Mas nunca existiu um pensamento meu em querer alívio. O gostoso é quando o trabalho não é muito leve, eu prefiro os mais complexos. E o grande alívio é na hora da cena, por mais penosa que ela pareça. No auge da execução do seu ofício, existe um alívio.


O teatro consome mais o ator do que o cinema e a televisão?

Nachtergaele: Não, acho que menos. Você recebe do público uma resposta tão imediata que acaba saindo alimentado do teatro. Existe, claro, um desgaste físico e emocional específico, por você estar ao vivo no meio das pessoas.

 
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