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ensaio
MÁQUINA

O futuro transgênico do homem
Por Maria Cristina Franco Ferraz

A nova crença na otimização empresarial do corpo é ironizada pelo escritor Ian McEwan, no romance "Sábado"

Segundo o artigo “Genes do futebol”, publicado no jornal "O Globo" (4/5/2008), um clube de futebol europeu procurou o pesquisador Henning Wackerhage com a intenção de verificar o potencial de excelência esportiva de atletas a partir da análise do DNA.

Embora Wackerhage tenha chamado a atenção para problemas éticos envolvidos em “testagens genéticas de seres humanos para fins empresariais”, não deixou de prever, em uma palestra proferida no início de maio, na Royal Society of Medicine, a relação entre modificações genéticas e o rendimento esportivo.

Wackerhage, especialista em ciência do exercício físico da Universidade de Aberdeen (Escócia), já conseguiu manipular geneticamente ratos e camundongos, aumentando significativamente o desempenho dos roedores. Os animais tornaram-se "superatletas" capazes de passar “horas a fio correndo nas rodinhas de exercício de suas gaiolas, sem cansar”.

A produção de atletas transgênicos, embora eticamente controversa e ainda cientificamente enigmática, se apresenta portanto como uma promissora aplicação de pesquisas em genética atualmente em curso.

Ao que tudo indica, a Agência Mundial Antidoping (WADA), que já parece ter condições de detectar tentativas de doping genético, terá no futuro de incluir mais esse aspecto em seus estatutos, adequando-os ao século XXI.

Essa tendência marca a tecnociência contemporânea em geral, muito voltada para a ultrapassagem da finitude e dos limites do corpo humano. Como mostrou o sociólogo português Hermínio Martins, enquanto na idade moderna se pensava a técnica como extensão do corpo e a tecnologia prometia melhorar as condições da vida humana, na época atual os projetos se voltam para a superação da condição e da própria finitude humana.

Esse impulso que o sociólogo chama de "fáustico" implica certo horror à viscosidade e à finitude do orgânico (demasiadamente orgânico), franqueando o campo para manipulações radicais de todo material vivo, de grãos e sementes a animais e ao homem.

Disseminando-se cada vez mais na cultura atual, essa inflexão fáustica vai alterando o modo como nos pensamos e nos configuramos. Cresce a ênfase no cérebro, nos genes, em proteínas e hormônios, para explicar todas as esferas de nossas atividades e aptidões.

Ao mesmo tempo, a cultura atual vem refletindo sobre esses fenômenos, que alguns recobrem com a oportuna expressão de "cultura somática". Em um romance publicado em 2005, o cultuado escritor inglês Ian McEwan retomou com humor e perspicácia certos aspectos dessa cultura em franca expansão.

O romance, intitulado "Sábado", tem como personagem central o neurocirurgião Henry Perowne. Vale a pena retomar e comentar brevemente algumas passagens desse livro. Vejamos como, de sua janela londrina numa manhã de sábado, o dr. Perowne descreve, “com o distante espírito possessivo de um deus” -isto é, como médico e neurocirurgião que é-, duas pessoas que atravessam a praça em frente à sua casa:

“Pequenas máquinas biológicas quentes, dotadas de habilidade bípede, adaptáveis a qualquer terreno, providas de redes neurais de inumeráveis ramificações, alojadas no fundo de uma protuberância revestida de osso, com fibras ocultas, filamentos quentes, com seu invisível brilho de consciência -essas máquinas criam seus próprios caminhos”.

A descrição, tão irônica quanto precisa, refere-se a máquinas quentes, em uma espécie de interpenetração entre o orgânico e o inorgânico, como no caso dos atuais chips úmidos. Novamente, toda ênfase é atribuída ao cérebro, às fibras e aos filamentos, termos aplicados tanto às redes neuronais quanto à tecnologia de fibras óticas utilizada para transferência de dados.

Misturam-se portanto máquinas humanas e cibernéticas. A referência à adaptabilidade “em qualquer terreno” lembra a robótica aplicada a viagens espaciais, o que também tem por efeito relativizar e suspender o lugar onde se passa a história (Londres), sugerindo um olhar distanciado, descomprometido.

Redes neurais são destacadas, bem como o cérebro, onde a “consciência”, considerada como efeito luminescente dessa complexa máquina "úmida e quente", emite seu fulgor enigmático e invisível, dotando-a com a surpreendente capacidade de “criar caminhos próprios”. Esse tipo de descrição e visada caracteriza o dr. Perowne, “homem que tenta atenuar as desgraças de mentes lesionadas restaurando cérebros” _para quem, portanto, “a mente é aquilo que o cérebro, pura matéria, executa” (p. 85).

Típico representante de abordagens neurocientíficas que reduzem a mente à “pura matéria”, dr. Perowne enfrenta uma situação casual de violência urbana, em uma rua interditada, próxima ao local onde se concentra uma grande manifestação londrina contra a iminente invasão do Iraque, naquele 15 de fevereiro de 2003, um sábado.

Ameaçado pelo violento e desequilibrado agressor (Baxter), nas frações de segundo que antecedem o soco que está prestes a levar, o exímio neurocirurgião realiza um diagnóstico preciso (doença de Huntington), estabelecido nos seguintes termos:

“Registra a fraqueza de autocontrole, a instabilidade emocional, o temperamento explosivo, níveis sugestivos ou reduzidos de neurotransmissores GABA entre os pontos de junção adequados nos neurônios estriatais. Isso, em troca, só pode significar a presença reduzida de duas enzimas no estriato e no pálido lateral -decarboxilase do ácido glutâmico e colina acetiltransferase” (p. 114).

E conclui:

“Muita coisa, nas questões humanas, pode ser atribuída ao que se passa no nível das moléculas complexas. Quem poderia calcular o estrago provocado ao amor e à amizade (...) por um excesso ou por uma carência deste ou daquele neurotransmissor?” (p. 114).

A ironia se evidencia na fleugma e no caricatural jargão desse “reducionista profissional” (p. 326) capaz de traçar um diagnóstico certeiro frações de segundos antes de levar um prosaico soco no peito. Também no contraponto entre esse conflito (aparentemente despolitizado) e a manifestação antiinvasão do Iraque, que ocupava ruas adjacentes.

O mau encontro entre o neurocirurgião e o bando violento se dá em uma rua fechada por policiais que zelam pela ordem da cidade atravessada pela imensa passeata. O ato político empresta um tom ainda mais mordaz ao olhar despolitizante do neurocirurgião, habituado a reduzir qualquer aspecto da vida (da ausência de autocontrole ao amor e à amizade) ao funcionamento adequado ou não de neurotransmissores, modulados pela bioquímica do corpo.

O médico usa de seu saber de especialista (na verdade, sua poderosa arma) para dominar e render Baxter por duas vezes: na rua e em sua casa, invadida pelo bando um pouco mais tarde naquele mesmo sábado. A visão reducionista incorpora o determinismo genético para dar conta da doença que explicaria a atitude de descontrole e agressividade de Baxter:

“Baxter tem vinte e poucos anos. (...) Se um dos pais tem isso (doença de Huntington), há uma chance de cinqüenta por cento de ele ter também. Cromossomo quatro. A desgraça se encontra no interior de um só gene, na repetição excessiva de uma única seqüência -CAG. Aqui está o determinismo biológico em sua forma mais pura. Mais de quarenta repetições desse pequeno cólon, e estamos condenados. Nosso futuro está determinado e é fácil de prever” (p. 116).

A afirmação sintética “cromossomo quatro”, que corta o texto, soa como uma sentença, ainda mais compactada logo adiante na seqüência de três letras que proliferam anomalamente: CAG. Na seqüência do texto se explicita ainda mais claramente esse sentido fatalista:

“Qualquer pessoa com algo consideravelmente acima de quarenta seqüências CAG repetidas no meio de um obscuro gene no cromosomo quatro é obrigada a cumprir o mesmo destino, à sua maneira particular. Está escrito. Nenhuma quantidade de amor, de remédios, de aulas de Bíblia ou de anos de prisão pode curar Baxter ou desviá-lo de seu curso. Está escrito letra por letra nas proteínas...” (p. 253).

O comportamento de Baxter é totalmente remetido à sua identidade cromossomial, a certas disfunções herdadas. O determinismo biológico implica o declínio das práticas disciplinares modernas, decreta o fim da “ortopedia social” tão bem analisada por Michel Foucault.

Baxter é de certo modo inocentado pelo que é e pela maneira como se comporta: sua instabilidade e sua violência derivam de uma falha geneticamente determinada, estatisticamente previsível.

Não resultam de algum fracasso moral ou de sua vontade. Tampouco das circunstâncias históricas ou do mundo em que vive. Essas certezas científicas colaboram para explicar a atitude fleugmática do neurocirurgião quando às voltas com seu agressor.

Em contrapartida, Baxter não tem qualquer saída senão realizar seu destino genético, selado de uma vez por todas. O papel determinante da escrita bíblica se laiciza nas letras do código genético, ainda mais temíveis, fatais e incontornáveis. O "estava escrito" genético faz empalidecer o temor difundido pelas sagradas escrituras e pelas mais terríveis leis divinas. Pois o que está em jogo não é qualquer inferno transcendente, mas infernais disfunções inscritas na obscuridade de seqüências de genes herdadas.

Nesses termos, a ação delinqüente deixa de ser remetida a condições socioeconômicas, como o pensamento moderno em geral fazia. A cena de agressão passada em rua adjacente à passeata já apontava para esse tipo cada vez mais triunfante de explicação fisicalista, que colabora para o esvaziamento das perspectivas políticas. Ou, dito de outro modo, que termina por desalojar e ocupar o terreno evacuado da política, em um processo de biologização do campo do político.

A condenação de Baxter, escrita em sua falha cromossomial geneticamente herdada, se não o responsabiliza, tampouco deixa margens para qualquer saída. No melhor dos casos, ele estará nas mãos de neurocirurgiões. É de fato o que ironicamente acontece no final de "Sábado": após ter conseguido se livrar do bando que invadira sua casa, dr. Henry Perowne é chamado pelo hospital para atender e tratar o próprio Baxter.

Ele o opera, então, para estancar o sangramento originado pela queda da escada provocada durante sua captura na casa do neurocirurgião. Diante do cérebro aberto de Baxter, o dr. Perowne se extasia:

“Apesar de todos os recentes avanços, ainda não se sabe como esse protegidíssimo um quilo, ou um quilo e pouco, de células efetivamente codifica informações, como preserva experiências, lembranças, sonhos e intenções. Henry não tem dúvida de que, nos anos vindouros, o mecanismo de codificação será conhecido, ainda que isso não venha a ocorrer enquanto ele estiver vivo. (...) Mas, mesmo quando isso acontecer, continuará a existir o assombro diante do fato de um bolo molhado poder criar esse radiante cinema interior (...) Será que algum dia se conseguiria explicar como a matéria se transforma em consciência? (...) As explicações irão se depurar, até chegarem a uma verdade irrefutável a respeito da consciência. (...) É o único tipo de fé que ele tem” (p. 303-304).

O materialismo neurocientífico culturalmente disseminado coloca o “bolho molhado” do cérebro na balança e se extasia ante sua capacidade de sonhar, lembrar e agir. A lógica da digitalização atravessa tanto o estudo do cérebro quanto a do código genético. Eis a fé sem transcendência que avança em nosso século. As ciências prometem alcançar um dia o segredo desse órgão artista, criador de um “radiante cinema interior”.

O êxtase e a fé migram do plano transcendente para a úmida matéria cerebral. Eis como o romance de Ian McEwan tematiza (e ironiza) as novas crenças que vão balizando nosso século. A otimização empresarial do corpo e da vida levarão sem dúvida à futura produção de homens e mulheres transgênicos.


Publicado em 11/8/2008

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Maria Cristina Franco Ferraz
É doutora em filosofia (Paris I-Sorbonne), professora titular de Teoria da Comunicação da Universidade Federal Fluminense (UFF) e autora de "Nietzsche, o Bufão dos Deuses", "Platão: As Artimanhas do Fingimento" e "Nove Variações Sobre Temas Nietzschianos" (todos pela Relume Dumará), entre outros. É também organizadora da coleção "Conexões", da editora Relume Dumará.


1 - Cf. MARTINS, Hermínio. "Hegel, Texas e Outros Ensaios de Teoria Social!. Lisboa: Século XXI, 1996.


2 - McEWAN, Ian. "Sábado". São Paulo: Companhia das Letras, 2005, p. 21. Todas as citações estarão referidas a essa edição.

 
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