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entrevista
LIVRO

O império do cinema
Por Fernando Masini


Cena do filme "Desonra" (2005), do diretor japonês Masahiro Kobayashi
Divulgação

A história dos filmes japoneses, de 1899 até hoje, é tema de um livro fundamental da pesquisadora italiana Maria Roberta Novielli

O cinema do Japão está na pauta do ano por conta das celebrações que lembram os cem anos da chegada dos imigrantes japoneses ao Brasil. Uma mostra abrangente foi realizada em fevereiro, em São Paulo, com 20 filmes dirigidos por mestres japoneses, como Akira Kurosawa, Yasujiro Ozu e Nagisa Oshima. Em outras cidades do Brasil, também se realizam mostras do filme nipônico.

A oportunidade é boa para descobrir ou rever a cinematografia de um país que amalgama a tradição milenar do teatro kabuki e da xilogravura ukiyoe junto à ousadia pop-erótica dos filmes de samurai e a fórmula pastiche concedida ao gênero máfia por diretores como Takashi Miike e Takeshi Kitano.

É nesse vasto território híbrido que a italiana Maria Roberta Novielli, professora de cinema e literatura japoneses na Universidade Ca’ Foscari, de Veneza, se meteu ao aceitar a sugestão de escrever um livro que contasse a história do cinema japonês desde os primórdios.

Após morar durante três no Japão e finalizar uma especialização em cinema japonês na Universidade Nihon, em Tóquio, Novielli encarou o projeto e escreveu um volume de 450 páginas, sob o título simples e ambicioso de “História do Cinema Japonês”. A obra foi lançada na Europa em 2001 e só agora chega às livrarias brasileiras, publicada pela editora UnB (R$ 60).

Na ampla abordagem feita por Novielli –desde os primeiros filmes japoneses de 1899, assinados pelo jovem Shiro Asano, até a produção recente de novos nomes como Mitsuo Yanagimachi e Hirokazu Kore-eda, cujos filmes “Ninguém Pode Saber” (2004) e “Depois da Vida” (1998) renderam-lhe glórias por aqui –destacam-se os retratos dedicados em capítulos exclusivos ao renomado trio Kurosawa, Ozu e Mizoguchi, além da revelação de mestres não tão afamados como Keisuke Kinoshita e Kon Ichikawa.

O livro também traz ao leitor ocorrências curiosas como o nascimento do monstro Godzila, consagrado nas telas de cinema e inspirador de gênero bastante explorado cujo protagonista é uma aberração apocalíptica.

Diz a autora que a idéia de criar o monstro foi uma forma de protesto contra as explosões atômicas em Hiroshima e Nagasaki e demonstrava aversão aos novos testes nucleares comandados pelos americanos em ilhas japonesas. O ser bizarro gerado por detonações nucleares transformou-se em sucesso de público e garantiu uma nova fórmula às produtoras japonesas em crise: os kaiju eiga (filmes de monstro).

De Veneza, Novielli conversou com Trópico sobre o livro recém-lançado, discorreu sobre o papel da mulher na sociedade e no cinema japonês e ressaltou a obra de Masahiro Kobayashi, diretor de "Desonra", como um dos expoentes do atual cinema japonês.

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Você esteve no Japão para escrever o livro “História do Cinema Japonês”?

Maria Roberta Novielli: Depois da minha graduação em língua e literatura orientais em Veneza, onde me formei com uma tese sobre o diretor Nagisa Oshima (sob orientação do professor Marco Müller, atual diretor do Festival de Cinema de Veneza), fui para o Japão e passei três anos estudando cinema japonês no departamento de cultura da Universidade de Nihon, em Tóquio.

Quando voltei para a Itália, trabalhei em vários festivais como curadora e passei a escrever para revistas de cinema, antes de começar a lecionar na Univerdidade Ca’ Foscari, de Veneza. A oportunidade de escrever o livro surgiu nessa época. Foi um trabalho feito por encomenda porque não existia na Itália nenhum livro que tratasse do cinema japonês.


Qual é a influência do teatro kabuki no cinema japonês? Ainda hoje se podem notar elementos dessa manifestação artística?

Novielli: Hoje a influência do teatro kabuki no cinema praticamente desapareceu, mas nas origens o cinema japonês era completamente voltado às práticas do teatro, não apenas porque os argumentos eram adaptações de peças teatrais, mas também porque os atores eram fisgados do teatro para trabalharem nos filmes. Além disso, as primeiras projeções aconteciam nos palcos dos velhos teatros dedicados ao kabuki.


Algo que chama a atenção nos filmes japoneses das décadas de 50 e 60 é o papel da mulher sendo representada quase sempre como prisioneira do seu destino, impossibilitada de escolher sua própria trajetória. Você acha que é um drama comum refletido no cinema japonês?

Novielli: É um drama comum em certas épocas, sobretudo ao longo dos anos 50. Na obra de alguns diretores, como Yasujiro Ozu ou Kenji Mizoguchi, é realmente um elemento recorrente. Mas existem também exemplos de mulheres fortes e protagonistas do seu próprio destino no cinema japonês.


O número de personagens femininos no cinema japonês é significativo, em especial nos filmes de Mikio Naruse e de Mizoguchi.

Novielli: De fato, esses dois autores em particular são os responsáveis por estudarem o universo feminino no Japão. Alguns anos mais tarde, em torno dos anos 60-70, houve outro diretor chamado Yasuzo Masumura, que também concentrou seu ponto de vista sobre o universo feminino, mas retratando em geral mulheres fatais, de caráter forte.


É raro encontrar diretoras de cinema no Japão. No livro que você escreveu, aparece apenas um nome: Naomi Kawase. Ainda hoje o cenário é reduzido quando se fala de mulheres dirigindo filmes?

Novielli: É sim. Infelizmente cineastas mulheres são muito poucas no Japão, ainda que nos últimos anos o nome de Kawase tenha se destacado. Mesmo para Kawase foi um processo muito difícil, uma escolha complicada, porque ela teve sempre que trabalhar como artista independente. Isso permitiu-lhe realizar um cinema íntimo e pessoal, porém longe de ser comercial.


O que mudou no cinema japonês com a ocupação americana após a Segunda Guerra Mundial?

Novielli: Muitas coisas mudaram, os temas foram forçados a se tornarem mais democráticos. Em alguns períodos, foi possível fazer um cinema político mais aberto. Muitos aspectos sociais surgiram nos filmes. Houve sobretudo uma mudança importante nas leis de mercado, o que possibilitou que obras de renome fossem exportadas para todo o mundo.


Havia também um cinema de protesto contra a ocupação?

Novielli: A censura imposta durante a ocupação americana foi muito severa, portanto não houve praticamente meios de realizar e principalmente distribuir filmes que fossem contrários à política de ocupação. Mas, assim que as tropas americanas deixaram o território japonês, multiplicaram-se os filmes “subversivos”, em grande parte por efeito do expurgo infligido pelos comunistas, que obrigou muitos autores a realizarem filmes independentes.


O abrandamento da política social e econômica nos anos 60 foi o principal fator pela transformação do cinema japonês, que se torna mais moderno, pop e erótico?

Novielli: Muitos dos gêneros cinematográficos da década de 60, por exemplo os filmes sobre a máfia yakuza ou as produções eróticas, na verdade nasceram nos anos anteriores de maneiras diversas. O êxito desses dois gêneros, em particular, se deve à exploração de temas –violentos e eróticos– que pudessem satisfazer o público jovem e masculino dos anos 60, já que as famílias, deslocadas para a periferia, acompanhavam mais os programas televisivos do que os lançamentos cinematográficos.


Como explicar o sucesso e a quantidade de filmes eróticos no cinema japonês, tendo em vista a austeridade da sociedade japonesa?

Novielli: Não considero a sociedade japonesa austera, além do que o erotismo é um tema muito difundido desde a antiguidade no Japão. Basta pensarmos na xilogravura ukiyoe (pinturas e ilustrações do século 17 que exibiam figuras de apelo hedonista), principalmente o gênero definido como shunga, que era altamente erótico e continha desenhos de sexo explícito.


Mesmo assim, o filme “O Império dos Sentidos” (1976), do diretor Nagisa Oshima, pode ser considerado pioneiro?

Novielli: A censura no Japão preocupa-se em esconder apenas partes específicas do corpo humano, como a zona pélvica. Este é o único limite imposto ao erotismo ou à pornografia. Fora isso, existiram muitos filmes com apelo erótico já no início dos anos 60. Portanto, o filme de Oshima não é pioneiro neste sentido.


A onda de filmes de horror é um fenômeno atual no cinema japonês?

Novielli: Não, o cinema de horror sempre existiu. Na tradição teatral e literária do Japão, o horror sempre esteve presente, desde a antiguidade. O que mudou na década de 90 foi a estética adotada pelos diretores, como a ausência de lugares clássicos, como castelos e cemitérios. Na prática, só foi alterado o estilo dos filmes.


O filme que se vê no Japão é o mesmo que chega no Ocidente?

Novielli: Agora, no Japão, existe uma grande produção de filmes comerciais que dificilmente chegam no Ocidente, com exceção dos filmes de horror, que entre nós fazem bastante sucesso. Há muitos autores japoneses desconhecidos por aqui, a não ser pelas breves aparições em festivais de cinema europeu. No entanto, alguns diretores tiveram grande parte de sua obra distribuída no Ocidente, como Takeshi Kitano, Takashi Miike, Shin’ya Tsukamoto, Hideo Nakata, Kiyoshi Kurosawa, entre outros.


Qual diretor japonês contemporâneo tem chamado a sua atenção?

Novielli: Pela versatilidade, gosto do Takashi Miike. Pela poesia, Masahiro Kobayashi e Shinji Aoyama. Pelo experimentalismo, Sogo Ishii. E pela sensibilidade, Kiyoshi Kurosawa.


“Desonra”, o penúltimo filme dirigido por Masahiro Kobayashi, estreou em maio no Brasil. O que acha dele?

Novielli: Kobayashi ganhou no ano passado o Pardo d’Oro no Festival de Locarno (Suíça), com um filme belíssimo chamado “Rebirth” (2007). Eu gosto de “Desonra” (2005), é seguramente um bom filme, mas “Rebirth” para mim é uma obra rara, uma das mais poéticas e arrebatadoras histórias de amor que o cinema japonês já contou, narrada com uma profundidade emocional impressionante.


Publicado em 11/8/2008.

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Fernando Masini
É jornalista.

 
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