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Os atores se repetem simetricamente em “Cidade dos Sonhos” (o vaqueiro estranho da primeira trama, aparece na segunda, de relance, numa festa), mas como cabe ao espectador compor sentido às suas ações, os personagens podem não ser os mesmos. Nas duas tramas, a seguir a idéia de que são jogos distintos, o entrelaçamento ocorreria porque muitas vezes, como na vida, misturamos pessoas, acontecimentos, por meio de lapsos, chistes, falhas de memória. E sendo assim não se pode falar na separação entre sonho e realidade.

O vínculo entre as duas tramas de “Cidade dos Sonhos” seria como aquele que acossa quem acordou e depois de um tempo não teve certeza de que um acontecimento foi sonhado ou vivido. Supor um acontecimento desse modo implica considerar critérios distintos para apreender a realidade.


“Império dos Sonhos”: o falso domínio das certezas

“Império dos Sonhos” segue o leitmotiv dos filmes anteriores: tramas distintas, ruptura brusca de uma trama para outra, aparentes laços entre elas. Nikki Grace recebe oferta para interpretar Sue Bleu, protagonista de remake de um filme polonês que nunca foi realizado, porque os atores principais se apaixonaram e acabaram assassinados.

Nikki não se assusta com a história da primeira versão do filme e, quando as gravações têm início, ela se transforma em três ou quatro personagens distintos (David Lynch e Laura Dern divergem sobre o número de "personas" dela: para ela, são três; para ele, quatro). Mas, vamos às três "personas" que parecem mais evidentes.

Nikki Grace é uma atriz casada com um magnata do cinema e há muito não interpreta um papel importante. Apesar da influência do marido, ela está no ostracismo. Mas ela consegue o papel para protagonizar o filme polonês e, nas filmagens, se envolve com Devon/Billy, seu parceiro de cena.

De modo abrupto, ela também se revela como uma prostituta -personagem que não parece ter coesão com as tramas anteriores (a prostituta parece interpretar um filme do qual não há alusão explícita, como se revela nas seqüências finais). Some-se a isso um "sitcom" em que os atores usam cabeças de lebre e na qual uma claque irrompe em risadas sem nenhum motivo aparente, muitas cenas passadas na Polônia, que, presume-se, são do filme inconcluso, e o rosto de uma mulher diante de um aparelho de TV que exibe o próprio filme.

À diferença dos filmes anteriores, em “Império dos Sonhos” passado, futuro e identidades dos protagonistas ganham lugar para que os personagens se movam livremente na narrativa. Cabe destacar que “Império dos Sonhos” foi concebido sem roteiro. As gravações, em câmara digital, ocorreram em momentos oportunos, sem que atores e o próprio cineasta supusessem a seqüência seguinte. Não há, por conseguinte, um fio condutor, qualquer que seja o percurso que se adote (pode-se, inclusive, assistir a “Império dos Sonhos” numa ordem totalmente estranha da que é projetada na tela).

Com isso, o clima de “Império dos Sonhos” é de um suspense que gera ansiedade, pois se desdobra em acontecimentos que não se conectam, não se explicam minimamente pelas imagens (ao contrário de “A Estrada Perdida” e “Cidade dos Sonhos”, não há propriamente separação entre as tramas, pois as narrativas se interpolam sem qualquer sinal de aviso). Há closes que destacam elementos sem valor, prometem um sentido inexistente. Há diálogos desconexos, compostos por perguntas e sem respostas.

De fato, aqui Lynch revela-se mais complexo e experimental. A senha de imprecisão entre realidade e sonho de “Cidade dos Sonhos” ou de causalidade em “A Estrada Perdida” é abandonada. O que se vê em “Império dos Sonhos” é a sobreposição de acontecimentos, sem qualquer critério que permita situar com precisão a ação no espaço e no tempo, a despersonalização dos personagens se multiplica, a incursão, sem aviso, de representação na representação (em duas cenas seguidas muitas vezes escapa ao espectador tratar-se do filme que está sendo filmado no filme, do próprio filme ou do filme em que Laura Dern é prostituta).

O que se tem então em “Império dos Sonhos”, com mais intensidade que nos filmes anteriores, é que David Lynch força o espectador a se defrontar com os insondáveis mistérios da certeza, levando-o a compor sentido às tramas que se desenrolam interpoladas recorrendo exclusivamente à imaginação. Na medida em que praticamente descarta qualquer previsibilidade, Lynch não deixa outra opção ao espectador.

O que se poderia sugerir para conferir sentido às tramas em “A Estrada Perdida” e “Cidade dos Sonhos” cai no reino do absurdo em “Império dos Sonhos”. A mensagem subliminar a ser extraída é que as certezas, diante do fenômeno da imagem, não passam de mal entendidos. Imagem é ilusão, como ensinam as figuras de Gestalt, e ela se torna mais intensa quando a ela se acopla a representação na representação, elemento ausente nos outros dois filmes.

Ao proceder dessa maneira em “Império dos Sonhos”, Lynch aproxima-se de Samuel Beckett, em obras como “Molloy” e “O Inominável”. Nessas obras, o que chama a atenção é a confusão e as incertezas delas decorrentes para a narrativa. O leitor deve deter-se nas incertezas do narrador desde o início. Sem esse parti pris qualquer leitura está condenada, pois envolveria o jogo de certezas das narrativas fechadas.

Da mesma forma, em “Império dos Sonhos” o espectador deve deter-se nas incertezas. As imagens em seu fluxo narrativo não se apresentam explicitamente como objeto para decodificação. Qualquer tentativa de certeza é estilhaçada nesse filme, que é tanto a experiência mais perturbadora e incômoda de David Lynch quanto, creio, definitiva.

Depois de explorar elementos desnarrativos em “A Estrada Perdida”, “Cidade dos Sonhos” e “Império dos Sonhos” –e, com isso, legar três obras que ficarão na história do cinema–, o diretor parece esbarrar num impasse: qualquer outra tentativa na mesma direção pode levá-lo a cair no maneirismo. Com esses três filmes, em especial “Império dos Sonhos”, Lynch deixa um grande desafio para os próximos cineastas que incursionarem pelos caminhos desnarrativos no cinema.


Publicado em 3/8/2008

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Humberto Pereira da Silva
É professor de filosofia e sociologia no ensino superior e crítico de cinema, autor de "Ir ao cinema: um olhar sobre filmes" (Musa Editora).



 
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