1
prosa.poesia
MEMÓRIAS

Racontos de Vila Pequena
Por Wilson Bueno

O escritor Wilson Bueno narra a sua infância em livro que será publicado em 2009; leia dois capítulos inéditos

Conversa de cães num bosque de pinheiros

O dia em que chegamos a Curitiba, vindos do Norte vermelho, o pai, que era o único que lia, leu numa parede da estação-de-ferro o cartaz que anunciava, para dali a um dia, no Água Verde, uma conversa de cães num bosque de pinheiros.

Na pensão da Eufrásio Correia, no mesmo dia seguinte, logo cedo fomos ver a fonte no meio da praça –como ela fosse um triunfo. Mulheres nuinhas enroladas em peixes que vertiam água pela boca verdoenga de limo. Mas sobre isto, o pai lembrou, o cartaz da estação de ferro não tinha falado coisa nenhuma.

O pai disse que iria levar as crianças para ouvir a conversa dos cães no bosque de pinheiros, assim que desse a hora aprazada. Eu e meu irmão não sabíamos o que era hora aprazada mas mesmo assim esperamos comportados como meninas.

No dia seguinte ao dia seguinte o pai disse que era o dia. E seguimos num ônibus, que tinha a frente feito fosse um grosso nariz comprido. O Água Verde demorou a aparecer. E quando o Água Verde apareceu foi um assombro. Tinha casas de madeira e ruas de pedrinhas nem que a nossa aldeia caipira.

Aonde descemos do ônibus havia pipoqueiro e vendedor de algodão doce. Espantou-nos apenas que fossem azuis. Nunca tínhamos visto algodão doce azul na vida. Mas o que queríamos mesmo era escutar a conversa dos cães no bosque de pinheiros que o cartaz da estação de ferro anunciava o dia em que chegamos a Curitiba.

Mas já era muito tarde, começava a escurecer, e além do algodão azul o pai não nos comprou mais nada, sempre falando da conversa dos cães igual que ela fosse um pudim, salada de frutas, vitamina. Mas já era muito tarde e só sei que andamos a pé até chegar, quase noite alta, de volta à pensão da Eufrásio Correia.

Antes de dormir, o pai disse que se nos comportássemos, no dia seguinte além de irmos de novo à fonte, a gente ia escutar, no Água Verde, agora sim, a conversa dos cães no bosque de pinheiros.


O verão dali em diante

Ainda não havia chegado a primavera quando fomos ver, às margens do murmuroso Cinza, os primeiros estremeceres do próximo verão em Vila Pequena. Eram sempre os índios que chegavam para dar a notícia: começava a nascer, irregular, e frágil como uma planta recém, boatavam eles, os índios,já meio bêbados, o grande verão do ano seguinte que nascente de novo se dava ao início nas margens pantanosas do velho rio. Ali onde, garantiam, outra vez acordava, invisível ainda, a brotação dos antúrios, os quais, na plena madurez do janeiro, chegariam, sobretudo os de turvo e ondulante veludo-de-bispo, chegariam a imitar a textura da pele do ventre de uma menina. La piel de danzarina, explicavam melhor os índios, porque “danzarina” era como chamavam, em sua língua azoada, aos antúrios nascidos dos charcos, aos antúrios desembestados de amor; nascidos, e de amor desembestados, dos charcos ferventes, salobros; charcos, alardeavam, de extintos vulcões que eles, sempre bêbados, entendiam fossem las dormidas montañas del diablo.

Audível já, falavam, às margens do rio, os prenúncios do certo verão, a irrupção das bolhas de enxofre e húmus feito tachos onde ebulisse a lama pastosa, e movediça, ou como as arrepiantes tinas de cobre que o aéreo professor Suarez, em seu nicho-laboratório dos fundos de casa, nunca tirava do fogo. Uma que outra vez, os quintais de Vila Pequena incendiavam.

O verão costumava amanhecer, assim, antes que amanhecesse o dia.

Era sempre ao final do inverno. Torcidas de vento, desfolhadas, as árvores da beira do rio ainda a nada alimentavam com suas sementes, que, no verão, incessantes cairiam na água, a fazer crescer os peixes pequenos. Em vão punham a boca, de peixe a boca redonda, rente à superfície do rio, para pedir, com uma insistência de minúsculos cães famintos, o sumarento mel das olívias salvajes. Negros mínimos grãos que, no janeiro fecundo, as ramas, pródigas, deitavam à água, com um miúdo estrépito de vento ou inseto à flor do Cinza remansoso.

Ninguém nunca foi ver a estroina zoada dos índios inventando que o verão já nascia, ainda que invisível, das alagadiças bordas do rio. Era então o brumoso inverno de Vila Pequena, com as chaminés das casinhas de madeira evolando a boa fumaça dos fogões à lenha onde aquecíamos as fatias de pão-dormido esfregadas na enregelada banha suína. Era a névoa e a constante garoa, o avô desde longe soando as botinas, o chapéu molhado, a puída capa de pano duro, entrando solene e rompante, a reperguntar à avó aonde é que estava a sua garrafada de mastruz, a cachaça curtida nos guizos da jararacambeva. De uma só talagada era que o avô tomava o mastruz, franzindo o rosto numa cara horrível, estalando a língua, o braço levantado, a mão no ar, surrando um dedo no outro alguma vez com violência.

Mas não há como a hora dentro das horas de um dia. E aquela hora foi o dia.

Guiados por um índio gordo, de nome Yupí, fomos ver o verão que, embora invisível, já fervia às margens do velho Cinza, de antúrios e de amor desembestado fervia, ao regurgito das grandes bolhas de lama e húmus. Mesmo bêbado, o índio disse que sabia aonde, e nunca que ia errar de caminho. Segundo ele, que embora muito borracho não deixava de falar coisa com coisa dentro, o verão se postava, transparência de brisa e nuvem, na sempre adiada curva do rio, a que sucede a próxima, aquela que vem depois desta outra e assim por diante até chegar ao infinito estio, ainda mais faiscante, e ainda mais definitivo, porque sempre incriado e porque sempre por acontecer e porque sempre por vir com sua orquestração de besouros e gorjeios e o ciciar das cigarras feito uma alvagaravia de trinos.

Excitava-nos o índio borracho, mas tão borracho, que ora era o mundo que pendia das árvores, ora eram as árvores que do mundo pendiam, farfalhantes, e Yupí escorava-se, gordo, de riso frouxo e cariado, a escorar-se nos quebradiços galhos da trilha, ainda assim não caía, mesmo que, partido ou envergado ao limite, o galho quisesse se despreender do mundo que oblíquo daquele jeito, não tinha jeito, todo girante oscilava e se movia. Andava o mundo a correr atrás de Yupí igual que, de asas, uma voante selvageria. Íamos também nós atrás dele, atrás de Yupí, nós e a nossa esperança cheia de dedos e agruras. Crentes na fé de que quanto mais borracho um índio, mais os segredos do verão ingerminado haveria de nos declarar, naqueles ermos; debaixo, aquele tempo, daqueles céus.

A flor da yuacanã, rubra feito uma brasa que o inverno apaga como quem apaga uma chama, foi o primeiro entrevisto do ainda inexestido verão aonde nos levava o borracho Yupí que a pisar todo aquele vacilante mundo, sua obesa carnadura, dizia e redizia que só com os olhos não iríamos enxergar como brotava, das pantanosas margens, o estio, igual que o ovo dentro de uma galinha. Era só ver, nas trilhas, nos caminhos, a brasa acesa da yuacanã para não duvidar de que nos levava, o gordo Yupí, ao certo lugar, ali onde o verão morava com sua côrte de águas, entes da nuvem e entes da neblina, branda malva, cachos e mais cachos de passarinho.

Era quase noite, nem de longe mais se avistavam as chaminés de Vila Pequena com os caracóis de fumaça de seus fogões e de suas cozinhas, quando ainda mais próximos, borrachos nós também, de tão borrachos os caminhos, começamos a ouvir o quase chilreio do murmuroso Cinza, anoitecido de estrelas e cercado de todo lado pelo coaxar da saparia. Agarrando-se a um tronco, Yupí fez com um gesto que, mesmo bêbado, indicava que escutássemos, em silêncio escutássemos, vejam só, por Tupã!, o que das águas de um rio.

E era ali que o verão, ainda não criado, já se enroscava aos caminhos.

Quietos e agachados, como ensinava o índio, foi então que paramos; o frio que nem mais frio era, só um fresco vento tocado de brisa, a nos envolver igual que uma manta tecida no bilro da noitinha maravilha, passamos a ouvir como a lama fervia, dela irrompendo os antúrios. Nada víamos, agachados na mata, só escutávamos no entrante luar que, por grande e prata, luar de inverno não era, todas as coisas as quais, mesmo borrachos, os índios nos relatavam nos declinantes invernos de Vila Pequena, feito aquelas histórias da noite em que o firmamento inteiro se fecha para que nele caibam, mais que as estrelas, todos os astros do céu e seu brilho.

E por nós passaram a passar sereias e curupiras, sabiás em fuga, rebelados canários, verdes boitatás de faiscante murmúrio, a água da fonte feito fosse dia, os ventos dos longes, quentes como o bafo de uma chaleira; e ali, de ouvir a ouvir, insistimos. E vimos que os vaga-lumes em profusão se acendiam, num lusco-fusco, num pisca-pisca, num alvoroço mais que de inseto no cio. Recostado a um tronco, a barriga a escapar da apertada camisa, o gordo Yupí, feito fosse sob uma lassa noite de verão, gozosamente dormia.

Quase deitados, na morna trilha, de areia fofa e folhinhas, o ouvido no chão escutamos, vindo de longe, de novo uma algaravia de trinos e até hoje não sabemos se era mesmo o verão gestando suas rendas de estio ou tudo não passava de um sonho em que dormíamos no borrachoso sono de Yupí, bêbado de cinco dias, nossas noites sozinhas.


Os textos acima são fragmentos do livro "Racontos de Vila Pequena" (a sair).

Publicado em 3/8/2008

.

Wilson Bueno
É escritor, autor de, entre outros, "A Copista de Kafka" (ed. Planeta).

 
1