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LANÇAMENTO

Poesia à margem
Por Heitor Ferraz


O poeta Hélio Néri
Divulgação

Em "Anomalia", Hélio Néri arma barricadas verbais com palavras desgastadas como “esperança”, “futuro” e “fé”

Talvez seja melhor sempre escrever sobre estes livros pequenos, que chegam pelo correio, ou que compramos, em meio a um amontoado de gente, em algum lançamento coletivo. E lá estava um poeta com seu livrinho, que ele mesmo bancou, tirou o dinheiro contado do bolso, pagou a gráfica, a pequena editora. Realizou o sonho.

Sonho sempre pela metade, pois sabemos de antemão que ninguém sonha com apenas isso, apenas ver os poemas impressos e o nome, marca de fantasia, figurando na capa. Esse sonho também guarda em si algumas glórias, reconhecimento, leitores, curiosos.

Esse sonho sonha com aquele cara que no meio da noite, abatido pela insônia, andando pelo apartamento com brinquedos e enfeites, depara-se com este livrinho, sobre uma mesinha, ou perdido numa estante, mais perdido que Visconde de Sabugosa.

Ali estava o livrinho, alimentando-se de outros, talvez. Ouso dizer que sua simplicidade, sua capa marrom, tenta se fortalecer para formar uma barricada, frágil barricada contra uma vida que atropela, um vida em que tudo é banal e supérfluo, não só a poesia, não só as letras, mas nós mesmos, com nossas articulações, gestos, sangue.

Na capa, o nome do autor, “hélio néri”. O título: “anomalia”. Poderia ser apenas um jogo gráfico o uso dessas minúsculas. Um joguinho ornamental como fazem os nossos capistas modernos de hoje, esses que ganham notoriedade, assinatura, rostinho na coluna social.

Não, a edição não tem nada dessa frescura que o mundo editorial brasileiro tanto ama, e também nossos leitores de ocasião, ou nossos desejosos consumidores de enfeites de papel. É modesta a capa. As minúsculas já vão dizendo do lugar do poeta, sua “voz/ anêmica:/ à margem sempre”.

Hélio parece olhar o mundo a sua volta, admirar-se, não sem encanto, o mundo das futilidades literárias, da sede de nomeada, mas sabendo-se “à margem”, como se acima de tudo o juízo crítico, ou sua própria posição, lhe franqueasse um caminho poético que permitisse essa admiração de quem está à margem, sabendo o quanto o centro está vazio, os que estão no centro são vazios: de experiências, de idéias, de desejos, de emoções. Tudo, como se diz, é linguagem. Mesmo quando a linguagem se torna uma mala vazia. Não há cuecas, não há meias, lenços, calças velhas, um barbeador, qualquer coisa assim.

Eis que a poesia de Hélio segue por um fio: é fácil se perder pelos caminhos, como ele mesmo irá notar num de seus poemas, construídos em versos curtos que se encadeiam numa prosa meio desataviada, reflexiva, e que ao mesmo tempo se alonga, cavoucando o seu assunto, espichando-o até onde puder, até onde a imaginação e a reflexão o levam, mesmo deparando-se com obstáculos, com paredes, barreiras. Contra essas barreiras, ele arma suas barricadas verbais.

Quem conhece o poeta, nascido em Santo André, em 1973, pode imaginar-se estar diante de um dos tantos poetas que tardiamente viveram a poesia marginal, ou uma idéia já standard de contracultura: o cabelo comprido, meio oleoso na testa, o rosto redondo, gordinho, a boca larga escondendo um riso silencioso, e uma copo de chope ou cerveja. É freqüentador dos lançamentos de poesia da cidade. Está sempre por ali, zanzando, olhando, observando. Um pouco à sombra de seus amigos poetas.

Cheguei a pensar que ele fosse apenas um admirador, aquele que vai junto. Nunca tinha lido seus poemas. Só agora com seu livro na mão, percebi que Hélio era um admirador às avessas: é alguém que olha e registra, que faz do registro desta mundanidade, desta futilidade da classe média intelectualizada, um de seus assuntos.

É bom que se diga para que não haja engano: ele não faz isso de forma direta, como um rebelde sem causa. Ele faz inserindo-se nesse meio, olhando-o por dentro, filtrando essas sensações, para depois colocá-las em situações diversas –da solidão do quarto que se torna uma casa dentro de uma casa às frustrações da vida, passando pelas cenas mais rasteiras do cotidiano.

A epígrafe de seu livro já é uma proposta poética. “A palavra real/ nunca é suave.”, verso de Orides Fontela. O verso, lido a contrapelo da própria poesia de Orides, cuja beleza é indiscutível, mas que conta com uma presença forte da metáfora sublime, em Hélio, a metáfora vive quase que de sua naturalidade completa.

O poeta segue rente às palavras, rente ao discurso mais desatrelado e cotidiano possível. Não tem suavidade. Elas carregam um discurso de desencanto, um desencanto que, mesmo que transformado pela poesia, pela condensação, pelo encontro de vocábulos e de sons, não pede mediações metafóricas elevadas, mas as mais comuns.

É o próprio Hélio que irá enfrentar essa matéria tão frágil e em decomposição que é a linguagem. Num poema chamado “De-composição” (muitos certamente virão neste título um trocadilho irritantemente bobo, com aquele travo dos trocadilhos filhotes do tardo-concretismo paulista, e será difícil não concordar, pois o poema é de longe superior ao título, óbvio demais), ele diz o seguinte: “os fungos nas palavras/ brotam inevitáveis”.

O poema prossegue falando de livros, de palavras, da saudade de uma voz potente e nova, e termina com esses outros versos: “e nada mais respira/ nem suspira, irreversivelmente/ vira bolor o poema”. Essa constatação –que surge em grande parte da poesia contemporânea– é a consciência de que precisamos das palavras, mesmo que emboloradas. Que não vai lhe adiantar nada procurar novas palavras, investir em praias inusitadas e líricas quando o poema se quer tensão entre lirismo e não-lirismo.

Neste ponto, Tarso de Melo, na pequena apresentação do livro, faz uma comparação feliz com o rap. Para Tarso, a matéria-prima de Hélio é a mesma dos rappers, ou seja, “a vida na periferia, as várias faces da miséria, os desencantos de uma geração desempregada, enfim, a proximidade com a parte da sociedade mais drasticamente atingida pelo ‘modelo’ vigente”.

Tarso o vê como um “rapper tímido”, que não usa da linguagem prolixa das letras. Mas o que se pode notar é que na linguagem, apesar de mais concisa, de às vezes procurar um certo equilíbrio formal e rítmico, a poesia de Hélio se apropria dessa linguagem direta e escancarada. Mesmo distanciando-se, ele se aproxima do movimento, mas num tom que ainda acredita numa possibilidade lírica. Já o rap, como diriam os Racionais, “é o ataque cardíaco do verso”. Já pula para a épica, com suas narrativas que tratam da vida coletiva.

Comparando ainda, vale lembrar alguns versos do belo poema “Sítio”, no qual Hélio escreve: “dispara a bala e o/ coração, sufocado, dispara/ mais veloz ainda/ a boca seca”. O coração –que poderia ser tomado como uma metáfora da poesia lírica– responde, mas com a boca seca. É neste poema que o poeta arma um desabafo desses tempos de desemprego e muito trabalho – desemprego há, é fato, mas o capital precisa de todos para continuar crescendo; glutão, coloca todos para trabalhar, ganhar trocados e alimentá-lo continuamente. É o desemprego que trabalha. O desabafo é claro e não pede meio tons, segredos ou enigmas: “difícil não se cansar/ com tudo isso, difícil não/ se cansar com a falta de/ perspectiva, as incertezas”.

O poeta, na casa dos 30, parece aquele sujeito que quando moleque sonhou com um mundo melhor, mais ventilado, de oportunidades, de igualdade etc., mas que agora se depara com todos os obstáculos e barreiras que fazem com que seus anos de formação pessoal sejam varridos para debaixo do tapete.

Diante de tanto pessimismo e realidade –sem precisar cair na esparrela das imagens engraçadinhas e bem boladas de uma poesia de enfeite (ou a já apelidada “toy-poetry”) –, Hélio tem a coragem de dar a cara a tapa, sem berrar rebeldia vã, apenas anotando suas sensações. Há, em sua poesia, coisa mais rara ainda, a busca de uma emoção, de uma troca com esse outro mais distante e anônimo, chamado leitor.

Em “Verbo”, último poema do livro, o poeta procura encontrar uma razão de ser para a sua vontade anômala de fazer poesia, de procurar um vestígio de belo no cotidiano, a vontade de encontrar algo “em seu estado mais puro/ pleno, infinito, ainda que para/ muitos imperceptível”.


Dois poemas de “Anomalia”


PERFIL

quando se põem à
prova, à mostra
fatos e circunstâncias
que aparentem, certa
grandiosidade, impacto:
às vezes se apresentam
não como antes, mas como
realmente são: uma coisa
ínfima, menos
(e em sua maioria) que
não possui sustentação,
e diante dos olhos,
de uma observação mais
atenta, minuciosa
percebe-se que, mesmo
tendo em vista alguma
notoriedade, destaque, não
era o que realmente parecia
(ou poderia ser)
mas algo assim:
que não detém méritos,
não salta aos olhos,
que tudo é de uma
pequenez só
algo como que, podendo
ser qualquer coisa, tudo,
menos uma obra


SÍTIO

dispara a bala e o
coração, sufocado, dispara
mais veloz ainda
a boca seca, o ar é
seco, o céu subitamente
se modificou, o chão,
onde era o axial,
perdeu seu estado de
segurança, estabilidade
dentro desse rodamoinho
de acontecimento, as
pernas tremem, o corpo
treme, cego
– não pode culpa desse
horizonte, sempre prejudicado
por uma mesquinha e implacável
questão geográfica,
as vielas, as ruas,
os becos, que sempre
foram as saídas,
as emergências
: agora são inúteis,
a assistência, o socorro,
o auxílio dos mais
próximos, da lei de
todos, em nada
resultarão
este clima pesado que
cobre todo ambiente cria
uma barreira indevassável,
intransponível –
difícil não se cansar
com tudo isso, difícil não
se cansar com a falta de
perspectiva, as incertezas,
as promessas, a fé, a vida – esta
que poderia ser melhor (outra)
lembrar como era antes:
as coisas, os dias,
a vida (sem temor),
o sonho camuflado na
ingenuidade em acreditar
que o perigo não era
tão eminente
deixar as coisas chegarem
a esse ponto, deixar que
o sonho, a esperança, o futuro,
escorressem, se diluíssem
um eco seco cobre uma
tarde de domingo
e transforma tudo de repente


O livro

“Anomalia”, de Hélio Néri (52 págs., R$ 15,00). Alpharrabio Livraria Editora (r. Eduardo Monteiro, 151, cep 09041-300, Santo André-SP, tel.: (11) 4438-4358, www.alpharrabio.com.br).


Publicado em 26/7/2008

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Heitor Ferraz
É poeta, jornalista e professor de jornalismo cultural na Fundação Cásper Líbero. É autor, entre outros, de "Coisas imediatas" (Coleção Guizos, Ed. 7 Letras), que reúne toda a sua poesia até agora.

 



 
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