1
em obras
PATRIMÔNIO

A salvação do Prado
Por Ana Paula Conde


"Las Meninas", quadro de Velázquez, do acervo do Museu do Prado, em Madri
Reprodução

Livro conta a odisséia dos republicanos para preservar as obras do museu espanhol durante a Guerra Civil no país

Quem visita o Museu do Prado, em Madri, não imagina que obras fundamentais do acervo da instituição como “As Meninas”, de Diego Velázquez (1599-1660), “A Trindade”, de El Greco (1541-1614), “La Maja Desnuda”, de Francisco de Goya (1746-1828), e “O Triunfo da Morte”, de Pieter Brueghel (1525-1569), entre outras tantas de nomes fundamentais para a história da arte, correram grande risco de desaparecer durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939).

Claro está que todos os tipos de conflito, além de ceifar vidas, colocam o patrimônio artístico sob perigo de destruição e saque. Muito recentemente, inclusive, tivemos exemplos graves no Iraque e no Afeganistão, mostrando que ainda estamos longe de políticas eficazes de preservação de obras de arte, edifícios e monumentos históricos.

O caso espanhol, entretanto, apresenta algumas características peculiares, pela quantidade de obras envolvidas, pelas longas distâncias percorridas e pelo envolvimento de instituições internacionais no processo de preservação, fato inédito até aquele momento.

É sobre essa história praticamente desconhecida pelos próprios espanhóis que Arturo Colorado Castellary, professor de história e análise da arte visual da Faculdade de Ciências da Informação da Universidade Complutense de Madri, debruça-se no livro “Éxodo y Exilio del Arte – La Odisea del Museo del Prado Durante la Guerra Civil”, da editora madrilenha Cátedra.

A descoberta do tema ocorreu por acaso. Em 1984, o pesquisador estava realizando um estudo no Arquivo da Sociedade das Nações, em Genebra, quando um arquivista o perguntou se teria interesse em olhar documentos sobre o patrimônio artístico espanhol. “Quando os documentos chegaram descobri que eram absolutamente inéditos e sobre uma história desconhecida”, explica o autor. O livro, lançado em 2008, está acompanhado por um CD com o documentário “Salvemos el Prado”, realizado por Alfonso Arteseros em 2004.

A decisão de evacuar as obras do Museu do Prado foi tomada em novembro de 1936, depois que a aviação nacionalista começou a atacar a capital do país e bombas incendiárias de origem alemã caíram sobre a instituição.

Para evitar riscos, elas foram cuidadosamente empacotadas e levadas até Valência, para onde também foi transferido o governo republicano. A permanência não duraria muito. No verão de 1937, houve nova transferência. Dessa vez até Barcelona.

Com o avanço e o fortalecimento das forças de Francisco Franco (1892-1975) e a iminência do fim da guerra, contudo, os republicanos precisaram de ajuda internacional para manter de pé o objetivo de salvar as obras de arte.

Nos primeiros dias de fevereiro de 1939, com apoio do Comitê Internacional dos Museus, ligado à Sociedade das Nações, e do Comitê Internacional para o Salvamento dos Tesouros de Arte Espanhóis, criado especialmente para essa função, o patrimônio espanhol foi transportado até a França e de lá até o Palácio de Nações, em Genebra, em 71 caminhões.

A guerra terminou em 1˚ de abril de 1939 e dois meses depois inaugurava-se no Museu de Arte e História de Genebra a mostra “Obras-primas do Museu do Prado”, com 174 quadros transportados e preservados a duras penas pelos republicanos.

Compareceram mais de 400 mil pessoas ao evento e, ironicamente, acabou sendo o primeiro ato cultural do franquismo no exterior. Os jornais não publicaram uma linha sequer sobre a epopéia dos republicanos. Em setembro de 1939, após o fim da mostra, as obras voltaram ao Prado, depois de três anos de êxodo.

Colorado Castellary é autor dos livros “Los Murales de José María Sert” (ed. de Naciones Unidas, Nova York, 1985), “Introducción a la Historia de la Pintura” (ed. Síntesis, Madri, 1991), “Hipercultura Visual - El Rreto Hipermedia en el Arte y la Educación” (ed. Complutense, Madri, 1997) e “El Arte en el Noventa y Ocho” (Celeste, Madri, 1998). Também é co-autor de “Los Errores de Narciso” (ed. Complutense, Madri, 1999), “Patrimonio Cultural y Tecnologías de la Información y la Comunicación” (Tendencias, Cartagena, 2005) e editor da edição espanhola do “Diccionario Oxford-Complutense del Arte del Siglo XX” (2001).

Para Colorado Castellary, o objetivo de seu livro sobre o Museu do Prado é colocar as coisas no devido lugar e reivindicar o papel que desempenharam aquelas pessoas que fizeram de tudo para salvar o patrimônio. “Estou convencido de que os espanhóis, quer dizer, os amantes da arte do mundo inteiro, têm com todos eles uma dívida impagável”, diz.

*


A política de proteção às obras de arte foi uma ação exclusivamente dos republicanos. Os franquistas criaram o Serviço Artístico de Vanguarda, em 1937, mas havia pouca coordenação e pouco investimento. A preocupação dos republicanos, no entanto, era unicamente com a arte? O traslado das obras também era uma espécie de propaganda política?

Arturo Colorado Castellary: A documentação de arquivo utilizada para escrever o livro mostra de maneira evidente que o governo republicano procurou por todos os meios proteger o patrimônio artístico contra ataques indiscriminados, queimas de igrejas, bombardeios, saques etc. E que essa preocupação não foi igual na facção franquista, que decidiu que o mais importante era ganhar a guerra quanto antes e a qualquer custo.

O perigo fundamental que sofreram as obras foi o bombardeio indiscriminado sobre as populações republicanas por parte da aviação franquista e de seus aliados alemães e italianos. Por essa razão, o governo republicano decidiu pela evacuação do Museu do Prado e de outros museus e coleções, primeiro a Valência e depois à Catalunha, fugindo sempre da frente da guerra.

Mas é também evidente que a determinação das autoridades republicanas de evacuar de Madri as obras de arte mais importantes, seguindo os passos de suas sucessivas capitais, além da lógica motivação protetora frente aos bombardeios, estava baseada em razões políticas do controle direto do tesouro artístico espanhol. Assim, as obras se converteram em um símbolo durante toda a guerra. Onde o governo legítimo encontrava-se, estava também o legado histórico-artístico da nação.


A decisão de esconder as obras no mesmo lugar em que estavam os dirigentes do governo republicano não era arriscada? Esses pontos não poderiam ser alvos importantes para as forças de Franco?

Colorado Castellary: Não exatamente, porque o processo de evacuação teve várias etapas. A evacuação e a permanência das obras em Valência foi, sem dúvida, mais organizada e com maior garantia de êxodo do que a viagem para a Catalunha e dali para Genebra, com a dramática passagem da fronteira em fevereiro de 1939. Podemos dizer que a etapa valenciana foi um modelo de embalagem, transporte e depósito de obras de arte em perigo.

Mas a frente da guerra seguia seu curso, e as tropas de Franco avançavam até o Mediterrâneo, desde Teruel, ameaçando cortar o território republicano em dois, entre Valência e Catalunha. O governo republicano, que desde maio do ano anterior residia em Barcelona, decidiu então transportar as obras de arte depositadas em Valência até a Catalunha.

Essa penúltima evacuação em território espanhol, entre março e abril de 1938, teve que se realizar com pressa, devido à ameaça militar das forças rebeldes, e tendo que tomar muitas vezes caminhos alternativos para escapar dos bombardeios.

Nessa etapa final da guerra as condições foram se deteriorando, com o aumento do perigo para o patrimônio artístico. Se até este momento, apesar do contexto bélico, todo o processo de embalagem, traslado e depósito foi realizado nas melhores condições possíveis, a partir de então começariam a existir situações de improvisação para encarar o crescente perigo, que culminaria nos dias finais da Espanha republicana.


Os republicanos criaram uma campanha, que incluía cartazes distribuídos pelos povoados e emissões nas rádios, para que a população respeitasse e protegesse objetos e edifícios históricos. Além disso, foram criadas as Milícias da Cultura e os Caminhões da Arte. A política de preservação dos republicanos refletia um novo conceito em relação à arte?

Colorado Castellary: A propaganda para a proteção do patrimônio artístico constituiu um dos pontos fortes da política cultural republicana, que consistia em uma ampla campanha que pretendia, antes de tudo, sensibilizar o povo para que respeitasse e protegesse os objetos e edifícios que tivessem interesse artístico. Podemos deduzir que esta campanha partia de um conceito de consideração da arte como patrimônio de todo o povo; e, diria mais, de toda a humanidade.

O descobrimento de obras desconhecidas, a restauração de obras em mau estado e as doações ao governo da República constituíram outros dos aspectos mais destacados da política de proteção do patrimônio artístico. Mas, de todas as tarefas das Juntas Republicanas do Tesouro Artístico, a mais árdua, a que maior atenção técnica exigia e a mais perigosa, foi, sem dúvida, a evacuação de centenas de obras do Museu do Prado.


Após a queda do governo republicano, a Espanha foi submetida a uma ditadura e não se podia falar sobre esse episódio. Depois, na transição, negociada, houve uma espécie de acordo para esquecer tudo o que fosse referente à Guerra Civil. Somente agora algumas situações voltam a ser lembradas. A Lei de Memória Histórica foi aprovada em outubro de 2007 e começou a retirar das ruas os símbolos franquistas. O senhor considera que é neste momento que começa de fato a se estabelecer uma verdadeira democracia? É também a hora de dar maior visibilidade a esse capítulo da história do Museu do Prado, desconhecido pela maioria dos espanhóis?

Colorado Castellary: É certo que este tema, como tantos outros da Guerra Civil, foi silenciado no pós-guerra e durante a ditadura de Franco. De fato o franquismo procurou por todos os meios que essa história não se espalhasse. Depois, durante a transição, foi outro o problema. Havia uma espécie de pacto entre os partidos parlamentares para esquecer tudo que se referia à Guerra Civil.

Neste momento existe uma forte corrente que reivindica a necessidade de analisar e conhecer nosso passado imediato. Meu livro é sobre uma história que se situa na Guerra Civil, mas diria que é uma história positiva do conflito, do esforço de muitas pessoas para salvar um patrimônio artístico de valor incalculável. De fato, estou convencido que a autêntica democracia se baseia no conhecimento e na cultura, na capacidade de decidir a partir do que sabemos da nossa história.


Em 1937, foi criada a Junta Central do Tesouro Artístico, e Timoteo Pérez Rubio foi nomeado presidente. Ele tem o reconhecimento devido?

Colorado Castellary: O trabalho das Juntas do Tesouro Artístico foi impressionante, assim como o de seu presidente, Timoteo Pérez Rubio. A eles dedico em primeiro lugar meu livro. O trabalho desenvolvido pela Junta Central e as juntas delegadas de cada província foi extraordinário, dentro do programa de proteção e salvaguarda do patrimônio artístico, apesar, em muitas ocasiões, da resistência que opunham os organismos locais a entregar as obras confiscadas.

Esse amplo programa consistia em, primeiro lugar, no reagrupamento das obras de arte procedentes de museus, igrejas, conventos, e também de coleções privadas, com o fim de salvar os tesouros artísticos da Espanha republicana e evitar que corressem riscos, tais como bombardeios, destruição, roubo ou qualquer tipo de deterioração.

A Junta Central organizou em Madri -no Museu do Prado, no Museu Arqueológico e na igreja de San Francisco el Grande- enormes depósitos de obras de arte procedentes de distintas regiões da península. Em todos esses edifícios se realizaram obras de proteção contra possíveis ataques aéreos. Em diversas cidades e povoados da zona republicana, as juntas locais aplicaram a mesma política de proteção que na capital.

Outra tarefa foi a proteção dos monumentos mais importantes contra os bombardeios, como a construção de muros de tijolos, como revestimento, e armações de madeira cheias de areia.

 
1