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a.r.t.e.
EM BUSCA DA AURA

Corpo presente
Por Fernando Masini


Filmagens de "Cafuné" (2005), de Bruno Vianna
Divulgação

O cineasta Bruno Vianna cria filme em que o próprio diretor vai escolher a ordem das cenas conforme a reação do público

A idéia do jovem carioca Bruno Vianna, de 36 anos, é fazer do seu próximo filme, “Ressaca”, uma experiência única para o espectador, modificando a cada sessão a sequência dos planos e a montagem da história. Para realizar a façanha, Vianna diz que pretende ficar na salinha de projeção com dois computadores interligados e um software especial conectado a eles, o que vai lhe permitir escolher a ordem das cenas de acordo com a reação do público. Como é de se imaginar, ele vai ter de estar presente em todas as exibições, a fim de manipular o aparato.

“Vai ser como uma peça de teatro, ou uma performance. É uma forma de envolver mais o diretor, o expondo. No cinema, ao contrário da dança ou do teatro, o autor pode estar a mil quilômetros da obra. Nesse projeto, eu vou estar presente vendo a reação do público. Estou muito curioso para saber como vai ser essa relação com a platéia, já que de acordo com ela eu posso mudar o curso do filme”, diz Vianna, de Barcelona, onde acompanhou e participou da fabricação do software.

A plataforma que será usada por Vianna durante as exibições foi criada em parceria com o Centro de Artes Hangar e a Universidade Pompeu Fabra, ambos na Espanha, especialmente para rodar seu segundo longa-metragem. Sua estréia nos cinemas ocorreu em 2005, com o filme “Cafuné”, uma história de amor entre diferentes classes sociais, ambientada no Rio de Janeiro.

O esquema de "Ressaca" consiste em colocar um painel contíguo à tela principal da sala, onde o filme será projetado para que o público possa ver as opções de planos e cenas do diretor. Com o movimento dos dedos, o operador poderá selecionar, arrastar e mixar os trechos do filme ao vivo.

Isso deixa a edição aberta, sem amarras, sendo que o diretor poderá construir diversas versões, reorganizando as cenas. “Quis avançar mais a idéia de fazer um filme recombinável, como o 'Jogo de Amarelinha', de Cortázar, e outras obras não lineares”, diz. Além da atuação do diretor dentro da sala, ao longo da exibição, Vianna também considera a possibilidade de convocar um DJ para compor e executar a trilha sonora do filme simultaneamente à projeção. Veja como funciona o projeto no link ao final desse artigo.

O próprio roteiro foi escrito pelo diretor com a intenção de obedecer a uma trama desordenada e passível de inúmeras reviravoltas, onde já estão previstas todas as possibilidades de encadeamento de cenas. Apenas a engrenagem principal será imutável. “Ressaca” conta a história de um garoto de classe média que vive no Rio os contratempos decorrentes das mudanças no cenário brasileiro na década de 80. Ele vai tentar lidar com suas inseguranças, enquanto a família enfrenta a crise econômica do período.

“Quero falar sobre a confusão que foram os anos 80 do ponto de vista da classe média: militares nervosos, presidentes que morriam, mil moedas diferentes, planos econômicos que não davam certo, hiperinflação. Para mim foi como a maturação do país, por isso escolhi um adolescente que passa também por um processo de amadurecimento para contar essa história”, afirma Vianna. As filmagens de “Ressaca” deveriam começar em maio, e o lançamento está previsto para o fim do ano.

O que Vianna tenta fazer é devolver uma espécie de aura ao cinema. Assim como sua destruição foi anunciada pelo sociólogo Walter Benjamin em seu clássico ensaio “A Obra de Arte na Época de sua Reprodutibilidade Técnica”, quando, segundo o teórico alemão, as formas de reprodução da obra de arte, em destaque a fotografia e o cinema, foram responsáveis pelo surgimento de um novo conceito de arte. No lugar do culto à unicidade, à tendência de se valorizar a obra “autêntica”, instalou-se a idéia de reprodução e repetição da obra.

O fenômeno foi analisado por Benjamin como “uma emancipação da obra de arte da existência parasitária que lhe era imposta por sua função ritual”. Acontece que o processo de espalhar as “cópias” da obra pelos cantos acabou por afastar o criador da criatura.

Recolocar o artista em contato direto com o público, no cinema, é retomar de certa forma uma aura perdida. É recuperar o valor da singularidade. “À mais perfeita reprodução sempre falta alguma coisa: o hit et nunc da obra de arte, a unicidade de sua presença no próprio local onde ela se encontra”, nos ensinou Benjamin. Como o ator de teatro que tem a possibilidade de adaptar sua interpretação às reações do público, Vianna deseja transformar a obra no exato momento em que ela se processa.

E fazer com que cada exibição tenha uma versão diferente, convertendo as tradicionais sessões de cinema em eventos particulares que não se repetem. “Me dei conta de que 'Ressaca' faria muito mais sentido com essa estrutura, onde coisas podiam acontecer duas vezes, não acontecer ou ter outros desenlaces. Minha memória desse tempo é não linear”, diz Vianna.

Para a distribuição de “Ressaca”, o diretor pensa em adotar a mesma fórmula aplicada em “Cafuné”: disponibilizar todo o material filmado na internet para ser baixado e depois editado pelo próprio internauta, num sistema conhecido como copyleft, a livre reprodução e compartilhamento do material. Vianna afirma que “trechos do filme serão publicados com a licença Creative Commons, para que outras pessoas possam executar o filme, fazendo suas próprias versões”.

Bruno Vianna enxerga no atual modelo de fomento ao cinema brasileiro uma incongruência que provoca um efeito ilusório a quem observa de fora do sistema as regras do jogo. Para ele, o governo concede ao mercado, na teoria, o poder de escolha sobre em que filme investir, para no fim das contas ele próprio acabar arcando com as despesas, já que a grande maioria das empresas aplicadoras de recursos no cinema nacional é estatal. Ou seja, tudo recairia de novo nas mãos do governo, como o movimento de um bumerangue.

“Já está na hora de deixar de lado a idéia hipócrita de que estamos construindo uma indústria auto-sustentável. Somente os EUA, com um sistema quase opressor, e uma ou outra exceção, como a Índia, consegue manter uma indústria. Todos os países europeus, asiáticos, sustentam o cinema com subvenções”, diz.

Esse modelo tem ainda outro agravante. Segundo o diretor, é extenuante para o governo ter de injetar grana numa produção e não receber nada de volta após os resultados de bilheteria. “Quando o filme entra em cartaz, todo o lucro vai para a produtora. Ou seja, além de já ter a subsistência e o lucro garantidos só por filmar, a produtora lucra de novo na bilheteria. Acho que se o governo investe todo o orçamento, ele deveria ficar com parte da bilheteria para reinvestir”, afirma.

E por haver um repasse de parte do orçamento para as produtoras, além da fatia garantida ao diretor e aos outros envolvidos no projeto, a tendência inevitável é gerar uma bolha inflacionária, segundo a opinião de Vianna. “O cinema virou ópera: produzir um filme é caríssimo, o público é cada vez menor e cada vez mais elitista.”

Apesar de fazer considerações e identificar fraturas no modelo de gestão e fomento do cinema brasileiro, Vianna acredita que houve evolução no setor graças à multiplicidade de canais empenhados em apoiar a cinematografia nacional, como o MinC, a Ancine e as estatais. “Acho que se deve continuar a investir nos filmes mais arriscados, bem como continuar estimulando filmes de bilheteria”, diz.



link-se

Veja como funciona o projeto "Ressaca" - http://www.youtube.com/watch?v=RL_-CJulzyI


Publicado em 5/7/2008

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Fernando Masini
É jornalista.

 
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