1
ensaio
LITERATURA

A crônica nossa de cada dia
Por Wilson Bueno

Machado, Bandeira, Rosa e Clarice transformam em ouro o gênero cultivado por nove entre dez escritores brasileiros

A crônica, este jeito e modo de narrar inventado pelos brasileiros, a ponto de se tornar quase um gênero literário, autônomo dos demais, com suas especificidades toda próprias e singulares, foi e é cultivada por nove entre dez escribas pátrios. Levada aos seus limites e des-limites, encontrou em alguns escritores tamanha razão de ser que acabou por constituí-los em “fabbros” militantes do “gênero”.

Rubem Braga, Carlinhos Oliveira, Eneida, Paulo Mendes Campos, João do Rio, Álvaro Moreyra –para ficar apenas nesses nomes– passaram à história como “cronistas”, estrito senso, do mesmo modo que Drummond ou Graciliano Ramos hão de ser sempre poeta e romancista, respectivamente. Ainda que ambos tenham de qualquer modo exercido o ofício da crônica com não menor empenho.

Aqui, não sem propósito, nos permitimos escolher, entre tantos cultores do “gênero”, quatro deles que praticaram a matéria com extrema diligência, mas não foram em exclusivo “cronistas” nem integram o “cânone” sob tal nomenclatura, ao contrário, por exemplo, dos já citados e referenciais Rubem Braga e Carlinhos Oliveira.

A escolha, como dissemos, não aleatória, pretende um “sentido”, o de colher, entre a vasta produção ficcional e/ou poética dos autores eleitos nesta breve reflexão –Machado de Assis, Manuel Bandeira, Guimarães Rosa e Clarice Lispector–, agudizados momentos onde a crônica se fez ouro e embora isolada de suas obras consideráveis, brilhem ainda hoje –jóias solitárias, mas jóias de burilada beleza. Com uma “eternidade” que possivelmente não foi delas a primeira “intenção”...


Machado de Assis: epifania de um dia antigo

“É meu velho costume levantar-me cedo e ir ver as belas rosas, frescas murtas, e as borboletas que de todas as partes correm a amar no meu jardim. Acho nelas algo das minhas idéias, que vão com igual presteza, senão com a mesma graça. Mas deixemo-nos de elogios próprios; vamos ao que me aconteceu ontem de manhã.

Quando eu mais perdido estava a mirar uma borboleta e uma idéia, parado no jardim da frente, ouvi uma voz na rua, ao pé da grade:

- Faz favor?

Não é preciso mais para fazer fugir uma idéia. A minha escapou-se-me, e tive pena. Vestia umas asas de azul-claro, com pintinhas amarelas, cor de ouro. Cor de ouro embora, não era a mesma (nem para lá caminhava) do banqueiro Oberndoerffer, que depôs agora no processo Panamá. (...)”

Conhece aí o leitor alguma coisa, em matéria “jornalística”, que a isso se assemelhe senão à crônica brasileira e, mais ainda, à crônica tal como a concebeu Machado de Assis?

Embora um dos fundadores do “gênero” –e nesse, como assinala o expert Roberto Schwarz, se lancem as sementes do que seria a grande ficção machadiana–, pois ainda assim, sabemos, seus romances e contos de tal modo se agigantaram frente a elas, às crônicas, que o escritor chega a ser muitas vezes melhor reconhecido como o poeta algo tíbio que foi, do que como cronista.

A verdade é que não há cronista, de seu tempo ou depois dele, que não lhe seja, de uma forma ou de outra, tributário. Mas sua obra ficcional haveria de ganhar tamanha latitude, ao longo dos anos, que ele é –sem erro–, o nosso maior “clássico”, no sentido em que um criador, qualquer criador, se torna um clássico. Não só por subsistir no tempo, mas por características e minúcias que não vêm ao caso detalhar aqui, mas que vão bem além de uma eventual “sobrevivência” histórica.

Afinal de contas nosso tema de reflexão é a crônica, filha dileta e direta do folhetim ao qual o próprio Machado classificava, não sem as tintas da galhofa e da melancolia, como a “fusão admirável do útil e do fútil”; ou de modo ainda mais irônico, como “o parto curioso e singular do sério, consorciado com o frívolo.”

O texto em pauta, sem título, publicado em “A Semana”, da qual Machado de Assis foi, durante muitos anos, colaborador regular, é de um longínquo 19 de fevereiro de 1893. E se ainda não pertence à pena insuperável do gênio de “Dom Casmurro” (1899), já o é do não menos desconcertante autor de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (1881) e a dos contos antológicos reunidos em “Papéis Avulsos” (1882). O que, destaque-se, não constitui pouca coisa.

Mera anotação dos sucessos de um dia antigo, o cronista noticia o quanto uma idéia, no caso a da emissão de bilhetes de loteria, pode render em termos financeiros. “Dous milhões de francos” não é pouca coisa para uma idéia, mesmo que esta tenha levado o banqueiro à barra dos tribunais.

Aí outro mérito axiomático da crônica e seu indissociável vezo de anotar modos e costumes de uma época –a ácida ironia por exemplo, de nos mostrar que ontem como hoje as falcatruas da res publica são mesmo incorrigíveis.

Está também lá, original e originária, uma idéia que ganhou corpo com o tempo –a então chamada loteria do Jardim Zoológico, hoje mais conhecida como “jogo do bicho”... E por esta idéia, tida e havida como sendo de autoria do Barão de Drummond, Machado confirma que não a daria por menos de “cem contos de réis”.

Desta, e outras idéias, à idéia do IPTU da época, uma espécie de placa que se pregava às casas, todos os anos, motivo da visita do estranho à grade de seu jardim, segue a crônica, com um luxo de estilo de que só o nunca assaz louvado Bruxo do Cosme Velho é capaz.

Não resisto, pois, a partilhar com o leitor, ao remate desta breve reflexão em torno da crônica machadiana, o seguinte trecho do texto de “A Semana”, no qual, de repente, a prosa lírica, de fina artesania, que, décadas e décadas depois, seria a maior característica de Rubem Braga, em cujas mãos a crônica fez história, irrompe à margem deste dia antigo:

“Mas vamos ao caso de ontem de manhã. Olhei para a porta do jardim, dei com o homem magro, desconhecido, que me repetiu cochilando:

- Faz favor?

Cheguei a supor que era uma relíquia do carnaval; erro crasso, porque as relíquias do carnaval vão para onde vão as luas velhas. As luas velhas, desde o princípio do mundo, recolhem-se a uma região que fica à esquerda do infinito, levando apenas algumas lembranças vagas deste mundo. O mundo é que não guarda nenhuma lembrança delas. Nem os namorados têm saudades das boas amigas que, quando eram moças e cheias, tanta vez os cobriram com o seu longo manto transparente. E suspiravam por elas; cantavam à viola mil cantigas saudosas, dengosas ou simplesmente tristes; faziam-lhes versos, se eram poetas. (...)

Todos os metros, todas as línguas, enquanto elas eram moças; uma vez encanecidas, adeus. E lá vão elas para onde vão as relíquias de carnaval – não sei se mais esfarrapadas, nem mais tristes; mas vão, todas de mistura, trôpegas, deixando pelo caminho as metáforas descantes de poetas e namorados”.

Repara o leitor: seqüestrados pelo buraco negro de mais de um século, ainda hoje, entre nós, repara –um dia com asas; um dia colibri...


Manuel Bandeira: o poeta-cronista

O poeta, antes de tudo, vai aos dicionários na crônica de quase 50 anos -“O Quintal”-, que leio em “Andorinha, Andorinha”, textos publicados ao longo de quatro décadas, na imprensa, reunidos em seu centenário de nascimento (1986), para a editora José Olympio, por ninguém menos do que Carlos Drummond de Andrade.

Na busca estudiosa de sinonímia e etimologia da palavra “quintal”, que nomeia e é o (lírico) objeto da crônica, a vasculhar velhos dicionários –do Morais ao Aulete, de Antenor Nascentes às lições filológicas de Leite de Vasconcelos, é com eles que introduz o texto destinado a um pedaço de página de jornal . O poeta, movido pela graça erudita de quem explora, entre outras, a arqueologia da língua, informa variantes e direções do verbete que dá título à crônica.

Humilde em sua exaltação do idioma, mais humilde ainda (ou despojado de dispensáveis atavios...), Manuel Bandeira reconstrói o quintal ancestral, o quintal arquetípico e desdobra o texto pela via da memória, quase octogenária, a lembrar os nunca esquecidos quintais do Recife de sua infância.

Sem descuidar da referência erudita, já em 1965 (não nos esqueçamos que Bandeira foi um grande tradutor sobretudo de poesia) do castiço francês de Arthur Rimbaud de “Une Saison en Enfer” (Uma Estação no Inferno), a versejar sobre escusos odores (por que não?) do verão nas “latrines”, o cronista resgata, nostálgico, o termo “cambrone” com que no Recife do final do século XIX se designavam os mictórios de fundo de quintal, as populares “casinhas”.

O exercício feliz de que a poesia do cotidiano não se faz só a perfume de rosas e damas-da-noite, mas também com o cheiro a amoníaco dos quintais da então acanhada Recife e da mais que acanhada rua da União onde viveram os sete anos do autor de “Vou-me Embora pra Pasárgada”.

Quintais, quintais do menino antigo, com seus quaradouros (de roupas) ao causticante sol do Nordeste, seus galinheiros e hortas e as malvas medicinais onde uma avó remota ensina ao neto os segredos também das flores singelas dos jardins d’antanho.

“Na rua, com os meninos de minha idade eu brincava ginasticamente, turbulentamente; no quintal sonhava na intimidade de mim mesmo”.

Fala, memória! Fala, proustiana, em busca do tempo, mais que perdido, reencontrado nas dobras de lírica crônica gestada pelo poeta do prosaico, atravessado, de todos os lados, pelo sublime.

Andorinha, andorinha –de quintal em quintal canta para ele, para o poeta-cronista, uma canção destinada, antes de tudo, a você, leitor; e a mim...


Guimarães Rosa: ave palavra ave

“Onde eu estava ali era um quieto. O ameno âmbito, lugar entre-as-guerras e invasto territorinho, fundo de chácara. Várias árvores. A manhã se-a-si bela: alvoradas aves. O ar andava, terso, fresco. O céu – uma blusa. Uma árvore disse quantas flores, outra respondeu dois pássaros. Esses, limpos. Tão lindos, meigos, quê? Sozinhos adeuses. E eram o amor em sua forma aérea. Juntos voaram, às alamedas frutíferas, voam com uniões e discrepâncias. Indo mais que iam, voltavam. O mundo é todo encantado. Instante estive lá, por um evo, atento apenas ao auspício.”

Jamais será um conto –se nos move a sanha classificatória–, este início aí de um dos mais belos textos reunidos no volume “Ave, Palavra”, de 1985, pelo saudoso mestre Paulo Rónai, para a editora Nova Fronteira, com a produção dispersa na imprensa, de Guimarães Rosa.

A maioria é de crônicas (se também podemos audazmente etiquetá-las, como tal) publicadas no jornal “O Pulso”, feito por médicos escritores e tendo estes profissionais como leitores-alvo. Quem não se lembra de “O Pulso”, tabloidezinho, em papel-seda, na ante-sala dos consultórios da vida?

Se impossível dar a “Uns Inhos Engenheiros” o nome de conto, igualmente impossível –ainda que limitando-o– não considerá-lo “crônica”. Não há entrecho e os personagens se erigem na própria observação (de novo) de um minievento do cotidiano –o voar e revoar de pássaros que Rosa localiza num “fundo de chácara”. Descrição de um olhar sobre a vida e seu movimento; deambular das coisas quase sem nome nem futuro. Existem porque estão ali e é tarefa preferencial de cronista, registrá-las, para que não pereçam no que na vida é devir, impermanência e olvido.

De todos os textos reunidos por Rónai entre o que Rosa chamava de sua “miscelânea” e que vieram postumamente a se constituir em “Ave, Palavra”, “Uns Inhos Engenheiros” me parece o melhor construído, aquele em que o autor de “Grande Sertão: Veredas” ainda mais ludicamente provou que escrever é, antes de tudo, um ato de generosidade e de doação, a suprema alegria de criar. A alegria de um “escritor-músico”, a dedilhar, virtuoso, a sua cítara...

Da primeira à última palavra, Rosa tece uma canção de amor à palavra mesmo, no caso, em específico, à palavra “ave” e suas dobras, seus revôos, adejos, aéreos périplos. Nada sobra, nada falta –ainda que a abundância seja a maior característica desta “crônica” tecida a pio e ninho, pluma e fruto, árvore e galho, folha e sombra, céu e asas, minudências que o vento finge, exalta, engendra, coleia.

Um exemplo definitivo? Um exemplo de que palavras também podem ser passarinho? Ave palavra ave? Eis:

“O sabiá, só. Ou algum guaxe, brusco, que de mais fora se trouxe. Diz-se tlique –e dá-se um se dissipar de vôos. Tão enfins, punhado. E mesmo os que vêm a outro esmo, que não o de frugivorar. O tico-tico, no saltitanteio, a safar-se de surpresa em surpresa, tico-te-tico no levitar preciso. Ou uma garricha, a corruir, a chilra silvestriz das hortas, de traseirinho arrebitado, que se espevita sobre a cerca, e camba – apontada, iminentíssima. De âmago: as rolas. (...) São os que sim, sós. Podem se imiscuir com o silêncio. O ao alto. A alma arbórea. A graça sem pausas. Amavio. São mais que existe o sol, mais a mim, de outrures. (...) Pois, plumas”.

 
1