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ensaio

Dois cães
Por Alcir Pécora

Na hora da identidade em perigo, o animal latiu no sermão de Vieira e também na voz de Iggy Pop

Antonio Vieira nasceu em Lisboa, Portugal, no dia seis de fevereiro de 1608. Transferiu-se seis anos depois, com a família, para a província do Brasil, onde cursou o colégio jesuítico da Bahia e se tornou o maior orador de língua portuguesa.

O poeta Fernando Pessoa o julgava, no início do século XX, o maior “artista da língua” em qualquer tempo. Foi ao cabo de um comentário sobre o impacto que sentiu ao ler pela primeira vez uma página de Vieira que formulou o seu célebre aforisma: “Minha pátria é a língua portuguesa”. Em Vieira, encontrava a emoção política que não descobria em sua infância ou em Portugal.

No século XVII, como orador, apenas John Donne lhe pode ser comparado em excelência. Mas Vieira teve um alcance político como pregador muito superior a Donne ou a qualquer outro grande do período: Paravicino, Segneri, Bossuet etc.

Além de passar boa parte da vida pelejando nas brenhas sem caminho do Brasil a conquistar as almas dos índios para a Igreja Católica e a disputar com os colonos brancos o controle sobre os seus corpos, Vieira foi, durante dez anos um dos principais validos de d. João IV, restaurador de Portugal. Das medidas que propôs, várias o levaram a um duro confronto com o Tribunal do Santo Ofício.

Argumentava Vieira que a expropriação dos bens dos judeus processados pela Inquisição arrancava de Portugal, junto com os judeus, o maior cabedal financeiro disponível no país. O único que poderia ser usado na defesa do reino contra seus inimigos mais poderosos: Espanha, que não cogitava admitir a existência de Portugal como reino independente da Coroa de Castela, e obrigava d. João IV a sustentar uma custosa guerra de fronteira; e Holanda, como principal rival na exploração das riquezas de África e do Brasil, especialmente na Bahia e em Pernambuco. Mais tarde, após ter sido ele próprio condenado pelo Santo Ofício português em função da veemente defesa do judeu/capital, que para ele um não vinha sem o outro, mudou-se para Roma, de modo a tentar anular a sua pena. Na então capital do mundo, tornou-se pregador no palazzo de Cristina, rainha que renunciara ao trono da Suécia ao se converter ao catolicismo. Convertida ainda em signo do triunfo da verdadeira fé sobre os heréticos reformados, Cristina mantinha, em Roma, foros de rainha. Pregando em italiano, a fama de Vieira multiplicou cento por um, a ponto de ser convidado pelo Geral da Companhia de Jesus, Gianpaolo Oliva, a sucedê-lo na condição de Pregador do Papa. O jesuíta, entretanto, recusou o honroso convite, como antes se recusara a ser diplomado como pregador da rainha Cristina. A razão não é razoável: queria tornar a Portugal e retomar lá, em sua pequena corte provinciana, o lugar de valido que um dia tivera.

Nunca foi feliz na sua pretensão. Os reis que sucederam a d. João IV, filhos de seu protetor, sempre o viram com desconfiança, seja pela intimidade que mostrava com judeus de Portugal, Ruão, Lyon, Amsterdã e Haia, e ainda com os hereges dos Estados Gerais de Holanda, seja pela lábia irresistível, capaz de defender com sucesso os planos políticos mais impopulares e desastrados.

Desenganado de que o aproveitassem na corte lisboeta, Vieira tornou à Bahia e ainda viveu lá 16 anos, nos quais continuou a se meter em todo tipo de negócio do reino e da Companhia, envolvendo-se até num conturbado caso de assassinato do alcaide da Bahia, inimigo político de seu irmão, Bernardo Vieira Ravasco.

Melhor do que tudo, preparou os seus estupendos volumes para impressão. Perto de completar 90 anos, após duas quedas de escada, finalmente entregou a Deus ou ao Diabo a alma irrequieta, que, como a dos condenados, nunca teve descanso.

James Jewell Osterberg nasceu em Ypsilanti, Michigan, no dia 21 de abril de 1947. Vinte anos depois, formou a mais importante banda de rock’n’roll jamais vinda ao mundo. Antes havia letra e música, voz e ritmo; com James não havia mais nada a não ser o casino, isto é, a zona, o puteiro que fazia no aqui-agora do palco e fora dele. Antes havia competência, agora, só performance. Antes, passado, presente e futuro, agora presença somente. Depois que James se ia, as pessoas continuavam lá, pasmadas. Alguns urravam para o nada. Haviam perdido tudo, e gozado muito a delícia da perda. A bela Nico, quando o viu, logo se deixou arrastar, líquida, impaciente com a afetação da fábrica fashion onde se empregara, com a função estrita de sussurrar e deliqüescer. Até James, o som e a fúria eram um verso e um romance; depois dele, tornaram ao núcleo informe. Qualquer idéia de arte estava fodida.

O estrago que James disseminava não era orientação de seu desejo ou determinação da sua vontade, apenas parte da sua natureza inocente. James, a bem dizer, era idiota. Quem o ouvia ser a tempestade que era, logo se dava conta de que, em segundos, estaria desabrigado.

Nem por isso, o ouvinte buscava abrigo: intuía que sua vida não valia mais que ser cuspido para fora de si pelo cataclismo. Mas não é preciso contar essa história para os que, ao idiota, preferem 13th Floor Elevators, Love, Velvet Underground ou Ramones. Para os que preferem Beatles ou Rolling Stones nenhuma história vale a pena ser contada.

James Osterberg provavelmente desconhece a existência de Vieira tanto quanto o padre ignorou a dele e a de seus dum dum boys. Mas, curiosamente, por conta de simultaneidades do acaso ou da ocasião, James estava lá, gritando coisas incríveis para mim, num dos dias em que eu lia os sermões do padre em busca de uma tese capaz de sistematizar e unificar as suas atividades muito diversas e aparentemente inconciliáveis de pregador, diplomata, missionário, político, escritor, teólogo, profeta etc.

Houve um momento preciso em que ambos, James e Vieira, disseram juntos –juntinhos- a mesma palavra.

O primeiro berrava que queria ser o meu cachorro, a qualquer preço; o segundo protestava reiteradamente ao Superior dos Jesuítas na Província de Portugal, quando se encontrava na iminência de ser expulso da ordem por conta das várias intrigas políticas em que se envolvera, que preferia ser um cão à porta da Companhia de Jesus do que receber a máxima investidura eclesiástica em Portugal. De fato, El-Rei lhe oferecera qualquer posto, como compensação do afastamento da ordem.

Quer dizer, ambos, em algum momento de sua vida, julgaram que um cão era a melhor figura de sua identidade em perigo, e então acharam que deveriam repeti-lo para mim, sincronizando tempos, lugares e línguas distantes. Fizeram isso uma vez, outra vez, e depois por dias e anos a fio. Mas juro que, desde o início, quando comecei a ouvi-los dizer que queriam porque queriam ser cães, eu os recolhi e tratei com carinho.

Seja pela brecha dos ouvidos, seja através da porta dos olhos, ambos conviveram sempre bem no meu entendimento, ainda que raramente tenham sentido necessidade de se comunicar entre si, além do contato da sincronia.

Cada um, a bem dizer, late bem alto no seu próprio canto. Eu, como pai de mente aberta, asseguro a cada um a sua privacidade, mas como dono de minha própria cabeça, não permito nem por um único dia que se separem de mim. Os latidos deles serão provavelmente a última coisa que ouvirei, quando ruir para sempre o cômodo insalubre em que os conservo, quentes, junto a meu corpo frio.


Publicado em 15/6/2008

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Alcir Pécora
É professor de teoria literária da Universidade Estadual de Campinas e autor de "Máquina de Gêneros" (Edusp).



 
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