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política
ESQUERDA

Maio de 68 não foi só revolta estudantil
Por Leneide Duarte-Plon

Para o filósofo Bertrand Ogilvie, data marca também o maior movimento operário do século XX na França

De Maio de 68 há quem tenha na memória apenas imagens emblemáticas do Quartier Latin sem paralelepípedos, arrancados pelos estudantes para atacar os policiais, dos carros queimados, das barricadas perto da Sorbonne.

Mas a rebelião começou, na realidade, em 22 de março, em Nanterre (França). Naquele dia, os estudantes fizeram um movimento pedindo a libertação de militantes do Comitê Vietnã, que estavam em prisão domiciliar. Um jovem estudante de sociologia de 22 anos, de cabelos ruivos, propôs a ocupação de um dos prédios da universidade por toda a noite. Esse militante anarquista se chamava Daniel Cohn-Bendit e, naquele dia, outros estudantes se juntaram a ele. Estava lançado o “Movimento 22 de março”.

Com as reivindicações e conquistas da esquerda operária e estudantil, o movimento ainda incomoda a direita, mesmo 40 anos depois. O presidente francês Nicolas Sarkozy propôs acabar de vez com “a herança de Maio de 68”. O filósofo e ex-ministro Luc Ferry, autor de um livro sobre o período, tentou reduzir as revoltas dos estudantes e dos trabalhadores a uma revolta por liberdade individual e casamento por amor.

Nanterre, uma cidade tradicionalmente comunista a oeste de Paris, era um centro importante de estudantes anarquistas, como Cohn-Bendit, que pertencia ao grupo Preto e Vermelho, de militantes trotskistas, como Daniel Bensaïd, ou de jovens da Juventude Estudante Cristã.

O diretor da faculdade de Letras não era outro senão o filósofo Paul Ricoeur. Com a radicalização do movimento estudantil, Cohn-Bendit, que tinha adotado a nacionalidade alemã de seu pai para fugir ao serviço militar, foi expulso da França em 22 de maio.

Em Nanterre, hoje transformada em uma universidade majoritariamente de direita, um grupo de 20% de irredutíveis ainda vota à esquerda. São principalmente estudantes dos cursos de filosofia, sociologia, artes do espetáculo e linguística.

Os filósofos Etienne Balibar e Bertrand Ogilvie são um pouco responsáveis por esses resistentes ao liberalismo. E, assim como o filósofo Alain Badiou, tanto Balibar quanto Ogilvie estão engajados na defesa dos direitos dos “sans-papiers”, os estrangeiros ilegais, os novos párias da sociedade francesa e européia.

A França mudou profundamente graças a Maio de 68. Houve grandes conquistas trabalhistas, fruto da greve geral. Houve também uma revolução de costumes e mentalidades. Somente depois dessa época foram implantadas em todo o país as classes mistas no ensino público. Até então, em toda a França, meninos e meninas estudavam em escolas republicanas onde se podia ler “École de filles” ou “École de garçons”. Até para abrir uma conta bancária, as mulheres francesas tinham que pedir autorização aos maridos.

Ogilvie, 55 anos, é professor de filosofia em Nanterre, É também psicanalista, autor de “Lacan - La Formation du Concept de Sujet (Lacan – A Formação do Conceito de Sujeito, ed. PUF), um livre célebre sobre o psicanalista, traduzido em várias línguas, inclusive japonês e português. Desde 2002, ele co-organiza o seminário mensal do Centro Internacional de Estudo sobre a filosofia francesa contemporânea, da École Normale Supérieure-Ulm.

Na entrevista a seguir, Ogilvie diz que a direita caricatura Maio de 68 e enfatiza: “Esquecem de dizer que Maio de 68 foi, antes de tudo, um movimento operário enorme, o maior que a França teve no século XX”. Para o filósofo, Maio de 68 foi “a penúltima vez em que a burguesia teve medo na França”.

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O que resta hoje de Maio de 68 em Nanterre?

Bertrand Ogilvie: Nada.


Não há então na Universidade de Nanterre uma herança de Maio de 68?

Ogilvie: Não.


Os estudantes de Nanterre se interessam por Maio de 68, prepararam debates e conferências para comemorar os 40 anos da revolta e das greves?

Ogilvie: Há três tipos de estudantes em Nanterre hoje. Primeiramente, os que fazem direito, ciências econômicas e mesmo história, que não se interessam nem um pouco por esse período e são contra Maio de 68. Eles são de direita e são muito numerosos.

Depois, há um grande número de estudantes que são o efeito da massificação do ensino universitário francês, que vêm de horizontes muito variados, que estudam psicologia, literatura e línguas, que não são nem um pouco politizados, não se interessam por Maio de 68, mas não são contra, simplesmente ficam de fora do debate político, como na greve do fim do ano passado.

E, finalmente, há uma minoria de estudantes de filosofia, sociologia, artes do espetáculo e linguística que se interessam e se manifestam fazendo greves e debates. Estes são uns 20%.

Quanto a Maio de 68, mesmo os estudantes de filosofia, que são muitíssimo engajados nos movimentos de greve atuais, jamais reivindicam qualquer herança dessa data em seus atos e lutas. É uma página da história estudantil e do movimento operário que não lhes interessa.


Por que o movimento caiu no esquecimento exatamente em Nanterre?

Ogilvie: Não é de estranhar. A referência a Maio de 68, ou a Nanterre como a origem do movimento, não existe mais na universidade, há muito tempo. Todos os professores que participaram do movimento de Maio de 68 estão aposentados ou prestes a se aposentar.


Como o sr. define Maio de 68? Para a direita, foi uma revolta de estudantes anarquistas, para a esquerda é um movimento de emancipação política, de importantes lutas dos trabalhadores.

Ogilvie: Foi a penúltima vez em que a burguesia teve medo na França. A última foi em 1981, com a vitória de François Mitterrand (para a Presidência do país), quando muitos foram para a Suiça, temendo o pior para o capitalismo francês.

A direita caricatura Maio de 68 como um movimento de idéias, como uma história de mentalidades, algo de puramente ideológico, que tem a ver com a vida pessoal, as sensibilidades etc. Evidentemente, ela condena Maio de 68. A esquerda o caricatura no sentido da aprovação, para celebrar a data.

Esquecem de dizer que Maio de 68 foi, antes de tudo, um movimento operário enorme, o maior que a França teve no século XX. Foi um movimento de greve geral. Ele começou com os estudantes, mas os resultados da greve geral em todos os setores foi importantíssimo: os acordos de Grenelle, o aumento do salário mínimo, muitos acordos de proteção ao trabalho… Depois, isso foi sendo esquecido, anulado.

A revolta estudantil foi muito importante, mas Maio de 68 foi um movimento operário e universitário. A greve dos estudantes foi um protesto contra o privilégio de estudar, contra a escola como um lugar de segregação social, mas também psicológica, mental, como um lugar de eleitos.

Logo, isso também dizia respeito ao mundo operário. Foi por isso que eles aderiram maciçamente ao movimento estudantil, porque viram que os estudantes defendiam algo que dizia respeito à vida deles, de seus filhos. A escola e a fábrica são dois aspectos fundamentais, interligados no espírito dos manifestantes da época.


O movimento feminista também foi impulsionado por Maio de 68. Até então, uma francesa precisava da autorização do marido para abrir uma conta num banco...

Ogilvie: Sim, houve avanços consideráveis, muitos cadeados morais e mentais foram destruídos.


O que significa dar aulas em Nanterre? A legenda de Maio de 68 ligada à universidade é importante para quem não viveu a revolta dos estudantes de Nanterre?

Ogilvie: Quando eu era estudante em Paris, nos anos 70, na Sorbonne, havia um centro importante de pensamento crítico quase ortodoxo, os althusserianos dominavam. Depois, tinha Nanterre, que era já considerada pelos estudantes como um lugar onde um pensamento marxista oficial estava morrendo lentamente, já era um lugar de esclerose.

Havia grandes nomes do pensamento marxista próximos ao Partido Comunista ou que eram do Partido Comunista que ocupavam o terreno em Nanterre. E havia a verdadeira alternativa para nós, que era a Sorbonne-rue d’Ulm (com a Escola Normal Superior), onde reinava um althusserismo maoísta, ou ainda a Universidade de Vincennes, rebatizada de Saint-Denis, com Deleuze, Jacques Rancière e Alain Badiou, que representavam um outro estado de espírito, muito mais próximo de Maio de 68, isto é, muito mais libertário, anarquizante, muito mais rock’n’roll e sexy.

Era a rue d’Ulm contre Vincennes, e Vincennes contra a rue d’Ulm. As pessoas que inventaram o pensamento crítico mais avançado naqueles anos na Sorbonne-rue d’Ulm não entenderam Maio de 68, perderam o trem. Maio de 68 não lhes interessava. Ao contrário, incomodou a todos eles.


Era visto como um movimento marginal, não tinha um suporte intelectual?

Ogilvie: Era um movimento organizado em torno de categorias sensíveis, de certa forma, que falava da sensibilidade, que utilizava imagens. E isso não interessava. Só interessava àqueles intelectuais os conceitos e o discurso científico.


Como o sr. analisa o percurso de Daniel Cohn-Bendit de Maio 68 até hoje, como deputado europeu do Partido Verde alemão?

Ogilvie: Não sei, ele é representativo de uma geração que fez uma longa marcha programada em direção à direita.


O sr. acha que o combate dos ecologistas é mais de direita que de esquerda? Cohn-Bendit se define como liberal-libertário.

Ogilvie: Na França, é um combate de centro-direita. Não é a mesma coisa na Itália, na Alemanha. Não é um combate de pessoas muito interessantes, de envergadura intelectual, por isso nunca deu em nada.


Ele é mais próximo de pessoas que fizeram esse percurso em direção à direita, como Bernard-Henri Lévy, Bernard Kouchner?

Ogilvie: É a mesma coisa.


Publicado em 15/6/2008

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Leneide Duarte-Plon
É jornalista e vive em Paris.

 
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