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prosa.poesia

Do livro das curiosidades
Por Wilson Bueno

A cristaleira de Guimarães Rosa, a saudade fatal dos navegadores e a desinvenção do amor por Averróes

Rosa e a cristaleira

O escritor, que contava esta história de escritor, era João Condé, lá no início dos 70, na redação do “Jornal de Letras”, em Copacabana: ao final de uma bela tarde de junho, Guimarães Rosa, o autor de “Grande Sertão: Veredas”, entre outras diabólicas engenharias, ao deixar o Itamaraty, onde dirigia a Divisão de Fronteiras, decide andar a pé um trecho do centro do Rio de Janeiro.

Súbito, distraído a fumar o seu cigarro Yolanda, na ponta da piteira de osso de tartaruga, flagra-se, ao rumor e tumulto do trânsito da hora do rush, bem no meio da Presidente Vargas, que, para quem não sabe, é larga avenida, de quatro pistas, no centro nervoso do Rio.

Homem sensível, de traço feminil, ao perceber-se engolido pelo tráfego pesado, literalmente no meio da rua, Rosa quase tem um chilique. Salva-o o talento de predestinado das letras: tomando a avenida como a metáfora de um rio, fulmina-o, naquele exato instante - destacava o saudoso João Condé-, a idéia daquela que viria a ser uma das mais antológicas peças da literatura brasileira, e de todas as literaturas, o conto “A Terceira Margem do Rio”.

A peça inteira, leitor, sua montagem e textura, suas engrenagens e engenharias, lhe vem à mente. O seu começo, o seu meio e o seu fim. De um jeito mediúnico e, como se vê, de modo rigorosamente imprevisto.

Guimarães Rosa, nervoso, ofegante, segue incólume por entre carros, buzinas, urros, freadas, desvios, acenando inutilmente para um táxi, mas já a caminhar na direção do primeiro ponto de ônibus. Não havia tempo a perder.

O terno elegante encharcado de suor, embarca no primeiro lotação que leve ao Posto Seis, onde vive com Araca, a sua sempre Araci, no belo apartamento da rua Francisco Otaviano, no que, anos depois, ele próprio detalharia em depoimento célebre: aquela vez, repetia sempre, era como se equilibrasse aos ombros, sem figura de retórica, uma cristaleira.

Uma cristaleira -enfatizava João Condé, pitando seu Hollywood- de uma cristaleira mesmo, onde tremelicavam, impávidos, os mais finos cristais, isto é, personagens, diálogos, entrechos, tons, entretons, linguagem, embocadura. Toda a dobrante e dobrável estrutura de “A Terceira Margem do Rio”.

– “Sabe do que o Rosa mais teve medo aquele dia?” – perguntava o bom Condé, fazendo uma pausa e já antegozando a própria resposta. – “O maior medo dele foi, aquele dia, o de topar com um amigo, sobretudo carioca...”

– “Como assim?” – perguntei.

– “Temia, a sério, um abraço, desses efusivos e espalhafatosos, que só os cariocas sabem dar... Podia que fizesse, o abraço, desabar a cristaleira...”

João Condé há muitos anos já não está mais conosco. Nunca mais tive notícia do “Jornal de Letras”. Alguém aí teve? Foi uma publicação importante, em certa fase da vida intelectual brasileira, veiculando inéditos que iam de Graciliano Ramos a William Soroyan.

Em seu apogeu, muito antes do “Pasquim”, vendia, e bem, nas bancas. Coisa que Condé procurou manter depois, mesmo com prejuízo, posto que se orgulhava muito do jornal criado por ele e seus irmãos Elísio e José. Ainda que, declinante e completamente sem prestígio, o velho jornal encalhasse nas bancas e nas distribuidoras. Dizia tratar-se da “jóia da Coroa”, quero dizer, dos Condés...

Guimarães Rosa é um gênio, uma glória nacional, ainda mais visível neste ano em que se comemora um século de seu nascimento, em Cordisburgo, Minas Gerais. O “Jornal de Letras” só a (pálida) memória de um tempo em que o jornalismo cultural, centrado àquela época todo no Rio, tinha o charme galante do linotipo e o verbo alguma vez furioso de Agripino Grieco ou de Álvaro Lins.

O Rio de Janeiro acabou junto com as milícias assassinas e o não menos famigerado narcotráfico. João Guimarães Rosa –não é mesmo, meu nunca esquecido Condé, aí no céu que lhe aconteceu?– , cresce em notoriedade e nomeada, cá e alhures, um vero titã literário. Capaz de segurar bem mais que uma cristaleira, assim de estalo, e num ônibus, cheio que seja, varando o trânsito aturdido das seis da tarde do centro da cidade.


Do amor que mata

Destaca a crônica do Descobrimento do Brasil que, se existia um padecimento a provocar sérios transtornos aos marujos embarcados na inenarrável aventura de encontrar o novo caminho das Índias, este era o da saudade. Sobretudo o da saudade amorosa.

Fernão Gideão Gama, notável escriba luso, credenciado junto à Escola de Sagres, uma espécie de Nasa da época dos descobrimentos, narra em documentos guardados pela Biblioteca Nacional de Lisboa, que mais de centena de homens morreram durante a travessia cabralina. Aproximadamente 20 deles, contudo, vitimados, em exclusivo, pelo que a crônica antiga chamava de “males de amor”.

Curioso anotar que o sofrido sentimento dos marujos portugueses nem de longe se tratava do banzo, espécie de incurável saudade da terra natal que acometeria, muitos anos mais tarde, os negros capturados à força em África e levados cativos a terras estrangeiras.

Não, os “males de amor” de que trata Fernão Gideão Gama começavam por tornar o marujo alheado, excessivamente pensativo frente às hercúleas tarefas em alto-mar, que exigiam mais que energia e determinação. Acometidos de graves crises de choro, logo adoeciam e se tornavam rigorosamente imprestáveis para toda e qualquer empreitada.

O mais curioso desta história, entretanto, é anotar que os chamados “males de amor” não eram propriamente a saudade das mulheres ou amantes deixadas em Portugal, se bem que isto pesasse, e muito, para agravar o desespero. O problema maior, esclarece a crônica, era a nenhuma perspectiva de que viessem a encontrar novo alguém para amar. Ou para substituir os “amores” deixados para trás.

A ausência desta “inefável, cálida e insucessível esperança”, segundo Gideão Gama, era o que matava o marujo –mesmo o mais valente e desassombrado.


Do amor desinventado

Averróes (1126-1198), célebre filósofo árabe de origem espanhola, explica em um de seus comentários à margem de Aristóteles, de quem foi notável divulgador junto ao mundo islâmico, que o Amor deveria ser entendido como um pássaro que não há nem nunca houve.

O aparente paradoxo, tentando encontrar uma explicação para o sentimento que faz perpetuar a espécie e une num mesmo abraço todos os homens, está na antológica “Destructio Destructiones” (“Destruição da Destruição”, tradução latina do original árabe).

Mais que a inesgotável poesia do autor árabe, uma das leituras obsessivas de outro bruxo, este mais próximo de nós –o argentino Jorge Luis Borges-, o que chama a atenção nas elucubrações perpetradas por Averróes é sua delirante ou insensata compreensão do Amor. Sendo puro sentimento, para ele, o Amor é, antes de mais nada, uma abstração.

Chega ao excesso de afirmar, muitas vezes, sobretudo na “Destructio”, que o Amor não existe nem nunca existiu. Não passa, acrescenta, de uma miragem na qual os humanos deitamos firmemente os olhos, no afã de fazê-lo existir a qualquer preço.

Comenta Borges, num de seus magníficos ensaios sobre o filósofo árabe-cordobês, que Averróis, desencantado com a própria vida amorosa e “fatigado leitor muçulmano de Aristóteles”, desinventou o Amor como uma forma de salvar-se de si mesmo.


Publicado em 22/5/2008

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Wilson Bueno
É escritor, autor de, entre outros, "A Copista de Kafka" (ed. Planeta), prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) como melhor livro de contos publicado no Brasil em 2007. Diário Vagau: www.diariovagau.blogspot.com

 
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