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estante

Alcir Pécora

1. Ilíada, de Homero

Os 24 cantos, em hexâmetros datílicos, atribuídos a Homero (secs. IX-VIII), são uma compilação e sistematização de antigas gestas, por um ou mais aedos. Os versos tratam do último dos dez anos que durou o cerco de Tróia pelos aqueus. A ação se desenvolve, mais precisamente, durante 51 dias, a contar do momento em que Agamênon retira de Aquiles a escrava Briseide, que conquistara como despojo de guerra.

Irado, Aquiles abandona o combate e deixa que os aqueus sofram grandes perdas, até que o desejo de vingar a morte de seu amado Pátroclo, ferido em combate por Heitor, príncipe troiano, o faz mudar de idéia, tornar à guerra e comandar a vitória dos aqueus. Modelo de toda epopéia posterior, nenhuma arranhou as alturas de seu sublime belicoso, no qual morrer belamente em combate é a maior façanha.


2. Odisséia, de Homero

Certamente posterior à “Ilíada”, sistematiza, como ela, diversos materiais preexistentes. São 12 mil versos em hexâmetro datílico, em 24 cantos. Trata-se, em certa medida, de uma imitação irônica da “Ilíada”, na qual a arte da sobrevivência e a opção pela vida se opõem à “bela morte” buscada nesta.

Outra diferença básica é a incorporação do tempo na narrativa, o que lhe permite desenvolver-se no terreno da comédia, em oposição à tragédia, gênero latente na “Ilíada”. O argumento do poema é o retorno de Odisseu a Ítaca, ilha onde é rei, após 10 anos da destruição de Tróia. A ação se passa entre 34 a 40 dias, desde a saída de Odisseu da ilha de Calipso até a recuperação da sua casa e reino. Que, entretanto, não tarda a abandonar novamente.


3. Górgias, de Platão

O diálogo data possivelmente de 387 a.C., época da fundação da Academia e de intenso combate aos rivais da sofística e da retórica siciliana. A cena de base é a ida de Sócrates e Querefonte à casa de Cálicles para ouvir Górgias, cuja aula, entretanto, já havia terminado. O diálogo se divide em três partes: a primeira, de argumentação dialógica propriamente dita, nas quais os interlocutores são Górgias, com o qual Sócrates debate a natureza da retórica; Pólos, com o qual refuta a retórica, com base na idéia da natureza do justo e do injusto; e Cálicles, com o qual refuta a sofística, que nega a justiça.

Na segunda parte do diálogo, Sócrates propõe que não pode haver felicidade na injustiça; na última, apresenta uma narrativa mítica de onde se depreende a idéia de que a violação da justiça exige expiação. Se o “Górgias” serve como base da condenação filosófica da retórica, dá também testemunho do alto grau de manipulação literária implicado nos diálogos platônicos.


4. Retórica, de Aristóteles

Reescritos em diferentes momentos, os três livros da Arte Retórica são ainda um enigma. As frases, muitas vezes, não combinam entre si, exigindo sempre decisões interpretativas do leitor, a começar de sua definição, na qual é dada como “antistrófica” em relação à Dialética.

Cabe pensar ao menos em dois sentidos básicos: (1) a Retórica como saber de ordem discursiva e cognitiva que refere uma competência comum aos homens sem restrição a uma ciência determinada; (2) a Retórica como saber, em certa medida, independente da ética. Pode ser entendida, nesses termos, como prática fortuita e espontânea (que supõe uma virtualidade ou faculdade natural); e também como empiria e costume (disposições nascidas do modo de ser).

Ambos os aspectos são condição do estabelecimento da retórica como arte, entendida como mais do que uma preceptiva, já que contempla a possibilidade de teorizar-se (para conhecer a causa de seus efeitos). Não há livro mais mortal para as ciências com pretensão à verdade, ainda que Aristóteles o tenha pensado, antes, como forma de conciliação da prática e do possível com o ideal.


5. Comédia, de Dante Alighieri

O poema foi iniciado por volta de 1304 e apenas finalizado 16 anos depois. Está composto em terza rima (tercina encadeada): tercetos em que o segundo verso de uma estrofe fornece a rima para o primeiro e terceiro da seguinte, produzindo um encadeamento rigoroso de expectativas. A razão do nome “comédia” é o “happy ending” da narrativa, e ainda por ser vazado em língua vulgar, o italiano. Trata-se de um tipo de poema épico, que se chamou de “sublime” ou “sacro”, pois os feitos são alegóricos e espirituais.

O termo “divina” foi ajuntado a “comédia” apenas em 1555, por Ludovico Dolce. São três grandes partes –“Inferno”, “Purgatório”, “Paraíso”-, cada uma delas subdividida em 33 cantos, mais o primeiro canto introdutório. Ao todo: 100 cantos, 14.233 versos.

O argumento é a viagem de Dante no Além-Morte, a qual dura cerca de uma semana, com início na noite de Sexta-feira Santa, em 8 de abril de 1300. Da selva escura em que se encontra, o poeta cristão, conduzido inicialmente por um poeta pagão, Virgílio, desce ao Inferno. Este tem a forma de um cone invertido a partir de Jerusalém, no topo do hemisfério; através de nove círculos infernais chega ao centro da terra, onde está preso Lúcifer. Nos antípodas de Jerusalém, em hemisfério desconhecido do homem, está a porta do purgatório, ao pé de uma alta montanha em cujo cume está o Éden ou Paraíso Terrestre.

A partir daí, guiado por Beatriz, o poeta ascende ao Paraíso, através da esfera do Fogo. Atravessa nove céus concêntricos à Terra, até chegar ao Empíreo, onde os beatos formam círculos graduados em forma de rosa luminosa, a “cândida rosa”. Daí em diante o poeta sobe até Deus, através dos 9 círculos angélicos, guiado por S. Bernardo.

Dito assim, pode dar a impressão de uma viagem psicodélica, sob efeito de drogas pesadas. Não é o caso. É o maior momento da razão e da imaginação católicas, se se considerar que as “Escrituras”, afinal, são textos usurpados de religiões mais antigas. Talvez seja mesmo o ponto-chave das letras ocidentais, se se considerar que emula à altura o antigo pagão e conquista definitivamente para o vernáculo a possibilidade de abrigar as maiores viagens do espírito.


6. O Cortesão, de Baldassare Castiglione

O livro teve três redações a partir de 1506 até 1528, quando foi publicado por Aldo Manuccio. É o modelo inconteste dos tratados de racionalidade de corte do período humanista. Contemporâneo do “Príncipe” (1513), de Maquiavel, com ele guarda semelhanças, como o foco no mundo das práticas, e a grande importância dada à ação individual movida por emulação.

Outros elementos são bem distintos, pois apresenta um modelo exemplar do homem social em oposição ao modelo de exceção de um homem extraordinário, porém solitário, como o príncipe maquiavélico; também supõe uma espécie de solidariedade natural entre os “melhores”, diferentemente da idéia de crueza da prática política, em Maquiavel.

O diálogo se passa durante quatro noites (3-6 de março de 1506), após a passagem do papa Júlio II por Urbino. As personagens conversam no interior do studiollo do duque Guidubaldo di Montefeltro, sob o comando de Elisabetta Gonzaga, sua mulher. O sentido geral do diálogo é a formulação de uma idéia de “uomo universale”, destro nas letras e armas. A elegância do texto, onde a réplica entre os participantes é sempre brilhante, inteligentíssima, galante, torna essa idéia tão deliciosa quanto, a rigor, inalcançável, de modo a que o quadro todo acaba tomando uma suave e inigualável tintura melancólica.


7. Galateo, de Giovanni Della Casa

A publicação é póstuma, de 1558, mas o livro foi escrito nos primeiros anos da década de 50, logo após Della Casa ter sido afastado da nunciatura que ocupava em Veneza. Segundo se diz, o bispo de Sessa, Galeazzo Florimonte, lhe teria pedido um livro sobre os tratos convenientes entre os gentis-homens. Annibale Rucellai, seu sobrinho, é identificado pela tradição como o rapaz a quem se dirige o tratado. Algumas vezes é mal lido como redução ao trivial empírico das lições de mais alto ideal de “O Cortesão”, engano que ocorre, em parte, por conta do artifício usado por Della Casa que dá um narrador “rústico” para o livro, em oposição ao cortesão de Castiglione.

No entanto, uma leitura democrática do “Galateo” é inadequada, pois se trata sempre de educação da elite. A exigência de experiência cosmopolita, de adaptação à variedade dos costumes, das conveniências, dos cálculos da vida civil e política se faz par e passo com as exigências de estudo e de doutrina.

Visto de maneira mais adequada, a “experiência” pertinente aqui deve ser entendida como exigência do tempo para formação de hábitos educados. O artifício do “rústico”, por sua vez, é uma aplicação culta da modéstia afetada, recurso eficaz para a conquista da atenção e boa vontade do interlocutor. O seu efeito no livro é a determinação do prazer e da razão da companhia como a base dos costumes urbanos.


8. Os Lusíadas, de Camões

O poema, em oitava rima, com versos sáficos e heróicos, é composto com base na combinação de quatro linhas argumentativas, a saber:

1) a história de Portugal, desde a fundação mítica até o presente de Camões, centrada em ações de reis e heróis, nas quais, de maneira singular, a grandeza épica sofre dura competição da intensidade lírica dos episódios;

2) a viagem de Vasco da Gama, que, no poema, funciona como crônica dos principais descobrimentos portugueses, e não apenas daqueles historicamente ocorridos com a frota do Vasco (saída de Lisboa se dá em julho de 1497, com chegada em Calecut em maio de 98, e retorno a Lisboa um ano depois);

3) as desavenças entre os deuses olímpicos, e, em particular, as disputas entre Vênus e Baco, sendo o desejo o móvel da ação da primeira, e os zelos da fama a razão principal das trapaças do segundo, cujas batalhas alcançam alta intensidade erótica;

4) os excertos metalingüísticos do próprio poeta, os quais, de maneira dramática, produzem uma oposição entre os heróis dos feitos celebrados pelas epopéias e os poetas épicos que os celebraram.

Para Camões, o poeta, e não o herói sozinho, completa ou acaba a proeza heróica: antes da intervenção do espírito, a obra ainda não alcança a verdadeira excelência do feito.


9. Agudeza y Arte de Ingenio, de Baltasar Gracián

“Agudeza y Arte de Ingenio” (1642) é a mais importante preceptiva do siglo de oro. Trata da faculdade do Engenho, cujos objetos privilegiados são o “conceito” e a “agudeza”, que visam à beleza. Está em oposição à Retórica e à Eloqüência, cujas doutrinas cuidam de tropos e figuras, isto é, dos ornatos da elocução que visam ao possível, e também à Dialética, que trata do silogismo, da conexão dos termos, visando à verdade.

Os “conceitos” não são fruto de imitação espontânea, mas, ao contrário, são “artifícios”, efeitos de técnica. Enquanto tal, admitem magistério, e é isso que garante a sua infinita variedade. Sendo a principal potência do intelecto, o “conceito” permite uma percepção superior das coisas, acrescentando beleza à verdade desabrida ou à avaliação seca do juízo.

A “agudeza”, por sua vez, admite dois tipos principais: a de “perspicácia”, relativa à descoberta de verdades recônditas, e a de “artifício”, relativa à formosura sutil. Desta agudeza de artifício justamente depende o “conceito”, que é uma sutileza do pensar, ou, para dizê-lo de melhor forma, um ato intelectual que descobre as correspondências ocultas entre os objetos. Ninguém foi mais longe do que o jesuíta Gracián na tentativa de interpretar as operações discursivas que presidiram as criações inexplicáveis de Góngora e Camões.


10. Sermões, do Padre Vieira

São mais de 200 exemplares do mais puro domínio da língua portuguesa, extremado exercício estilístico, variedade gramatical e temário do tamanho do século XVII. Enquanto artista da língua, Vieira a submetia, dócil, à demonstração que quisesse ou sonhasse, e ele quis e sonhou vastamente.

Contrariamente à idéia corrente de um Vieira contraditório, penso que a sua pregação se orienta sistematicamente por uma matriz “sacramental”, entendida como uma técnica de produção discursiva da “presença” divina, latente nas palavras do pregador, como na hóstia consagrada. O propósito desta verdadeira consagração da palavra é “mover” o auditório, o que significa basicamente, em termos individuais, reorientá-lo na direção das finalidades cristãs inscritas na natureza divinamente criada.

Em termos de ação coletiva e institucional, o “mover” implica em que o sermão seja apto para formular uma política pragmática e legítima a ser conduzida pelos Estados católicos na história, como co-autores da Providência.

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Alcir Pécora
É professor de teoria literária da Universidade Estadual de Campinas e autor de "Máquina de Gêneros" (Edusp).



 
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