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ensaio
TAXONOMIA

O catálogo universal da vida
Por Paula Sibilia

Ambição desmesurada de classificar todos os seres vivos da Terra volta a seduzir os cientistas

Nestas épocas de fluidas incertezas e volumosas ambições, proliferam as previsões apocalípticas, tais como as que anunciam que um terço das espécies animais e vegetais hoje existentes no planeta entrarão em extinção nos próximos 50 anos. De acordo com um relatório da ONU, por exemplo, já desapareceram ou estão fatalmente condenadas nada menos que 12% das aves, 23% dos mamíferos, 25% das coníferas e 32% dos anfíbios.

Devido às mudanças climáticas e outras calamidades muito bem anunciadas, decorrentes da degradação ambiental nos compassos da industrialização e dos fervores consumistas dos dias atuais, os recursos naturais da Terra estão se esgotando. Ou, pelo menos, agora sabemos que estes não são tão infinitos como se proclamava algum tempo atrás. Assim, de repente, aquilo que parecia emanar um vigor portentoso e uma abundância indomável, a Natureza, converteu-se em pura fragilidade agonizante, cujos últimos vestígios devem ser cuidadosamente conservados em “parques nacionais” e “reservas ecológicas”.

O ritmo de desaparecimento das espécies aumentou exponencialmente nos últimos tempos. Os números assustam: hoje calcula-se que esse aniquilamento biológico seja 100 mil vezes mais veloz do que alguns poucos anos atrás. Eis a conta regressiva da diversidade biológica: antes da era industrial, a taxa de extinção das espécies era de uma a cada mil anos, mas os prazos começaram a diminuir logo nos inícios da era industrial, com uma aceleração notável nas últimas décadas.

Assim, esta “evolução” atual que é capaz de eliminar várias espécies biológicas por dia, por semana ou por mês, não parece mais se enquadrar na categoria de “natural” enunciada por Charles Darwin em meados do século XIX. Aqueles mecanismos eram lentos por definição: a velha Natureza demorava um milhão de anos para criar uma nova espécie, que costumava viver sem muitos sobressaltos entre dois e quatro milhões de anos. Mas agora não só a extinção é infinitamente mais veloz: graças à engenharia genética, a criação de novas espécies por meio de artimanhas não-naturais também promete se tornar uma rotina.

O ponto de clivagem ocorreu há pouco mais de uma década, em 1996, quando começaram a ser lançados no planeta os organismos geneticamente modificados, tanto vegetais como animais. A grande maioria desses novos seres vivos é produzida, patenteada e comercializada por empresas cujos laboratórios estão gerando milhares de novos espécimes, muitos dos quais já esperam suas patentes de propriedade intelectual, em meio a uma corrida pela criação de “produtos” inovadores no mercado do agrobusiness ou na indústria farmacêutica. As conseqüências da introdução desses novos organismos híbridos no eco-sistema são imprevisíveis, sobretudo a longo prazo.

Em meio a todas essas inquietações, a paranóia parece inevitável. Assim, surgem projetos como a versão hipermoderna da Arca de Noé que acaba de ser inaugurada nas gélidas paragens do Pólo Norte. Trata-se de uma grande caixa forte, construída a 120 m de profundidade dentro de uma montanha sempre coberta de neve, que visa a abrigar as sementes de todas as variedades de plantas com valor alimentício que existem na Terra.

Apelidada também como “cofre do fim do mundo”, é uma iniciativa da ONU assentada no remoto arquipélago de Svalbard, no norte da Noruega. A intenção é preservar a agricultura mundial, para o caso de eventuais catástrofes que poderiam destruir suas matérias-primas, tais como guerras nucleares, queda de asteróides ou severas mudanças climáticas.

Embora as sementes de trigo e arroz conservadas no cofre gelado poderão sobreviver mais de mil anos, a idéia é repor regularmente o estoque de grãos com amostras mais frescas. A arca tem capacidade para guardar 4,5 bilhões de sementes, funcionando como uma sorte de back-up ou cópia de segurança para as centenas de bancos semelhantes que já existem em diversos países, mas são bem mais vulneráveis do que a reluzente fortaleza do Círculo Ártico. O Brasil vai fazer a sua parte, duplicando as sementes das cerca de 400 espécies ameaçadas que a Embrapa armazena em câmaras frigoríficas em Brasília para depositá-las no cofre internacional.

Porém, diante das incertezas atuais, não basta apenas conservar esses valiosos tesouros vivos na esperança de evitar sua desaparição. Além disso, pipocam as tentativas mais ou menos quixotescas de classificação universal da vida na Terra: diversas propostas de criar bancos de dados capazes de reunir informações sobre absolutamente todas as espécies da fauna e flora, incluindo insetos e microorganismos.

Mas por que um tal projeto seria “quixotesco”? Pois, embora a diversidade biológica esteja ameaçada, como uma seqüela dos excessos da voracidade capitalista, acontece que ela ainda é rica... muito rica, aliás, riquíssima! Chega a se estimar, por exemplo (porque certezas não há), que a quantidade de espécies conhecidas hoje em dia contemple um mero 1% do total existente. O número é tão pífio, que revela, em toda sua nudez, o tamanho da nossa ignorância: talvez desconheçamos nada menos que 99% dos seres vivos com os quais convivemos.

Em meados do ano passado, por exemplo, noticiou-se que um grupo de cientistas descobriu 24 espécies de animais em uma área pouco explorada da região amazônica: 5 rãs, 6 peixes, 12 escaravelhos e 1 formiga, eis o saldo de uma excursão de duas semanas na floresta. Também em meses recentes, um polêmico biólogo de origem holandesa que mora há décadas no Brasil, Marc van Roosmalen -acusado de biopirataria e de desvio de dinheiro público-, declarou ter descoberto uma nova espécie de anta amazônica, logo em seguida qualificada como “altamente ameaçada”. E trata-se de apenas um entre os 37 mamíferos que o cientista diz ter descoberto na bacia do rio Madeira, além de pelo menos 100 novas espécies de árvores.

São, portanto, dezenas de milhões as espécies que ainda esperam ser catalogadas. Apesar dos mil genomas já seqüenciados em sua totalidade, que, embora sejam muitos, representam uma quantia insignificante no meio do imenso oceano da diversidade biológica que (ainda) nos circunda. É por isso que fazem sucesso os projetos aparentemente antiquados de fazer um inventário universal que, de tanto em tanto, conseguem ganhar certa visibilidade na enxurrada dos meios de comunicação.

Um deles é “Barcodes of Life”, apresentado com toda a pompa no final do ano passado como um eficaz sistema para inventariar rapidamente todas as espécies animais existentes no planeta. A sua classificação se baseia na seqüência de um único gene do DNA mitocondrial, presente em todas as espécies animais, mas que varia levemente de uma para a outra; por isso, seria possível utilizá-lo como um código de barras genético, onde as letras químicas desempenham o papel das barras nos produtos à venda nos supermercados.

Cada uma dessas “etiquetas” custa apenas US$ 3, e a identificação de cada tipo de organismo pode ser efetuada em duas horas. Assim, graças à colaboração de uma rede global de cientistas, seria possível saber a qual espécie pertence qualquer animal, de forma instantânea e em qualquer lugar do planeta. “Não temos tempo para esperar”, disse um dos lideres do projeto, o pesquisador canadense Paul Hebert. “É preciso acelerar a descoberta de novas espécies antes que elas sejam destruídas.” Seu país investiu dezenas de milhões de dólares no projeto, que já conseguiu catalogar os “códigos de barras” de 37 mil espécies e, nos próximos cinco anos, pretende superar os 500 mil registros.

Outra dessas iniciativas veio à tona há poucos dias: trata-se da “Enciclopédia da Vida”, um megaprojeto intensamente divulgado pela mídia. Na inauguração desta iniciativa internacional comandada por biólogos da Universidade de Harvard e com orçamento igualmente milionário, foram apresentadas as primeiras 30 mil páginas do catálogo universal (uma por espécie, com informações técnicas, fotos, sons e links), prometendo completar dois milhões daqui a uma década, graças a eficazes sistemas de recopilação automática de dados dispersos já disponíveis.

Trata-se de versões bem atuais de uma ambição antiga, que vem sendo perseguida há pelo menos três séculos. Por isso, surpreende os leigos que os cientistas ainda não tenham conseguido realizá-la. Alguns especialistas continuam céticos, inclusive, argumentando que a proposta é demasiadamente ambiciosa e, assim como ocorreu com todas as suas ancestrais, só pode fracassar...

Contudo, os novos projetos apostam na força do marketing e das novas tecnologias para converter o velho sonho em realidade. Mas a verdade é que o grande livro da vida ainda esconde mistérios demais. Até agora, mesmo considerando os diversos projetos em andamento, os biólogos nomearam menos de dois milhões de seres, e ainda nem sabem ao certo qual é o total de espécies existentes. Para complicar mais um pouco o panorama, muitos seres vivos já desapareceram e outra boa porção está ameaçada de extinção.

Calcula-se que o número total pode abranger entre 10 e 100 milhões; portanto, apenas uma décima parte desse montante é conhecido, ou talvez mesmo uma minúscula centésima parte. Mesmo sendo uma pequena porção do total, se todo esse conhecimento fosse impresso em uma enciclopédia tradicional, seu tamanho seria abissal: o livro teria uma largura de cem metros.

A maioria das criaturas ignoradas não é de mamíferos, plantas e pássaros; trata-se, ao contrário, de peixes, insetos, bactérias, fungos e micróbios. Entretanto, sabemos que nem por serem pequenos eles carecem de relevância na complexa e riquíssima ecologia da Terra. Do milhão de bactérias que se estima existirem, por exemplo, apenas 4 mil são conhecidas. Dos 8 milhões de insetos, só 950 mil. Formigas? Há informações sobre muitas, muitas variedades desses bichinhos: 14 mil espécies, mas calcula-se que ainda falta catalogar umas 20 mil. Do milhão e meio de fungos, apenas se conhecem magros 72 mil. E por aí vai...

A tarefa é lenta e enfadonha, mas os catálogos não cessam de progredir. Todos os anos são identificadas e classificadas umas 15 mil novas espécies. A meta dos grandes projetos de inventário é aumentar sensivelmente esse ritmo, a fim de evitar que muitas formas de vida se percam sem deixarem sequer um registro de sua passagem pelo planeta. Diz-se, por exemplo, que nas estantes mais empoeiradas do Museu Britânico ainda há materiais coletados por Charles Darwin em suas famosas viagens oitocentistas aguardando pacientemente a hora de serem estudados.

Na era da interatividade globalizada e dos megaprojetos em rede, os cientistas que promovem estas iniciativas apostam nas tecnologias informáticas e das telecomunicações, bem como no trabalho coordenado em nível internacional. Por isso, um dos primeiros desafios deste tipo de projetos é resgatar a Taxonomia, aquela velha disciplina científica que se dedica a organizar as espécies biológicas por meio da minuciosa descrição e comparação de suas características físicas.

As origens dessa verdadeira ciência de museu remontam à Grécia Antiga, mas foi o médico e naturalista Carl von Linné, mais conhecido entre nós como Lineu, quem introduziu a nomenclatura binomial utilizada até hoje. Nascido na Suécia há exatos três séculos, Lineu publicou a primeira edição de sua obra “Systema Naturae” quando ainda era um jovem de 28 anos, expondo nessas páginas seu revolucionário método classificatório.

O sistema permitia indexar todo e qualquer tipo de planta ou animal utilizando dois termos: o primeiro correspondente ao gênero, e o segundo, à espécie. Uma tarefa titânica, sem dúvida, mas os entusiasmos da época a consideraram perfeitamente realizável. Antes, porém, as descrições clássicas em latim podiam ocupar vários parágrafos e não obedeciam a nenhuma lógica universal. Assim, em vez de sisudas Tiranossauros rex ou Cannabis sativas, o caos zoológico e botânico pré-moderno abundava em nomes pitorescos como a Rosa sylvestris inodora seu canina (rosa canina selvagem sem cheiro).

O novo sistema foi um sucesso, adotado consensualmente ainda em vida de seu criador. No século XIX, inclusive, a taxonomia chegou a se converter em um glamouroso hobby de final de semana: a atividade fez sucesso nas paisagens bucólicas da Inglaterra vitoriana, por exemplo. Já na década de 1950, o antigo charme tinha se esvaecido, convertido no trabalho cansativo e pouco gratificante de “apenas classificar” os diversos tipos de besouros, borboletas e gramíneas.

 
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