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ensaio
LITERATURA

Poética dos diários
Por Wilson Bueno

Invenção da Idade Média, os relatos íntimos e cotidianos tornam-se um gênero literário com Kafka e Pavese

Na busca de uma “poética” dos diários, tal como os conhecemos hoje, esta invenção monacal da Idade Média, derivada, sobretudo, dos “apontamentos” dos severos mosteiros da Alsácia -os de registro latino, evidentemente- ocorre-me, antes de mais nada, que só se erigem como “gênero” através da escritura de autores bem mais próximos de nós e de nossa insensata contemporaneidade. E alcançam, a partir daí, algumas notórias culminâncias.

Relata a História talvez seja frei Agisto de Langeldolf, prior do há muito extinto mosteiro beneditino de Évora, o primeiro autor de um diário digno deste nome. Ainda que Langeldolf se limite a registrar, dia a dia, em rigorosa seqüência, sem falhar nunca –mesmo baixo os extenuantes ofícios litúrgicos do domingo–, as minúcias de seu cotidiano religioso, possivelmente ele se torne, sem propósito nem intenção, um autêntico inventor do gênero.

Pioneiro, Langeldolf, ao menos no (determinante) aspecto que “funda” os diários em sua primitiva especificidade literária: a profusão de comentários, sob o império de um “fluir emotivo”, digamos –à margem dos fatos e do rol dos eventos do cotidiano. E isto me parece a essência de um diário –esta quase urgência com que enfrentamos nós mesmos e a nossa humanidade invariavelmente aturdida.

Diferentemente dos “diários de bordo” dos antigos navegantes, em que os comentários se prendem às anotações náuticas, às pontuações dos humores do tempo e às estatísticas dos mortos em viagem, e um que outro detalhe dos sepultamentos em alto-mar, os obsessivos registros do fervoroso beneditino de Évora, “escapam”, de modo intensamente profano, do “eclesiástico”.

Ainda o que mova Langeldolf seja uma “desesperação de Deus”, como qualificou Santo Agostinho a aflição de alguns místicos católicos, o prior de Évora ousava deitar ao pergaminho detalhes de céu, o delicado vôo de um pássaro matinal ou, mesmo, o que constituía candente insulto a Deus, a minuciosa transcrição do alvorecer e do que ia em seu coração pasmo ante o medo à morte, coisa rigorosamente interdita a um religioso obrigado a crer na certeza do paraíso celeste...

Ao subverter a norma e instaurar o registro de novos “códigos”, em seus diários aparentemente religiosos, frei Agisto de Langeldolf dá início a esta obsessão individual e pecaminosamente individualista... Que vai, entre outros, de Leonardo da Vinci a Goethe, de Dostoiévski a Tolstói, e deságua, suntuosamente, em Kafka e Pavese, Humberto de Campos e Lúcio Cardoso ou, para ficarmos num detalhe mais “audaz”, na anarquia, alguma vez desleixada, dos beatniks americanos eternamente “on the road’’, a exemplo de Kerouac ou Burroughs.

O lusitano Miguel Torga, autor de extensos e volumosos diários, Guimarães Rosa, com seu surpreendente diário da Segunda Guerra recém-revelado, ou, nos dias que correm, José Saramago com suas rotinas e reflexões de Lanzarote, conferem ainda maior legitimidade ao “gênero” e o perpetuam em grandezas e misérias.

Solitário e viageiro, trocando de pernas e de paisagem, Matsuo Bashô, no século 17, “evangeliza” as “Sendas de Oku” –caminhos, cantil, estradas; e reiventa o haicai, as chuvas e as neblinas, “gastas” sandálias de um velho Buda. E faz, da viagem, uma reviagem nas dobras da poesia.


Matsuo Bashô: paisagens na neblina

O Buda-poeta ou o poeta-Buda Matsuo Bashô (1644-1694), fez da viagem o seu diário de eleição. Em “Sendas de Oku”, na bela tradução de Carlos Verçosa, ponto a ponto, linha a linha, o mestre-haicaísta desvela uma geografia íntima e surpreendente. Aqui a descoberta de um rio, ali nova colina, mais além a miragem de neve da montanha.

Parágrafos inteiros não dizem do poeta senão o que nele é, em estado puro, a poesia: “O pintor me deu de presente pinturas de paisagens de Matsushima e também, como despedida, dois pares de sandálias de cordões azuis. Seu gosto era perfeito e nisto se revelou tal qual era:

pétalas de lírios
amarrarão meus pés
correias de minhas sandálias”

De mosteiro em mosteiro, de cidade em cidade, um Poder Superior, maior ainda que a Poesia, possivelmente o “Algo” cunhado por Kenzo Awa , no admirável “A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen”, traça o caminho e impõe, com mãos de seda, as trilhas que fazem do cotidiano, sempre em trânsito, de Bashô, uma viagem de monge nômade e peregrino.

Neves, sóis, gelos e degelos, novas e velhas neblinas vão compondo caminhos que o mestre-haicaísta anota em suas improvisadas choças à margem das estradas que hão de o levar a Oku.

Antes e depois, paisagens e passagens –“Uma Noite em Ishiburi”, “O Porto de Sakata”, “A Baía de Kisagata”, “O Templo de Ishinomaki”, “A Península de Ogima”, “O Monte Oyama”. Não há lugar que a viagem não o faça só de passagem.

Delicada como a flor da sakura, a cerejeira desenhada pelo mestre-inventor, palavras convertidas em filigranas de palavras, é que reconvertem o caminho –de senda a rio, de rio a montanha.

Única melancolia talvez seja a saudade de Kyoto em Kyoto, posto que o resto são os céus de Matsushima, também eles transtornados em puros haicais.

Mas nem tudo são flores neste “Sendas de Oku”, já que, servo reverente da terceira margem do rio, o poeta-viajante busca abrigo em pousadas erguidas nas mais “ariscas solidões”:

“friagem, pulgas, piolhos,
mijam os cavalos
cheira o meu travesseiro”

Mas só quando chega ao povoado de Ohgaki, se cumpre a viagem, se encerra o diário, no dia seis do nono mês. É o ano de 1689, que existiu um dia sobre a Terra.

Calígrafo insuperável, “o Mestre esquece tudo na arte em que é exímio”. E grafa o fim da viagem: primordial começo, ainda outra vez, e embora em regresso, de novo a nova paisagem.

Para que, a rigor, a viagem se, mesmo andando, o Buda-poeta não sai do lugar? Ou é só a neblina que finíssima chove e desloca o céu?


Franz Kafka: a ficção do dia

Numa anotação de 2 de outubro de 1911, um ano, a exemplo dos demais (1910 a 1924) –no livro que elejo para refletir os compulsivos diários kafkianos, na já clássica edição da Itatiaia, com tradução de Torrieri Guimarães–, ano intermitentemente marcado pela agrura e o desencanto, o gênio de Praga não deixa por menos: ao tratar da “terceira insônia de uma grande série de insônias”, o que há ali não é bem o registro de mais um dia insolúvel. Kafka nos dá, isto sim, uma autêntica peça de ficção, ainda que se reporte ao factual, ao ido e acontecido. Não importa, tudo é ficção para quem se empenha em fazer da vida uma reverberação literária.

A cada dobra de um dia, e isso é verificável ao longo de todo “Diário”, o que se movimenta, entre sombras e delírios, baixo a comovente perplexidade de estar vivo, são personas, máscaras, “símbolos” do Real, duras metáforas de ser e de existir.

Mesmo quando o registro se pretende solar, imanta-o, sutil, o insensato, o não-senso de uma vida, em si, dedicada ao reverso de si mesma.

Assim, numa breve anotação de 18 de outubro de 1921, ao tratar da infância, por exemplo, ele a reconhece como “a essência da magia”. Mas de novo não perdoa: ela é só memória, nada cria, é pura invocação... Insolente equívoco?

Seriam “íntimos”, os diários de Kafka, não os pontuasse a “ficção”, que faz deles autênticas peças literárias; algumas, perfeitos minicontos, quando não acabados aforismos de fino lavor e que não ficam nada a dever às suas peças curtas propriamente ditas.

Ninguém há de contestar a pegada ficcional, principalmente deste que é um dos últimos registros dos diários kafkianos, pouco tempo antes de morrer, a 3 de junho de 1924, rigorosamente solitário, no lúgubre sanatório de Kierling, num desamparo digno de Gregor Samsa, um de seus mais paradigmáticos personagens:

“Estava indefeso à frente da figura que, sentada calmamente à minha mesa, observava-lhe a superfície. Eu, de meu lado, dava voltas ao redor e me sentia estrangulado por ela. Ao meu redor girava uma terceira figura que se sentia estrangulada por mim. Em torno desta terceira dava voltas uma quarta figura que se sentia estrangulada por esta terceira. E isso ia assim desse modo até o movimento dos astros e muito além disso, para além do infinito. Todas as coisas, a rigor, em tal sucessão, era como se tivessem sido fisgadas pela garganta”.

Não há ficção maior do que a dura realidade de cada dia.


Cesare Pavese: o veneno da madrugada

Nenhum pendor pela Beleza Trágica, a não ser talvez o de Virginia Woolf, se equipara ao experimentado pelo escritor italiano, autor, entre outras obras-primas, de “A Lua e as Fogueiras”. O romance, um desolado hino sobre a “impossibilidade” amorosa e a inextricável solidão humana, foi publicado pouco meses antes de seu suicídio, aos 42 anos, ocorrido na mesma Turim, cenário de sua breve e intensa vida.

Mas será no seu diário, publicado no Brasil com o título de “O Ofício de Viver”, na tradução de Homero Freitas de Andrade, que se dá o melhor de Pavese, isto é, ele mesmo, suas contradições e infortúnios, adversidade e revés.

Aliás, em Pavese, há que se ler sempre, explícita ou implicitamente, este movimento no sentido da auto-extinção, sobretudo pelo viés do que isso implica em liberdade, alforria de um “eu” aprisionado nas malhas da existência, feito uma irretorquível condenação. Não há saída para o ser aprisionado entre a perda do “paraíso original” uterino e a inevitável dissolução do fim.

Viver, para Pavese, é “mestiere” (mistério), a exemplo do título original do diário, “Il Mestiere de Vivere”, mas também é ofício terrível e aterrador. Contido entre dois agudizados extremos – e os diários são a maior prova disso– ao humano não resta outra saída senão a de “curar-se” irreversivelmente de si mesmo, pela via da morte absoluta. Sem metáfora nem figura –o tiro, a corda, o veneno...

Num aparente paradoxo, neste admirável “O Ofício de Viver”, anotações de uma existência desesperançada que vão de 1935 a 1950, o ano do final colapso, nem por isso Pavese deixa de se revelar um humanista na mais vigorosa extensão da palavra.

Porque a palavra aproxima pelo que diz e desaproxima pelo que deixa de dizer; porque, através sobretudo da denegação, a vida, por essencialmente falha, bem que poderia ser mais mais “humana” e menos trágica; porque a busca de um sentido, ainda que ausente, torna a vida contraditoriamente exeqüível. Ali, onde literalmente pontua: “O mundo está mal feito; é preciso tornar a construí-lo”. Este o “humanismo” dos diários suicidas (ou “suicidados” pelo próprio ato de existir...) de Cesare Pavese.

Diário “íntimo” por excelência e, pela própria natureza que o anima, necessariamente póstumo, “O Ofício de Viver” talvez seja a melhor dentre as melhores obras do escritor, por tudo o que ali poreja sinceridade e grandeza, despreendimento e –por que não?– a exaltada coragem do autoderruimento e da auto-aniquilação. Feito o derradeiro registro que faz neste livro incomum, a 18 de agosto de 1950, marcado pela sombra e o desassossego:

“A coisa mais secretamente temida sempre acontece. Escrevo: ó Tu, tem piedade. E depois? Quanto mais a dor é determinada e precisa, mais o instinto da vida se debate, e cede à idéia do suicídio. Parecia fácil, pensando nisso. Entretanto, mulherezinhas o fizeram. É preciso humildade, não orgulho. Tudo isso dá nojo. Não palavras. Um gesto. Não escreverei mais”.

Que outra coisa esperar de quem passava a noite sentado diante do espelho para fazer companhia a si mesmo?


Lúcio Cardoso: veludo e solidão

Já disse em outra oportunidade que a melhor obra de Lúcio Cardoso foi ele mesmo. O autor de um romance seminal como “Crônica da Casa Assassinada” nunca se perdoou a si mesmo, ainda que a sua alma de poeta tenha passeado as ruas do mundo uma existência generosa e singularíssima.

Em seu “Diário Completo”, síntese e suma de uma vida, o que salta à vista, mesmo do leitor mais desavisado, é a profunda exaltação do que na vida é luxo sem plumas, e o veludo negro de um amor que incessantemente se esboroa caminho afora. Movido por um cristinianismo de alta ascendência, ainda que ele insista no Cristo da Ressurreição, é o Cristo da Paixão encarnado em sangue e lágrima, lutuoso e, mesmo que “transitoriamente” mortal, o que de fato anima a profissão de fé do escritor.

Como insistia em dizer Clarice Lispector, Lúcio foi homem de rir para aquilo que o matava. E é, sem erro, esta graça humana, ainda que um pouco diabólica, o que atravessa, de ponta a ponta, os diários de Lúcio.

 
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