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audiovisual
CINEMA

A saga das roupas
Por Vivian Whiteman

A melhor coisa do ufanista e confuso “Elizabeth: A Era de Ouro” é o figurino de Alexandra Byrne, premiado com um Oscar

Muito além dos materiais ultraluxuosos e do precioso trabalho de reconstituição histórica, é a estética carregada de tensão sexual e desejo de poder que faz brilhar o figurino de "Elizabeth: A Era de Ouro". O filme, que está em cartaz nos cinemas brasileiros, recebeu o Oscar pelo guarda-roupa, assinado por Alexandra Byrne.

Trata-se de um reconhecimento justo à figurinista, a mesma de "Elizabeth" (1998), primeiro filme da trilogia sobre a rainha inglesa que tem em “A Era de Ouro’’ seu episódio intermediário. Ambos os filmes foram dirigidos por Shekhar Kapur, que também deve assinar a última parte da saga, ainda sem data de lançamento.

Na verdade, o trabalho de figurino de Alexandra e a presença e a atuação hipnóticas da bela Cate Blanchett, no papel da protagonista, são talvez os únicos méritos do filme _um tanto confuso cinematograficamente e carregado de um certo ufanismo sobre o passado inglês, evidente na maneira como simplifica e floreia as contendas políticas e religiosas do período elizabetano.

A figurinista soube tirar o melhor do roteiro e chegou mesmo a emprestar às cenas, por meio das roupas, o vigor que faltou aos diálogos e à direção de Kapur. Nascida na Inglaterra, Alexandra Byrne começou sua carreira trabalhando com a renomada Royal Shakespeare Company. Esta foi a sua quarta indicação ao Oscar de Melhor Figurino: antes, concorreu por “Hamlet’’ (1996), “Elizabeth’’ (1998) e “Em Busca da Terra do Nunca’’ (2004).

A combinação de beleza e luxo aristocráticos, de encher os olhos, já está na mira dos fashionistas, que de tempos em tempos ressuscitam elementos dos guarda-roupas de reis e rainhas nas coleções de prêt-à-porter. A última “febre’’ desse tipo de estilo foi deslanchada por “Maria Antonieta’’ (2006), de Sofia Coppola, que propunha um olhar jovem e pop sobre a corte da França. Porém, no caso de "Elizabeth: A Era de Ouro", trata-se de um luxo mais adulto e sensual.

Na pele de Elizabeth, Cate Blanchett usa vermelhos quentes para seduzir e escolhe azul para disfarçar seus desejos num encontro com o sedutor aventureiro Walter Raleigh (Clive Owen), por quem desenvolve uma complicada paixão. Sua dama de companhia Bess, com quem disputa as atenções do bonitão e mantém uma relação maternal e ao mesmo tempo cheia de discretas insinuações sexuais, aparece muitas vezes como uma versão mais jovem da rainha, com trajes similares, porém empobrecidos.

Na cena em que sofre um atentado, a rainha surge como uma santa virginal intocável e ao mesmo tempo como uma fada maravilhosa e desejável, que chega mesmo a abalar o ódio cego de seu agressor. O rosto branco, a cabeleira ruiva falsa e as armações em formato de asas estilizadas foram usados pela figurinista nesta cena, com grande impacto estético.

A cartela de cores escurece e ganha tons austeros nos momentos em que Elizabeth é confrontada com a possibilidade de sua derrota. Num longo púrpura, uma das cores da morte, ela caminha sobre o chão de seu salão de reuniões, onde se vê desenhado o mapa do Velho Mundo e os países de seus inimigos.

Vale prestar atenção no momento de virada da trama política do filme. Quando Elizabeth decide liderar seu povo na guerra que se aproxima, o figurino vai ganhando vestidos com apliques metalizados no peito, até desembocar numa armadura.

Cate Blanchett dá à figura da rainha a imponência de uma grande guerreira: o metal prateado contra o corpo e os cabelos soltos e trançados como os de um viking constroem, mais do que quase todas as falas da personagem, a figura de uma verdadeira heroína.

Pena mesmo é que a cena seja curta, e que o conjunto do filme pareça mais uma tentativa fantasiosa e algo vazia de elevar os ânimos ingleses, tão abalados pelas péssimas escolhas políticas e alianças de seus governantes, não só em passados remotos como no atual cenário mundial.


Publicado em 8/3/2008

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Vivian Whiteman
É jornalista e trabalha na "Folha de S. Paulo", na editoria de Moda.

 
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